segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O cheiro da Bolívia de Evo Morales

Via Rebelion

Falavam de “mudanças”, de “democratizar”, de “atender as maiorias”. A gente não sabe se ri ou se fica em dúvida: mas sim, foram os mesmos, ou seus compadres, avôs ou bisavôs que administraram o país por décadas, quase séculos, como se ele fosse sua fazenda.

Hernando Calvo Ospina

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Rebelión

“Se o Che nos escolheu para continuar sua revolução, por algo é”, diz-me um boliviano repleto de orgulho em La Paz.

Os automóveis são muitos, demais. Particularmente os dos serviços públicos. Não se entende por que não há acidentes com mais freqüência.  Os pedestres devem planejar como passar de uma calçada à outra sem serem atropelados.Contudo, ninguém parece se incomodar.  Somente nós, que não somos daqui. Alguém já disse que era a “Shangai latino-americana”.

Paro para observar. Olho e olho  por vários minutos, e comprovo que agora  os indígenas, grande maioria neste país, já não descem da calçada para dar passagem a um branco ou mestiço.

Lembro quando, há dois anos, vi no Parlamento as indígenas com suas saias e chapéus. Os operários, com suas humildes, mas muito limpas roupas. Isso me impressionou. É que a cultura ocidental, a “civilizada”, nos ensinou e acostumou que, nesse recinto, somente se comparece de terno e gravata. E saias bem passadas e saltos-altos.

Existe menos pobreza. Isso quer dizer que há muito poucas crianças e anciãos pedindo esmolas. Poucos anos atrás, não havia tranqüilidade para almoçar em um restaurante: eles passavam regularmente para pedir um pouco de comida ou dinheiro. O normal era que o proprietário os expulsasse a tapas. Nunca vi outras carinhas que não fossem de indígenas. Eles, os donos originários destas terras, tinham sido como o lixo que incomoda, e eram somente braços para trabalhar desde que os espanhóis chegaram no século XVI. Isso vem mudando a passos gigantes desde que Evo, o indígena, chegou ao governo em janeiro de 2006.

No ambiente da capital e das outras cidades se sente otimismo.  É claro, faltam hospitais. E nos que estão sendo construídos, para atender a maioria  faltarão médicos: continua sendo elitista a formação médica, como em quase todas as partes do mundo. Desde as primeiras luzes deste governo, começaram a chegar milhares de médicos cubanos. Instalaram-se para curar em lugares remotos, onde apenas chegavam o sol e o ar. Milhares e milhares de bolivianos descobriram que existe uma ilha chamada Cuba, e que esses homens e mulheres de aventais brancos os tratam  como humanos.

Muitos, bastantes, nem espanhol sabem falar, por que é em aymara, quéchua ou guarani que se comunicam. Línguas milenares, reconhecidas há poucos anos.

Em La Paz, este governo, o do “irmão presidente”, construiu um teleférico, o “amarelo”, que é o mais extenso do planeta. Nesta semana, está sendo inaugurado o “verde”, que creio que é ainda mais extenso que o outro. Para os que moram lá em cima, no município de El Alto. Todo o trajeto, de 20 minutos,  custa somente três “bolivianos”. É uma economia de cerca de uma hora para chegar lá em baixo, em La Paz. É super moderno. Ao vê-lo, cabina após cabina, parece uma invasão de óvnis. Os paceños, os de La Paz, sentem-se orgulhosos.

E ganhou Evo outras eleições. Todos esperavam. Foi a grande festa nacional. O mais impressionante foi que arrasou em Santa Cruz,  o reduto da oposição, onde tinham ocorrido até atos terroristas, atentados contra a vida de Evo e projetos separatistas. Lá,  a maioria são brancos. Vendo na TV os resultados dessa cidade, lembrei-me da rainha da beleza de três anos atrás, mais ou menos. A santacruceña atreveu-se a dizer, no concurso de Miss Universo, que na Bolívia não havia indígenas. Nessa cidade e em Sucre, a capital original do país, a publicidade é realizada com modelos nacionais de traços europeus.

Em Santa Cruz, muitos industriais compreenderam que reinvestindo na nação, poderiam também ganhar. Com Evo, está formando-se uma burguesia nacional que reivindica a soberania, aliada aos processos de mudança. Já seus operários e trabalhadores não são semi-escravos, e recebem salários justos.

A imprensa,  a que mais vende ainda, a das elites, a que continua adorando e esperando que os Estados Unidos voltem para governar com eles, tem o mesmo discurso usado no Equador e na Venezuela.  Penso que seus milionários proprietários poupariam dinheiro se alguns poucos de seus jornalistas se coordenassem para escrever artigos de política nacional e internacional. Somente seria necessário alterar alguns nomes e dados para colocá-los no contexto de cada um desses países. É que os textos são uniformes, e o discurso é o mesmo. De qualquer maneira, os admiro pelos malabarismos que fazem para dar outra explicação à realidade.

Estive revisando sobre o que propunha a tal oposição. Razão tiveram os bolivianos em darem-lhe tamanha surra em votos. Bom, é que eles não propunham. A base de seu  discurso era criticar e inventar contra Evo e Álvaro Garcia Linera, o culto vice-presidente branco e de coração mestiço e guerreiro. Falavam de “mudanças”, de “democratizar”, de “atender as maiorias”. A gente não sabe se ri ou se fica em dúvida: mas sim, foram os mesmos, ou seus compadres, avôs ou bisavôs que administraram o país por décadas, quase séculos, como se ele fosse sua fazenda. Mantiveram o país prostrado diante do capital estrangeiro e das decisões da embaixada norte-americana. Antes de Evo, a Bolívia era o segundo país mais pobre do continente, depois do Haiti, enquanto as imensas riquezas de seu subsolo iam para os Estados Unidos e Europa.

Lembro quando Evo entrou na casa presidencial, o Palácio Quemado, situado na pequena praça Murillo. Suponho que os funcionários que ali serviam estavam preocupados com que esse índio sujasse os pisos encerados. Evo queria saber para que servia cada sala. Depois de ver a sua, perguntou para que servia a que estava justamente ao lado da sua. Os servidores não queriam abri-la, e disseram que deveriam pedir autorização a uma pessoa que não era boliviana. Ou que também deveria ser chamado um escritório fora dali. Diante da insistência do novo presidente, decidiram abrir a porta, ou melhor, forçá-la, por que nenhum boliviano tinha a chave, nem o serviços de segurança. É que era um escritório da embaixada dos EUA, mais particularmente do responsável da CIA. Evo, atrevido, ordenou que chamassem o responsável pela delegação diplomática para que desocupassem a sala e o palácio. Foi sei primeiro ato de soberania.

Duas nações golpearam o orgulho europeu e tiveram que pagar por isso: Haiti e Bolívia. Os escravos negros africanos se rebelaram no final do século XVIII. Humilharam o poderoso exército francês de Napoleão e declararam a independência do Haiti no primeiro dia de 1804, decretando o fim da escravidão, três anos antes da Inglaterra.

Na Bolívia, nasceram as maiores revoltas indígenas contra o domínio espanhol, e desde o século XVII. Tupac Katari e sua esposa Bartolina Sisa  se levantaram em armas no final do século seguinte, Seguiram-nos milhares de indígenas. Sitiaram La Paz. Queriam acabar com a escravidão a que estavam submetidos seus irmãos de sangue. Claro, não se chamava de escravidão por que os reis espanhóis e o Vaticano tinham decidido, desde o século XVI, que os indígenas tinham alma, eram humanos, o que os negros africanos não tinham. Mas, como havia necessidade de braços nas minas e nos campos, deram outros nomes à escravidão.  Depois de muitas batalhas, foram capturados. Foram esquartejados, e exibiram suas partes em muitas regiões, para que os demais soubessem o que iria lhes acontecer se continuavam insurgentes. Contudo, as cinzas continuaram ardendo, e pouco depois explodiram as batalhas em todo o continente contra o domínio espanhol e europeu em geral.

Desde então, as potências européias decidiram que os povos dessas duas nações deveriam pagar por sua ousadia e por seus anseios de liberdade. Condenaram-nas à miséria.

A Bolívia, com suas minas de ouro e prata, tornou radiantes as nações européias. Roubaram tanta prata, ao custo de milhões de vidas, que diz-se que com tal quantidade poderia ter sido construída uma ponte até Sevilla, cidade espanhola onde aportavam os tesouros roubados.

Ana Rosa, uma pequena mulher que guarda uma biblioteca de formação histórica em sua cabeça, surpreende-me quando me conta que o militar Cornelio Saavedra teve uma decidida participação na Revolução de Maio, que foi o primeiro passo para a independência argentina, Transformou-se numa proeminente figura da política,  a ponto de ser o primeiro presidente da primeira Junta de Governo das Províncias Unidas do Rio da Prata. Saavedra era um boliviano, nascido em Oyuno, na atual província de Potosí. Um grande detalhe que os argentinos tem esquecido um pouco.

Hoje, com Evo e Álvaro, a Bolívia voltou a ser soberana. A maioria de sua população, a indígena, sente que renasce o império inca.

Hernando Calvo Ospina é jornalista e escritor colombiano, residente na Francia e colaborador de Le Monde Diplomatique. Seu último livro, traduzido para seis idiomas, é "Calla y Respira", publicado em espanhol por El Viejo Topo. Sua página web: http://hcalvospina.free.fr/

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