segunda-feira, 20 de outubro de 2014

De esquerda? É PT. Do PT? É desonesto. Desonesto? Porrada nele

Sanguessugado do Sakamoto

Leonardo Sakamoto

- Você não é aquele blogueiro petista?
- Hehehe. Sou um blogueiro. Mas não sou filiado a nenhum partido.
- Ah, claro que é. Vai dizer que seu blog não ganha dinheiro do governo?
- Não, não recebe. Aliás, se você quiser anunciar, é só entrar em contato com o UOL (risos). Mas, olhe, brincadeiras à parte, uma coisa não tem a ver com outra. Grandes jornais, revistas, TVs são os que recebem milhões do governo e os donos não são filiados ao partido do governo.
- Mas você é! Defende essas coisas de esquerda…
- Bem, aí você está partindo de duas premissas: de que o PT representa toda a esquerda e de que o PT ainda é integralmente um partido de esquerda…
- Hã?
- Deixa pra lá. Bem, me dá um exemplo dessas “coisas de esquerda''.
- Ah, você fica defendendo índio vagabundo que impede o progresso.
- Ué, mas a usina hidrelétrica de Belo Monte é questão de honra do governo federal e faz parte do plano de geração de energia. E eu acho Belo Monte uma besteira sem tamanho, social e econômica.
- E daí?
- Ela vai reduzir a vazão do rio Xingu e, infelizmente, tornar a vida desse monte de “índio vagabundo'' um inferno.
- Você está tentando me enrolar. Então, você é do PSol, que é mais radical ainda.
- Também não. Cara, por que eu tenho que fazer parte de um partido? Não posso só ser de esquerda e falar mal de tudo, como a esquerda gosta? Já não basta o sofrimento de ser palmeirense?
- Mas você defende gay. E tem aquele deputado que é gay no PSol.
- Por que? Você ataca gay?
- Acho que todo mundo tem que ter seu direito, entendeu? E eles têm direitos. Mas eles não podem ficar fazendo aquelas coisas na frente dos outros. Isso é desrespeitar o direito dos outros a não ver aquilo. Me controlo porque sou um respeitador das leis, mas já tive vontade de ir lá e acabar com isso.
- Que tipo de coisas?
- Ah, você sabe, se beijando, se esfregando.
- E uma mulher e um homem podem se beijar na sua frente?
- Aí é diferente! Se você não percebe que isso é diferente, você deve ser muito louco.
- Você tem filhos?
- Sim, dois.
- Triste… Mas você acha que PSol é o único partido com um político homossexual no país?
- Não vi nenhum outro.
- Acho que está precisando se informar mais, meu caro. E, me perdoe, mas acredito que você reduz muito as coisas…
- Reduzo quê? Se eu te xingasse de tucano você ia gostar? Ia? Ia?!
- Por que? Para você, “tucano'' é xingamento para você?
- Claro que não, não foi isso que eu quis dizer! Não ponha palavras na minha boca! Mas o PSDB não defende essas coisas que você defende.
- Tipo?
- Tipo ficar dizendo por aí que tem trabalho escravo. Isso não existe. É coisa criada para ajudar o MST a constranger quem produz alimentos para a gente.
- Mas os votos dos deputado federais do PSDB foram fundamentais para aprovar a proposta que toma propriedades flagradas com escravos e há projetos para acabar com o trabalho escravo que foram propostos pelo partido. Tem tucano que defende escravagista, decerto. Mas a generalização é errada. Além do mais, o pequeno agricultor é quem coloca comida na nossa mesa, sabia?
- Isso é mentira.
- Qual das duas partes?
- As duas.
- Né, não. Vai lá e dá um Google.
- E o que é isso na sua mão? Você se diz de esquerda e tem um iPhone?
- E ser de esquerda é o mesmo que fazer voto de pobreza? Eu quero que todo mundo esteja bem de vida e não que tudo mundo fique na pobreza. Aliás, você não sabe muito bem o que é esquerda e direita, né? Mas fique tranquilo. Ninguém mais sabe hoje em dia mesmo…
- A esquerda quer fazer uma revolução e implantar uma ditadura, obrigando a ser quem eu não quero, a dar meus imóveis, meus carros…
- Seu iPhone…
- …para os pobres. E a direita está aí para fazer um contraponto, é quem respeita a liberdade das pessoas.
- Hahaha. Adorei! Acho que você fez uma mistureba. Mas, olha, uma coisa é ser de direita ou de esquerda e outra, totalmente diferente, é ser fascista. Saudades do Roberto Campos nessa hora, viu?
- Você está me enrolando.
- Ué, mas estávamos falando disso há pouco. E a liberdade das pessoas poderem ser gays sem ser molestadas na rua com alguém querendo “acabar com isso'', por exemplo?
- Você está misturando liberdade com libertinagem! Liberdade tem limite.
- É… O pessoal do golpe de 64 também achava isso…
- Em 1964, não foi golpe, foi revolução. Era necessário, por um bem maior.
- Para garantir a liberdade dos “homens de bem''.
- Sim, claro.
- Porque o preço da liberdade é a eterna vigilância, não?
- Sim.
- Afinal, é Brasil, ame-o ou deixe-o.
- Você não está levando esta conversa a sério, né?
- Não. Deu minha hora. Abraço grande para o senhor e prazer conhecê-lo.
- Forte abraço. E olha, posso não concordar com as coisas que você escreve, mas adoro quando posta aqueles seus contos.
- Anauê!

Eu havia postado esse texto em um momento ainda distante do cenário eleitoral apocalíptico que se desenhou diante dos nossos olhos. Tive a ideia de trazê-lo de volta conversando com um amigo petista e outro tucano. Para mostrar que essa loucura que se vê não começou de agora, mas estava fermentando há tempos – com a ajuda de jornalistas e políticos. Então, gente, calma. Dia 26 de outubro está aí. Levemos o Brasil inteiro até lá. E além.

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