quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Como os cubanos transformaram a agricultura de sua ilha em ecológica

Via Rebelión


Frédérique Basset 

Tradução do francês para o espanhol: Beatriz Morales Bastos

Tradução do espanhol para o português: Renzo Bassanetti

Kaizen

Os cubanos realizaram aquilo com o que os ecologistas do mundo inteiro sonham: de vinte anos para cá, a ilha converteu-se à agricultura  biológica. As chaves desse êxito são necessidade, possibilidade e vontade.

Em 1989 cai o Muro de Berlim, e dois anos depois desmorona a União Soviética. Cuba perde então seu fornecedor de petróleo, de insumos agrícolas, de adubos químicos e de pesticidas. Com a desaparição da URSS e dos países do Leste Europeu que compravam seus produtos a preços constantes, a ilha perde também alguns importantes mercados, sobretudo o do açúcar, de cuja produção 85% eram exportados. Haviam sido reunidos todos os ingredientes para que o país sumisse no caos, ainda mais que o bloqueio norte-americano tinha aumentado. Começa para Cuba uma nova era, o “período especial em tempo de paz”, anunciado em 1992 por Fidel Castro e que duraria cinco anos, dito em outras palavras, um período de grave crise econômica: o Produto Interno Bruto (PIB) cai cerca de 35%, o comércio exterior 75%, o poder aquisitivo 50%, e a população sofre com a desnutrição.

“Não sabiam que era impossível, por isso o fizeram”(Mark Twain)

Da necessidade, faz-se a virtude. A população se lança a cultivar frutas e verduras para satisfazer suas necessidades alimentares. “Os cubanos tinham fome. Foi a população cubana  que deu os primeiros passos ocupando terras em um movimento espontâneo”, explica Nils Aguilar, diretor do documentário Culturas em transição(http://www.festival-alimenterre.org/film/cultures-transition). Milhares de jardins “organopônicos” florescem em pequenas parcelas de terrenos, nos terraços, entre as casas,  em antigos depósitos de lixo, no pátio de solares, ou seja, nos menores espaços que estivessem livres. Além da agricultura, costuma-se fazer a criação de pequenos animais: galinhas, coelhos, patos, porcos. “Os atores principais do movimento agroecológico são os próprios camponeses”, afirma Dorian Felix, agrônomo especializado em agroecologia tropical, em missão em Cuba, enviado pela associação Terre Et Humanisme (http://www.terre-humanisme.org/). “Experimentaram essas práticas, aprovaram-nas e  difundiram-nas. Sua mobilização e a de toda a sociedade civil foi e continua sendo muito importante.”

O auge da agricultura urbana


Em seguida, o governo empreende uma transição forçada. A produção de comida se transforma em questão nacional. A partir da década de 1990,  coloca-se em prioridade a produção local, a partir de recursos locais e para consumo local.  O Estado distribui terras a quem quer cultivá-las, e desenvolve uma agricultura alimentar e biológica de proximidade: ao não dispor de petróleo para fazer os tratores funcionar,  recorre-se à tração animal; ao carecer de adubos químicos e pesticidas, volta a se descobrir o composto,  os inseticidas naturais e a luta biológica.

“É uma autêntica revolução verde”, confirma Nils Aguilar. “Neste país, todo mundo se envolve, tive a surpresa de ouvir um taxista  elogiar as façanhas da agroecologia! Cuba desenvolve uma agricultura agroindustrial,  e demonstra que essas técnicas podem alimentar a população”. Hoje, a mão de obra na agricultura se multiplicou por dez. Ex-militares, funcionários e empregados se converteram e transformaram  a agricultura, já que muitos deles tinham sido camponeses  antes. Cada escola cultiva sua horta, e as repartições tem seu próprio jardim que fornece verduras para as cantinas dos funcionários.

Fenômeno sem precedentes, a agricultura urbana desenvolveu-se como em nenhuma outra parte do mundo. A ilha conta com cerca de 400 mil explorações agrícolas urbanas, que cobrem cerca de 70  mil hectares de terra que até então não eram utilizadas, e que produzem mais de 1,5 milhões de toneladas de verduras. Havana é capaz de fornecer 50% das frutas e verduras orgânicas  a seus 2,2 milhões de habitantes, e o resto é fornecido pelas cooperativas da periferia.

Revolução verde à cubana


Em 1994, as granjas produtivistas do Estado se transformam progressivamente em cooperativas para fornecer alimentos a hospitais, escolas e jardins de infância. O resto da produção é vendido livremente em mercados. Universitários, pesquisadores e agrônomos contribuem para difundir as técnicas da agroecologia. Uma rede de entrepostos vende sementes e ferramentas de jardinagem a preços baixos, ao mesmo tempo em que disponibiliza aos clientes orientações de especialistas. Em todas as cidades do país, a agricultura ecológica é ensinada através da prática, sobre o terreno.  Muito mais do que uma simples transferência de conhecimentos tecnológicos, trata-se de “produzir aprendendo, de ensinar produzindo e de aprender ensinando”.

O impacto dessa revolução verde é múltiplo: redução da contaminação do solo, do ar e da água; reciclagem dos resíduos, aumento da biodiversidade, diversificação da produção, melhora da segurança alimentar, do nível de vida e da saúde; criação de empregos, principalmente para mulheres, jovens e aposentados. Também se estabelece uma política menos centralizada, que dá mais margem de manobra às iniciativas individuais e coletivas auto-gestionadas. O lema dominante é “descentralizar sem perder o controle, centralizar sem matar as iniciativas”. Nas cidades, esse principio permitiu promover a produção nos bairros, pelos bairros e para os bairros, incentivando a participação de milhares de pessoas desejosas de unirem-se à iniciativa.

Cuba produz para seu consumo próprio mais de 70% das frutas e verduras, o que não lhe garante uma autonomia alimentar total,  na medida em que ainda depende das importações, principalmente de arroz e de carne. Contudo, segundo os critérios da ONU, “o país tem um alto índice de desenvolvimento humano e um tênue impacto ecológico sobre o planeta”. Se amanhã cessassem as importações de alimentos, os habitantes estariam em muito menos perigo do que os de um país como a França, que somente dispõe de alguns dias de reserva em seus supermercados (segundo o Conselho Econômico, Social e de Meio-Ambiente Ile-de-France - CESER por sua sigla em francês - o país somente dispõe de quatro dias de reservas alimentares).

Foi necessária uma crise para que Cuba descobrisse as virtudes da agroecologia, da permacultura, da agro-silvicultura e inclusive do silvopastoreio. Ainda assim, conseguiu a ilha sua transição energética? Somente em parte. O consumo de petróleo voltou a crescer em 1993 graças à produção nacional e à ajuda da Venezuela, que lhe proporciona cerca de 110 mil barris diários. Mas aposta-se que o país não voltará atrás, e que, mais além da revolução agrícola, as iniciativas individuais e coletivas tem demonstrado que os cubanos podem tornar-se responsáveis por seu destino, uma verdadeira revolução cultural!

Texto extraído do dossiê “Plus forts ensemble”, de Kaizen 11

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