quinta-feira, 9 de outubro de 2014

As eleições e a economia

Via Brasil de Fato

Marina e Aécio não esconderam, em nenhum momen­to, suas opções pela assessoria marcadamente tucana, com sugestões explicitamente vinculadas ao financismo. Assim, vinham as ideias de consolidar em lei a “autono­mia-quase-independência” do Banco Central ou as pro­postas de engessar na legislação a opção de destinar re­cursos para o superávit primário.

Paulo Kliass

O resultado do primeiro turno das eleições presi­denciais apresentou algumas surpresas e muitas inquieta­ções. Talvez o fenômeno mais surpreendente tenha sido a ascensão e queda da candidatura de Marina Silva. Apro­veitando-se do vácuo político que se seguiu ao trágico aci­dente e morte de Eduardo Campos, a líder da Rede foi transformada em uma alternativa de poder de forma pre­matura pela grande imprensa. Assim, subiu vários pontos nas pesquisas em poucas semanas e chegou mesmo a se aventar a hipótese de que venceria Dilma no segundo tur­no. No entanto, da mesma forma como cresceu, sua can­didatura foi recuando rapidamente, a ponto de terminar apenas em terceiro lugar em 5 de outubro.

Ocorre que o cenário que se colocava entre os represen­tantes dos candidatos mais bem colocados oferecia mui­to pouca diferença, em especial no que se refere à essên­cia da política econômica a ser implementada para o pe­ríodo 2015 a 2018. Por mais que Dilma tente se apresen­tar como a herdeira do movimento de mudanças que o Brasil experimentou desde a chegada de Lula ao poder em 2003, o fato é que as propostas de economia ainda são muito marcadas pela tradição conservadora e ortodoxa.

Marina e Aécio não esconderam, em nenhum momen­to, suas opções pela assessoria marcadamente tucana, com sugestões explicitamente vinculadas ao financismo. Assim, vinham as ideias de consolidar em lei a “autono­mia-quase-independência” do Banco Central ou as pro­postas de engessar na legislação a opção de destinar re­cursos para o superávit primário. Os porta-vozes de tais candidaturas do campo do conservadorismo não tinham papas na língua para recomendar a volta ao passado.

Porém, é forçoso reconhecer que as propostas de Dil­ma tampouco oferecem alguma mudança em termos de abraçar o caminho do desenvolvimentismo como alterna­tiva de política econômica. Apesar de não existir um pro­grama definido para os assuntos de economia, percebe-se uma tendência a querer agradar aos interesses do finan­cismo e do chamado “mercado”.

As notícias e os discursos proferidos pela candidata­-presidenta deixam transparecer os compromissos em manter a lógica do tripé da política econômica, com foco na geração de superávit primário para pagamento de ju­ros e serviços da dívida pública. Postulantes aos cargos de primeiro escalão na economia do campo dilmista já avan­çam propostas de contenção de gastos na área social, a exemplo das despesas na previdência ou mudanças nas regras do salário mínimo.

Essas são as inquietações para o segundo turno. Uma espécie de consenso criado em torno de uma suposta “ine­vitabilidade” de adoção de medidas de natureza conten­cionista e redutora de direitos dos trabalhadores e demais setores populares. Afinal, poucos se atrevem a sugerir que o ônus das medidas de arrocho recaia sobre os lucros dos bancos, sobre os ganhos do agronegócio ou sobre as re­messas de lucros das multinacionais para o exterior. Os interesses do capital seguem intocáveis.

Abraçada ao discurso de manutenção das conquistas no campo da recuperação dos rendimentos das camadas mais desfavorecidas da população, Dilma faz o discurso do medo contra a possibilidade de retrocesso. Aliás, que ninguém duvide dessa hipótese, muito real caso os tuca­nos voltem ao poder. Porém, as necessidades que se colo­cam para que o país avance de fato rumo a um modelo de desenvolvimento inclusivo e nacional são muito maiores do que o rame-rame do controle da inflação por meio da manutenção da taxa Selic em níveis estratosféricos ou a acomodação da política econômica com uma taxa de câm­bio sobrevalorizada. Esse tem sido o caminho que nos le­vou à desindustrialização e à recessão da atividade eco­nômica.

Os desafios que se colocam para o debate do segundo turno e para a gestão da economia em um segundo man­dato de Dilma não podem ficar circunscritos aos limi­tes impostos pelo financismo. O momento é de consoli­dar, sim, as conquistas obtidas ao longo desses últimos 12 anos. Porém, o caminho deve ser o de um governo efeti­vamente comprometido com a perspectiva e as causas do movimento popular.

Paulo Kliass é doutor em economia pela Universidade de Paris 10 (Nanterre) e integrante da carreira de especialista em políti­cas públicas e gestão governamental, do governo federal.

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