quarta-feira, 15 de outubro de 2014

“A arte da guerra” - Hong Kong, sob os guarda-chuvas

Via Voltairenet

Manlio Dinucci

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Il Manifesto (Italia)

Washington iniciou o maior movimento desestabilizador registrado na China desde a tentativa de golpe de estado pró norte-americano de Zhao  Ziyang – apresentado no ocidente como o “movimento democrático” da praça Tienanmen. A manobra se centra em Hong Kong, por que é o único território onde não é necessário um visto da República Popular da China. Manlio Dinucci traz à tona os mecanismos da manobra do NED.

Diante da “Umbrella  Revolution” (definição made in USA), o governo britânico diz sentir-se “preocupado” pelo respeito aos “direitos e liberdades fundamentais”.

Londres conhece bem esses assuntos.

No século XIX, os ingleses, para penetrar na China, recorreram ao comércio do ópio, droga que traziam da Índia. Provocam assim enormes estragos econômicos e sociais. Quando as autoridades chinesas confiscam e queimam o ópio armazenado em Cantão, as tropas inglesas intervém na China e obrigam o governo a assinar, em 1842, o Tratado de Nankin, através do qual a China cede Hong Kong para a Grâ-Bretanha.

A partir desse momento, e até 1997, Hong Kong se transforma em colônia britânica sob a autoridade de um governador enviado por Londres. Os monopólios britânicos exploram a população chinesa, e impõem um  sistema de segregação racial que exclui os chineses dos bairros de Hong Kong habitados por britânicos. Greves e rebeliões são reprimidas de maneira extremamente violentas.

Depois da proclamação da República Popular da China, em 1949, Pequim reclama o restabelecimento da soberania chinesa  sobre Hong Kong  (embora não a obtenha), e utiliza esse território como porta comercial  e favorece seu desenvolvimento.

A Hong Kong restituída à China sob o estatuto de região administrativa especial, com  7,3 milhões de habitantes, diante dos quase 1,4 bilhões de habitantes da China, mostra atualmente uma renda média de 38.420 dólares por habitante, ou seja, maior que a renda média da Itália, e  quase seis vezes o valor da renda média na China.

O que acontece é que, como porta comercial da China, Hong Kong é o 10º exportador mundial de todo tipo de mercadorias, e o 11º exportador de serviços comerciais. Além disso, recebe a cada ano 50 milhões de turistas, entre eles 35 milhões de chineses. O crescimento econômico, embora desigualmente repartido (existe um subproletariado local e estrangeiro que se arruma para sobreviver ali, recorrendo a todo tipo de tráficos e artimanhas), trouxe uma melhoria geral nas condições de vida, confirmada pelo fato de que a esperança de vida ali é de 84 anos (em toda a China é de 75 anos).

O movimento estudantil que exige em Hong Kong que a eleição do chefe de governo local seja direta e não esteja vinculada a Pequim se compõe de jovens provenientes, em sua maioria, das classes sociais favorecidas pelo crescimento econômico.

Cabe apresentar então a seguinte pergunta: Por que então os mesmos meios de imprensa que ignoram as centenas de milhões de pessoas, que no mundo inteiro lutam diariamente em condições muito piores, de verdadeira violação de direitos humanos, transformaram em ícones mundiais pela democracia a alguns poucos milhares de estudantes de Hong Kong?

É preciso buscar a resposta em Washington.

Toda uma série de documentos demonstra que os inspiradores e cabeças do que  tem sido chamado de “movimento sem líder” estão vinculados ao Departamento de Estado e suas dependências conhecidas como “organizações não governamentais”,  principalmente com a «National Endowment for Democracy» (NED), e com sua filia democrata, o «Instituto Nacional Demócrata de Asuntos Internacionais» (NDI, siglas em ingles), que dispõem de abundantes fundos para o financiamento de “grupos democráticos não governamentais” em uma centena de países.

Vejamos dois exemplos dos muitos que poderíamos mencionar: 

-Benny Tai, o professor de Hong Kong que iniciou o movimento “Occupy Central” (ver o South China Morning Post de 27 de setembro), adquiriu sua influência graças a uma série de foros financiados  pelas já mencionadas ONGs.

-Martin Lee, fundador do Partido Democrata de Hong Kong, foi enviado a Washington pela NED, e depois de uma entrevista transmitida pela televisão, o vice-presidente Joe Biden o recebeu na Casa Branca.

Desses fatos e de muitos outros emerge uma estratégia similar à das “revoluções coloridas”, que já temos visto no leste da Europa, que manipulando o movimento estudantil,  trata de fazer com que Hong Kong se torne ingovernável e favorecer a outros movimentos análogos em outras regiões da China onde existem minorias nacionais.

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