segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Tem certeza que você é espírita?




Carta aberta aos espíritas eleitores de Bolsonaro

Ana Cláudia Laurindo 

Quando escrevi um texto reflexivo sobre o susto que tomei ao ver espíritas declarando voto ao candidato de conduta mais beligerante que o cenário apresentava, eu não os conhecia. Não sabia de fato, o que estava guardado por baixo do verniz de cordialidade que costumava encontrar ao chegar nas casas espíritas, e jamais chegaria a supor que fossem capazes de justificar o erro em nome de uma estranha paz, sendo esta montada sobre uma base não apenas elitista, mas ignorante.

Após este processo eleitoral eu confesso não saber ao certo como estarei me relacionando com aqueles dirigentes, palestrantes e trabalhadores que se revelaram favoráveis a projetos políticos insanos, corroborando para a discriminação étnica e religiosa, cerco aos irmãos indígenas, mesmo sendo aqueles sacrificados desde a invasão deste continente pelo europeus, e outras atitudes deprimentes que ferem os Direitos Humanos, que o candidato escolhido representa.

A capacidade de ofender quem os questiona também se mostrou elevada, chegando aos arroubos de desqualificação do outro, e à demonstrações de lamentável assepsia social e cultural, ou seja, uma inclinação a defender a pertença do espiritismo à castas eivadas de tradicionalismos, com perfil separatista.

Nunca consegui imaginar Jesus assim, distante da simplicidade e adepto dos interesses do poder cego, violador e inimigo do bom senso. Jesus lavou os pés dos pecadores, quebrou paradigmas e irritou os poderosos com  seu amor pregado e vivido em solo material, com as pessoas, pelas pessoas. Por isso foi julgado uma ameaça, condenado e crucificado! A missão de Jesus foi socialmente posta, para a educação do espírito.

Como foi difícil para mim olhar nos olhos dos espíritas que despudoradamente se assumiram raivosos e passionais! Ler seus escritos odiosos, usando  de auto-ilusão para se permitirem julgar e condenar pessoas públicas ou não, com argumentos classistas (defesa ferrenha da propriedade privada, materialismo acirrado), mas o pior mesmo, foi ver seus dardos envenenados sendo jogados na direção do ex-presidente Lula, envoltos no afã da criminalização, da aniquilação, desconsiderando os direitos do Lula cidadão, filho de Deus, irmão em Jesus, como se costuma falar exaustivamente nas reuniões públicas.

Apenas o Partido dos Trabalhadores desperta a repulsa dos espíritas?

Inúmeros me julgaram não-espírita por escrever como uma “comunista” e acusaram o comunismo de ser o pior defeito que alguém pode ter. Como assim? Esse povo nunca leu sobre capitalismo? Um espírita não pode ter ideias de cunho social libertário? Por qual razão? Onde está escrita a proibição?

Passei três décadas lendo livros espíritas. De Allan Kardec a Léon Denis, devorei com crença e respeito obras clássicas e até romances para iniciantes. Fiz estudos e palestras, integrei grupos, apliquei passes e tive o consolo inigualável de conhecer os trabalhos de assistência espiritual em mesas mediúnicas. Mas o simples fato de escrever com matizes humanitárias e ter posicionamentos políticos progressistas, desprendidos de padrões e tradicionalismos, impede que eu possa me declarar espírita?

Foi por amor que escrevi aquele texto ainda ingênuo. Este aqui é muito mais amadurecido. Pois foram as suas reações bélicas que me fizeram perceber onde estão os altivos escribas e fariseus do passado, tomados pelo gosto de dirigir multidões de boa fé; e recordar o Evangelho que jamais nos incitou à ignorância nem alienação quanto ao cristianismo na terra, pois “a arvore é sempre boa, mas os galhos foram modificados”.

Agora entendo que a adesão massiva feita por eleitores espíritas ao candidato que acumula defeitos comportamentais e exala ineficácia política para governar nossa bela nação, é resultado de afinidade vibratória, por isso o defendem como “remédio amargo”. Mas na verdade, desejam que higienize o país, mesmo que isso signifique crime contra milhares de pessoas categorizadas em segmentos distintos. Vocês acreditam que bastará lavar as mãos?

Não temo a ira de vocês (sim, vocês são plenos de ira!) mas temo o resultado da vossa participação neste pleito eleitoral, agindo como fascinados, sem possibilidade de diálogos, reforçando injustiças e promovendo separações.

Vocês trouxeram a melhor e a pior lição para minha experiência imediata.

A melhor lição foi finalmente entender que a evolução não é institucional, é livre e espontânea, de acordo com nosso modo verdadeiro de viver e amar, colaborando para a coletividade, estando longe ou perto. É uma relação vibratória também.

A pior lição foi amargar a decepção de um dia ter utilizado seus parâmetros para qualificar espíritos encarnados e desencarnados, me sentindo pura e isenta, tal qual hoje observo de fora.

Essa carta aberta não é um rompimento, mas resultado de uma profunda transformação, e a declaração de que agora eu amo ainda mais aqueles a quem vocês odeiam, para não ouvir de Jesus, pela voz da minha consciência: “Estive preso e tu não me visitastes; tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber.”

Para vós eu peço solenemente a misericórdia do céu, porque mesmo sendo a maioria privilegiada, letrada, viajada e supostamente evangelizada, demonstram que não sabem o que fazem.

Observação: Não é psicografia

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