terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O assalto final ao país

Sanguessugado do GGN

Xadrez da delação e a dança dos mineirinhos

Luis Nassif

 


Peça 1 – o assalto final ao país
Tem-se um presidente da República suspeito de corrupção. Seu preceptor maior – ex-deputado Eduardo Cunha – já está preso. Se receberem o mesmo tratamento dado a Cunha, seus dois lugares-tenentes – Ministro Eliseu Padilha e Secretário Moreira Franco – também irão para a prisão.

Nos últimos tempos, no entanto, esse grupo abaixo de qualquer suspeita, colocou em prática as seguintes medidas, tentando desesperadamente acumular poder para impedir a marcha dos processos:

1.     Assumir o controle geral das definições de produtos de conteúdo nacional para as compras públicas, colocando de lado os técnicos do BNDES e Finep. Empresa que quiser ter seu produto enquadrado, terá que beijar as mãos do grupo.

2.     Colocar sob seu controle as decisões de investimento do FAT (Fundo de Amparo do Trabalhador), afastando o conselho que define as políticas de investimento. Os dois rgandes especialistas do grupo em FAT eram Eduardo Cunha e Geddel Vieira Lima.

3.     Flexibilizar as datas de reajuste de medicamentos e submeter as propostas a um grupo restrito de Ministros, deixando de lado os escalões técnicos.

4.     A antecipação das licitações do pré-sal, sem uma explicação plausível.

Em relação aos chamados interesses nacionais, a cada dia que passa o jogo de desmonte se acelera mais:

1.     A proibição de empresas nacionais nas licitações para a conclusão dos trabalhos da Comperj (https://goo.gl/yJkIII).

2.     A decisão da Aeronáutica de contratar empresas norte-americanas para serviços de sensoriamento remoto por satélite, por ordem da Casa Civil, de Eliseu Padilha (https://goo.gl/W0kVxq).

3.     A plataforma desenvolvida pelo Exército contra guerra cibernética. A plataforma serve Itaipu, Angra e outras áreas críticas. Se, no bojo da cooperação com autoridades norte-americanas, a senha do sistema for exposta, deixará vulnerável as principais áreas críticas do país.

4.     Os riscos de paralisação do Prosub – o programa de construção de submarinos nucleares, essencial para a defesa do pré-sal.

5.     O controle direto dos EUA sobre os trabalhos da Embraer, a pretexto de fiscalizar a implantação do sistema de complience (https://goo.gl/0JYi7H).

Para ganhar tempo e consumar o saque, estão oferecendo em pagamento:

1.     O desmonte do Estado.

2.     Uma reforma da Previdência mais severa que a mais severa reforma em país europeu.

E aí esse símbolo máximo da liberalidade política brasileira, um Presidente suspeito até a tampa indicando o juiz que participará do seu julgamento.

Peça 2 – a estagnação econômica
Como vimos alertando desde o início da gestão Henrique Meirelles, a equipe econômica não está preocupada em recuperar a economia. Seu objetivo é unicamente ideológico, de aproveitar a crise para o desmonte total das políticas públicas e dos instrumentos de ação do Estado.

Este ano, já está dada a continuidade da estagnação da economia, com o agravamento da questão fiscal da União e dos Estados, o aumento do desemprego.

O jogo de expectativas positivas é ridículo. A mídia celebra a redução de 0,75 ponto da Selic, com o índice ficando em 13,5% - em cima de uma economia que já caiu 8 pontos percentuais.

Toda a movimentação pretendendo criar artificialmente expectativas otimistas está indo ladeira abaixo com a divulgação dos dados de janeiro.

Daqui para a frente será deflagrada a guerra contra a reforma da Previdência. À medida que for clareando os efeitos da reforma sobre os aposentados, nem plantão de 24 horas da Globonews contornará a decepção popular.

Peça 3 – o papel da oposição
Com o governo sem condição de apresentar uma ideia sequer de futuro, a oposição fica com a faca e o queijo na mão para desenvolver seu projeto de país. Dentro de um ou dois meses haverá um grande seminário nacional com as chamadas forças progressistas apresentando seu projeto.

Mesmo assim, o jogo continua nublado na frente das esquerdas, e mais nublado ficou com o AVC que vitimou dona Mariza, esposa de Lula. Há o risco concreto de tirar Lula de combate por algum tempo, em um período que exigiria cada vez mais sua presença em duas frentes: a do PT e a nacional.

No PT, sua eleição para presidente seria a única maneira de impedir o esfacelamento do partido entre as diversas tendências. A chamada frente de esquerdas perde mais tempo se digladiando, aliás, do que pensando em projetos comuns.

A espinha dorsal dessa frente continua sendo o PT, com 20% do eleitorado nacional, diretórios na maioria das cidades e máquina política. Ele poderia ser revitalizado, mas hoje em dia, com exceção de Lula (que não parece inclinado a assumir o partido) não há uma referencia sequer para o cargo de presidente.

Quem vem despontando é o senador Lindbergh Faria, mas considerado ainda um pouco verde por parte dos petistas históricos.

Não há consenso sobre o papel do Estado, a maneira de coordenar as expectativas empresariais visando a retomada dos investimentos, as formas de convivência com o mercado. Não há consenso sequer sobre o que poderia ser uma política econômica alternativa.

Antes do AVC da esposa, Lula estava se preparando para lançar publicamente suas ideias, mas no bojo de uma ampla crítica-autocrítica dos erros cometidos por Dilma Rousseff. Mas, ao seu feitio, aguardava uma conversa com Dilma para combinar os termos da autocrítica sem melindrar a companheira.

Peça 4 – a delação, Carmen e Rodrigo
É nesse quadro econômica e politicamente confuso que explode a nova bomba política: a homologação da delação da Odebrecht. E aí, os olhos se voltam para a mineiridade.

Há dois estereótipos fortes do mineiro. Há a imagem de mineiridade, significando a capacidade de conciliar adversários, montar acordos impossíveis, com doçura e sagacidade.

E há o estereótipo do “mineirinho” – significando a capacidade de não entrar em nenhuma dividida e não correr nenhum risco, nem dizer o que pensa.

As delações da Odebrecht estão sob controle de dois “mineirinhos”: a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Carmen Lúcia e o Procurador Geral da República (PGR) Rodrigo Janot, ambos especialistas na arte de se valer de toda ênfase para não tomar nenhuma decisão de risco.

Carmen Lúcia homologou as delações, mas as manteve sob sigilo. Com isso, as decisões sobre que medidas tomar ficariam teoricamente sob controle de Janot. Ambos – Carmen e Janot – têm posição claramente partidária. Ninguém no país acredita na isenção de Janot.

Desde o primeiro momento da Lava Jato, Janot - sob cuja responsabilidade estão os casos envolvendo pessoas com prerrogativa de foro - manobrou discricionariamente o ritmo das denúncias e dos inquéritos.

Na partida, a primeira leva de delações de políticos, pediu a denúncia do senador Lindbergh Faria em cima de afirmações vagas. E solicitou o não indiciamento de Aécio Neves que tinha contra si uma delação que mencionava o operador (Dimas Toledo), a estatal (Furnas), o método da lavagem de dinheiro (a Bauruense) e a conta onde era deposito o dinheiro (da irmã de Aécio).

Para dar aparência de neutralidade ao seu jogo, denunciou o senador Antônio Anastasia em cima de indícios mínimos. Tão vagos que não houve a menor dificuldade no pedido posterior de seu arquivamento.

Fez muito mais. Permitiu o uso político desmedido dos vazamentos, manteve engavetada a denúncia contra Aécio Neves, por manutenção de conta no exterior, nada fez em relação às denúncias envolvendo José Serra.

Finalmente, impediu a delação de Leo Pinheiro, presidente da OAS, quando os termos lhe foram apresentados, e consistia em entregar o sistema de propinas em obras do governo de São Paulo, nas gestões Geraldo Alckmin e José Serra.

Como o mineirinho Janot exercita a arte da tergiversação?

Simples. Um processo é constituído de uma infinidade de passos sucessivos, obedecendo ao ritmo ditado por sua complexidade e pela intenção política do operador.

Quando as cobranças por isonomia se intensificam, o expediente consiste em dar UM passo pontual, atender às pressões e, depois, tirar o tema do ritmo Lava Jato.

Aí entram em cenas os vazamentos.

Esta semana foi anunciado o bloqueio da conta suíça de Ronaldo César Coelho, por onde passavam as contribuições da Odebrecht para José Serra. Foi uma novela para que a decisão fosse tomada. Houve um vazamento inicial da denúncia para o Estadão, que se recusou a publicá-la. O material acabou sendo enviado e publicado pela Folha. Ou seja, o vazador e um resto de competição entre os jornais, obrigou Janot a se mexer e tomar a providência de solicitar o bloqueio da conta.

Peça 5 – a prova do pudim de Janot
Agora se tem a prova do pudim para Janot. Caberá a ele pedir (ou não) a quebra do sigilo das delações da Odebrecht.

Acabará pedindo por duas razões. A primeira, a pressão da opinião pública e da mídia. A segunda, a constatação de que as delações acabarão vazadas por terceiros. Ou seja, inevitavelmente ele  perderá o controle que mantem sobre os vazamentos.

Obviamente, a velha mídia centrará toda a cobertura em cima das delações contra o PT. Mas não haverá como impedir a disseminação das denúncias contra o PSDB e, especialmente, contra a camarilha de Temer.

Em cima desse terremoto aproxima-se outro: a decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sobre as contas de campanha de Dilma e Temer. Por mais ginástica que faça o principal advogado de Temer, Gilmar Mendes, não haverá como separar a chapa para questões eleitorais. Se a chapa for impugnada, significa que todos os votos serão anulados. E os mesmos votos sufragaram Dilma e Temer.

A eventual separação entre ambos só haveria para fins penais ou administrativos.


A única peça a sustentar Temer é a absoluta anomia do PSDB, incapaz de formular um programa sequer.

Números tornam evidente: liberação do FGTS é presente para ricos e bancos

Sanguessugado do Tijolaço


Fernando Brito

fgts1

É espantoso como a imprensa brasileira esconde o óbvio e dependemos que um banco estrangeiro – o Santander – levante os números para mostrar o que é tão evidente que foi apontado aqui no próprio dia do anúncio da liberação das contas inativas do FGTS: o grosso do dinheiro não vai para aliviar os trabalhadores ou reaquecer o consumo e a economia, vai é engordar os fundos de investimento regidos pelos bancos e corretoras e alimentar a especulação com juros.

Os dados do banco espanhol, publicados hoje pelo Estadão (por enquanto só na edição impressa)  são incontestáveis.

Dos estimados R$ 41 bilhões que hoje estão na conta do Fundo, para financiar habitações, saneamento e infraestrutura,  a metade –  R$ 20 bilhões – serão liberados para apenas  100 mil cotistas – 1,2% do total –  que  têm saldo superior a R$ 17,6 mil, ou 20 salários mínimos de dezembro, data de referência dos valores.

Isso que dizer, na média ( que ainda não é a mensuração correta, porque a pirâmide sempre concentra valores mais altos nas mãos de menos pessoas)estes felizardos levam, cada um R$ 200 mil, que serão ávidamente disputados pelo sistema bancário.

O grupo intermediário – com direito a saque  de valores entre cinco a 20 salários mínimos de dezembro (R$ 3,5 mil a R$ 17,6 mil)  concentra outros 37%  do valor total, embora corresponda a apenas 5% do total  de inscritos.

E a multidão de 9,5 milhões de trabalhadores –  ou 94%  dos cotistas – têm saldo entre zero e R$ 3,5 mil, que dá uma média- com todas as ressalvas que se fez, antes à precisão da média, nestes casos –  de R$ 736 por cabeça. Esse é o dinheiro que vai para “limpar no nome” no Serasa, acertar o carnê, pagar as contas atrasadas…

É tão pouco que o próprio Santander diz que ” mesmo na hipótese altamente improvável de que todos os recursos sejam destinados ao pagamento de dívidas, o impacto seria “limitado”que, ainda que com essa ” premissa extrema, o efeito máximo ficaria longe de ser considerado significativo”, dizem os analistas do banco.

 No caso extremo e improvável em que trabalhadores usassem todo o dinheiro inativo para quitar dívidas, o comprometimento da renda das famílias cairia até 0,60 ponto porcentual e a inadimplência diminuiria até 0,15 ponto.  (…)Nesse cenário improvável, o comprometimento da renda das famílias com dívidas cairia de 22,2% em novembro para algo próximo de 21,6%.

O efeito sobre o consumo, claro, será também pífio.

Mas os gerentes de banco já estão sendo orientados a oferecer aplicações generosas (para os clientes e mais ainda para as instituições financeiras) para os que tiverem valores expressivos a sacar.


Como se escreveu aqui, mesmo sem números que permitissem uma estimativa mais detalhada como a do Santander, era um cenário antevisto, sobre o qual faltou à reportagem (reportagem?) dos jornais solicitar o perfil das contas inativas para traçar com precisão o retrato  do que todos sabiam e quase ninguém escreveu: “O destino do dinheiro grosso, como sempre no Brasil, é o mercado financeiro.”

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Lava Jato não quebrou o país assim como o sol não vai nascer amanhã

Sanguessugado do Viomundo

Efeito cascata da Lava Jato ameaça os bancos

  
Captura de Tela 2017-01-30 às 11.42.56

Força-tarefa dos bancos tenta evitar quebra de empresas

Instituições criaram equipes especializadas em ajudar na reestruturação das companhias antes que a situação financeira se torne insustentável

Mônica Scaramuzzo e Renée Pereira , em O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2017

Depois de amargarem perdas com a deterioração financeira de grandes empresas, que entraram em recuperação judicial ou estão envolvidas na Lava Jato, os maiores bancos privados do País — Itaú, Bradesco e Santander — começaram, nos últimos meses, a se organizar para evitar uma crise ainda maior.

A preocupação é que essa onda de recuperações se intensifique e provoque um efeito cascata de estragos na já combalida economia do País.

Com equipes especializadas, esses bancos criaram departamentos totalmente focados na reestruturação de médias e grandes empresas. A ideia é trabalhar de forma preventiva, antes que o problema leve mais companhias a um processo de recuperação judicial ou falência — o que é prejudicial também para o balanço dessas instituições, que no último ano tiveram de fazer provisões para perdas bilionárias.

Os casos mais emblemáticos foram os da Oi, com dívidas de R$ 65 bilhões, e da Sete Brasil, criada para entregar sondas para a Petrobrás, com débito de R$ 20 bilhões.

Fontes de mercado afirmam que há uma watch list (lista de monitoramento) de cerca de R$ 300 bilhões em dívidas de médias e grandes empresas na mira de bancos para reestruturação. Esse valor exclui a dívida da Oi e parte das renegociações de dívidas já feitas por algumas das empresas do grupo Odebrecht.

Seleção. A qualquer sinal de alerta sobre a saúde financeira de empresas, seja pela piora de indicadores do balanço ou por atrasos em contas (dívidas ou impostos, por exemplo), as equipes de reestruturação desses bancos entram em ação para tentar estancar o problema de forma preventiva.

“Queremos nos antecipar ao problema”, diz Eduardo Armonia, diretor responsável pela área de reestruturação e recuperação de crédito de atacado do Itaú. “A queda da rentabilidade de uma empresa ou atraso de pagamento já acendem um alerta para o banco.”

Diante de uma grande quantidade de empresas em dificuldades — seja por causa da crise econômica ou por causa da Lava Jato –, o time de reestruturação dos bancos inicia o pente-fino pelos setores nos quais as instituições têm maior exposição. Nessa lista estão os segmentos de construção, infraestrutura, varejo, revenda de carros e mercado imobiliário.

Partindo dos setores, esses executivos afunilam as análises até chegar às empresas mais frágeis. Em alguns casos, as companhias não têm noção da realidade que vivem e precisam ser alertadas pelos bancos, diz o vice-presidente do Bradesco, Domingos Abreu, responsável pela área de crédito e reestruturação.

Com esse diagnóstico em mãos, as instituições financeiras oferecem um “pacote de ajuda”, que vai desde tomar ativos como garantia e alongar as dívidas até buscar um novo investidor para injetar capital na empresa.

Em muitas situações, a venda de ativos é a melhor saída. Foi o que ocorreu com a Renova Energia, uma das maiores geradoras de energia eólica do País. A empresa rolou uma parte de seus débitos e vendeu ativos para honrar compromissos. Inicialmente a reestruturação buscava um sócio para capitalizar a empresa — o que foi adiado com a venda de um parque eólico por R$ 650 milhões.

Outro que está em reestruturação é o grupo Rossi, que tenta evitar o mesmo caminho da concorrente PDG, cuja recuperação judicial é dada como certa. Fontes afirmam que o grupo renegocia o alongamento das dívidas e está em conversas para dar imóveis como garantia. A empresa não quis se pronunciar.

Escalada. A mudança de postura dos bancos é explicada pela rápida escalada dos pedidos de recuperação. Só no ano passado, 1.863 empresas entraram com pedidos na Justiça — volume 44% superior ao de 2015, com 1.287 ocorrências.

“Criamos essa estrutura em 2015 por causa da piora na economia, do aumento das recuperações e da Lava Jato”, diz Gustavo Alejo Viviani, superintendente executivo de negócios de recuperação da área de atacado do Santander.


Para este ano, a recuperação da economia, com a queda dos juros e aumento dos preços das commodities, deve dar algum alívio às empresas. Mas os bancos seguem atentos e querem evitar um déjà vu de 2016.

domingo, 29 de janeiro de 2017

A vitória do escárnio.

via feicibuqui do Eduardo Affine Neto

Guilherme Boulos.


O declínio de uma nação ou de uma cultura nunca se dá de uma só vez. Tem suas fases. Uma delas é a hipocrisia, quando se naturaliza o "dois pesos, duas medidas". O hipócrita estabelece um critério aos amigos e outro aos inimigos.

Sinal da vitória da hipocrisia por aqui foi a derrubada de um governo com o argumento do uso de procedimentos fiscais corriqueiros em todos os anteriores e então tolerados. Ou a condenação exemplar de membros de um grupo político, associada à tolerância aos membros de outros grupos, que tiveram precisamente as mesmas práticas.

Para uns, a presunção de inocência, para outros, a de culpa. Mas o hipócrita ainda preserva uma preocupação com aparências de legitimidade. Constrói um discurso para camuflá-lo, sua justificativa perante a opinião pública. Seu predomínio, porém, pode dar lugar a uma fase mais perigosa: a do escárnio.

Quando o escárnio toma conta do ambiente cultural desaparecem as mínimas preocupações de decoro com o que se diz e o que se faz. Os cínicos ganham autoconfiança e ousam fazer em público aquilo que todos imaginavam, mas não se via. Falam abertamente sinceridades antes reservadas aos cochichos de corredor. Rompe-se então as regras do jogo social. A fase do escárnio tem um lado positivo: ela é incrivelmente reveladora. Mas, no geral, expressa a mais completa indiferença dos donos do poder em relação ao que vá pensar a sociedade. Às favas com a opinião pública.
Fiquemos apenas com fatos da última semana. Quando o ministro Eliseu Padilha diz, com o cadáver de Teori Zavascki ainda quente, que a morte vai fazer com que "a gente tenha mais tempo"; quando Gilmar Mendes, presidente do Tribunal que julgará Golpista, é consultado sobre a indicação de seu novo par e vai a rega-bofes no palácio presidencial; quando, ainda em relação a Teori, operadores do mercado financeiro comemoram sua morte sem maiores pudores; quando fatos assim passam sem ser notados é porque o escárnio estabeleceu-se na vida pública do país.

Na República do escárnio não há limites. Ante a perda de referência crítica e valorativa, tudo torna-se possível e, ademais, muito natural. Dostoiévski escreveu certa vez que, se Deus não existisse, tudo seria permitido. Falava é claro de um padrão de conduta –no caso, estabelecido pela religião– para delimitar o campo das ações humanas. Sem referência valorativa não há limites. Assim funciona o escárnio.


A hipocrisia antecede o escárnio. Este, por sua vez, funciona como antessala da barbárie. Ou da revolta.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Clube de Engenharia alerta para crise aberta pelo governo Temer

feicibuqui do Rudá Guedes Ricci


Do Portal do Clube de Engenharia



A engenharia brasileira vive a maior crise de sua história. Empresas de reconhecida capacidade técnica, com expressiva contribuição em obras e serviços para nossa engenharia, encontram-se paralisadas diante dos processos jurídicos a que estão respondendo. Os profissionais, em especial seus engenheiros, são demitidos aos milhares, as obras são suspensas, enquanto se espera para ver até que ponto essas empresas serão atingidas pelas acusações da Lava Jato.

Estão interrompidos empreendimentos de porte, alguns já em estágio avançado de execução, como as obras do COMPERJ, Angra III, nosso submarino a propulsão nuclear, a refinaria Abreu e Lima no Nordeste, a transposição do São Francisco e muitos outros. Os prejuízos já chegam a dezenas de bilhões de reais e o desemprego por milhões de trabalhadores.

Os recursos recuperados com grande alarde, como resultado das corrupções descobertas, são uma fração dos prejuízos causados pela interrupção das obras. Para onde está o Brasil sendo conduzido? Que país vai sobrar ao final desses processos? Assiste-se à destruição de nossas maiores empresas de engenharia. Diante dos desmandos que houve nessas empresas, exigimos que os responsáveis por eles sejam processados, e os culpados condenados, mas não aceitamos a destruição das empresas de engenharia e o fim de empregos de nossos engenheiros e demais trabalhadores.

É necessário resistir ao desmonte em curso. Todos os setores da economia para os quais o mercado interno é decisivo devem ser chamados a participar dessa resistência.

No quadro geral do desmonte, nos últimos dias foi noticiado que a Petrobras está convidando apenas empresas estrangeiras para licitação da retomada das obras no COMPERJ, num total de 30 empresas. O lançamento do COMPERJ há alguns anos abrira muitas oportunidades de trabalho e o otimismo inundou o interior do Estado do Rio. Houve um deslocamento maciço de empresas e trabalhadores para o entorno de Itaboraí, verdadeiro renascimento da região. Com os processos da Lava Jato, obras já adiantadas foram paralisadas, empresas ficaram sem serviço, trabalhadores foram demitidos. A região está abandonada e virou um deserto e as obras já realizadas se deterioram.
O que está sendo feito no Brasil com nossas empresas de engenharia não está ocorrendo em outros países. Quando foi reconhecido que a Volkswagen fraudara dados de poluição de seus carros, foi aplicada altíssima multa, dirigentes da empresa foram demitidos e presos. Entretanto, nenhum carro deixou de ser produzido e nenhum trabalhador perdeu seu emprego. A Alemanha sabe preservar suas riquezas. A Volkswagen é uma riqueza da Alemanha. No Brasil o comportamento tem sido o oposto. Prendem-se dirigentes, suspendem-se as obras, impede-se que essas empresas participem de outras licitações e trabalhadores são demitidos aos milhares. Destrói-se um patrimônio nacional constituído por empresas formadas ao longo de décadas e detentoras de importante acervo tecnológico e equipes de profissionais experientes.

O momento é grave. Para superá-lo é urgente construir uma grande aliança da qual participem os engenheiros, os trabalhadores em geral, as empresas compromissadas com a geração de emprego, o movimento sindical que está sentindo a perda de direitos conquistados desde a década de 1930, além de universidades e centros tecnológicos.

O Clube de Engenharia convoca todas as entidades ligadas à engenharia a participarem da resistência ao processo de sucateamento de nossas empresas, que estão sendo vendidas na bacia das almas, no pico da maior crise em décadas.


A retomada do desenvolvimento precisa se dar fortalecendo-se as empresas e os profissionais de engenharia, sem que haja perda de direitos há muito conquistados. Os bancos e demais setores rentistas, que vivem dos elevados juros sobre nossa dívida pública, não podem continuar hegemonizando nossa economia e enfraquecendo o setor produtivo, grande gerador de emprego.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O retrato desavergonhado das elites brasileiras

Sanguessugado do  Georges Bourdoukan 

Mais um capitulo da história das elites brasileiras



                            Mangabeira beija a mão de Eisenhower no parlamento brasileiro

 "Em nome do país (...) inclino-me respeitoso diante do General Comandante-Chefe dos Exércitos que esmagaram a tirania, beijando, em silêncio, a mão que conduziu à vitória, as Forças da Liberdade".

Eis Otávio Mangabeira, lídimo representante da elite, beijando a mão do general presidente dos EUA Eisenhower em pleno parlamento brasileiro.

Sabe-se que tamanha subserviência aos poderosos sempre fez parte daquela que se considera produto de “nobre estirpe”, que tem por raiz os degredados.

Subserviência aos poderosos, brutal com os excluídos.

Submissão e brutalidade.

Otávio Mangabeira não era qualquer um das elites.

Era a  elite em sua plenitude.

Foi deputado federal, governador da Bahia, senador, um dos fundadores da UDN e membro da Academia Brasileira de Letras.

O beija-mão começou com Pero Vaz de Caminha e continuou com os escravagistas.

Atualmente seus descendentes buscam abrigo no último reduto que lhes resta.
A mídia corporativa.

Não suportam nem o cheiro da graxa e nem o barulho dos tornos.

Até aí nada de novo.

Já houve um general que preferia o cheiro de cavalos...


Mais um capitulo da história das elites brasileiras

O "TIMING" E AS PROVAS

Sanguessugado do Mauro Santayana


Um delegado, em entrevista a uma revista semanal, declara que a Polícia Federal "perdeu" o "timing" para prender Lula.

Outro delegado, que já manifestou publicamente, nas redes sociais, por mais de uma vez, suas preferências políticas e que, criticado por isso, tentou censurar, na justiça, as manifestações de internautas contra ele, vem a público para afirmar que, na verdade, esse "timing" não passou, e que, em 30, 60 dias, será possível obter condições favoráveis para prender o ex-presidente, cuja esposa acaba de sofrer uma cirurgia para conter as sequelas de um AVC.

Ora, não sabemos se há "timing" para fazer, mais uma vez, a reflexão óbvia e ululante, mas se ainda faltavam provas de que parte preponderante da Operação Lava-Jato tem motivação política - e o objetivo de prender Lula antes que chegue 2018, a qualquer custo - e do incontido ativismo de alguns de seus membros, elas estão aí, escancaradas, mais uma vez, à vista de todos.

Em um país minimamente sério, o ex-presidente Lula seria eventualmente preso se houvesse provas incontestáveis contra ele, e não em função do "timing" institucional, eventualmente construído com o auxílio de uma campanha midiática exagerada e sórdida, que se arrasta já há quase três anos.

Sutis como elefantes, as duas entrevistas fazem parte de um evidente, incomensurável, indiscutível, strip-tease da justiça brasileira aos olhos do mundo, que desnuda, a cada dia mais, todo o seu acovardamento diante das pressões, sua hipocrisia, sua parcialidade, suas rugas éticas e sua manipulação dos fatos, com a fabricação de factoides tão postiços quanto perucas.


A sua cara - e a opinião pública mundial percebe claramente isso,  ao ver, horrorizada, os vídeos postados pelos assassinos - não é, apesar dos arroubos costumeiros da mídia local, quando ocorrem certos convescotes, a dos jovens procuradores e juízes de  armanianos ternos, que visitam outros países em busca de holofotes, plaquinhas e diplomas honoríficos; mas a das cabeças arrancadas, diante das câmeras de celulares, a golpes de facão, do tronco de prisioneiros - muitos deles provisórios, que sequer ainda haviam sido julgados - que estavam sob a custódia de um sistema apodrecido até a raiz, incapaz de garantir os mais elementares direitos, ou de fazer valer a Lei e a Constituição, em um país com 8.5 milhões de quilômetros quadrados e a quinta maior população do mundo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

5km de arte e humanização transformados em cinza poluição pelo senhorio da moderna casa grande e senzala

GilsonSampaio

5km de arte e humanização transformados em cinza poluição por um prefeito almofadinha com idéia fixa em Casa Grande e Senzala.


Falta o Iluminismo


Mino Carta

O Brasil nunca conheceu a Idade da Razão, e isso explica a situação em que precipitamos, cada vez mais fundo

Bastilha

Na moldura do século XVIII, este evento se explica


Alguns anúncios da televisão que zapeio chamam minha atenção. Um deles, de um curso de inglês pela internet, promete aprendizado fulminante com direito a diploma internacional e extraordinárias garantias de emprego. Mas vai além na demonstração de suas virtudes divinatórias: logo logo seremos uma nação bilíngue. O pregador do anúncio lembra os bispos evangélicos.

Recordo a publicidade dos tempos da ditadura. Ao falar em liberdade, expunha-se a qualidade de um jeans. O armador Gerson, campeão do mundo em 1970 para alegria do ditador Médici e dos brasileiros em peso, incluídos os perseguidos pelos janízaros do DOI-Codi e Cenimar, afirmava o sabor e perfume de certos cigarros e a conveniência de “se levar vantagem”. Ou seja, talvez, ganhar a dianteira a caminho de uma doença fatal.

O primeiro anúncio continha alguma ironia, creio eu. Não sonhe com liberdade, parecia dizer, mas console-se ao vestir jeans. O segundo, hoje impossível, aludia a um traço forte do caráter nativo, dado ao golpe baixo e ao passa-moleque. Quanto a Gerson, foi bom jogador, houve, porém, melhores, entre seus contemporâneos, na minha opinião, Ademir da Guia.

A publicidade dos dias de hoje, do curso de inglês, é representativa da parvoíce geral, do besteirol reinante. A nossa ignorância conta até com o reconhecimento mundial. Uma pesquisa recente, francesa, nos coloca em sexto lugar entre os mais atrasados.

A educação do povo nunca preocupou o Estado Nacional, desinteressado, como bem sabemos, do Bem-Estar Social. Já houve tempos melhores muito curtos, no entanto. Quando cheguei a São Paulo, ainda menino, o colégio mais respeitado era público, instalado em prédio antigo e digno no Parque Dom Pedro, hoje área de mendicância e tráfico. A criminalidade mora ali.

Colégio muito concorrido, meu pai gostaria que o frequentasse. Não consegui vaga. A capital paulista tinha 1 milhão e meio de habitantes e 50 mil carros. No Carnaval, o corso passava pela Avenida São João, artéria principal.

Cidade limpa, pacata, civilizada. Destinada a um futuro exemplar de grande metrópole do Hemisfério Sul coerente com o seu passado, como o são, por exemplo, Melbourne e Sydney. De improviso, deu para se orgulhar de ser “a que mais cresce no mundo”. Deu no que deu.

Que se proclame a possibilidade de sermos todos bilíngues a curto prazo é uma hipérbole da sandice que não se dá por acaso. Sempre houve quem quisesse vender o elixir da longa vida e quem o comprasse.

O anúncio da tevê a que me refiro é, obviamente, insignificante comparado à disposição da maioria dos brasileiros de comprar elixires de porte e efeitos infinitamente superiores. Milhões bateram panelas e saíram às ruas de camiseta canarinho crentes de que a derrubada da presidenta Dilma escancararia as portas da felicidade.

Raros os que deram ouvido aos avisos: ruim com Dilma, pior sem ela. Precipitamos no caos, a cada instante a treva se adensa e vamos ao encontro de um desfecho trágico. E ainda muitos, legiões, não se dão conta disso.

Ocorre-me, pinçado ao acaso, a presidente do Supremo, Cármen Lúcia, a Tia Carminha das crianças inocentes. Na expectativa da cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE, ela se prepara a assumir a Presidência da República. Quem sabe não tenha reparado que o ministro Gilmar Mendes, seu colega e subordinado no STF, anda de mãos dadas com o presidente da República. De resto, quem não quer ocupar o trono? De chofre, poderia citar duas dúzias de nomes.

Espantosa é a pretensa normalidade da situação, a julgar pela reação de inúmeros cidadãos e do tom da mídia. A resignação do povo é tradição. Mas não haveria de tocá-lo o resultado do golpe de 2016: a punição do trabalho, a rendição ao neoliberalismo mais feroz, o corte nos investimentos em Saúde e Educação? Até quando haverá de resistir a chamada maldita “cordialidade”? E como se sentem os remediados? E a classe média-média?


Há quem diga que a casa-grande vive e viverá em perfeita tranquilidade, indiferente às atribulações da maioria. A normalidade para ela nunca acabaria. Na comparação malposta, a aristocracia francesa vivia a normalidade até as vésperas da tomada da Bastilha. Verdade é que aquele era o século do Iluminismo, e este aqui nunca aportou.

O JORGINHO ESTÁ INVESTINDO NA FEIÚRA

feicibuqui do Francisco Costa


Estive algumas vezes em São Paulo, a maioria delas no transcurso de greves, para negociar ou orientar, e a primeira coisa da qual discordo é que o paulista é um povo frio, pouco propenso a ajudar, até de dar informações.

Sempre fui otimamente recebido, em alguns momentos acarinhado mesmo, pelos companheiros dos dois pastel e um chôpis.

Também não procede essa conversa de que paulistas só pensam em trabalho, não são menos bon vivant que o resto do país, bem humorados.

E o que você viu de errado em São Paulo, então, Francisco?

São Paulo é (era) uma cidade feia, um caixote de concreto, a mesma impressão que têm todos os que chegam lá, mudando depois, quando passa a conhecer o povo paulista, o que Caetano Veloso bem mostrou na música Sampa.

Brasília também é uma cidade de concreto, mas tem duas vantagens sobre São Paulo: 1) a unidade arquitetônica, já que planejada por poucos homens, enquanto em São Paulo convivem todos os estilos arquitetônicos, numa suruba visual de endoidecer, e: 2) Brasília tem grandes espaços livres, o que tira a sensação de confinamento, ao contrário de São Paulo, onde tudo é junto, socado, espremido.

Este não é um problema só de São Paulo, mas da maioria das grandes cidades do mundo, que encontraram uma maneira de contornar: com o grafitismo.

O grafitismo é uma técnica que usa o spray, de dificílima manipulação, exigindo muito talento do artista, e já atingiu um nível de criatividade e complexidade tais que saiu das ruas e chegou às grandes galerias de arte e museus do mundo.

Temos grafiteiros no mesmo nível dos artistas consagrados em outros estilos, contemporâneos ou do passado.

A outra vantagem do grafitismo é o tempo gasto na construção da obra, com o grafiteiro trabalhando muito rápido, e por isso mesmo se prestando à ocupação de grandes áreas, o que fez do grafitismo uma arte urbana.

Nas paredes, o olho humano foge da ausência da variedade de formas e cores, dada pela flora, observando um painel, onde abundam formas e cores.

Nos grandes paredões, principalmente laterais de prédios, as pinturas geométricas proporcionam ilusões de ótica, criam a sensação de tridimensionalidade, espaços artificiais, psicológicos, espantando a sensação de confinamento.

Não é por outro motivo que empresas e as administrações públicas contratam grafiteiros em Nova Iorque, Paris e Berlim.

Os grafites estavam mudando a cara de São Paulo, tirando-lhe o caráter de cidade feia, que impressionou Caetano e todos os que chegavam lá.

Mas Jorginho Escória, aquele que se disfarça de lixeiro para fingir que não é milionário, mandou apagar todos os grafites de São Paulo, pintados por artistas do mundo todo, criando paredões monocromáticos, brancos ou cinzas.

Ontem foi apagado o maior painel, em área, da América Latina.

É provável que no lugar grafitem PCC ou PSDB, praticamente a mesma coisa.



Esta obra de arte foi transformada numa parede cinza, por ordem do Lixrefeito Jorginho Escória.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Os três amigos e o escárnio

Via Brasil 247

ALEX SOLNIK 
  


Vi ontem no “Fantástico” uma cena que poderia ser apenas “um encontro de amigos de 30 anos”, num final de tarde de domingo, como o próprio texto narrou, se os três amigos não fossem quem são -  Michel Temer, presidente da República; Moreira Franco, um de seus ministros mais íntimos e o ministro do STF, Gilmar Mendes - e o momento não fosse um dos mais delicados da vida nacional, três dias depois da morte do ministro relator da Lava Jato Teori Zavascki, que estava para homologar delações de diretores da Odebrecht que envolvem Temer e Moreira Franco, este sob o apelido “Angorá” em denúncias de corrupção.

Foram filmados na varanda do Palácio do Jaburu, em trajes esportivos, aparentemente alheios à crise que tomou conta do país depois que o avião em que Teori viajava caiu no mar, suscitando suspeitas em grande parcela da população, desconfiada de que houve um atentado, apesar das evidências apontarem em outra direção.

   Temer e Gilmar são reincidentes. Em viagem recente ao velório do ex-primeiro ministro de Portugal, Mário Soares, o presidente da República deu “carona” no avião presidencial ao ministro do STF que é também presidente do TSE, onde corre o processo de cassação da chapa Dilma-Temer.

   Agora o caso é ainda mais grave. Discute-se quem irá herdar a relatoria da Lava Jato. Já se chegou ao consenso de que a presidente do STF Carmen Lúcia deverá redistribui-la entre os colegas atuais por sorteio. Mendes, portanto, pode ser o escolhido.

   Os três amigos não deram a menor importância ao dispositivo da constituição que determina a separação dos Três Poderes e afrontaram a opinião pública com a sua falta de pudor.


   Não dá para Temer nem Gilmar afirmarem, dessa vez, que estavam apenas jogando conversa fora.

São Paulo - 463 anos

GilsonSampaio



‘Não se faz oposição a um governo golpista, se combate’, defende Eugênio Aragão

Via SUL 21


desde o período do Império, os juristas brasileiros são os maiores golpistas. (Foto: Lula Marques/Agência PT)

Marco Weissheimer

O procurador federal Eugênio Aragão criticou, na tarde de sexta-feira (20), a naturalização do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e a aceitação do governo Michel Temer como algo legítimo. “Nós podemos ser oposição a um governo eleito legitimamente, mas não podemos ser oposição a um governo golpista. Não se faz oposição a um governo golpista, se combate. Eles não são nossos adversários, são inimigos”, disse o ex-ministro da Justiça durante o painel “Defesa da democracia e o futuro da esquerda”, realizado no Parque da Redenção dentro da programação do Fórum Social das Resistências. Aragão criticou também, no atual contexto político, as propostas de eleições diretas já e de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.

“Neste momento, pautas como Diretas Já e Constituinte são agendas que mais nos dispersam que nos unem. A agenda fundamental é o golpe que não passou de um arrastão de trombadinhas. O tema central é o desfazimento do golpe e a restituição da presidenta Dilma. Não podemos abandonar essa agenda sob pena de sermos acusados de hipócritas. Não dissemos que esse golpe foi misógino, machista e antidemocrático? Tudo isso passou? Negar o nosso discurso e trocá-lo por uma variação é algo que nos enfraquece. Uma nova eleição direta agora significaria aprofundar o golpe, tornando a reconquista da legitimidade mais distante. Se tivéssemos uma nova Constituinte agora, a direita transformaria o Brasil num Estado teocrático”, afirmou.

“Os juristas brasileiros são os maiores golpistas”

Eugênio Aragão definiu o atual momento vivido no País como a mais grave crise do republicanismo brasileiro. “Voltamos a um estágio atrasado marcado pela desestruturação das nossas instituições e pela destruição de políticas públicas. A superação desse momento vai depender da nossa capacidade de gerar coesão. Para isso, precisamos modular o nosso discurso, definir uma estratégia comum e superar dois vícios históricos da esquerda: o esquerdismo e o burocratismo”, defendeu. Para o procurador, o discurso do “Volta Dilma” não precisa ser contrastado com a inviabilidade disso acontecer. “O que é mais importante agora é a manter a coerência e a unidade. Esse discurso nos unifica. Precisamos promover um grande debate nacional, formando comitês locais, organizando seminários, fazendo conversas como esta que estamos fazendo aqui hoje”.


O ex-ministro não poupou críticas ao Judiciário, assinalando que, desde o período do Império, os juristas brasileiros são os maiores golpistas. “Quando a República foi proclamada, em 1989, o superior tribunal de justiça da época manteve todos os seus juízes. Não houve nenhuma mudança na passagem da monarquia para a república. O golpe deles é permanente e muda de face a cada instante para nos confundir”. Para Aragão, a extrema debilidade do Estado brasileiro facilitou o golpe. “Quando saímos da ditadura, não fizemos nenhuma transição democrática de verdade. Quando o STF disse que a Lei da Anistia não permitia o julgamento dos crimes de tortura, desaparecimentos forçados e execuções, a anti-anistia se institucionalizou. Recusamos justiça a atrocidades do passado. Isso foi apenas o começo. Não quisemos discutir os temas da unificação e da desmilitarização das polícias. Fomos por demais lenientes e deu nisso: uma geléia geral em que a esquerda se amalgamou com aqueles que querem destruí-la”.

“O futuro da esquerda passa pela democracia”

Organizado pela Central Única dos Trabalhadores e pela Fundação Friedrich Ebert, o debate também contou com a presença do ex-senador chileno e presidente da Fundação Chile 21, Carlos Ominami, da deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) e do presidente da CUT-RS, Claudir Nespolo. Ex-ministro da Economia do Chile, Carlos Ominami fez uma análise dos problemas enfrentados pela esquerda latino-americana e apontou aquele que é, na sua opinião, o principal eixo programático para a superação do quadro atual. “O futuro da esquerda passa pela democracia e o futuro da democracia passa pelo seu aprofundamento”. Para Ominami, os golpes que aconteceram em Honduras, no Paraguai e no Brasil se deram não só pela ofensiva da direita, mas também pelos erros cometidos pela esquerda. “Nós temos democracias de baixa intensidade que são muito frágeis. Fizemos mal algumas coisas. Não devemos considerar a democracia como um meio para chegar a outra coisa, mas sim como um fim”, defendeu.

O ex-senador, que participa atualmente de uma articulação para formar uma nova frente da esquerda chilena, chamou a atenção ainda para a necessidade de defender a democracia de seus novos inimigos. Entre eles, destacou o ceticismo com a política e a democracia, o populismo de direita (expresso exemplarmente, segundo ele, na vitória de Donald Trump nos Estados Unidos) e o populismo judicial. “É algo ruim e muito danoso quando juízes começam a legislar e governar ou quando querem fazer justiça com a imprensa. No caso do Brasil, o que está se buscando não é fazer justiça, mas sim impedir que Lula volte a disputar o governo com as armas da democracia”.
“Não há democracia de direita”

A deputada Maria do Rosário também defendeu a necessidade de a esquerda priorizar programaticamente a agenda da radicalização da democracia. “A direita despreza a democracia. Produzir uma democracia renovada é, portanto, uma tarefa da esquerda. Não há democracia de direita, pois esta não respeita sequer os valores e princípios clássicos dos liberalismo. Ela trabalha com uma produção contínua de crises que inviabilizam a continuidade da democracia. Nós não estamos vivendo uma crise da democracia hoje no Brasil, pois a democracia faliu no dia do impeachment da presidenta Dilma. O golpista Temer não tem nenhuma legitimidade para indicar o novo ministro do STF, após a morte de Teori Zavascki. Do mesmo modo, o Senado, cheio de investigados na Lava Jato, não tem nenhuma isenção para sabatinar o novo ministro”, afirmou.

Rosário sustentou ainda que a esquerda deve retomar o debate sobre o direito à representação e a qualidade dessa representação. Além disso, acrescentou, precisa enfrentar o tema do capital. “Não há possibilidade de democracia com o atual grau de exploração. Para ser democrática, a esquerda precisa ser anti-capitalista, humanista e feminista. Precisa assumir integralmente a agenda dos direitos humanos, que nem sempre foram um tema central para a esquerda”.


Claudir Nespolo, por sua vez, definiu a conjuntura atual como um período de resistência, de acumulação de forças para uma nova fase. “Estamos assistindo a uma revisão da Constituição de 1988, que está sendo feita sem voto, sem participação popular e sem um processo constituinte. O centro dessa revisão é o ataque à Previdência e às leis trabalhistas”. O presidente da CUT-RS anunciou que, para enfrentar essa ofensiva da direita, estão sendo construídos, em todo o país, comitês em defesa dos direitos para preparar a população para uma grande greve geral em 2017.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Em segredo, Serra volta a negociar Base de Alcântara com os EUA


Em segredo, Brasil volta a negociar Base de Alcântara com os EUA

André Barrocal

Iniciativa partiu do chanceler Serra. A primeira oferta brasileira teria sido recusada

Marcello Casal Jr / Agência Brasil


Serra: ele quer mais proximidade entre Brasília e Washington


Brasil e Estados Unidos retomaram secretamente as negociações de um acordo sobre o uso de uma base militar brasileira no Maranhão para o lançamento de foguetes norte-americanos. Encerradas em 2003, início do governo Lula, as conversas voltaram por iniciativa do ministro das Relações Exteriores, José Serra, interessado em uma relação mais carnal entre os dois países.

O embaixador do Brasil em Washington, Sérgio Amaral, conversou sobre o assunto com o subsecretário de Assuntos Políticos do Departamento de Estado norte-americano, Thomas Shannon, ex-embaixador em Brasília. Uma proposta mantida até aqui em sigilo foi elaborada e apresentada pelo Itamaraty a autoridades dos EUA. Teria sido rejeitada, segundo CartaCapital apurou.

A Base de Alcântara é tida como a mais bem localizada do mundo. Dali foguetes conseguem colocar satélites em órbita mais rapidamente, uma economia de combustível e dinheiro.

No fim do governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), de quem Sérgio Amaral era porta-voz, houve um acordo entre os dois países. Foi enviado ao Congresso brasileiro, para a necessária aprovação. Logo ao herdar a faixa do tucano em 2003, o petista Lula enterrou o caso.

Um dos ministros a defender o arquivamento naquela época foi o hoje colunista de CartaCapital Roberto Amaral, então na Ciência e Tecnologia. Por seus termos, relembra ele, era um “crime de lesa-pátria”.

Os EUA impunham várias proibições ao Brasil: lançar foguetes próprios da base, firmar cooperação tecnológica espacial com outras nações, apoderar-se de tecnologia norte-americana usada em Alcântara, direcionar para o desenvolvimento de satélites nacionais dinheiro obtido com a base. Além disso, só pessoal norte-americano teria acesso às instalações.

“O acordo contrariava os interesses nacionais e afetava nossa soberania”, afirma Amaral. “Os EUA não queriam nosso programa espacial, isso foi dito por eles à Ucrânia.”

Enterrada a negociação com Washington, a Ucrânia foi a parceiro escolhido em 2003 para um acordo espacial. Herdeira da União Soviética, tinha tecnologia para fornecer. Brasil e Ucrânia desenvolveriam conjuntamente foguetes para lançamentos em Alcântara, com o compromisso de transferência de tecnologia de lá para cá.

Um telegrama escrito em 2009 pelo então embaixador dos EUA em Brasília, Clifford Sobel, e divulgado pelo WikiLeaks, relata uma conversa tida por ele com o então representante ucraniano na cidade e mostra a desaprovação do Tio Sam ao entendimento Ucrânia-Brasil. Os EUA não queriam “que resultasse em transferência de tecnologia de foguetes para o Brasil”.

O entendimento do Brasil com a Ucrânia foi desfeito em 2015, após consolidar-se lá um governo pró-EUA.


Na proposta sigilosa de agora, o Brasil teria oferecido a base em troca de grana e tecnologia. As proibições do acerto de 2002, chamadas “salvaguardas”, seriam flexibilizadas. Teria sido esse o motivo da recusa norte-americana.

Leia sobre o contrato vergonhoso

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

QUEM MATOU TEORI ZAVASCKI?


feicibuqui do Francisco Costa

QUEM MATOU TEORI ZAVASCKI?

Tido por responsável e altamente competente, o Ministro Teori Zavascki vinha debruçado sobre as delações feitas por 77 funcionários da empreiteira Odebrecht, onde foi aberta a caixa preta da corrupção brasileira, com denúncias à esquerda, à direita e até de executivos e políticos de outros países, no exterior, buscando consistências e inconsistências, coerências e contradições, peneirando todo o dito pelos depoentes.

Zavascki sacrificou as férias (recesso) e deveria protocolar os depoimentos hoje, acatando-os.
São 77 substanciosos e longos depoimentos, dos quais só se conhece um, feito por Claudio Melo Filho, ex vice-presidente de relações internacionais da Odebrecht.

Nele aparecem Michel Temer, citado 43 vezes como LADRÃO do dinheiro público, Eliseu Padilha, citado 45 vezes como LADRÃO do dinheiro público, Moreira Franco, citado 34 vezes como LADRÃO do dinheiro público, Gedell Vieira Lima, citado 67 vezes, como LADRÃO do dinheiro público.

Esta é a cúpula do crime organizado, encastelado no Palácio do Planalto, mas há LADRÕES mais, citados: Aécio Neves, Geraldo Alkimin, José Serra, Aloysio Nunes, Eduardo Cunha, Delcídio Amaral, Rodrigo Maia, Agripino Maia, Renan Calheiros, Heráclito Fortes, Arthur Virgílio, José Carlos Aleluia, Francisco Dorneles... Para ficar só nos golpistas mais conhecidos, a eles se somando dezenas mais, todos LADRÕES do dinheiro público.

Entre a cúpula da quadrilha e os LADRÕES no varejo, o elo de ligação, Romero Jucá, o Marcola da política, o que exigiu que a sangria da Lava Jato fosse estancada, antes que chegasse neles, foi citado 106 vezes como LADRÃO do dinheiro público.

Estes números se referem a um, e eu disse UM, entre 77 , isto, SETENTA E SETE depoimentos, de como a Petrobrás e os cofres públicos enriqueceram uma vasta quadrilha, que deu um golpe de estado para preservar-se fora das cadeias.

Indiscretos assessores dos Ministros do STF e advogados dos beneficiários das delações premiadas, afirmam que as delações atingem mais de 300 cabeças coroadas, inclusive do Judiciário.

E dizem mais: os nomes de Luis Inácio Lula da Silva e Dilma Vana Rousseff NÃO aparecem em nenhum dos 77 depoimentos.

Está quase na hora do povo brasileiro entender que quando gritou Barrabás gritou o nome errado.

E na foto um homem de palavra: falou que ia estancar a sangria e estancou.


A imagem pode conter: 1 pessoa

LuisFernandoVeríssimo: Coxinhas

Via estadim


A longa história de descaso das autoridades brasileiras pelo escândalo das cadeias é a abstração moral em pessoa

Luis Fernando Verissimo

O ex-chefe da Secretaria Nacional de Juventude, exonerado do cargo porque lamentou que não houvesse mais chacinas nas prisões, prefaciou sua declaração dizendo que, nesse assunto, era “coxinha”. Me surpreendi. Sempre achei que “coxinha” fosse o bem-humorado apelido dado às pessoas, na sua maioria de classe alta ou média, que se manifestaram pelo impeachment da Dilma em particular e contra o PT em geral.

“Coxinha” era o oposto de petista. Se eu fosse construir a imagem de um típico “coxinha” seria um jovem não necessariamente rico, mas bem de vida, com um sincero horror do PT e simpatizantes, convencido de estar defendendo a democracia, além dos seus privilégios. Jamais imaginaria o bom moço aprovando a guerra de facções e suas terríveis consequências dentro das prisões, para resolver o problema das superlotações.

Mas o ex-secretário da Juventude, aparentemente, tem outra definição para “coxinha”. Confessou-se um “coxinha” para justificar uma opinião que só poderia ser de um “coxinha”.

Quantas pessoas se descobririam “coxinhas”, no mau sentido, se precisassem se definir sobre o assunto? O pensamento nazista é tentador. As experiências de eugenia feitas pelos nazistas para purificação da raça são precursoras do que se faz hoje em matéria de engenharia genética.

Com uma diferença: os nazistas faziam suas experiências em crianças, sem anestesia. A eugenia é um bom exemplo, ou um péssimo exemplo, do que ocorre no Brasil, há séculos. Há por trás do tratamento dado aqui ao negro, ao pardo e ao pobre, cuja amostra mais evidente é esse sistema carcerário ultrajante, um mal disfarçado intuito de purificação.

Empilhar criminosos, independentemente do caráter do crime, em cadeias infectas e esperar que eles se entredevorem é um método prático de depuração. Os campos de extermínio nazista – abstraindo-se a questão moral – eram exemplos de praticidade. A longa história de descaso das autoridades brasileiras pelo escândalo das cadeias é a abstração moral em pessoa.


Abstraindo-se a questão moral, a receita “coxinha”, no mau sentido, para o problema faz bom sentido. As facções se aniquilam mutuamente, os bandidos sofrem o que merecem – sem anestesia – e a nação agradece. Portanto: ignore-se a questão moral.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Fascismo galopante: MPF pede punição de reitor e aluna por atos políticos na UFRJ




Cristina Indio do Brasil - Repórter da Agência Brasil


A Procuradoria da República entrou com ação contra o reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher, e a presidente do Centro Acadêmico de Engenharia da UFRJ, Thais Rachel George Zacharia, por prática de improbidade administrativa por terem promovido atos de caráter político-partidário dentro da UFRJ. Os dois irão responder ao processo na Justiça Federal, segundo a procuradoria.

De acordo com o procurador da República, Fábio Aragão, os dois promoveram atos dentro da universidade contrários ao processo de impeachment de Dilma Rousseff. Um dos atos foi o encontro UFRJ em Defesa dos Direitos Sociais, Políticos e Democráticos, realizado no dia 29 de março de 2016, com convocação na página oficial da universidade, para uma manifestação contra o impeachment de Dilma Rousseff. O outro ato foi a ida da ex-presidente a UFRJ, depois de afastada do cargo. “Durante o impeachment, eles fizeram manifestação contrária ao impeachment e após o impeachment, a Dilma já era ex-presidente e foi lá. Eles fizeram um evento de exaltação dela. A lei impede que se use o patrimônio público para satisfazer interesse partidário pessoal. Ali é uma repartição pública”, disse o procurador.

Segundo o procurador, ação foi motivada após uma representação de um aluno que alegou que o reitor estaria usando a universidade para interesses pessoais. “Começamos a apurar o caso e percebemos, que, realmente, ele [Roberto Leher] é um dos fundadores do PSOL, tem vinculação partidária e usou a universidade, que é um patrimônio público, para defender uma bandeira pessoal e do partido, ao qual ele defende e sustenta”, disse o procurador à Agência Brasil.

Na ação, o procurador requer a notificação de Leher e de Thais Zacharia para que apresentem manifestação por escrito no prazo de 15 dias à 21ª Vara Federal da Justiça Federal no Rio de Janeiro. “Eles são réus nesta ação e vão ter que responder agora perante o Poder judiciário”, disse.

Thais Zacharia responderá ainda por ter prometido a expedição de certificados de atividades complementares especiais, necessários à graduação, aos alunos que participassem dos atos.

Depoimentos

Em depoimento ao MPF, os dois apresentaram documentos e deram detalhes sobre os atos ocorridos na UFRJ. “Ele [o reitor] confirmou. A única coisa que sustenta é que ele acha que não há nada de errado em fazer isso”, disse o procurador.

Também em depoimento, Thais Zacharia informou que não expediu certificado para alunos que participaram do evento. Mas o MPF considerou que a promessa de expedição de certificados de horas complementares a quem participasse do ato na UFRJ caracteriza improbidade.

Na avaliação do procurador, a legislação não autoriza uso de instalações públicas para a defesa de interesses particulares e atos de caráter político. “O Código de Ética da Administração Pública proíbe este tipo de coisa, o estatuto dos servidores públicos também proíbe esta prática. Existem várias leis que proíbem, a Constituição, no princípio da legalidade e da moralidade administrativa”.

Penas

A Lei de Improbidade Administrativa, aplicada ao servidor público, prevê como pena perda de cargo público, suspensão de direitos políticos e multa a ser arbitrada pelo juiz, calculada de acordo com o valor do salário do servidor. Se caso forem condenados na ação, a punição será definida pela Justiça.

UFRJ

A assessoria de imprensa da reitoria da UFRJ informou que o reitor Roberto Leher está de férias e que a instituição não irá se manifestar sobre o caso, pois não foi comunicada da ação do MPF. “A Reitoria da UFRJ só irá se manifestar em relação a isso quando for notificada oficialmente pelo Ministério Público Federal”. A reportagem não conseguiu contato com Thais Zacharia.

Edição: Carolina Pimentel

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O que está acontecendo com o Brasil começou em Honduras e foi aperfeiçoado.

Via Calle2

Cassado por se posicionar contrário ao golpe que tirou Zelaya do poder, o juiz Ramón Barrios lembra que golpes do século 21 utilizam instituições e ocorrem dentro da legalidade

Marsílea Gombata  

O que está acontecendo com o Brasil começou em Honduras e foi aperfeiçoado. O impeachment que afastou Dilma Rousseff de seu cargo em 12 de maio de 2016, sob acusação de ter infringido a Lei de Responsabilidade Fiscal, é uma evolução dos movimentos que tiraram Manuel Zelaya do poder em 2009, em Honduras, e Fernando Lugo em 2012 no Paraguai. O diagnóstico é de Ramón Barrios, juiz que foi cassado depois de se posicionar contrário ao golpe que arrancou, ainda de pijamas, o então presidente hondurenho de sua casa para colocá-lo em um avião com destino à Costa Rica.

“Evidentemente, isso que vive o Brasil hoje começou no meu país em 2009. Em Honduras, quando ocorre o golpe contra Zelaya se põem de acordo o Congresso Nacional, o Poder Judiciário, a Igreja, as elites que apoiaram economicamente o presidente de fato Roberto Micheletti e a Embaixada dos Estados Unidos, que saem mundo afora para dizer que não se tratou de um golpe de Estado”, afirma Barrios em entrevista à Calle2. “Se prestarmos atenção, vemos que tanto Zelaya, quanto Lugo e Dilma foram presidentes populares com os pobres, que desafiaram o status quo, desagradando as elites e colocando em xeque suas vantagens financeiras”.

Além do fato de afastarem do cargo presidentes que tinham apoio popular – Dilma foi eleita com 54,5 milhões de votos, Lugo com 705 mil votos e Zelaya com 999.006 – Barrios vê outras características comuns aos três afastamentos. Assim como Dilma, Zelaya e Lugo não foram retirados da presidência por suspeitas de corrupção – como as que recaem nas costas do presidente interino Michel Temer –, eles também não possuíam apoio majoritário no Congresso Nacional. “Zelaya tampouco tinha respaldo da Corte Suprema ou das Forças Armadas”, lembra, ao ressaltar que esses dois atores juntamente com o Parlamento foram os três principais articuladores do golpe em 2009. “A maioria dos legisladores pertencia ao Partido Liberal do presidente, mas muitos eram de uma aula dissidente, pró-Micheletti, o que não lhe garantia a maioria dos votos.”

À época Honduras estava a cinco meses das eleições gerais para escolher presidente, prefeito e deputados. Na Constituição hondurenha não constavam ferramentas de consulta popular, como plebiscito ou referendo, e o que Zelaya buscava era fazer uma consulta prévia até 28 de junho de 2009 (dia do golpe) para saber se os hondurenhos concordavam que nas eleições gerais de novembro se instalasse uma quarta urna para decidir sobre a convocação de uma Assembleia Constituinte para aprovar uma nova Constituição. “A ideia era pensar uma nova Carta, mas os pontos a serem modificados sequer chegaram a ser debatidos, uma vez que esse processo de discussão nunca se concretizou”, explica.

Barrios e outros três colegas juízes se manifestaram contrários ao golpe de Estado e pediram por mais de uma vez o restabelecimento da democracia e do Estado de Direito, através de manifestações públicas em conferências e palestras, ações judiciais e denúncias formais contra o Estado hondurenho e o Judiciário. Membros da Associação Juízes pela Democracia, eles emitiram um comunicado afirmando a necessidade de restituição do Estado de Direito. Foi o gatilho para o Judiciário dar início a processos disciplinares até 5 de maio de 2010, quando foram notificados sobre a destituição de seus cargos por terem “faltado com suas responsabilidades enquanto juízes”.

“Disseram que, por sermos juízes, não tínhamos o direito de opinar e nem de interpor ações, como fizemos”, conta. “Não esperávamos que nos cassariam, pois entendíamos que estávamos exercendo nosso direito enquanto cidadãos, em primeiro lugar, e também como juízes. Afinal quando tomamos posse o principal juramento é o de respeitar a Constituição, e o que estávamos vendo era uma quebra constitucional com o golpe nos moldes em que se deu contra Zelaya”.

“Disseram que, por sermos juízes, não tínhamos o direito de opinar e nem de interpor ações. Não esperávamos que nos cassariam, pois estávamos exercendo nosso direito enquanto cidadão e também como juízes”, diz Barrios

A destituição em 6 de julho de 2010 fez os magistrados levarem o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA). A petição fala em penas ao Estado hondurenho e o direito dos juízes em retomar seus cargos nos tribunais que antes atuavam. A comissão encaminhou a denúncia à Corte Interamericana de Direitos Humanos, que a acatou no caso conhecido como Caso No. 12.816 Adán Guillermo López Lone y otros vs. Honduras e em 5 de outubro de 2015 emitiu uma sentença na qual faz recomendações ao Estado hondurenho como reconsiderar as vítimas do golpe de Estado e reparar as violações cometidas. Além disso, deve indenizar os quatro juízes e permitir com que atuem novamente no Judiciário hondurenho.

“Nenhuma dessas exigências, no entanto, foi cumprida até agora”, diz o juiz que depois do golpe teve de se dedicar exclusivamente ao outro ofício que mantinha paralelamente ao trabalho no tribunal: lecionar na Universidade Nacional Autônoma de Honduras, em San Pedro Sula. “O Estado de Honduras tem um ano para cumprir a sentença. Mas temos medo de que não a cumpra, pois não demonstra sinal algum de que irá fazê-lo”.

Ao avaliar que os golpes do século 21 são heranças de um passado ditatorial da América Latina, ele observa que hoje tratam-se de golpes brandos e com uma nova roupagem, ou seja, sem militares no comando do complô. “Os golpes do século 21 diferem dos golpes militares de décadas passadas por se utilizarem das instituições do Estado. Sua característica principal é utilizar instituições estabelecidas na República”, explica sobre o Legislativo representado pelo Congresso e o Senado, e o Judiciário, representado pelas cortes de Justiça. “Utilizam-se os poderes formais e a mesma institucionalidade para tirar do poder presidentes que molestam as elites e questionam a ordem antes estabelecida”.

“Utilizam-se os poderes formais e a mesma institucionalidade para tirar do poder presidentes que molestam as elites e questionam a ordem antes estabelecida.”

Dentre as consequências, entretanto, há traços comuns aos de décadas anteriores, como a repressão, a militarização e o aumento da violência, a exemplo do que vem ocorrendo em Honduras. O que se seguiu após o golpe que substitui Zelaya por Michelleti foi um clima de suspensão de garantias constitucionais, uma maior presença de militares nas ruas e denúncias de repressão e violações aos direitos humanos cada vez mais comuns. No mandato do sucessor de Zelaya, o presidente eleito Porfírio Lobo, Honduras chegou a ter 86,5 homicídios para cada 100 mil habitantes em 2011, segundo Observatório Nacional da Violência, da Universidade Nacional Autônoma de Honduras. No ano seguinte, atingiu o recorde mundial, com 85 mil para cada 100 mil habitantes. Antes do golpe contra Zelaya, as taxas eram de 57,9 mil em 2008 e 66,8 para cada 100 mil habitantes em 2009.


“Assim como foi em Honduras, no Brasil o governo interino é legal, mas é ilegítimo. Ou seja: tem legalidade uma vez que foi posto de acordo com os processos que as instituições brasileiras preveem, mas não necessariamente têm legitimidade do povo brasileiro. Afinal, 367 deputados e 55 senadores não podem falar por 54,5 milhões de brasileiros que elegeram Dilma”.