domingo, 8 de outubro de 2017

50 anos do assassinato do Che: La Higuera, um lugar no mundo

Rebelión


Lautaro Actis

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti



 

Existem lugares que, por se encontrarem em pontos remotos, possuírem climas inóspitos ou por não desfrutarem de certos serviços públicos não são atraentes para muitas pessoas. La Higuera é um deles. É um local onde somente chegam aqueles que tem um autêntico interesse em conhece-lo.


Uma longa estrada de terra entre as montanhas, na qual as curvas se sucedem uma após a outra em uma sequência onde os declives são pronunciados leva até lá. Um clima seco produz rachaduras tanto na pele como na terra, chuvas somente durante um mês por ano, o mesmo mês no qual se pode conseguir alguma fruta. O sol divide o dia em duas partes: todas as atividades ao ar livre devem ser realizadas antes das onze da manhã ou depois das quatro da tarde. A água é distribuída apenas até o início da tarde  e não há luz elétrica. Internet, wi-fi, e sinal de celular são desconhecidos ali. É um lugar onde somente permanece que realmente tem um autêntico interesse em descobri-lo.


É mais um desses povoados empoeirados perdidos no nada, a quase 2000 metros de altitude, que ninguém teria conhecido se ali, na sua escolinha primária, não tivesse sido assassinado uma das personalidades mais transcendentes do século XX: Ernesto “Che” Guevara.



Na pequena praça, a um simples olhar se visualizam três bustos do guerrilheiro nascido em Rosário, na Argentina. A nova escola primária, assim como a maioria das casas e armazéns, tem murais ou grafittis de viajantes e militantes sociais de todo o planeta, que vieram a esse povoado onde a presença da morte do Che os faz passar várias horas em ônibus desmantelados em estradas de chão desenhadas em grandes serras cobertas de vegetação de áreas secas – espinilhos e arbustos, e cujo ar resseca a pele só no abrir a janela do  ônibus para espiar.


  

É que por mais que existam reiteradas promessas de asfalto e melhorias na estrada, a viagem entre Valle Grande (a cidade mais próxima) e La Higuera demora longas 3 horas, onde o sol é onipresente, interrompida somente por pequenos povoados como Pucará, autodenominada “a capital do céu”, que permite observar, tanto no seu escudo como na Delegacia de Polícia a mundialmente conhecida foto do homem da estrela que o fotógrafo cubano Alberto Korda captou na Praça da Revolução, em Havana.

A 20 metros da praça do povoado se encontra o Museo Comunal “La Higuera” construído sobre a demolida escolinha onde na segunda-feira, 9 de de outubro de 1967, logo depois de receber ordens de La Paz e Washington, as balas do sargento Mario Terán atravessaram primeiro o antebraço e a coxa de Guevara, para logo depois, em uma segunda execução depois que o próprio Che lhe ordenasse que “apontasse bem”, perfurar o pescoço do líder guerrilheiro. O relógio assinava que faltavam 15 minutos para a uma da tarde, e o Che está se esvaindo quando ingressa o sargento Bernardino  Huanca, que lhe dá um pontapé que o põe de rosto para cima e, a menos de um metro de distância, lhe dispara a queima-roupa direto no coração.  Uma hora antes, o haviam tirado do local para tirar algumas fotos. Muitos moradores do povoado tem essa lembrança, lá naquele espaço onde hoje não há mais espaços em branco nas paredes. Como se se tratasse de algum santuário de alguma divindade pagã, há numerosas mensagens, agradecimentos, fotos, bandeiras e palavras pululam nas paredes, como se se tratasse do famoso bar “La Bodeguita del Medio” de Havana.  







Ninguém no povoado ou na região sabia quem era Che Guevara. Um povoado onde ainda hoje não há televisão, rádio, jornais, internet e sequer sinal de celular, além de transporte interurbano. As novidades do mundo não chegam com o café da manhã nessa parte remota da Bolívia. Com isso, podemos imaginar como eram as notícias há meio século.  “Se eu soubesse quem ele era, teria ajudado ele a escapar”,  afirma dom Florêncio diante das minhas perguntas, enquanto descíamos para a Quebrada Del Churo, local onde Guevara foi capturado e hoje se encontra uma pedra com uma estrela vermelha. Uma das trilhas que vai para aquele local atravessa a fazenda do avô que, junto com seu filho Santos, cobra 10 pesos bolivianos (um dólar e meio) de quem quiser caminhar uns 40 minutos  descendo até o rio. Dom Florêncio tinha 27 anos naquela tarde de domingo, 8 de outubro, quando o combate terminou com a captura de Guevara e a caravana passou por sua chácara. “Parecia um indigente, barbudo, sujo, magro, com as roupas rasgadas e com sapatos improvisados feitos de algum tecido”. No dia 10 de setembro daquele ano, o Che tinha escrito em seu diário: “Eu cruzei o rio a nado com a mula, mas perdi os sapatos na travessia, e agora estou descalço, o que não tem graça nenhuma”.

A caravana de soldados a pé com os prisioneiros e os mortos em combate na Quebrada Del Churo demorou cerca de duas horas. Dona Hirma tinha 20 anos quando a caravana passou pela porta da sua casa. Ela trabalhava com ajudante da tipografista quando o mundo passou os olhos sobre seu pequeno povoado. “Estaria começando um novo Vietnam?”, perguntava-se o Che em seu diário diante da confirmação da intervenção norte-americana nos combates.  “As pessoas do povoado estavam assustadas, e apenas tinham coragem para espiar os barbudos estrangeiros atrás das portas das suas casas,  pois estavam prendendo e levando para Valle Grande os camponeses que ajudavam os guerrilheiros com comida e víveres”, conta a senhora que é dona do armazém “La Estrella”, em frente à praça.  Sua tenda oferece pães assados em forno de barro e queijos feitos com o leite ordenhado todas as manhãs por essa senhora de 70 anos. Depois de fuzilá-lo, expuseram o corpo do guerrilheiro cubano-argentino fora da escola, momento em que as pessoas do povoado viram pela primeira vez a imagem do perigoso revolucionário  do qual lhes falavam. Dona Hirma e uma amiga se aproximaram para observar: “ficamos impressionadas por seu olhar, já que tinha os olhos abertos”, lembra.

“Se uma coisa o exército fez bem foi introduzir a cultura do medo na região”, assegura Leo, responsável pelo escritório de turismo de Valle Grande, e grande conhecedor da história, enquanto vai de uma reunião para outra em plena organização para os eventos que serão realizados  em outubro e que espera que atraiam milhares de pessoas.  “As pessoas da região estavam assustadas pela psicose criada pelo exército  e pelo permanente estado de sítio em que se vivia”, acrescenta Leo. Essa estratégia não se deteve uma vez morto o líder guerrilheiro: “Os aviões soviéticos e cubanos não bombardeá-los por ele ter sido morto”, é o que os militares diziam, afirma dona Hirma.


São seis da tarde e a noite chega depois de um sensual entardecer nas montanhas, quee tinge de matizes violáceos, celestes e laranjas o horizonte além do rio Grande. O céu se enche de brilho diante da ausência absoluta de luz elétrica, e todas as estrelas servem de fundo à estátua do Che.  Encontro-me com Casiano, um curioso menino de uns 12 anos que ganha suas moedas para doces e refrigerantes guiando os visitantes na Quebrada del Churo. Quando pergunto a ele o que sabe sobre o Che, me conta uma história contada por seu avô: “quando a caravana de soldados  e prisioneiros passou pelo povoado, o Che tinha um relógio em seu pulso e quis dá-lo a um camponês que estava olhando, mas os soldados não deixaram, por mais que ele tenha insistido  em dá-lo ao trabalhador”. Ao ver minha máquina fotográfica, pede-me que eu lhe tire uma foto, e logo tira uma de mim. É a sua primeira fotografia com uma câmera que não seja a do seu celular. No dia seguinte, ele viria me convidar para jogar futebol na canchinha da escola, sob a luz da lua cheia. Já sou seu amigo, e ele será o único no povoado a me chamar por meu nome, e não “Don” ou “gringo”. É o menino rebelde do povoado.  

Apesar da presença de tudo o que se relaciona com a morte do Che, La Higuera não vide do turismo – a maioria dos visitantes vem por um par de horas, tira algumas fotografias e vai embora. Milharais, vacas leiteiras batatas entre outros poucos cultivos asseguram a dieta dos moradores. Somente existe uma escola primária, por isso os adolescentes vão para Valle Grande ou Santa Cruz para estudar e já não voltam. “Não há gente para trabalhar a terra, essa que nos dá de comer todos os dias”, lamenta dona Hirma. Hoje vivem ali aproximadamente 50 pessoas, antes eram 70. Seus dois filhos que ainda vivem no povoado ganham a vida oferecendo transporte de La Higuera até Valle Grande em seus táxis. Consciente de como o turismo altera a identidade da população, a senhora e a maioria dos moradores estão a favor de que haja maior exploração turística. Isso geraria mais clientes para sua tenda e mais comensais para seus almoços e lanches caseiros. Ela sabe que se a estrada for asfaltada e se for instalada luz elétrica uma maior quantidade de turistas se animará a vir para tirar fotos junto à estátua do Che na frente da sua casa.


Na frente da praça, funciona a escola primária. Atrás, há um espaço com uma canha de futebol que às vezes serve de alojamento comunitário para aqueles que querem vir ao povoado mas não tem dinheiro para alojamento. Na porta, se aproxima de mim Brian, um menino de 6 anos que está sempre sorridente. Ele me conta que não gosta de ir à escola, ma se ouvem os gritos da sua mãe da porta da sua casa e não lhe resta opção. “Sabes quem é o home da estágua?”, pergunto a ele. “Sim”, ele me diz. “É  um guerrilheiro que a polícia matou”, responde antes de entrar na escola, na qual todas as paredes tem frases ou murais do Che. Me mostra que leva um ovo e uma batata para que lhe cozinhem o almoço no estabelecimento educativo.

“Às três da tarde do dia 8 de outubro termina o combate de Churo e o Che é capturado.  Às sete horas da noite chegam a La Higuera. No dia 9 de outubro, ao meio dia, ele é fuzilado. Em seguida, o levam em um helicóptero a Valle Grande, onde o expõem em “La Lavanderia” – lavanderia que funcionava no hospital da cidade, e onde o fotógrafo francês Marc Hutten tira as famosas fotografias do Che morto com os olhs abertos. Lá, o médico Ustary Arze toca o corpo do guerrilheiro e nota que ele ainda está quente e que não tinha a rigidez de um morto há mais de um dia. Dessa forma, ele se transforma na primeira pessoa a denunciar que o Che havia morrido nesse mesmo dia e não no dia 8 de outubro em combate, como afirmava o exército: o Che foi assassinado”, conclui Cristian, um historiador francês fanático do Che que está radicado há anos em La Higuera, e que junto com sua companheira, são donos da hospedaria “Los Amigos”, a pousada mais confortável do povoado. Cristian vai até sua volumosa biblioteca, pega dois livros e os alcança a mim. Trata-se de “El Combate del Churo e o assassinato do Che”, de Reginaldo Ustariz Arze, e “El Asesinato del Che em Bolivia: Revelaciones”, de Adys Cupull e Frolan González. Nesses livros, se denuncia que a ditadura do general  Barrientos ocultou e silenciou muitas vozes e testemunhas para disseminar a idéia de que o Che tinha sido morto em combate no dia 8 de outubro, daí esse dia ter sido lembrado durante tanto tempo, e não o dia 9 de outubro, como a data real da morte. 

Logo após a tomada dessa famosa foto em “La Lavanderia”, levam o Che ao necrotério  e cortam-lhe as mãos antes de o enterrarem em uma fossa comum nos arredores do cemitério de Valle Grande junto a outos 6 guerrilheiros, permanecendo ali em segredo por 30 anos, até que no ano de 1997 um dos militares desmentiu a versão até aquele momento pelo exército boliviano  tinha morrido no combate de 8 de outubro e de que seus restos tinham sido cremados e as cinzas jogadas no rio Grande. Atualmente, onde se localizava essa fossa comum está situada o “Mausoleo del Che”, junto com um interessante museu com fotos, réplicas do diário do Che e de suas vestimentas, além de muita informação histórica.

Dom Ismael tinha seis anos quando a guerrilha andou por aqui. Lembra que passaram guerrilheiros descendo de Abra del Picacho, povoado situado mais acima de La Higuera, e que eles até dançaram algumas músicas aproveitando que o povoado estava em festa. “Eram vários homens que passaram tranqüilos, cumprimentando como qualquer outro visitante. Não lembro das armas, somente das suas grandes mochilas”, me comenta, enquanto que, com a minha inocenta ajuda, mata um porco. É uma tarefa encomendada por dona Gregória, que seguindo sua visão para os negócios se prepara para a próxima festa do povoado, onde venderá torresmo com batatas e milho, e assado de porco.  “Você tem medo da morte?”, me surpreende ele, e atino em responder um “não”. “Todos dizemos isso, mas quando ela aparece por aí, realmente nos damos conta do que sentimos diante dela”, continua. “ E você gostaria de ser um soldado de Jesus?”, me pergunta dom Ismael, faca na mão raspando o couro do porco já morto. É que ele é evangélico e freqüenta um templo da Igreja Universal que há em Valle Grande. Ele compara a guerrilha guevarista com os soldados de Jesus. “Como o Che, Jesus lutou contra o Império, no seu caso  o romano. Predicando o bem contra o mal de Satanás. O Che buscava uma vida melhor para nós os camponeses, mas os ricaços não o deixara”, conclui, e já é hora de carnear o cuchi (porco).

As pessoas do povoado começam a se movimentar, todos preparando alguma comida para vender. É que se aproxima a festa da Virgen de Guadalupe, padroeira do povoado, sim a mesma Virgem de Guadalupe que o padre Hidaldo y Cstilla levantou como bandeira na luta pela independência do México. A tradição consiste em fazer uma promessa à virgem e dançar três dias seguidos. Por isso, todos os dias 7, 8 e 9 de setembro há festa em La Higuera e em todos os povoados dos arredores. Nesses dias, todos as pessoas originárias de La Higuera que migraram para procurar melhor sorte em outros pagos, geralmente a Valle Grande, Santa Cruz de la Sierra ou para a Argentina, voltam para reencontrar-se com a sua terra. Copos  de chicha (bebida feita com milho fermentado) de sucumbé (bebida quente preparada com leite ordenhada pela manhã, cravo de cheiro, canela e singani, esta uma aguardente de uva) giram de mão em mão, no ritmo de bandas que tocam música vallegrandina, uma espécie de rancheira mexicana, com chapéus texanos  e guitarrões ao lado do altar da Virgem, cheio de velas coloridas e flores ofertadas ´por seus fiéis. As pessoas dançam e em seguida se sentam para degustar o porco e a carne picante de frango.

Nessa data, as noites tranqüilas, escuras e silenciosas que caracterizam o povoado são alteradas pela chegada de camionetes 4x4 incrementadas, geradores elétricos, alto-falantes e até fogos de artifício. A mistura de gente que ocorre é interessante. Podem ser facilmente diferenciadas as pessoas que vivem em La Higuera: geralmente são mais retraídas, tímidas, com chinelos nos pés, roupas sujas com os restos de alguma carneada ou de lides com o gado, com os “higuerenses” que hoje vivem longe da sua terra: roupas mais urbanas, jeans, tênis Nike, cortes de cabelo usados por jogadores de futebol e moletons. Também à primeira vista podem ser notadas as personalidades com mais recursos, já que ostentam roupas de marcas européias ou norte-americanas, peles e penteados e maquiagem refinados, sapatos de couro fino e uma presença que ostenta um ar de superioridade.  

Tudo isso ocorre a uns 200 metros da escola, hoje museu, onde ainda retumbam nas suas paredes, como um eco infinito, as últimas palavras do “homem mais completo do mundo”, segundo Sartre: “Fique sereno, você irá matar um homem”.

Outubro será festa. Decorrerão 50 anos da morte do revolucionário que fez com que La Higuera não fosse mais a mesma. Espera-se que cheguem cerca de 10 mil pessoas (ou que consigam chegar) a esse povoado de 50 almas, e que elas levem um pouco dessa terra no coração, como aconteceu com quem escreve estas linhas.





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