segunda-feira, 3 de abril de 2017

Zumbis afetivos

Sanguessugado do  Ulysses Ferraz

Ulisses Ferraz

"Nenhum homem é uma ilha." (John Donne)

Vivemos num mundo regido pelo mercado. Os efeitos sociais mais devastadores são a degradação ambiental, a concentração de renda e o individualismo extremo. Uma sociedade instrumental que se comporta como um circuito integrado na busca incansável de reproduzir a si mesma. Uma lógica que monetariza os valores éticos, precifica as relações, calcula os custos, analisa os benefícios e contabiliza os resultados. Viver é consumir. Consumir é viver. O medo do fracasso econômico e a esperança de sucesso material vivem em constante tensão. Os meios determinam os fins. E os fins justificam tudo. Sociedade brutalizada. Indivíduo isolado.

Ninguém escapa ileso. Nossas essências são neutralizadas. O comportamento individualista se naturaliza. A competição desenfreada, a corrida cotidiana por acumular o quer que seja, a indiferença em relação a tudo que não nos dê um retorno quantificável, o consumismo de bens e pessoas, a descartabilidade das relações, tudo isso acreditamos ser parte da natureza humana. Somos assim. Convencemo-nos disso. É cada um por si e todos por nenhum. A violência do individualismo está por toda parte.

Na vida cotidiana os exemplos afloram sem nos darmos conta. Os livros mais vendidos são os de autoajuda. As peças teatrais de maior sucesso são monólogos. Não perdemos a oportunidade de tirar um selfie. Grande parte dos serviços que contratamos estão disponíveis pelo sistema de autoatendimento. Terapeutas de todas as linhas nos aconselham a cuidarmos primeiro de nós mesmos. Depois o outro. O egoísmo é um sentimento glorificado. Nossa vida é uma autogestão baseada em resultados. Só retornamos ligações ou respondemos mensagens eletrônicas se houver algum tipo de retorno sexual, carreirístico ou financeiro. Caso contrário, indiferença.

Somos empreendedores individuais nas nossas vidas. Somos indivíduos-empresa. Protótipos da revista Você S.A. Assimilamos a linguagem corporativa até nas nossas relações afetivas. Investimos nas relações. E quem investe, espera um retorno maior do que o capital imobilizado. Quem investe espera retornos que superam os riscos. Quem investe espera lucros crescentes. Caso contrário, muda o investimento. No prazo mais curto possível.

A cooperação e o coletivismo foram extintos do nosso vocabulário. A competição e o individualismo reinam soberanos, oligopolistas, como as grandes corporações que os estimulam. Devoramos e somos devorados o tempo inteiro. Mas ao contrário da utopia antropofágica de Oswald de Andrade, do outro, não retemos nada. Descartamos tudo e nos deixamos descartar. O descarte nos dá prazer. E dor.


Funcionamos cada vez mais como zumbis econômicos e afetivos. E no fim do dia, não compreendemos porque vivemos uma vida (des)afetiva. Vazia e profundamente solitária. Também é uma questão de linguagem. Nossos discursos começam e terminam invariavelmente na primeira pessoa. Do singular.

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