segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Religiosa argentina na Siria: "Está muito longe de ser uma guerra civil, é uma invasão"

Via Elespiadigital.com



Santiago Mayor

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti



Numa entrevista exclusiva com RT, a irmã Guadalupe Rodrigo, nascida na Argentina e que morou 4 anos em Alepo, deu seu ponto de vista sobre o conflito mais complexo do Oriente Médio.



Guadalupe Rodrigo nasceu na província argentina de San Luís em 1973 e ingressou na Congregação Cristã do Verbo Encarnado aos 18 anos. Entre 2011 e 2015, viveu na cidade síria de Alepo, um dos principais focos do conflito bélico que esse país atravessa.



Fundada há 30 anos pelo padre Carlos Buela, a Congregação do Verbo Encarnado teve sempre uma vocação missionária que a tem levado a estar nos cinco continentes. Entre outros meios de difusão,utilizam as páginas do Facebook  SOS Cristãos na Síria e Amigos do Iraque.



A irmã Guadalupe contou à RT que ali descobriu o sue lugar e forma de contribuir para um mundo melhor. “Estava estudando na universidade, no primeiro ano de Economia, e pensava em me casar. Contudo, me dei conta que isso não me preenchia, que continuava a ter o coração vazio, e não entendia por quê”, relatou. Depois de um retiro espiritual, entendeu que seu lugar “era justamente a missão, e que consagrando-me a Deus por completo, poderia consagrar-me com o mundo inteiro”.



Duas décadas no Oriente Médio



Além do seu período de vida na Síria durante os últimos anos,  Guadalupe Rodrigo tem uma vasta trajetória por diversos países do Oriente Médio. Aos 23 anos, concluiu sua formação, e lhe propuseram que fosse para a região (Já que não lhes é imposto para onde devem ir.  Havia uma convivência muito boa entre cristãos e muçulmanos, coisa que não acontece no resto dos países árabes. "Estive durante quase 20 anos como missionária em diferentes países da região.

Primeiro, na Palestina, onde estudei árabe durante dois anos”, comentou. Depois, transferiu-se para o Egito “por uns 12 anos”, onde assumiu o cargo de superiora regional, e em função disso teve que “viajar a todas as missões”   que a congregações mantém no Oriente Médio. “Passei os últimos quatro anos de missão na Síria, em Alepo”, destacou.



Segundo contou ela à RT, chegou à cidade em janeiro de 2011, quando a guerra ainda não tinha começado. “Pedi para ser enviada à Siria porque em fins de 2010 minha atividades de superiora regional se encerram e estava muito cansada, inclusive um pouco mal de saúde, necessitando ir para um lugar tranqüilo”, afirmou.



A irmã Guadalupe “conhecia muito bem” a missão de sua congregação ali. “O local e a Síria eram um paraíso antes da guerra”, assegurou. “Havia uma convivência muito boa entre cristãos e muçulmanos, coisa que não ocorre no restante dos países árabes”. “Acredito também que era um local tranqüilo por que eram pessoas que não tinham problemas econômicos. Certamente havia exceções, mas as pessoas viviam muito bem. Era um país rico e próspero”



Uma guerra inventada



Consultada sobre as origens do conflito bélico, que começou poucos meses após a sua chegada á Síria, a irmã Guadalupe foi contundente: “Podemos testemunhar, por ter vivido lá antes da guerra e conhecer essa população, que o que está acontecendo com esse povo está longe de ser uma guerra civil”. Na sua visão, “a palavra certa para denominar o que está acontecendo é mais bem invasão”. Sabíamos que as revoltas não estavam começando propriamente entre a população, mas sim provocadas do exterior”, apontou ela. Apontou ainda que isso não é conhecido “através dos meios de comunicação, por que as grandes cadeias internacionais  sempre mentiram”, e continuam fazendo isso “descaradamente até hoje”.



A religiosa reconhece que previamente existiam grupos opositores ao governo, mas “eram minoritáriso”. A maioria da população “tem apoiado este governo, mesmo ele tendo muitas falhas. As pessoas entendem que esse é o modo através do qual o governo pode atendê-los, sobretudo quanto combater à risca o terrorismo”. As manifestações “das pessoas pedindo que os rebeldes não sejam apoiados, por que eles eram terroristas, que elas apoiavam o governo: temos visto essas imagens na televisão, em cadeias internacionais, mas comentadas como se fossem protestos contra o presidente Assad”, disse.



Guadalupe Rodrigo analisou que “é difícil para um ocidental que não conhece a situação no Oriente Médio entender o que está acontecendo”, mas ao mesmo tempo acrescentou “que é muita prepotência do Ocidente querer julgar os árabes, tirando-os do contexto onde eles vivem”.   



A aliança entre o Ocidente e os terroristas



A entrevistada afirmou que há “diversos fatores que se somam a esse conflito, e os diferencio entre os objetivos que os grupos terroristas perseguem dos que mobilizam os países ocidentais, ainda que em última instância, coincidam no desejo de derrubar o governo. “Esses grupos terroristas que estão lutando tem seus próprios objetivos políticos e religiosos”, assinalou. São “grupos fundamentalistas islâmicos que pretendem impor a lei islâmica e assim acabar com os “infiéis”. Por isso, os cristãos, desde o início do conflito e não somente a partir do último anos, estão sendo massacrados”. Todos esses grupo “que se fazem chamar por rebeles, opositores ou oposição moderada tem, embora sejam diferentes, esse perfil terrorista”, e “de forma alguma buscam a democracia e a liberdade”  do povo sírio.

Mas, por outro lado, “por trás deles, os que os apóiam de fora, têm objetivos econômicos muito claros” . Para a irmã Guadalupe, o principal interesse é “acabar com este governo por que ele não “coopera”, é independente, e não responde nem à Arábia Saudita nem aos interesses ocidentais”. E em torno dessa decisão que “tudo o mais é acomodado” 



Coalizões cosméticas e a intervenção russa





“O conflito esteve manipulado desde o começo,foi inventado”, insistiu a religiosa. “Não nasceu nas ruas por uma revolta popular mas sim foi uma guerra, como tantas outras hoje em dia, planejada a partir de um escritório”, disse. Nesse sentido, ressaltou que tentou-se “debilitar a Síria para debilitar o Irã”, e aí entrou em jogo “o assunto do petróleo e do tráfico de armas”.



É preciso dar um basta no apoio à oposição moderada, por que esta nunca existiu, a não se que consideremos moderado esquartejar uma pessoa.



Esse é “um dos pedidos dos bispos’ terminar com a venda de armas aos rebeldes. Dizem os bispos que “basta de operar a oposição moderada,por esta nunca existiu

Por outro lado, a irmã Guadalupe assinalou que a Igreja, que “levantou sua voz desde o início do conflito”, solicitou à comunidade internacional que, se esta chegasse “a última instância e interviesse”, isso deveria ocorrer  “de acordo com o governo sírio”. Por isso, “foram ridículas as coalizões feitas ao longo dos últimos anos, intervenções totalmente unilaterais, que na realidade eram cosméticas.”. Sem duvidar, a religiosa afirmou: “Nunca fizeram nada, somente aparentavam, chegando-se a situações ridículas como a de estar atacando ao Estado Islâmico e ao mesmo tempo os postos do Exército Nacional Sírio.  



Falar do governo do momento, se é válido ou não, é coisa para um segundo momento. Neste momento é preciso lutar contra o terrorismo”, opinou. As pessoas comentavam muito, brincando mas ao mesmo tempo lamentando, quando viam os aviões ocidentais disparando contra o nada e fazendo o jogo dos rebeldes”, assegurou. “Elas viam os aviões ocidentais passarem sobre os acampamentos do Estado Islâmico sem disparar. Assim tem atuado as coalizões internacionais durante os últimos anos”, criticou. 



Seuolhar é de que “a única intervenção que trouxe realmente benefício foi a russa, que apoiando o exército nacional conseguiu, pela primeira vez em vários anos, o que a comunidade internacional dizia que não era possível: liberaram cidades e fizeram grupos rebeldes retroceder”.

 

A liberação de Alepo



A entrevista com a irmã Guadalupe aconteceu poucos dias depois de que o exército sírio recuperasse justamente a cidade de Alepo. “A manipulação dos meios conseguiu que em pouco tempo as pessoas acreditassem justamente no contrário do que está acontecendo”, analisou a religiosa, já que depois da saída dos terroristas da cidade, “as pessoas estão festejando nas ruas”.



“O que mostra a imprensa internacional é o Exército supostamente massacrando os civis”, em vez de mostrar “aos habitantes que saem com alegria para encontrarem-se com os soldados que os estão liberando”, contou. Cabe lembrar que “esses civis estavam sendo usados com escudos humanos pelos rebeldes”. 



Cristãos na Siria



Para a irmã Guadalupe, a situação provocada pela guerra na Síria é trágica, e os cristãos tem padecido tanto quanto os muçulmanos que não se juntam aos grupos fundamentalistas. “Nossa casa, nossa missão, localiza-se junto à sede do Bispado, na parte ocidental da cidade de Alepo, ou seja, estivemos sempre sob o controle do  do Governo e do exército”, explicou. “Nunca estivemos nas partes sob controle dos rebeldes. Se houvesse estado lá em algum momento, hoje não estaria aqui respondendo estas perguntas”, sentenciou com a feição séria.



"Nos locais que temsido tomados pelos rebeldes nestes anos todos, os cristãos tem sido eliminados das formas mais violentas: decapitados e crucificados. Estamos falando de crianças e jovens”, acrescentou.



Como contrapartida, apontou que o partido governante “há muitos na Síria é dos alawitas”. Esse é o ramo mais moderado dentro do Islã, e portanto o mais próximo ao cristianismo”. Ressaltou o respeito, que além da convivência, tem predominado com a existência de tolerância, mesmo considerando-se que na Síria a maioria da população pertence ao ramo sunita”. Por isso, os cristãos “tem se sentido protegidos pelo governo durante todos este anos”. Inclusive, vários deles participam da Forças Armadas Sírias.  



Mesmo com tanta tragédia e tanto sofrimento, a gente vê esses milagres da fé.



A convivência entre cristãos e muçulmanos, da qual ela fala na Síria, “viu-se muito afetada por esse conflito”, detalhou a religiosa, mas assegurou  que as situações foram muito variadas”. Houve muçulmanos que entregaram seus vizinhos cristãos e outros que resistiram a esse fundamentalismo”. Um dado aterrador  é que na cidade havia mais de meio milhão de cristãos e agora podem ser contados apenas 20 mil. O resto fugiu ou foi assassinado”. “A desaparição dos cristãos no Oriente Médio seria um perigo para o próprio Ocidente”, analisou.



Não obstante, os cristão que ficaram, “mesmo quando tão cruelmente perseguidos, tem se sustentado com a força da fé. Não se amedrontaram, mas ao contrário, se fortaleceram. Quanto mais foram perseguidos, mas firme ficou a sua fé”.



“Junto com tanta tragédia e tanto sofrimento, a gente vê esses milagres de fé”, assegurou a irmã Guadalupe. Pessoas que “ ainda sorriem, e talvez o façam com mais intensidade que os grandes milionários do Ocidente”, por que aprenderam a “valorizar o que tem: uma hora de água, um pouco de eletricidade, um dia mais de vida” . Trata-se de “um exemplo de verdadeiro amor” numa época onde “não nos falam do amor como entrega, como dar a vida por quem se ama e pelo que se ama. Isso é o amor verdadeiro, tão pouco predicado neste mundo”, concluiu.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários são como afagos no ego de qualquer blogueiro e funcionam como incentivo e, às vezes, como reconhecimento. São, portanto muito bem vindos, desde que resvestidos de civilidade e desnudos de ofensas pessoais.
As críticas, mais do que os afagos, são benvindas.