sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

“O PT funcionou como um prestador de serviços para as elites”




Entrevista com a filósofa Isabel Loureiro 
Agnese Marra
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti
Brecha (Uruguay)



“O ponto débil do lulismo foi acreditar na fórmula mágica de dar aos pobres sem tirar dos ricos”, disse ao semanário Brecha a filósofa brasileira Isabel Loureiro, uma das coordenadoras do livro “As contradições do lulismo” (Boitempo), no qual oito professores universitários desconstroem os governos de Lula e de Dilma Roussef.



Agnese Marra: O que diferenciaria o lulismo do petismo?


Isabel Loureiro: Usamos o conceito de lulismo do professor André Singer, com referência a um reformismo débil no qual não se produzem transformações estruturais, mas sim uma integração das classes populares através do consumo, o que não significa um aumento da cidadania. Para mim, o petismo se diferenciaria do lulismo por situar-se mais à esquerda da figura de Lula, mas nem todos os autores do livro tem a mesma opinião.


Agnese Marra: Vocês assinalam as contradições e os pontos fortes e débeis do lulismo. Poderia nos falar dos essenciais?


Isabel Loureiro: Os pontos fortes do lulismo seriam o leque de políticas sociais voltadas às classes mais baixas, como o Bolsa Família, as quotas para negros nas universidades, a expansão da universidade pública, o crédito real para pequenos agricultores, entre outras. Essas medidas foram especialmente boas no segundo governo de Lula e no primeiro de Dilma, disso não há dúvida. O ponto mais débil foi acreditar na fórmula mágica de dar aos pobres sem tirar dos ricos.  Não houve um enfrentamento às elites e muito menos ao capitalismo, mas também é preciso dizer que isso não se sucedeu somente no Brasil, mas também em todos os governos chamados progressistas na América Latina. Todos pecam no mesmo problema do lulismo, que é apostar em um modelo neo desenvolvimentista, baseado no extrativismo, no colonialismo interno, na dilapidação da natureza e na violência contra as comunidades tradicionais. 


Agnese Marra: No seu capítulo do livro você fala precisamente da reforma agrária pendente, e assegura que Lula vai ser lembrado como “o presidente companheiro dos usurpadores de terra”.


Isabel Loureiro: Essa idéia é do professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira e eu estou completamente de acordo com ela. Durante a época de Lula, foram legalizadas terras públicas da Amazônia que tinham sido invadidas por latifundiários, ou seja, legalizou-se algo ilegal.  Durante o lulismo, não houve reforma agrária, pelo contrário: aumentou a concentração. Por outro lado, em 2009 Lula liberou o uso de transgênicos, e hoje somos o maior consumidor de agrotóxicos do planeta. Portanto, o que vimos nesse governo progressista foi um apoio oficial ao modelo hegemônico do agronegócio.  Entendo que houve um contexto internacional favorável à venda de commodities em função do aumento da demanda da China, mas poderia ter sido levada adiante uma política que não fosse exclusivamente centrada no extrativismo de matérias primas, embora o problema de fundo é que a esquerda brasileira é desenvolvimentista. No Brasil, ao menos o PT,  não é uma esquerda crítica da modernização capitalista, e por isso a nova luta da esquerda é começar a pensar em outros termos.     

 

Agnese Marra: Você acredita que a esquerda brasileira necessita tornar-se independente do lulismo para se reencontrar?


Isabel Loureiro: Neste momento, a figura de Lula prejudica a esquerda na hora dela reestruturar-se. Lula tem uma visão caudilhista da política, é um caudilho do PT. Isso pode ser constatado em como nem ele nem seu partido permitiram que surgisse outro líder. Aqueles que apareciam como possíveis substitutos estão na prisão.  O PT é um partido burocratizado, com uma trajetória semelhante à dos partidos social-democratas europeus. Nesse sentido, não creio que essa forma possa ser uma saída para a esquerda na América Latina. Contudo, ao mesmo tempo não podemos negar que a derrota do PT arrasta junto a esquerda como um todo, e essa é uma das grandes contradições,  por que esse partido continua sendo o grande aglutinador da esquerda no Brasil  Quando ele desmorona, parece não haver uma alternativa real de esquerda, ao menos nos termos de possibilidade de ganhar eleições. A meta da esquerda é reformular-se sem pensar constantemente nas próximas eleições, mas sim preocupar-se com o que as pessoas precisam.   


Agnese Marra: Além da questão do campo, no livro vocês falam muito das grandes conquistas do lulismo relacionadas com o aumento do número de jovens com instrução universitária. Contudo, mencionam que ao mesmo tempo fortaleceram-se instituições de iniciativa privada de qualidade duvidosa


Isabel Loureiro: Os programas de apoio ao crédito para que os jovens pudessem ingressar na universidade tiveram um lado negativo, porque fortaleceram faculdades privadas de muito má qualidade. Lula sempre se justificou alegando que se não fosse dessa maneira, o ingresso das classes populares na universidade levaria uma eternidade. Apesar do auxílio a esse tipo de instituições, não se pode deixar de reconhecer que para muitos dos alunos graduados se abriram novas perspectivas de olhar o mundo. Lembro-me muito de um  artigo de de Regina Magalhães, docente em uma dessas universidades privadas, que conta como seus alunos de Sociologia começaram a perceber que viviam em uma coisa que se chama sociedade, e que não eram indivíduos isolados. Eles começaram a estabelecer novas relações e a criar um pensamento mais crítico, o que antes lhes era impossível  


 Agnese Marra: Apesar da má qualidade de algumas das universidades, pode ser reconhecer que o ingresso nelas gerou uma certa mobilidade social?


Isabel Loureiro: Nisso não há dúvida. O artigo de Ruy Braga explica isso muito bem  quando fala das mulheres jovens que trabalham meio turno  em um call center de telemarketing e na parte da tarde freqüentam essas universidades privadas. Apesar do nível horrível do ensino nelas, essa jovem já não vai ser empregada doméstica como era sua mãe. Pode ser inclusive que o salário  que ela ganhe no telemarketing ou nos empregos posteriores seja igual ou mais baixo  que o de empregada, mas simbolicamente a ascensão social é imensa.


Agnese Marra: No capítulo em que se fala sobre o Bolsa Família assinalam que não houve mudanças estruturais e que não ajudou a terminar com a criminalização da pobreza...


Isabel Loureiro: Para o autor do artigo, Carlos Alberto Bello, um dos pontos fracos do programa Bolsa Família é o fato de que ele não faça parte da Constituição, ou seja, que não tenha sido institucionalizado como um direito, mas sim de uma medida que fica dependendo  da vontade do governante do momento.  Por outro lado, ele critica que a integração das classes populares foi precária e despolitizada, somente através do consumo e sem oferecer a idéia de cidadania e direitos. Nesse sentido, insiste que a sociedade brasileira continua criminalizando a pobreza, que é vista como responsabilidade dos próprios pobres. É dominante a idéia de que o pobre é preguiçoso e que não trabalha por que não quer.  E o pior de tudo é que, ao não se haver apostado na politização, são os próprios pobres que assumem essa idéia em relação a si mesmos.  Não creio que possamos esperar que sejam as classes populares as que saiam da passividade política diante do giro à direita que o país está tendo.


Agnese Marra: Viu-se que precisamente as classes populares foram as que apoiaram a direita em cidades como São Paulo, com um prefeito recém eleito  que propagandeia a idéia da meritocracia.


Isabel Loureiro: Isso também tem a ver com a despolitização. Curiosamente, as pessoas que se beneficiaram de políticas públicas, como por exemplo as bolsas nas universidades, acreditam que sua ascensão social  deve-se a mérito próprio e não a relacionam com as políticas incentivadas no país.  Uma vez que sentem que o mérito é delas, e que ao mesmo tempo tem mais capacidade de consumo, deixam de se sentirem pobres e portanto não querem mais votar no PT, “o partido associado aos pobres. Preferem votar nos partidos de direita, que associam aos ricos e à classe média. Esse paradoxo que agora enfrenta o lulismo é justamente por não ter querido apostar em uma inserção social mais politizada, como a que faziam juntamente com a Igreja Católica quando o partido nasceu. O PT deixou de lado esse tipo de educação e de contato com as bases e com as realidades sociais.  


Agnese Marra: Em sua opinião, quando foi que o lulismo deixou de ter contato com as suas bases?


Isabel Loureiro: As pessoas que estudam o PT desde a sua formação como partido assinalam uma mudança já nos anos 80, quando começaram a conquistar prefeituras. A partir de então e até agora, o PT Foi abandonando as suas bases, e seu aparelho centrou-se exclusivamente em ganhar eleições, o que o obrigou a fazer cada vez mais concessões até que cheguem ao Executivo. A partir desse momento, o PT se converteu no que é hoje: um partido eleitoreiro,  preocupado somente em ganhar eleições.



Agnese Marra: Você acredita que o PT está passando por um processo de autocrítica?


Isabel Loureiro: Agora todos levam as mãos à cabeça com o que aconteceu no ano passado. As bases do partido talvez estejam discutindo possíveis erros cometidos, mas o aparelho não está fazendo isso. A prova mais clara disso é que querem colocar Lula em 2018, como se ele fosse a solução de todos os problemas e a única forma de salvar o partido.


Agnese Marra: Lula conseguirá lançar-se em 2018?


Isabel Loureiro: Parece-me que é o que querem tanto ele como o aparelho do partido, mas será muito difícil, por que as elites brasileiras se juntarão para impedir que isso aconteça, e se for necessário o levarão à prisão. O PT tem funcionado como  um prestador de serviços para as elites do país, que terceirizaram o governo quando foi conveniente para elas. Quando viram que a operação Lava Jato se aproximava demais delas e Dilma não fazia nada para impedir isso, decidiram que elas iriam governar novamente. O Brasil é um país profundamente retrógrado, que as elites nunca deixaram de governar. Durante algum tempo, elas permitiram que se mantivesse esse reformismo débil do qual fala Singer, mas inclusive isso lhes pareceu demais.


 Agnese Marra: No livro, vocês sustentam que o lulismo fomentou a pacificação social.


 Isabel Loureiro: Sim, algumas pessoas situadas mais à esquerda, como nós, diziam que se vivia a paz dos cemitérios.  Enquanto as pessoas consumiam celulares e televisores de plasma, ficaram em letargia e parecia que tudo estava bem por que tinham acesso a bens de consumo que pagavam em 20 prestações, uma falsa ilusão. Várias pesquisas demonstraram que as desigualdades continuavam, e que apesar de haver muito mais empregos, estes eram enormemente precários; a saúde também tinha melhorado um pouco, mas continuava em geral sofrível. Nós, que estávamos à esquerda do PT, éramos muito maltratados, diziam que éramos agoureiros, e parecia que a luta de classes tinha desaparecido do horizonte. Contudo, sabemos que ela nunca desaparece, era tão somente uma panela de pressão prestes a explodir.     


Agnese Marra:  As manifestações de junho de 2013 foram essa explosão na qual as contradições do lulismo apareceram de repente?


Isabel Loureiro: Junho de 2013 foi essa transição abrupta: num dia,  parecia que tudo estava bem, e no dia seguinte ninguém estava satisfeito.  Sim, podemos dizer que foi nesse espaço de tempo que se viram boa parte das contradições do lulismo  e da despolitização da qual falávamos antes. Lula e Dilma investiram nas universidades públicas e em bolsas para acessar a universidade, mas as pessoas saiam para as ruas exigindo qualidade na educação. O mesmo acontecia com a saúde. Muitos desses jovens tinham sido beneficiados pelas políticas lulistas, mas não eram conscientes disso e queriam mais. O governo de Dilmae o PT ficaram completamente paralisados; não souberam entender o que estava acontecendo, e creio que até hoje não  entenderam. 


 Agnese Marra: Contudo, pode dizer-se que o lulismo marcou um antes e um depois em relação aos governos anteriores?


Isabel Loureiro: No que se refere à política econômica, me parece exagerado pensar que seus governos marcaram um antes e um depois. Somente é preciso lembrar a famosa Carta aos Brasleiros, que Lula escreveu quando chegou ao poder, onde deixava claro que iria continuar ao lado dos mercados financeiros. No que se refere à macro-economia, manteve uma política não muito distante da do seu antecessor Fernando Henrique Cardoso. É certo que levou adiante políticas sociais muito mais amplas que os governos anteriores,  com um modelo neo desenvolvimentista sustentado pelos commodities e pelo agronegócio, mas conseguiu uma redistribuição de renda que, por sua vez,  provocou uma ascensão social importantíssima, principalmente para aqueles que estavam na miséria.  Se a nível político não se possa dizer que ele tenha sido revolucionário, acredito sim que houve um antes e um depois em termos simbólicos.  A possibilidade de que um metalúrgico chegasse á presidência  em um país tão desigual  e elitista quanto o Brasil foi um fato importantíssimo para as classes populares. Por outro lado, esse fato crucial também escondeu os conflitos reais e a luta de classes latente, como se não houvesse mais nada a fazer por que tudo já tinha mudado. Como não houve mudanças estruturais, voltamos rapidamente ao passado. Demos um passo adiante e dois para trás.         





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