sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Narcotráfico: a blindagem do alto clero

Sanguessugado do GGN

Matéria na íntegra, basta clicar no link GGN

Luis Nassif




Se os presídios estão abarrotados com representantes do baixo clero, da mais alta à mais baixa periculosidade, as celas especiais destinadas ao colarinho branco estão vazias.

Hoje em dia, qualquer estratégia contra o crime organizado teria que obedecer à máxima de “seguir o dinheiro”.  A figura-chave, então, passa a ser o operador financeiro, o doleiro, que une as pontas do Chefe do Tráfico, os financiadores, a corrupção política.



Em 2003, o então Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos desenvolveu a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla), juntando mais de 60 órgãos dos Três Poderes ligados a alguma forma de fiscalização (https://goo.gl/LTjTlB).

O modelo foi amplamente utilizado na Operação Lava Jato. Nem resvalou no combate ao tráfico. Um superdoleiro como Alberto Yousseff conseguiu sua segunda liberdade provisória sem que o juiz Sérgio Moro – veterano do caso Banestado – ousasse extrair nenhuma informação sobre o tráfico. Ressalve-se que o tráfico tem argumentos eloquentes para demover delatores: quem delata, morre.

Mesmo assim, cada vez que se avança sobre doleiros, bate-se de frente com a economia formal, com grupos influentes, muitos deles parceiros preferenciais do MPF que se valem dos mesmos canais de lavagem de dinheiro do narcotráfico. Quando chega aí, as investigações param.

Alguns exemplos:

1.     Em 2009, procuradores do MPF estouraram o escritório de um casal de doleiros do Rio de Janeiro, na Operação Norbert. Toparam com uma conta de Aécio Neves em Liechtenstein. O caso foi parar na gaveta do PGR Roberto Gurgel em 2010 e só saiu em 2016, quando a parcialidade do PGR Rodrigo Janot se tornou flagrante. Mesmo assim, o inquérito caminha a passos lentíssimos, com jogos de empurra entre o Ministro Gilmar Mendes, do STF, o PGR e a Polícia Federal (https://goo.gl/KASihP).

2.     Nas investigações sobre o suposto Triplex de Lula, a PF implode os arquivos da Mossak Fonseca, escritório norte-americano famoso pela lavagem de dinheiro de ditadores e políticos. Depara-se, então, com contas da família Marinho. A investigação desaparece e nao renasce nem com os Panama Papers (https://goo.gl/IgvSCb).

3.     Em um dos dos maiores escândalos dos últimos anos, o da FIFA, uma simples juíza federal tranca o envio de documentos do MPF para o FBI. O caso está parado no STF sem nenhuma manifestação de indignação do PGR.

4.     Quando o caso HSBC veio à tona, apareceram nomes de grupos de mídia aliados do MPF. O caso sumiu.

5.     O caso Carlinhos Cachoeira foi exemplar. O MPF de Goiás montou a Operação Monte Carlo. Foram encaminhados ao Procurador Geral Roberto Gurgel os dados relativos aos parlamentares – que tinham foro privilegiado. Gurgel paralisou as investigações. Chamado pela CPMI de Cachoeira a dar explicações, informou que segurou o inquérito para não atrapalhar a Operação Las Vegas, destinada a investigar o bicho. Posteriormente, procuradores de Goiás informaram que as duas operações não tinham relação entre si (https://goo.gl/oNyfk0). Cachoeira está solto e tendo, entre seus ativos formais, um laboratório farmacêutico (!).

O episódio mais notório é o do helicóptero que caiu transportando 500 quilos de cocaína. Não há nenhuma prova concreta conhecida a ligar o caso ao presidente do PSDB Aécio Neves. Mas existe um conjunto de circunstâncias que, no mínimo, exigiriam investigações e explicações:

1.     O helicóptero pertencia a Gustavo Perrela, filho do senador Zezé Perrela, estreitamente ligado a Aécio.

2.    Conforme o GGN publicou em 26 de julho de 2014, (https://goo.gl/OmFYYc ), não haveria condições do helicóptero ter percorrido 1,17 mil km em linha reta sem uma parada para reabastecimento. E o reabastecimento não ocorreu em nenhum aeroporto fiscalizado pela ANAC. Por coincidência, o aeroporto de Cláudio, construído no governo Aécio perto de propriedades da família, ficava na rota percorrida pelo helicóptero e ainda não fora homologada pela ANAC.

3.    Morador em Cláudio, o primo de Aécio, Tancredo Tolentino, foi acusado de negociar habeas corpus para traficantes, em conluio com um desembargador do Tribunal de Justiça.

4.    Perrela injetou muito dinheiro no Cruzeiro Futebol Clube. Depois de conquistado o bu-campeonato nacional, praticamente todo o elenco foi negociado com o exterior (https://goo.gl/vmcF19). O comércio de jogadores sempre foi uma peça relevante na lavagem de dinheiro.

Hoje em dia, o inquérito está parado, graças a um HC do Tribunal de Justiça de Minas, apesar dos esforços de procuradores da República de Minas de tocarem as investigações.

Não se ouve protesto no Supremo Tribunal Federal (STF), nem da parte de Ministros que passaram a defender o estado de exceção contra a corrupção, como é o caso de Luís Roberto Barroso. Parceria do MPF no combate intransigente à corrupção, nenhum grande veículo da imprensa se interessa pelo tema – cuja cobertura está restrita aos blogs e portais alternativos.


De fato, o crime organizado domina o país. Mas ele não está restrito às celas infectas dos presídios.

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