sábado, 31 de dezembro de 2016

Moniz Bandeira: Objetivo dos EUA é anular a soberania dos Estados nacionais



Pedro Marin

Nascido em Salvador, Luiz Alberto Moniz Bandeira mudou-se para o Rio de Janeiro ainda jovem, publicando, aos dezenove anos, seu primeiro livro. Integrante do Partido Socialista Brasileiro, onde foi um dos fundadores da corrente Política Operária (Polop), foi perseguido durante o regime militar, tendo se exilado no Uruguai no ano de 1964.

Em 1965, volta ao Brasil e passa a viver clandestinamente em São Paulo. Foi preso político por dois anos, de novembro de 1969 a outubro de 1970 e, depois, em 1973, por ordem do Centro de Informações da Marinha (CENIMAR). Entre 1971 e 1972, pesquisou e escreveu, na clandestinidade, a obra Presença dos Estados Unidos no Brasil, bestseller no ano de 1973 (quando estava preso).

Formado em Direito e doutor em Ciência Política, foi indicado ao Prêmio Nobel duas vezes por sua obra A Segunda Guerra Fria. Hoje, aos 80 anos, é sem sombra de dúvidas um dos mais importantes intelectuais brasileiros vivos, e segue a tradição de se debruçar sobre os mais importantes temas globais atuais, tendo publicado no último mês seu mais recente livro, A Desordem Mundial.

O que segue é a íntegra de uma entrevista concedida pelo professor, que há 20 anos reside na Alemanha, à Revista Opera:

1 – Em A Desordem Mundial, o Sr. investiga profundamente as mais importantes tensões no mundo atualmente, da Síria à Ucrânia. Que importância têm a América Latina e o Brasil neste cenário? O impeachment de Dilma Rousseff tem ligação com isso?

R – A importância da América Latina é relativa. O Brasil se reveste, particularmente, de maior importância geopolítica e estratégica, devido ao fato de ser a segunda maior massa geográfica, demográfica e econômica do hemisfério, abaixo dos Estados Unidos, ter fronteira com quase todos os países da América do Sul (exceto Chile e Equador) e dominar grande parte do litoral do Atlântico Sul. E daí que, a inflectir para o alinhamento com a Rússia, China e Índia, três potências continentais, e mais a África do Sul, Washington não podia tolerar.

Em 1963, após o presidente João Goulart ganhar o plebiscito, que lhe devolveu a plenitude dos poderes executivos, extirpados pelo Congresso com a adoção do parlamentarismo, em 1961, o presidente Kennedy, preocupado com as conseqüências da campanha da imprensa contra o Brasil, convocou os jornalistas para uma entrevista coletiva na Casa Branca. E, após declarar que o fato lhe parecia anormal, artificial e contrário aos interesses do Hemisfério, desdobrou um mapa da América do Sul e, a apontar para o território do Brasil, aduziu: “Eu apenas gostaria de chamar a atenção dos senhores para o tamanho do Brasil”. E, quase dez anos depois, quando o general Emílio Garratazu Medici, como chefe do governo brasileiro, visitou os Estados Unidos, o presidente Richard Nixon disse que “para onde for o Brasil irá toda a América Latina”. Esta sempre foi a percepção dominante em Washington. E jamais, portanto, os Estados Unidos aceitaram, passivamente, que o Brasil não se alinhasse com suas diretrizes de política internacional.

Até o general Ernesto Geisel, que desenvolveu uma política externa com a maior autonomia, teve de abortar, em 1977, um golpe do seu ministro da Guerra, o general Sílvio Frota. Aos Estados Unidos, batidos, virtualmente, na Ucrânia e na Síria, convinha o impeachment da presidente Dilma Rousseff, com o fito de romper o grupo dos BRICS. É difícil, no entanto, mudar súbita e radicalmente a política exterior do Brasil, dado que a China constitui atualmente seu maior parceiro econômico e comercial. E os Estados Unidos, exauridos.

2 – Em qual contexto houve essa radicalização recente da política externa norte-americana? Qual foi o turning point?

R – Desde queda do Muro de Berlim (1989) e a dissolução da União Soviética (1991), os neoconservadores (neocons) do Partido Republicano e outros pretenderam que os Estados Unidos assumissem, abertamente, a condição do Império com a implantação da full-spectrum dominance, i. e., o total domínio do espectro terrestre, marítimo, aéreo e espacial. Essa pretensão, consubstanciada no Project for New American Century, que começou a ser executado pelo presidente Bill Clinton, do Partido Democrata, com a expansão da OTAN, e continuado, declarada e agressivamente, pelo presidente George W. Bush, do Partido Republicano, ao invadir o Afeganistão e, depois, o Iraque, o primeiro de uma série de outros países que planejava atacar, mas não teve condições e foi desaconselhado pelos militares.

As denominadas “revoluções coloridas”, nas repúblicas do Leste Europeu e da extinta União Soviética constituíram o desdobramento dessa operação, iniciada ao tempo do governo de Bill Clinton com o bombardeio da Sérvia pela OTAN, sem autorização da ONU. O presidente Barack Obama, do Partido Democrata, deu prosseguimento ao programa de estabelecer a full-spectrum dominance, sob o matiz de “primavera árabe” e, com o bombardeio da Líbia pela OTAN, desestabilizou todo o Oriente Médio. 

3 – Qual é a sua análise sobre o papel exercido pela Rússia neste momento no tabuleiro geopolítico global?

R – O objetivo dos Estados Unidos e seus vassalos da União Europeia, o cartel ultra imperialista, é restringir/anular a soberania dos Estados nacionais e instituir a governança global, a full-spectrum dominance, entregando à OTAN o monopólio da violência, como global cop (polícia global). Porém os neoconservadores do Partido Republicano e do Partido Democrata, no seu ufanismo, esqueceram que a União Soviética se dissolvera, mas a Rússia não, e esta herdara todo o poderia nuclear, a mesma capacidade de reduzir também os Estados Unidos a pó de urânio. E não esperavam-se defrontar-se com um líder da estatura do presidente Vladimir Putin, que encarnou a “alma russa” (Русская душа) e salvou o país da desintegração, quando muitas regiões tendiam a não reconhecer a nova Constituição, de 25 de dezembro de 1993, ratificando a dissolução da União Soviética. Ele é o maior estadista das duas primeiras décadas do século XXI.

4 – Em 8 de novembro, os EUA elegeram seu próximo presidente. Como você avalia os dois candidatos – Donald Trump e Hillary Clinton – que concorreram?

R – Hillary Clinton era a candidata da elite de Wall Street/Silicon Valley,  região onde se concentram empresas eletrônicas da cadeia produtiva do complexo industrial-militar, era a candidata do establishment tanto dos Estados Unidos quanto da União Europeia. Representava a continuidade da mesma política de quatro presidentes, dois do Partido Republicano, dois do Partido Democrata, que eram, entretanto, iguais, só nos matizes se diferenciaram. E as centrais sindicais American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations (AFL–CIO), que antes apoiavam o Partido Democrata, cansaram-se. Os trabalhadores brancos, empobrecidos pela globalização, os desempregados e outros segmentos da população descontente com  o statu quo queriam mudança. E daí que elegeram Donald Trump, um bilionário outsider, heterodoxo, como franco repúdio ao establishment político, à continuidade da política de guerra, à globalização, com a instalação de indústria offshore e a transferência de empregos para os países da Ásia, em busca de fatores mais baratos de produção, a fim de aumentar a taxa média lucro.

Assim, mais de mais de 70 milhões de cidadãos americanos (59 milhões em favor de Trump e 13 milhões em favor Bernie Sanders, no Partido Democrata) – demandaram mudança e não sem razão a corrente progressista do Partido Democrata, liderada por  Bernie Sanders, tende a uma composição com Donald Trump e a apoiar certos pontos de seu programa de governo.

5 – Tanto sobre a guerra na Síria quanto na ucraniana, temos visto na mídia global um discurso único, hegemônico. Em O Ano Vermelho, o Sr. trata, brevemente, da penetração das grandes agências internacionais de notícias na imprensa brasileira no começo do século XX. Isso mudou? Como o Sr. avalia esses discursos?

R – Antes, qualquer pessoa ou grupo, com poucos recursos, podia fundar um jornal e distribuir. Havia maior liberdade de imprensa. Claro que mudou, porém mudou para pior. Atualmente somente grandes empresas estão em condições de sustentar órgãos de comunicação, escrita ou falada, e na maioria das grandes cidades do Brasil só existem poucos meios de comunicação, que divulgam as mesmas notícias e, no mais das vezes, a mesma opinião, a refletirem o que pensam e querem seus donos e anunciantes. São empresas corporativas, como, aliás, em quase todos os países do Ocidente. As grandes agências de notícias, que abasteciam e continuam a abastecer a imprensa no Brasil, sempre foram estrangeiras e difundiram a Weltanschauung (visão do mundo) das potências dominantes e servem como instrumentos de operações de guerra psicológica (psy-ops).

Entretanto, certas notícias divulgadas em 1917 e que me pareceram guerra psicológica, quando escrevi O Ano Vermelho, em 1966, eram, na realidade, corretas, como a acusação do chefe de governo provisório da Rússia, Aleksandr Kerensky, segundo a que Lenin e Trotsky haviam recebido recursos da Alemanha.

6 – O Sr. vive na Alemanha já há algum tempo, mas gostaria de te perguntar: qual é sua avaliação sobre a relação que a esquerda brasileira tem com esses temas globais? Isto é; como combater a Desordem Mundial no Brasil?

R – A definição de esquerda ou direita depende das circunstâncias históricas, conforme a realidade em contínua mutação. “Nós entramos e não entramos no mesmo rio, nós somos e não somos”, Heráclito ensinou (Fragmento B 12, A 49 e 91). Com efeito, os conceitos têm de evoluir, portanto, com as mutações da realidade que pretendem representar. Não podem ser uma fotografia, que fixa determinado momento, determinada situação, de um ângulo.

As classes sociais existem, as lutas sociais prosseguem, porém suas características não são mais iguais às dos tempos de Marx e Engels ou de Lenin e Trotsky, ao tempo da Revolução Russa. E o fato é que, atualmente, as grandes corporações, à procura de fatores mais baratos de produção, de condições de investimentos mais seguras, estáveis e lucrativas, transferiram suas plantas industriais para os países da periferia do sistema capitalista e daí exportam o que fabricam, as manufaturas, para os mercados das próprias potências econômicas, das quais haviam emigrado. A produção industrial da Europa e dos Estados Unidos se processa, em grande medida, offshore, em países como a Índia e outros da Ásia, onde a força de trabalho é muito mais barata.

Assim o setor terciário superou a indústria na Europa, nos Estados Unidos e até no Brasil, onde gera mais empregos e concentra investimentos que nos setores primário (campo, extrativismo etc.) e secundário (manufatureiro).

E o que se chama de esquerda tem de estudar e compreender. Quanto à desordem, que ocorre no Brasil, só posso dizer que resultou de um lawfare, uma guerra jurídica, urdida por interesses alienígenas e fortes setores do empresariado nacional, explorando o descontentamento das classes média, ao fazer aflorar a podridão do Estado profundo, a fim de atender a interesses corporativos e do capital financeiro internacional.


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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Finlândia em profunda recessão: Feliz Ano Novo, filandeses


Finlândia, laboratório mundial da renda básica universal

País nórdico será o primeiro do mundo a experimentar em 2017 essa forma de remuneração

Belén Domínguez Cebrián

"“A propriedade ociosa, bens, deficiência energética, edifícios... há muitas coisas sobre as quais podem ser aplicados mais impostos”, enumera Mokka de forma improvisada, embora tenha um grande conhecimento do que fala."

A automatização da força de trabalho cresce a toda velocidade no século XXI. E a primeira consequência é dramática: perda de empregos tradicionais que, agora, a um custo laboral zero, são desempenhados por máquinas como lava-carros ou garçons que anotam os pedidos no restaurante. A Finlândia decidiu começar a se preparar para o futuro, experimentando com novas redes de proteção. O país nórdico será em 2017 o laboratório mundial do que foi batizado como renda básica universal. Ou seja, receber uma quantidade de dinheiro por mês sem motivo algum. Quer a pessoa esteja empregada ou não. Em um programa-piloto que durará dois anos, 2.000 cidadãos receberão a partir de janeiro 560 euros (1.920 reais) por mês somente para existir.


“Para revolucionar algo tão grande, tão tradicional e tão fundamental como as remunerações é preciso experimentar primeiro”, afirma Roope Mokka, cofundador do Demos Helsinque, o primeiro think tank independente dos países nórdicos. Em um país calvinista no qual em toda esquina se respira a cultura da responsabilidade, esta remuneração adicional é vista por especialistas, políticos e cidadãos não como um presente, mas como uma oportunidade para fortalecer a economia e estimular a população a iniciar negócios, explica este jovem finlandês durante uma mesa redonda no Slush. Trata-se de um evento que congrega todo ano centenas de start-ups, empresas e investidores mundiais, e que se tornou um acontecimento crucial para a economia finlandesa, atualmente ainda lutando para sair de uma profunda recessão.


Mas mesmo com um horizonte difícil — a Comissão Europeia estima um crescimento de 0,9% no PIB do país no ano que vem —, o Governo conservador finlandês é pioneiro mundial em adotar a renda básica. Uma seleção de 2.000 cidadãos receberá a partir de janeiro, e durante dois anos, 560 euros por mês. “As análises mais confiáveis demorarão pelo menos seis anos para chegar”, prevê o especialista. Em um experimento em Oakland (EUA) serão mil famílias que ganharão o equivalente a 1.720 reais mensais, e em Utrecht, nos Países Baixos, a fórmula também será testada em 2017. Entretanto, a Finlândia é dos poucos países na União Europeia que não possuem um salário mínimo válido para todas as profissões, caso também das nações escandinavas. Seu PIB per capita, porém, é dos mais altos do bloco, mesmo em tempos duros: 38.200 euros (131.200 reais) em 2015 (ano em que o déficit alcançou 2,8% do PIB) enquanto o da Espanha é de 23.200 euros (79.650 reais), segundo o site datosmacro.

Empregos mais caros

Para que a ideia da renda básica, que pode parecer utópica para muitos, se transforme em realidade é preciso haver financiamento. O especialista observa que a primeira coisa que as empresas e os Governos deveriam fazer é garantir que “os trabalhos tenham elevada remuneração”, além de pôr em prática uma reforma no sistema tributário que sobretaxe ainda mais as altas rendas. “A propriedade ociosa, bens, deficiência energética, edifícios... há muitas coisas sobre as quais podem ser aplicados mais impostos”, enumera Mokka de forma improvisada, embora tenha um grande conhecimento do que fala.


Do contrário, e como acontece, por exemplo, na Espanha — onde o Governo de Mariano Rajoy (PP) acaba de elevar o salário mínimo para 707,6 euros (2.430 reais), a metade do pago na França, segundo a Eurostat —, continuar trabalhando e receber este complemento salarial “não compensaria” e fomentaria a desocupação, um argumento que não convence Mokka. Acredita, no entanto, que aí se situa uma das chaves para o bom funcionamento da renda básica universal: “É preciso começar a assumir que nem todo mundo pode ter um trabalho porque estamos competindo contra as máquinas, e elas sempre ganharão”. O diretor da Tekes, a agência pública que investe em inovação neste país de pouco mais de cinco milhões de pessoas, Jukka Häyrynen, sustenta que a segurança no trabalho é algo que está sendo perdido em nível mundial, o que ele vê com certo positivismo: “Isto é um ingrediente para empreender”, afirma.

Um estudo que a Universidade Oxford elaborou em janeiro de 2016, mostra que 57% da força de trabalho humana nos países da OCDE está sob o risco de desaparecer por causa da automatização e dos avanços tecnológicos. “Temos a necessidade de integrar todas as pessoas desocupadas na nossa sociedade e, em lugar de subsídios pelo desemprego, a renda básica soa como uma boa ideia”, defende Juhana Aunesluoma, diretor de pesquisa de Estudos Europeus na Universidade de Helsinque, em uma sala do Ministério de Relações Exteriores. Algo que não convenceu a Suíça em junho, quando rejeitou essa iniciativa em um referendo.


Mas os Governos — especialmente os do sul da Europa — estão até certo ponto “obcecados”, diz Mokka, em chegar ao pleno emprego em detrimento da busca de alternativas para que o dinheiro entre nos lares (e no sistema) e para que os desempregados pela automatização do trabalho se mantenham ocupados e reinvistam seu tempo.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Nota de falecimento: a engenharia brasileira está morta

Via RedeBrasilAtual

A estratégia geopolítica de nações poderosas que querem nos enterrar não se resume a fortalecer sua própria engenharia e suas maiores empresas. Inclui sabotar as empresas e a engenharia de outros países

Mauro Santayana

marinha

Cortes em programa de submarinos, desenvolvido pela Odebrecht para a Marinha causam atrasos, desemprego e prejuízo
A Engenharia Brasileira está morta. Será cremada no altar da Jurisprudência da Destruição, do entreguismo e da ortodoxia econômica. Suas cinzas serão sepultadas em hora e local a serem anunciados no decorrer deste ano de 2017.

Em qualquer país minimamente avançado, a engenharia é protegida e reverenciada como o outro nome do poder, da prosperidade e do desenvolvimento. Não há países que tenham chegado a algum lugar sem apoiar soberana e decisivamente sua engenharia.

Assim como não existem nações que tenham crescido econômica e geopoliticamente sabotando, inviabilizando, destruindo, execrando, ensinando seu povo a desprezar, odiar e demonizar essa área, seus técnicos, trabalhadores, suas empresas, projetos, líderes e empresários, como o Brasil está fazendo agora.

Sem engenharia, os soviéticos não teriam derrotado a Alemanha nazista, com suas armadilhas para Panzers e seus portentosos tanques T-34. Nem enviado o primeiro satélite artificial, o Sputnik, para a órbita terrestre, nem feito de Yuri Gagarin o primeiro homem a viajar pelo espaço.

Sem engenharia, os Estados Unidos não teriam construído suas pontes e arranha-céus, monumentos inseparáveis da mística do american way of life no século 20. Nem produzido a primeira bomba atômica, ou chegado à lua em menos de 10 anos, a partir do desafio estabelecido pelo presidente John Kennedy em 1961.

Desde a consolidação do Império Britânico, ela mesma filha direta, dileta, da Revolução Industrial inglesa; desde a substituição de importações pelos Estados Unidos após a independência, e pela URSS, depois da Revolução de Outubro de 1917, o mundo sabe: não existem nações dignas desse nome que consigam responder a questões como para onde avançar, como avançar, quando avançar, sem a ajuda da engenharia.

Como fez Juscelino Kubitschek, por exemplo, com o binômio “Energia e Transporte” e seus “50 anos em 5”, e os governos militares que – embora o tivessem combatido e perseguido em várias ocasiões – o seguiram na adoção do planejamento como instrumento de administração pública e no apoio a grandes empresas brasileiras para a implementação de grandes projetos nacionais.

Empresas e grupos que estão sendo destruídos, agora, pelo ódio, a pressão e a calúnia, como se tivessem sido atingidos por uma devastadora bomba de nêutrons.

Com a maior parte de seus executivos presos em algum momento, as maiores empreiteiras do país foram levadas a avalizar a transformação de doações legais de campanha e de caixa dois em propina – retroativamente, nos últimos três anos.

A aceitar, na ausência de provas cabais de pagamentos de corrupção na escala bilionária apresentada pela imprensa e aventada pelo Ministério Público a todo momento, a imposição de multas punitivas “civis” a título de nebulosas “indenizações por danos morais coletivos” da ordem estratosférica de bilhões de dólares.

A render-se a discutíveis acordos de delação premiada impostos por uma operação que já acarretou para o país – com a desculpa do combate à corrupção – R$ 140 bilhões em prejuízo, a demissão milhares de trabalhadores, a interrupção de dezenas de projetos na área de energia, indústria naval, infraestrutura e defesa, a quebra de milhares de acionistas, investidores e fornecedores.

Diante de tudo isso, não podemos fazer mais do que comunicar o falecimento da engenharia brasileira, famosa por ter erguido obras pelo mundo inteiro, de rodovias no deserto mauritaniano a ferrovias e sistemas de irrigação no Iraque; passando pela perfuração de galerias e túneis sob as montanhas dos Andes; pelo desenvolvimento de sistemas de resfriamento contínuo de concreto para a construção de Itaipu; ou pela edificação de enormes hidrelétricas na África Subsaariana.

A engenharia nacional está perecendo. Foi ferida de morte por um sistema judiciário que pretende condenar, a priori, qualquer contato entre empresas privadas e o setor público, e desenvolveu uma Jurisprudência da Destruição de caráter descaradamente político, que não concebe punir corruptos sem destruir grandes empresas, desempregar milhares de pais de família, interromper e destroçar dezenas de projetos estratégicos.

Um sistema judiciário que acredita que deve punir, implacável e estupidamente, não apenas as pessoas físicas, mas também as jurídicas, não interessando se esses grupos possuem tecnologia e conhecimento estratégicos, desenvolvidos ao longo de anos de experiência e aprendizado, se estão envolvidos em projetos vitais para o desenvolvimento e a segurança nacional, se deles dependem, para sobreviver, milhões de brasileiros.

A engenharia brasileira faleceu, com seus escritórios de detalhamento de projetos, suas fábricas de bens de capital, seus estaleiros de montagem de navios e plataformas de petróleo fechados, suas linhas de crédito encarecidas ou cortadas, seus ativos vendidos na bacia das almas e seus canteiros de obras abandonados.

E o seu sepultamento está marcado para algum momento de 2017.

Será sacrificada no altar da estúpida manipulação midiática de factoides econômicos, com atitudes desastrosas como a antecipação suicida pelo BNDES – em plena recessão – do pagamento de R$ 100 bilhões ao Tesouro. Um dinheiro que poderia ser imediatamente aplicado em infraestrutura, vai em troca de uma insignificante, irrelevante, pouco mais que simbólica redução de 1% na dívida pública, quando, sem fazer alarde, os dois últimos governos reduziram a Dívida Nacional Bruta de 80% em 2002 para 67% em 2015, e a Dívida Líquida de 60% para 35% no mesmo período, pagando US$ 40 bilhões devidos ao FMI, e economizando mais de US$ 370 bilhões em reservas internacionais nos anos seguintes.

A engenharia brasileira está será sepultada, ou cremada, porque não pode mais sobreviver, a longo prazo, em um país que aceitou aumentar os gastos públicos apenas pelo índice de inflação do ano anterior, durante os próximos 20 anos, engessando estrategicamente o seu desenvolvimento, com uma imbecil e limitante camisa de força, enquanto outros países e regiões, como os Estados Unidos e a Europa, muito mais endividados – e desenvolvidos – do que nós, continuarão a se endividar, a se desenvolver e a se armar cada vez mais, já que seu discurso neoliberal e ortodoxo só serve para enganar e controlar trouxas de terceira categoria como os nossos, e quase nunca é aplicado no caso deles mesmos.

Esse hipócrita discurso para trouxas não é apenas econômico, mas também jurídico. E nesse caso, gera ganhos reais, que vão além da eliminação ou diminuição da concorrência de potenciais competidores em campos como o da engenharia.

Da estratégia geopolítica das nações mais poderosas do mundo, não faz parte apenas fortalecer permanentemente a sua própria engenharia e suas maiores empresas, mas, também, sabotar as empresas e a engenharia de outros países, usando desculpas de diferentes matizes, que são repetidas e multiplicadas pela mídia sabuja e babosa desses mesmos lugares.

Não é outra coisa o que os Estados Unidos fazem por meio de órgãos como o Departamento de Justiça e de iniciativas como o próprio Foreign Corrupt Practices Act, sob o manto do combate à corrupção e da proteção da concorrência. Leniente com suas próprias companhias, que não pagam mais do que algumas dezenas de milhões de dólares em multa, os Estados Unidos costumam ser muito mais duros com as empresas estrangeiras.

Tanto é que da lista de maiores punições de empresas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos por corrupção em terceiros países – incluídos alguns como Rússia, que os Estados Unidos não querem que avancem com apoio de grupos europeus como a Siemens – não consta nenhuma grande empresa norte-americana de caráter estratégico.


A Lockheed Martin e a Halliburton, por exemplo, pagaram apenas uma fração do que está sendo imposto como punição, agora, à Odebrecht brasileira, responsável pela construção do nosso submarino atômico e do míssil ar-ar da Aeronáutica, entre outros projetos, que deverá desembolsar, junto com a sua subsidiária Braskem, uma multa de mais de R$ 7 bilhões, a mais alta já estabelecida pelo órgão regulador norte-americano contra uma empresa norte-americana ou estrangeira.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Não, coxinha. Não foi só pelo nutela do michelzinho que você bateu panela.

Via CONJUR

O que o queijo tem a ver com o escândalo das Teles? 100 bilhões de conexões!

Lenio Luiz Streck

Começo com uma provocação: Em um país em que aquele que provoca tumulto em um posto de gasolina Petrobras situado em Agudo ou em Inhambu corre o risco de ser julgado em Curitiba face à competência infinita da operação "lava jato", eis, aqui, um prato cheio e uma grande oportunidade de os procuradores e o juiz estenderem seus tentáculos para um esquema de corrupção que pode ocasionar cinco vezes mais prejuízos do que o caso Petrobras.

Como a "lava jato" pode ser competente? Sei lá. Não faço a mínima ideia. Estou apenas metaforizando. Moro sempre dá um jeito de ver e encontrar uma conexão. Aqui, uma ideia: o escândalo de que falo é o da Lei Geral das Telecomunicações, que concede benefícios às teles no valor de R$ 100 bilhões. Tão escandaloso que a Ministra Cármen Lúcia concedeu liminar para trancar a tramitação relâmpago no Senado (para evitar, inclusive, de corrermos o risco de o Presidente Temer sancionar).

Qual é a tese da conexão, então? Simples: como se trata de um escândalo envolvendo telecomunicações e como todos os envolvidos possuem telefones celulares e alguns componentes dos aparelhos vem do petróleo, bingo. Eis a conexão para levar tudo para Curitiba. Tudo sempre está interligado, como na história do sujeito que dá uma bofetada no outro por tê-lo chamado, por dedução, de “corno”. Afinal, o desafeto ofereceu-lhe um pedaço de queijo. Que vem do leite. Que vem da vaca. Que tem chifres. Simples, pois.

É uma blague, mas estou provocando a seletividade reinante no combate à corrupção em Pindorama. O Procurador-Geral da República já deveria ter entrado em campo. Ele mesmo deveria ter entrado com a ação para evitar a criação desse monstrengo de mais de R$ 100 bilhões (isso é demonstrado por várias fontes: o próprio mandado de segurança, informações do Tribunal de Contas, O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), a Associação Brasileira de Procons e outras 18 organizações civis assinaram uma nota de repúdio contra o ato da Mesa Diretora do Senado Federal que rejeitou recursos parlamentares que pediam a análise em plenário do projeto de lei; basta procurar no Google).

Até a revista Veja falou no assunto, mostrando de onde veio o “presente” para as Teles. Está lá, bem claro, como f(Oi), ao vivo, tim tim por tim tim. O que quero lembrar? Quero lembrar os gritos (histéricos) dos parlamentares na hora do afastamento da Presidente Dilma: “ - pelo Brasil, por meus filhos, por um país decente, pela Lava Jato, por meus cachorros, por minha namorada, por minha amante etc”.  Como se começasse um Brasil do zero. Ora, ledo engano. Ilusão de quem acreditava nisso, hipocrisia de quem se aproveitou da situação. Basta ver o número de pessoas que estão listadas nas delações.

Portanto, um aviso aos moralistas de plantão: não existe uma sociedade sem vícios. Como já tantas vezes contei aqui, temos de reler, constantemente, a fábula das abelhas do barão de Mandeville:  Vícios privados, benefícios públicos. As abelhas que tentaram zerar os vícios a qualquer custo – que eram as abelhas moralistas - , ajudaram a colocar a sociedade no caos, a ponto de pedirem para a rainha que restaurasse os vícios. Está lá na fábula. Leiam. Daí a máxima: vícios privados, benefícios públicos. Só que, em Pindorama, o lema é: vícios públicos, benefícios privados. Invertemos a fábula do Barão.

Tentando ser mais simples, o episódio do Telegate (ou os bilhões natalinos das teles) apenas mostra que, em uma democracia, temos de seguir as regras do jogo. Não se tem como obrigar a que as pessoas sejam virtuosas. De que adianta fragilizar direitos fundamentais? De que adianta violar garantias e querer legitimar provas ilícitas obtidas de “boa fé”? De um lado se faz isso... e de outro vem um escândalo cinco vezes maior. Isso apenas prova de que o patrimonialismo brasileiro tem raízes fortes. E que, no combate à corrupção, não existem bons e maus corruptos. Não dá para ser seletivo.  Mas não dá, mesmo.

Que este escândalo das teles (o TeleGate) seja um exemplo de que não podemos escolher inimigos. Que devemos ser imparciais no combate à corrupção. E que há vários modos de fazer corrupção. Pode-se receber dinheiro de caixa dois, etc aos moldes Lava Jato; mas também é possível entregar mais de 100 bilhões para empresas – cujo dinheiro daria para tapar o dito déficit da Previdência. As abelhas entendem bem isso?

Sendo sarcástico mais uma vez: O que mais dói é ver que as multas que as Teles receberam durante esses anos foram apagadas no tal projeto. Tudo ao Vivo. Bem Claro. Com um Oi para a malta. Mas tudo Tim Tim por Tim Tim (desculpem-me o trocadilho). Todos meus telefonemas para o Procon, meus stresses com o 0800 foram em vão. Quero ver denúncias, agora, falando no clássico “lavagem de dinheiro e formação de quadrilha” ou coisas do gênero. Se o instituto da conexão “funcionar” – se me entendem a ironia – as celas de Curitiba deverão ser esvaziadas para novos hóspedes.


Ou não?

FBI diz “corrupção da Odebrecht é a maior do mundo”. Conheça 5 fatos escondidos no episódio



           
Leandro Lanfredi   

         

Em coletiva de imprensa realizada há poucos dias o Departamento de Justiça norte-americano detalhou os aspectos internacionais dos esquemas de corrupção da Odebrecht, envolvendo 11 países além do Brasil. Agradeceram efusivamente a colaboração do Brasil e da Suíça e já prometeram que seus “braços alcançaram” pessoas fora das fronteiras de seu país. Com toda cara de pau do mundo chamaram o esquema do “maior do mundo”. O que esse episódio revela das conexões e interesses americanos na Lava Jato? Oferecemos cinco ideias, não tão ocultas, que esse episódio revela.

 

1. Novidades da Lava Jato são informadas à imprensa em Nova Iorque, não em Curitiba

Em primeiro lugar chama a atenção que uma operação, supostamente conduzida de forma independente em Curitiba, tenha seus laços internacionais revelados em Nova Iorque e não no local onde supostamente foram conduzidas as tratativas para as delações (pessoas físicas) e a bilionária leniência (pessoa jurídica). O esquema é elogiado pelo Departamento de Justiça americano dizendo que foi intensa a cooperação, a produção de documentos enviadas pela força tarefa brasileira, e que essa cooperação era exemplo para outras operações no mundo.

Porque a Lava Jato permite que sejam os EUA quem divulgue os laços corruptos de uma empresa brasileira? É porque os braços dos EUA podem alcançar os agentes corruptos na Venezuela, Argentina, Angola e outros países citados e o Brasil não? Ou porque os EUA tem a ganhar com isso?

Já divulgamos como os EUA realizaram cursos com agentes do judiciário brasileiro, em especial Sérgio Moro, também mostramos como há afinidades ideológicas do juiz brasileiro com interesses americanos, esse tipo de suspeita começa a se avolumar e até mesmo um importante articulista da grande mídia, Merval Pereira, do O Globo dedica sua coluna de hoje para tentar falar que pouco importa os cursos nos EUA. Pode até ser que pouco importe mas seria só uma estranha coincidência que a “novidade” seja anunciada lá e não aqui?



2. Maior caso de corrupção do mundo? Ou maior pagamento de leniência da história?

Com essa pompa foi anunciado o acordo nos EUA. Seria o esquema da Odebrecht maior que o da DaimlerChrysler de 2010 que envolveu uma confissão de suborno em 22 países e teve que pagar uma multa de somente US$ 195milhões? Se levarmos em consideração o número de países a empresa alemã sai ganhando em relação a construtora brasileira, mas ela não foi punida com a mesma “convicção”.

E os numerosos casos da Siemens e Alstom que envolvem inclusive esquemas de corrupção no metrô paulista? Somente em esquemas de corrupção na Argentina e envolvendo o sistema financeiro americano a Siemens teve que desembolsar US$ 1,5 bilhão em leniência.

Seria o esquema da Odebrecht maior que o da SBM holandesa de navios-sonda que incluiu propinas em vários países, somente no Brasil de mais de R$ 100milhões? Ou seria maior que a somatória de esquemas da Halliburton na Nigéria e muitos países?

A diferença reside na pena aplicada a Odebrecht/Braskem, a maioria da história isso sim. 3,5 bilhões de dólares. Deste total quase 15% serão abocanhados pelos EUA (sendo 10% no valor da Odebrecht e 15% no valor da Braskem).

 

Essa novidade no valor da multa e os países citados na delação dão uma outra pista, não tão oculta do episódio.

3. A Odebrecht como um entrave para as empreiteiras americanas na América Latina

Segundo um anuário estatístico das empresas que participam do bilionário mercado global de “contratos públicos”, a Odebrecht seria a 13ª maior empresa em valores de contratos no ano de 2015. Dos EUA, acima dela somente a californiana Bechtel e a texana Fluor.
Onde se concentram os contratos globais da Odebrecht? Principalmente nos outros onze países citados pelos EUA: Angola, Argentina, Colômbia, Equador, Guatemala, México, Moçambique, Panamá, Peru, República Dominicana e Venezuela.

Em alguns desses países, como a Venezuela, a Odebrecht conduz obras gigantescas, como a nova linha do metrô de Caracas, objeto de interesse, sobretudo em uma Venezuela pós-Maduro.

A relocalização dos EUA e suas empresas no seu histórico “pátio traseiro” passa não somente pela mudança geopolítica, mudança de governos para que tenham maiores alinhamentos, mas também pela “revisão de contratos”. Uma multa bilionária, fora do padrão “leniente” e guardar informação para poder minar essas operações são funcionais para que Bechtel, Fluor e outras possam substituir os esquemas de corrupção com cara brasileira pelos velhos esquemas yankees.



4. O olhar atento a Odebrecht e os olhos fechados para as empreiteiras estrangeiras

Nos primeiros meses da operação escrevemos artigo mostrando alguns interesses de “donos do mundo” na operação. Como a implosão da “SETE Brasil” permitia a Haliburton e outras detentoras do monopólio de navios-sonda seguirem seu esquema cartelizado. Naquele artigo mostrávamos, como a delação de Cerveró citava empreiteiras estrangeiras que participavam no cartel da Petrobras, os delatores diziam isso explicitamente, citaram propinas da sueca Skanska (8ª do mundo segundo o ranking já citado) e da francesa Technip (6ª no mesmo ranking). Curiosamente nem os EUA nem a Lava Jato deram a menor atenção a participação dessas empresas. Seria porque devem ficar a salvo para poderem concorrer em licitações aqui?

Retirando ou dificultando a Odebrecht e outras empresas brasileiras pode-se abrir não somente o mercado brasileiro como da Venezuela e outros países para a concorrência estrangeira. Pode-se ajudar a substituir um esquema de corrupção por outros.



5. “Vamos fazer um acordo, aí você retorna para sua mansão e para seus negócios”.

Essa frase poderia ser dita em Nova Iorque ou Curitiba. Mas ela não precisa ser dita, é assim que a operação funciona. Quem punir, quem não. Odebrecht sim, Technip não... O fato de novidades dessa monta serem apresentadas nos EUA mostram como o combate ao chamado “maior esquema de corrupção da história” é uma farsa. Dos EUA e seus golpes de estado e guerras em diversos países do mundo para promover os seus interesses estratégicos (e pecuniários) não se poderia esperar outra coisa. Paga a leniência, feita as delações, tudo pode voltar ao normal. Os delatores voltam para suas mansões, seus negócios continuam. Pode ser que seus negócios passem por reestruturações, como o caso Odebrecht indica, perdendo provavelmente seus laços internacionais e tendo que se “contentar” com disputar o Brasil e não mais a América Latina. Rearranjos, mas segue a “boa vida” tendo pago o tributo imperial.

Os novos episódios mostram como não será das mãos da Lava Jato e do FBI que se conhecerá a verdade, muito menos que se dará um verdadeiro combate à corrupção. Isso passa pelo julgamento não por Sérgio Moro, mas por júri popular de todos casos de corrupção, confisco dos bens de corruptos e corruptores e estatização das empreiteiras sob controle dos trabalhadores, para garantir que não sejam nem os Odebrecht nem os imperialistas a lucrar com as obras públicas.




"Eu, Daniel Blake" - um filme sobre todos nós

 via correio Castorphoto

"Eu, Daniel Blake", dir. Ken Loach
Contra o Estado avarento


Conversa com Paul Laverty, roteirista de I, Daniel Blake ["Eu, Daniel Blake", 2016, Londres, trailer (ing.), sobre as indignidades do sistema de assistência pública em tempos de arrocho.
Filme será lançado em SP-SP dia 5/1/2017].


Não é sempre que um filme tem o impacto de "Eu, Daniel Blake".

Uma história autêntica e cortante da agressão violenta contra a sociedade que é a chamada 'assistência pública' em tempos de arrocho, o filme foi várias vezes citado no Parlamento britânico, descrito como "um grito de guerra a favor dos despossuídos", e o título do filme já aparece como slogan em passeatas e manifestações.

Dirigido por Ken Loach, narra a história de um carpinteiro – Daniel Blake – que sofre um grave ataque cardíaco e recebe do médico a notícia de que não pode continuar a trabalhar. Inscreve-se para receber a Ajuda Desemprego [ing. Employment Support Allowance], mas é considerado "apto para o trabalho", depois que mostra que ainda é capaz de levantar os dois braços acima da cabeça.

Para muitos, é situação bem conhecida: milhares de pessoas em situação semelhante morreram pouco depois de serem dadas por "aptas para o trabalho" em testes como esse, aplicados pelo Departamento de Trabalho e Pensões [ing. Department for Work and Pensions (DWP)] da Grã-Bretanha.

Blake faz amizade com uma jovem mãe que também vive tempos de dificuldade, praticamente sem apoio algum de um sistema desumano e burocrático no qual, chegar atrasado para uma consulta pode ser motivo para cancelamento dos benefícios. Sem amolecer na indignação, o filme I, Daniel Blake consegue narrar sua história em tom suave, cheio de humor e humanidade.

Para Paul Laverty, autor do roteiro, nada há de inevitável ou acidental na violência desmesurada que o filme mostra. Ao contrário, quando nos encontramos no Glasgow Film Theatre, Laverty começa dizendo que não há acasos: que toda aquela violência é consequência direta das políticas de arrocho (chamadas de "políticas de austeridade", o que não são; são políticas de arrocho) do governo conservador, que empurraram os cidadãos até os limites mais extremos entre a vida e a morte.

"É crueldade consciente" – diz ele, a voz enfurecida. – "Há um regime absolutamente vicioso de castigos e proibições que já são causas de suicídios, de famílias inteiras sem teto, de miséria, doenças, fome; isso, de vários tipos e modos. Não digo retoricamente. Andei por todo o país ouvindo a história das pessoas, contadas por elas em primeira mão."

Laverty trabalha há muito tempo com Ken Loach, fez com ele vários filmes ao longo de 30 anos. A relação se comprovou imensamente frutífera, e I, Daniel Blake é o segundo filme da dupla a receber a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes [o primeiro foi "Ventos de liberdade", 2006 (NTs)].

Mas o que mais entusiasmou Laverty foi o impacto social que o filme está tendo. "Somos todos Daniel Blake" é bandeira abraçada por ativistas no Reino Unido e em todo o mundo. O filme vem dando novo ímpeto a campanhas há muito tempo existentes contra o arrocho [não é "austeridade": é arrocho], e expôs a brutalidade do sistema de assistência pública, em governos neoliberais conservadores, para públicos muito mais amplos. Em recente manifestação na França, viam-se centenas de cartazes de "Moi, Daniel Blake" [fr. "Eu, Daniel Blake"].

Laverty teria previsto o efeito mobilizador e galvanizador que o filme teria?

"Bom... É só um filme. É uma história. Vez ou outra qualquer filme acaba num beco sem saída, ninguém vê ou comenta; outras vezes ecoam. O que me emociona muito agora é que nosso filme está ecoando muito, mais do que qualquer dos outros filmes que jamais fiz."

"Acho que tocamos algum nervo profundo, não só aqui no Reino Unido, mas em outros países onde o filme já foi exibido. Acho que tem a ver com a dignidade humana, dignidade de todos os seres humanos. Não somos estatísticas. Nossos personagens não são só cliente ou 'consumidor' ou um número no INSS [ing. National Insurance Number]. Todos os homens e mulheres têm integral direito a vida digna, com segurança e amparo na doença, na velhice."

"Há recursos mais do que suficientes para fazer isso. Nossa função é imaginar uma alternativa. Um filme, só ele, nada muda. Mas pode contribuir se ajuda a motivar as pessoas para que se organizem e comecem a agir."

Essa movimentação já começou, de fato, no Reino Unido. Antes de nossa entrevista, Laverty esteve no Parlamento Escocês, onde o secretário do Trabalho e Pensões do Reino Unido Damian Green depunha numa Comissão Parlamentar. O ministro não poupou críticas, declarou que o filme de Loach-Laverty não passava de "trabalho de ficção monstruosamente injusto". Depois, Green admitiu não ter assistido ao filme.

A confissão levou George Adam, político escocês, a presentear o secretário com uma cópia do roteiro do filme, lá mesmo durante seu depoimento à Comissão. A cópia estava autografada por Laverty, com uma nota em que dizia que "confirmo a veracidade de cada um e de todos os casos e incidentes narrados no filme", que é "reflexão justa do que está realmente acontecendo hoje". Durante toda a sessão, um ativista manteve-se sentado por trás de Green, vestindo uma camiseta de "I, Daniel Blake".

Menciono o caso, e Laverty sorri.

"Pois é. É como se Daniel Blake o seguisse por onde ele ande! Mas não pude deixar de rir, quando ele disse que o filme seria "obra de ficção". Não que queira me comparar, mas... quem diria que Dickens escreveu obras de ficção? Zola? Steinbeck? Todos são trabalhos e artistas que desejavam capturar aquele preciso momento da realidade."

"Somos contadores de histórias, fazemos filmes. Não queremos ser só agentes de agitprop. Por isso, temos de encontrar relacionamentos delicados, frágeis, complicados. A chave é essa. Acho que aí está o motivo pelo qual o filme tocou as pessoas: porque trabalhamos para que tocasse. A agitprop não cuida tanto da pesquisa e não visa a mostrar algo maior. Por isso não tem eco social profundo."

"[O ministro] Damian Green e aqueles funcionários falam de consumidores. Não. Aquelas pessoas não são consumidores: são cidadãos, como se vê logo, quando você se dedica a ouvir a miséria a que está reduzida a vida dessas pessoas. Estão exaustos, estão fartos, e, sim, contam tudo. Muitos contam."

"Mas acho que, sim, essa cultura do medo é realmente importante. O governo nega e nega e diz 'Temos de conter gastos, temos de cortar na carne, não podemos gastar o que o Estado não tem...' Assim se cria o medo, o desespero. Porque é o medo, é o desespero que leva as pessoas a aceitar esses contratos de trabalho que só dá proteção aos patrões. O medo é fabricado pelo governo, e tem de estar presente sempre. O medo é parte da visão de mundo deles."

O fato de o filme ser construído com eventos realmente acontecidos com pessoas reais torna tudo mais impressionante. Uma cena pinta quadro particularmente sombrio do desespero pelo que passam algumas pessoas repentinamente atingidas pela pobreza e pelo arrocho.

Katie, uma das personagens, que não comia há dias, abre em desespero uma lata de feijão no próprio local onde recebe alguma comida gratuita ['bancos de comida'] e tenta comer o feijão com a mão. É devastador. É prova de que os bancos de comida já são fator cada vez mais 'naturalizado' da sobrevivência para muitos no Reino Unido.

Antes de a coalizão Liberais Conservadores e Liberais Democratas assumir o poder em 2009-2010, a organização Trussell Trust de caridade pagou por 41 mil suprimentos de comida emergencial, a 56 bancos de comida. Esse número aumentou dramaticamente ano a ano; ano passado Trussell pagou mais de um milhão de pacotes, a 424 bancos de comida.

Outra cena do filme mostra Daniel cada vez mais frustrado por ser deixado sem resposta ao telefone, durante horas, quando tenta apresentar seu requerimento para obter o auxílio de apoio a desempregados.

"Ouvi as histórias mais incríveis" – diz Laverty. – "Há a legislação que diz-que garante direitos, mas se você precisa dela, começa a descobrir os pequenos detalhes que ninguém conhece antes de começar a usar os tais 'direitos'… Telefones, por exemplo: você recebe um número e é livre para telefonar. Mas é deixado lá, à espera, sem resposta. Quem não passa por tudo isso não sabe do que se trata. Até que você descobre que as pessoas pagam pelos tais telefonemas, de um modo ou de outro, e pagam caro para ouvir aquela porra de Vivaldi às vezes por uma hora e meia. (...) Há toda uma ineficiência cuidadosamente planejada em todos esses 'passos'."

O regime de multas e punições do 'INSS do Reino Unido' é elemento do sistema de 'bem-estar' que o filma ajudou a expor e iluminou com clareza. Laverty conta a história de um homem em Edinburgh com quem ele falou logo depois de perder o benefício porque não compareceu a uma convocação agendada, porque sua esposa entrou em trabalho de parto. Duas pessoas telefonaram para comunicar q ele não poderia comparecer, mas de nada adiantou: os benefícios que ele recebia foram cancelados.

A regularidade das punições não é acaso. E-mails vazados revelam que os funcionários do Departamento de Trabalho e Pensões da Grã-Bretanha está sob violenta pressão dos chefes para punir beneficiários, ou passam por 'revisões de desempenho' e "planos de aprimoramento pessoal". As punições podem envolver suspensão dos benefícios, por período que podem ir de quatro semana a quatro anos.

A efetividade das medidas foram questionadas por militantes e, recentemente, também por um estudo do próprio Gabinete Nacional de Auditagem do Reino Unido. Em avaliação assustadora, os auditores descobriram que as punições empurraram milhares de pessoas para a miséria absoluta e depressão, sem qualquer prova de que tenham realmente servido para gerar o resultado q supostamente buscavam. O mesmo estudo descobriu que a gestão do sistema de punições custa muito mais ao estado do que estaria sendo 'economizado'.

Mhairi Black, membro do Partido Nacional Escocês, oposição cerrada contra o regime de punições e recentemente levou um projeto de lei ao Parlamento, para introduzir um novo código de conduta para o pessoal do Centro de Trabalho e Pensões em todo o Reino Unido. Pela nova lei, devem ser consideradas circunstâncias pessoais da vida antes de imposta qualquer sanção. Mas os deputados Conservadores obstruíram o debate e impediram que o projeto fosse analisado.

A abordagem que o governo britânico vem adotando tem também vários críticos fora dos corredores de Westminster. Investigação conduzida pela ONU concluiu que os direitos de pessoas com necessidades especiais têm sido "violados sistematicamente" por mudanças na legislação do bem-estar e assistência social em todo o país. Essas pessoas têm sido afetadas em maior proporção que o restante da população pelas mudanças introduzidas na legislação; o relatório repete o que militantes dizem já há muito tempo, que os portadores de necessidades especiais têm sido atacados por uma narrativa que os apresenta como "pouco produtivos; um peso extra às costas dos contribuintes".

O filme será lançado nos Estados Unidos depois do Natal, mas já foi exibido no New York Film Festival em outubro [lançamento no Brasil anunciado para o dia 5/1/2017]. A experiência de Laverty no festival convenceu-o de que o tema e as questões que o filme discute são supranacionais.

"Foi exibido no Lincoln Center, e lá havia cerca de 900 pessoas" – diz ele. – "Eu estava sem saber o que achariam de nosso filminho, que se passa no nordeste da Inglaterra. Caminhando pela cidade, passei por uma bela igreja, não distante do LC. Havia uma fila de pessoas esperando para receber comida, e acabei conversando com um homem que ali estava, James Green. Acabava de perder a casa onde morava, porque o pai morreu e ele perdeu a casa e passou a viver na rua. Mas ouvindo a história dele, pensei, [o filme] podia chamar-se "Eu, James Green". Apresentei o filme, na exibição, contando essa história."

"Porque afinal de contas, o filme levanta questões muito mais amplas sobre como organizamos nossa economia, mesmo que consigamos nos livrar do regime de punições. Como vamos distribuir o trabalho, gerar trabalho para todos? Será possível esperar que criemos uma sociedade de pessoas que cuidam umas das outras e se interessam umas pelas outras?"


"Claro, com certeza aparecerá um preguiçoso vagabundo, que lá ficará sentado sobre o traseiro, de cara para a TV. Mas mesmo assim, é mais barato que empurrar as pessoas para a depressão e o suicídio. Não podemos iluminar o espírito das pessoas, em vez de lançá-las em escuridão cada vez mais profunda?"*****

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Vamos precisar de um século para nos recuperar desse golpe



Flávio Ilha

Foto: Flávio Ilha
Protagonista da CPI do Orçamento em 1993, que pela primeira vez traçou os passos da empreiteira Odebrecht na cooptação de políticos

Protagonista da CPI do Orçamento em 1993, que pela primeira vez traçou os passos da empreiteira Odebrecht na cooptação de políticos 

Protagonista da CPI do Orçamento em 1993, que pela primeira vez traçou – ainda que de forma rudimentar – os passos da empreiteira Odebrecht na cooptação de políticos brasileiros, o ex-senador José Paulo Bisol ainda tem na memória as ameaças de morte e as pressões que sofreu de colegas do Congresso para enterrar as investigações – o que de fato ocorreu.

Mais de 20 anos depois, as investigações da Lava Jato não só desvendaram as denúncias como confirmaram o poder paralelo da construtora especialmente junto à Petrobras, que remonta ao primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) – mesmo que, como reconhece Bisol, se trate de uma investigação comandada por um judiciário comprometido.

“Vou te contar uma coisa, não precisa acreditar, mas vou te contar: eu sabia muita coisa do que se fazia, do que a Odebrecht fazia, outras empreiteiras faziam, eles dominavam completamente as licitações”, revela em entrevista exclusiva ao jornal Extra Classe, concedida em sua casa na cidade de Osório. Na conversa de quase duas horas, em que fumou vários cigarros, apesar da contrariedade da esposa e do diabetes, Bisol também falou da crise institucional do país, de Lula, de Dilma, de Temer e do futuro político do país. Mesmo sem se considerar pessimista, vaticinou: “precisaremos de um século para nos recuperar”.

Extra Classe – Como o senhor tem observado nosso momento político atual? Já tinha visto crise institucional desse tamanho?
José Paulo Bisol – Nunca vi nada parecido. Tenho visto com muita tristeza, é claro. Eu não sou profeta, mas vou te dizer uma coisa que é fácil de perceber: depois do recesso parlamentar [até fevereiro de 2017] vão votar a proposta que limita os poderes de juízes e promotores, mas logo após vão anistiar o Caixa Dois. Aí acabará com a delação da Odebrecht, mesmo que já esteja homologada [a previsão de homologação é em março de 2017], e todos se safam. O Supremo Tribunal Federal (STF) vai ficar com competência reduzida, humilhado historicamente, e isso só será contado da maneira correta num futuro distante. É uma brincadeira o que estão fazendo. Imagino que precisemos de um século para nos recuperar.

Extra Classe – O senhor é pessimista.
Bisol – Não. É que esse golpe foi o mais espetacular dos últimos tempos, no mundo inteiro. É genial, os caras fizeram tudo direitinho. Tiraram a [ex-presidente] Dilma Rousseff, eram maioria, votaram o que quiseram, contra as reclamações, contra o povo na rua. Pode fazer qualquer movimento, qualquer um, não vai mudar nada.

EC – Nem uma convulsão social? As medidas econômicas, a reforma da Previdência, a PEC 55 não podem jogar o país num estado de desordem absoluta?
Bisol – Só na base da guerrilha [risos]. Mas será que ainda é tempo de guerrilha? Difícil. Pode ser que aconteça, mas o povo brasileiro é muito de direita. No bom sentido da palavra.

EC – Tem bom sentido essa expressão?
Bisol – Por ignorância, por má formação política, quero dizer. A formação política dos brasileiros é muito precária. Quem votou nos golpistas? Os pobres. Eu tenho 88 anos [completados no dia 22 de outubro] e estive 12 anos no Parlamento, como deputado e senador. Nunca vi um Congresso tão precário. Mas tomara que ocorra uma convulsão social mesmo. É lamentável por um lado, mas é o futuro do Brasil. Se houver, mesmo de bengala eu vou pra rua [risos]. Mas é desigual: a Polícia em Brasília liquidou com o pessoal durante a votação da PEC 55.

EC  – Regredimos quanto nos últimos anos?
Bisol – Muito. O STF está humilhado, não tem mais valor ético nenhum, pela covardia, pela pusilaminidade da maioria dos seus membros. Tem dois direitistas escandalosos lá: o Gilmar [Mendes] e o [Dias] Toffoli. Esse Toffoli era de esquerda, mas o Gilmar o carregou para a direita. O Toffoli segurou o quanto pôde o processo contra o Renan [Calheiros, presidente do Congresso], só faltava seu voto, então, se não segurasse não teria acontecido nada disso que aconteceu nas últimas semanas. Ele segurou politicamente, descaradamente. Não tem respeito nem a si mesmo, pois um jogo desses não pode ser jogado por um juiz que se respeita. Não se fazem truques desse tipo. E na hora de votar para valer, os ministros mudaram seus votos para não confirmar o Marco Aurélio Mello [ministro do Supremo que afastou Renan da presidência do Senado]. Eu não gostava dele, mas sua atitude foi muito corajosa.

EC – Quem diria.
Bisol – Primo do [ex-presidente Fernando] Collor, que segurou a vaga um ano para poder indicá-lo ministro, já que ele era muito jovem. São coisas desse Brasil horroroso.

EC – O senhor foi protagonista da primeira investigação séria envolvendo a construtora Odebrecht, em 1993. Como foi esse período?
Bisol – E vou te contar uma coisa, não precisa acreditar, mas vou te contar: eu sabia muita coisa do que se fazia, do que a Odebrecht fazia, outras empreiteiras faziam, eles dominavam completamente as licitações. Tentei criar um fato político que fosse considerado no Congresso [Bisol denunciou na CPI do Orçamento, em 1993, que mais de cem parlamentares poderiam estar recebendo propina da Odebrecht]. Um promotor na época denunciou a Odebrecht e a OAS, eu acompanhava todas as ações da Justiça e houve uma série de apreensões de documentos, vários caminhões que estavam levando documentos para queimar. Acompanhei as três apreensões, mas quando a gente chegava não tinha mais nada quase. E então já começou uma reclamação no Congresso, porque os deputados e senadores já tinham uma força danada naquela época. Mas eu continuei, eu insisti. Pegava os documentos, os poucos que a gente salvava, e comecei a agitar lá no Congresso.

EC  – O senhor era senador pelo PSB?
Bisol – Fui eleito pelo PMDB em 1986, mas no ano seguinte me transferi para o PSB. Quando eu passava por deputados e senadores nos corredores do Congresso, a maioria deles batia com a mão no coldre do revólver. E diziam: aqui pra ti, ó! Então, fiquei numa situação delicada dentro do Congresso, tanto que até o presidente na época, o senador Jarbas Passarinho [então no PPR], me chamou e recomendou que eu andasse com seguranças. Passei um ano com dois caras do meu lado, a coisa mais chata do mundo.

EC – As coisas não mudaram muito.
Bisol – É verdade. Mas meus documentos eram fracos mesmo, eu reconheço, porque as construtoras conseguiram queimar a maioria das provas. Depois é que se organizaram e estamos vendo o nível de sofisticação a que chegamos. Salvamos, na época, os documentos menos importantes. E foram punidos apenas uns poucos parlamentares [dos 37 investigados, apenas seis foram cassados – entre eles o atual deputado estadual Ibsen Pinheiro (PMDB)]. Por isso acho que fui um inútil lá dentro do Congresso. Não consegui fazer nada.

EC – O que foi a chamada “Armadilha Bisol”?
Bisol – Foi uma farsa montada por setores da imprensa para me desmoralizar. Disseram que eu tinha prometido provas contundentes contra as empreiteiras, o que não era verdade. Nunca prometi provas. Tínhamos documentos, mas eu sempre reconheci que eram frágeis. Era preciso investigar mais. Fomos também em três ou quatro bancos de surpresa, conseguimos cópias de operações bancárias falsas, que levavam à prática de Caixa 2, tínhamos alguns nomes importantes, poucos, mas as quantias eram insignificantes. Fomos aos bancos de helicóptero, paramos em cima dos edifícios, entramos e tiramos os documentos. Uma coisa cinematográfica. Mas o caso não foi adiante. Fiz o estardalhaço que pude, mas não foi adiante. Depois a Odebrecht pagou dois jornalistas e inventaram que eu era corrupto, que apresentei uma emenda para o município de Buritis (MG) beneficiando uma propriedade que eu tinha lá [em 1994]. Uma emenda superfaturada. Fui envolvido involuntariamente nessa denúncia. Foi o momento mais triste e angustiante da minha vida.

EC – O senhor ganhou um processo contra a RBS por conta disso, não foi?Bisol – Olha, esta casa aqui foi construída com aquela indenização [risos].

EC – Como foi?
Bisol – Publicaram as mentiras da Odebrecht sobre mim. Eu sabia desde o início, pois tinha uma pessoa de confiança que trabalhava na construtora e que me passava informações. Olha, cuidado, vai acontecer isso e isso, me dizia. Pagaram dois jornalistas, lançaram a notícia da minha suposta corrupção, a emenda ridícula de um pontilhão que eu assinei por ingenuidade, a RBS fez um sem-número de reportagens sobre o assunto. Aí entrei com a ação. Na audiência inicial de conciliação eu disse que desistiria do processo se me dessem os espaços iguais que usaram para me atacar. Eu ia escrever um monte de artigos. Mas evidentemente eles não aceitaram, então ganhei. Era uma ação simples de ganhar. Ganhei também do Correio Braziliense, d’O Globo, da [revista] Isto É, d’O Estado de São Paulo e do Jornal do Brasil, que me deve uns R$ 4 milhões. Se todos tivessem me pagado, hoje eu seria milionário.

EC – E a lista com a distribuição de brindes pela Odebrecht?
Bisol – Pois é, a tal lista não tinha nada a ver comigo. Apareceu nas provas da CPI do Orçamento [1993], mas não tinha relação com a investigação do Ministério Público Federal. Foi usada para desviar a atenção da verdadeira denúncia, que era o envolvimento de políticos com a Odebrecht. Tudo que acabou se desnudando agora, mais de 20 anos depois.

EC – Depois de ingressar no PT, o senhor disse que o partido tinha sido a experiência mais fantástica da política brasileira. O PT tem saída?
Bisol – Como? Com quem? Temos bons quadros no aqui no Sul [cita o ex-governador Tarso Genro] e lá no Nordeste, quadros que defenderam a Dilma. Tem também o Lindbergh Farias [senador pelo Rio de Janeiro]. Me diga quem mais? O próprio Lula nunca foi rigorosamente um esquerdista. Foi um sindicalista, que no final das contas é uma forma de luta capitalista. Ele provou isso. Na partilha dos royalties do Pré-Sal [2010], por exemplo, o Lula ficou do pior lado possível, do lado capitalista, ele e o [Sérgio] Cabral [ex-governador do Rio de Janeiro pelo PMDB]. Quem foi de esquerda mesmo na proposta de partilha, que acabou aprovada, foi o Ibsen [Pinheiro, que apresentou emenda ao projeto repartindo a parte excetuada da União entre todos os estados, e não apenas para os produtores]. O Lula estava na centro-direita, para usar um eufemismo [risos].

EC – O senhor rompeu politicamente com o ex-presidente?
Bisol – Não. Sou um fã do Lula. Nunca vi um orador tão excepcional quanto ele. E original. Aquela linguagem dele para um povo inteiro atinge a todos de maneira sensacional. Seus gestos, tudo. Mais do que isso: é de uma inteligência extraordinária. Acompanhei muito o Lula, me hospedei diversas vezes na casa dele, em São Bernardo do Campo. Mas fez um governo de coalizão.

EC – Isso quer dizer o quê?
Bisol – Quer dizer que pela Dilma eu ponho a mão no fogo.

EC – Pelo Lula não?
Bisol – Pelo Lula, não [risos]. A Dilma é uma pessoa admirável, convivi muito com ela durante a gestão do Olívio Dutra [1999-2002], mesmo sem termos criado uma relação de amizade. Ela errou muito no final. Errou econômica e politicamente, porque não se preparou para o que viria. Quando foi eleita, estava na cara que isso [o golpe] iria acontecer.  Ela tem muito para contar porque sofreu um monte de violências. Não só as que apareceram.

EC – O que ela deveria ter feito para evitar o impeachment? Cooptar apoios? Fazer o jogo da direita?
Bisol – Pois é, ela foi digna até aí. Com um Congresso anulando tudo o que ela pensava fazer, não restava saída mesmo. Foi uma coisa brutal. Agora, assim fica fácil fazer um golpe desse tipo. Foi a coisa mais genial da história. Toda a aparência de legalidade, com toda a imprensa apoiando.

EC  – Lula é viável para 2018?
Bisol – Não é. Vai ser preso. Só o que pode salvá-lo é esse movimento para acabar com a Lava Jato, que é uma operação de direita baseada nos princípios da maçonaria. Nós nunca cuidamos disso. O único cara que alertava para a impossibilidade de um maçom ser juiz fui eu. Como pode ser juiz um sujeito pertencente a uma seita? Por favor! Mas a maioria dos juízes brasileiros é maçom.

EC – Lula pode ser preso mesmo? Em março, durante o episódio da condução coercitiva, a reação foi muito forte.
Bisol – Se não acabarem com a Lava Jato, o que pode beneficiar o Lula, vai ser preso. A corrupção do Congresso pode beneficiar o Lula, veja só. Por que o PT está votando pela punição ao abuso de autoridade? Por causa do Lula, porque tem esperanças de salvar o Lula com essa lei. O Lula foi a maior vítima dessa violência judicial e esse absurdo da condução coercitiva foi uma prova explícita. Qualquer anti-Lula decente percebe isso.

EC – Parece uma jogada arriscada.
Bisol – Acho que não condenaram o Lula até agora porque começaram a ocorrer esses outros fatos, começaram a puxar outros nomes – especialmente do PMDB.

EC – Qual o efetivo papel do presidente Michel Temer no golpe?
Bisol – O Temer não é um bobalhão como pensam. É muito fraco em termos de popularidade e de gestão, mas sabe ver as coisas. Tem conversas com o Exército…

EC – O senhor acredita nisso?
Bisol – Pela gravidade da crise, me parece que já passou da hora do Exército intervir. De derrubar esse Congresso. A mentalidade militar é perigosa. Eu, por outro lado, não ficaria chateado se fechassem o Congresso [risos]. É o Congresso que está nos liquidando, não é o Temer. O presidente é só um porta-voz.

EC – Do PMDB sobrou alguma coisa?
Bisol – Não creio. O [Pedro] Simon sempre foi do discurso. Nas lutas que nós tivemos lá no Congresso, nunca o vi ajudar. Ia na CPI do Orçamento buscar elementos para discursar, pregou a criação da CPI das Empreiteiras, mas de concreto nunca fez nada. Nós fazíamos as provas, ele pegava e ia para a tribuna. Digamos que ele é um bom cristão. Mas não foi um bom político.

EC- Por que o senhor desistiu de escrever?
Bisol – Pela descrença. Como posso pensar em escrever um livro sem nenhuma esperança? Eu não escreveria para aparecer, mas se pudesse ter algum resultado social. Acho que se trata de uma falha da esquerda: nós não escrevemos nada, ou escrevemos muito pouco. Não documentamos, não contamos nada das coisas obscuras. Estou esperando a versão da esquerda sobre o golpe. Acho que não terminou ainda, mas já está na hora de escrever. Sempre achei uma fraqueza nossa, não termos historiadores. Os americanos são diferentes: acontece um negócio qualquer, sai livro pra tudo que é lado. Aqui nós somos muito calados. Tímidos.

EC – O que derruba a tese de uma convulsão social…
Bisol – É. Na minha opinião, deveríamos ter um modo de nos infiltrar na imprensa. Sem a imprensa não se faz nada. É o agente mais poderoso do golpe.

EC – Falta leitura para o brasileiro?
Bisol – Falta. Mas o francês médio lê muito e está no mesmo caminho que os brasileiros, à direita, senão pior [risos]. E também não tem resistência, lá como aqui. É um momento muito difícil para o mundo todo. E agora com a eleição do [Donald] Trump, imagino que vão acontecer algumas estripulias. O cara é completamente ignorante.

EC – O que senhor pensa da velhice?
Bisol – Da velhice? Acho uma época maravilhosa, o problema é a saúde. É uma idade em que temos uma lucidez impossível de ter na juventude. E uma serenidade também.

EC – Quantos cigarros o senhor fuma por dia?
Bisol – Um atrás do outro. Gosto mesmo é de fumar cachimbo, mas os fumos nacionais estão muito ruins e não há mais importação. Então, vou para o cigarro. Por que vou ter medo de morrer? Não posso dizer que em certos momentos não tenha, mas não me impressiona. Se eu voltar a ler [Bisol relata problemas de visão agravados pelo diabetes], paro de fumar.

EC – De qual leitura o senhor mais sente falta?
Bisol – De filosofia. E psicanálise. Queria voltar a ler Lacan [Jacques Lacan, psicanalista francês que viveu entre 1901 e 1981]. Mais do que psicanalista, é um filósofo de expressão porque até hoje influi nas ciências humanas. Os filósofos modernos, de esquerda, eram todos um pouco lacanianos. Acho até que foi mais filósofo que psicanalista.

EC – Como Lacan explicaria o Brasil atual?
Bisol – Ele não era muito político. Não sei como ele explicaria nossa situação. Aliás, não sei nem como eu explicaria. Somos um povo muito complicado, um país muito grande. Nossa história também não é boa, o escravismo durou muito tempo.

EC – O que compensa a falta de leitura?
Bisol – A música. Gosto muito de música erudita, mas sou horrível porque choro constantemente. Hoje passei a tarde ouvindo Pavarotti [tenor italiano]. Também ouvi “My Way”, com Frank Sinatra e depois com o Elvis Presley. Gosto muito do Andrea Bocelli também [cantor italiano].

EC – O senhor é religioso?

Bisol – Fui criado praticamente dentro da igreja, mas hoje sou um ateu convicto. Um ateu com fé.

BREVÍSSIMO TRATADO DE COXINOLOGIA TÓXICA

Via Rogério Cerqueira Leite

 Brevíssimo tratado de Coxinologia tóxica

Rogério Cerqueira Leite   

É preciso deixar claro de início que o surto de Coxinoplasia aguda atual do Brasil é um fenômeno atípico, embora já tenha ocorrido algumas vezes no passado. Uma das mais violentas e perniciosas dessas epidemias acossou a burguesia brasileira nas décadas de 40, 50 e 60 e é identificado pela sigla UDN. Em primeiro lugar é preciso saber que Coxinha não é uma espécie, mas um gênero com várias espécies. O coxinha é um protozoário oportunista. Fica latente no seu hospedeiro durante anos. Quando este fica deprimido ou com seu sistema imunológico abatido por um acidente econômico qualquer, o coxinha prolifera e se espalha tornando-se uma ameaça para o hospedeiro enfraquecido.

Abaixo descrevemos algumas das espécies mais abundantes. A taxonomia do gênero todo ainda não está cientificamente estabelecida, embora a atividade de pesquisas sobre sua toxicidade seja intensa.

Para melhor compreensão dos leitores damos um exemplo específico de indivíduos de cada espécie:

coxinha Vulgaris. Um espécime de coxinha Vulgaris é o Ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso. Nunca se exalta, nasceu coxinha embora se faça passar por esquerda festiva. Só manifesta sua virulência quando o opositor está, ou parece estar, moribundo. É essencialmente um oportunista. Seu veneno neurotóxico, agindo lentamente e provocando morte vegetal em suas vítimas.

coxinha Splendeum é aquele que gosta de um palanque. Seu narcisismo o faz tomar posições extremas. Um exemplo de coxinha Splendeum é o agora amansado deputado Carlos Sampaio. Uma característica dessa espécie é a falta de fôlego. Da mesma forma que sobem, caem. Seu veneno é hemolítico. Causa pústulas no local. O perigo é de gangrena.

coxinha Terribilis. Esta espécie transpira ódio. É visceral. Não se contém. Ataca furiosamente a presa, ou melhor, o hospedeiro. Transgride todos os limites da civilidade e da ética. Exemplo de coxinha Terribilis é o Senador Aloysio Nunes. O comportamento do coxinha Terribilis é semelhante ao de um cão hidrófobo, em que os indivíduos saem mordendo por todos os lados, enfurecidos, a baba escorrendo da boca, os olhos vermelhos, injetados. Usam, alguns deles, como armas, panelaços, palavrões, enfim, parecem loucos desvairados.

coxinha Elegans. Esta espécie tem um comportamento mais suave. É narcisista. Finge civilidade. Morde delicadamente. Mas a infecção resultante é muito difícil de debelar. Tende a se tornar permanente. O hospedeiro morre de tédio e de profunda depressão. Exemplo marcante de coxinha Elegans é o futuro Prefeito de São Paulo João Doria, que, como ninguém, sabe usar aquele suéter de grife nos ombros. Almofadinha, porém, peçonhento.


Ilustrações: charges do ilustrador Vitor Teixeira.