quinta-feira, 30 de junho de 2016

O “BREXIT”, O FASCISMO E O MEDO.

Sanguessugado do MauroSantayana




Depois de intestina disputa que rachou a sociedade inglesa, cujo ápice foi o emblemático assassinato da deputada trabalhista Jo Cox por um fanático fascista que, ao atacá-la a tiros, gritou “a Grã Bretanha primeiro!”, slogan inspirado, assim como o de “o Brasil acima de tudo!”, no “Deutschland Uber Alles!”, do hino nazista, o Reino Unido - cada vez mais desunido - votou, finalmente, por sua saída da União Europeia.   

O resultado provocou terremotos internos e externos. As bolsas caíram em todo o mundo. O primeiro-ministro David Cameron já marcou data para se afastar do cargo.

E pode levar à desagregação do país, já que a Irlanda do Norte e a Escócia anunciaram que pretendem convocar plebiscitos próprios para decidir, a primeira,  se continua na União Européia, e a segunda, se vai unir-se à República da Irlanda.

Além disso, a libra já caiu mais de 10% com relação ao dólar e ao euro, e os alimentos e as viagens para o exterior ficarão mais caras, porque em alguns produtos, como leite e manteiga, e certos vegetais, por exemplo, mais de 50% do que é consumido na Inglaterra vem do continente, no outro lado do canal.

Comandada pela direita e pela extrema direita, e provocada principalmente pela ignorância característica dos dias de hoje - milhares de britânicos entraram no Google para perguntar, às vésperas do plebiscito, o que era “União Européia” - e pelo medo e a aversão aos imigrantes, a vitória do “Brexit” é mais um poderoso exemplo do comportamento burro, deletério e ilógico do fascismo.
       

Com a saída da UE, a Inglaterra tende a perder influência na Europa; a enfraquecer-se frente a eventuais adversários extracomunitários; a empobrecer econômicamente, diminuindo seu acesso a um dos maiores mercados do mundo; além de aumentar seu isolamento no âmbito geopolítico e sua histórica dependência dos Estados Unidos.

Uma situação que deveria servir de alerta, no Brasil,  para aqueles que querem acabar com a UNASUL e o Mercosul a qualquer preço e substituí-lo por “acordos” de livre comércio desiguais com países e grupos de países altamente protecionistas, como a própria União Europeia, que contam com capacidade de pressão muito maior que a nossa.
 
Decepcionada e frustrada com os resultados das urnas, a juventude inglesa reclamou que seu futuro foi cortado, lembrando que os jovens britânicos perderam, entre outras coisas, a chance de trabalhar em 27 diferentes países, e  engrossou um manifesto de 3 milhões de assinaturas que pede a realização de novo plebiscito - hipótese improvável, praticamente impossível de avançar neste momento, diante da indiferença e do egoísmo dos vitoriosos.

Nunca é demais lembrar que o fascismo, também em ascensão na Inglaterra de hoje, rejeita e despreza - apaixonadamente -  o  futuro.

Mesmo quando se disfarça de "novo" e disruptivo, como ocorreu com a Alemanha Nazista, ele está profundamente preso ao passado, como mostrou claramente Mussolini - e também Hitler com seus monumentos, estátuas, bandeiras e desfiles - ao tentar emular, canhestramente, a cultura   greco-romana e repetir - nesse caso, na forma  de tragédia, com as seguidas derrotas militares italianas - a glória perdida da Roma Imperial.

O fascismo - ao contrário do que muitos pensam - não é glorioso, mas medroso.

Fascistas temem, paradoxalmente, aqueles que consideram mais fracos, e por isso são “apolíticos”, homofóbicos, eugenistas, antifeministas, racistas, intolerantes, discriminatorios, xenófobos,  anti-culturais e contrários ao voto obrigatório e universal.

A suástica, girando sobre seu eixo,   reproduz o movimento concêntrico de alguma coisa que se encerra em si mesma, repelindo tudo que venha de fora, como uma tribo ignorante e primitiva, um molusco que fecha velozmente sua concha, ou um filhote de porco espinho ou de tatú que se enrola, tapando a cabeça, ao primeiro sinal de ruído ou de aproximação.

Da mesma forma que faziam, patologicamente, os soldados   nazistas, educados no temor da “contaminação” judaica, cigana ou bolchevique, que se comportavam como diligentes técnicos de dedetização tentando conter uma epidemia, fechando-se a qualquer razão ou sentimento, ao matar récem nascidos e crianças de três, quatro, cinco, seis anos de idade, escondidas debaixo da cama, ou trancadas na derradeira escuridão das câmaras de gás, da forma mais fria e repulsiva, como se estivessem exterminando, simplesmente, pulgas, percevejos e ratos, ou esmagando ovos de barata.

O Brexit - a saída da Inglaterra da União Européia - é mais um perigoso aviso, entre os muitos que estão se repetindo, nos últimos tempos - como sinais proféticos - do próximo retorno de um fascismo alucinado e obtuso.

Um retorno que se dá, e se torna possível, mais uma vez, pela fraqueza e indecisão da social democracia, a existência de uma pretensa massa de “defensores” do Estado de Direito e da liberdade, amôrfa, apática, inativa; e de uma esquerda que apenas espera, de braços cruzados, também encerrada, em muitos países do mundo, em seus próprios sites e grupos, disfuncional, estrategicamente confusa, passiva, inerme e dividida, sem reagir ou defender-se quando atacada, nem mesmo institucionalmente, como um letárgico  bando de carneiros pastando ao sol.

O medo fascista está de volta.
E não se limitará à Inglaterra.

Se não for contido o avanço de sua imbecilidade ilógica, por meio do recurso ao bom senso e à inteligência, outros países da UE, tão xenófobos quanto racistas, seguirão o reino de Sua Majestade em seu caminho de  intolerância, isolamento e fragilidade.

Porque o fascismo só avança com a exploração do medo e do egoísmo.

O medo de quem se assusta com o outro, repele o que é diferente e rejeita o futuro e a mudança.


O egoísmo daqueles que preferem erguer muros no lugar de derrubá-los; que se empenham em separar no lugar de unir; que escolheriam, se pudessem decidir, matar a fecundar, saudando a morte, como fazem em muitos países do Velho Continente e em outros lugares do mundo, jovens e antigos neonazistas de coração estéril, com a artrítica, tremente, mão espalmada levantada,  no ressentimento raivoso de uma velhice amarga, que cultiva e adora o deus do ódio no lugar de celebrar a vida, o amanhã, a alegria, o encontro e a diversidade.

Estou com medo . No Caminho com Maiakóvski – Eduardo Alves da Costa(na íntegra)

 Gilson Sampaio

Esse poema já foi publicado trocentas vezes, muitas delas com atribuição erroneamente a outros autores, mas o que importa é a atemporalidade dele.

Parafraseando aquela atriz: estou com medo.

Estou com medo por causa da  inércia da sociedade de forma geral ante a negação da democracia, perpetrada por golpistas e entreguistas descompromissados com a população, as instituições e com o próprio país. 

Tenho a mais absoluta certeza de que muitos que não são de esquerda não aceitam a realidade de hoje, entretanto, se calam ou não têm espaço para se manifestarem. É preciso que essa gente se exponha, sob o risco de mergulharmos numa 'ditadura branda', extirpados dos direitos sociais e humanos, transformados novamente em colônia ou um republiqueta de bananas de fato.

Parece que caminhamos para um daqueles filmes de distopia, só que uma distopia de sinal trocado, uma volta ao passado edulcorado com tecnologia, mas, ainda assim, uma servidão moderna.

No Caminho com Maiakóvski – Eduardo Alves da Costa


No Caminho com Maiakóvski – Eduardo Alves da Costa(integral)

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita – MENTIRA!

PRESO REDATOR-CHEFE DA REVISTA VEJA


Desculpas, Chico. Foi incontrolável lembrar de sua Flor da Idade - Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo... - Cachoeira que amava Demóstenes que amava Gilmar Mendes... que amava toda a quadrilha.

feicibuqui do Breno Altman

Carlinhos Cachoeira foi preso nesta quinta-feira (30), pela PF (Polícia Federal), em Goiânia. O bicheiro é o principal alvo da Operação Saqueador, deflagrada nesta manhã.

Estão sendo cumpridos pela PF mais de 20 mandados de prisão, numa investigação que apura o desvio de dinheiro público. Os trabalhos ocorrem em Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo.


Como é sabido, Carlinhos Cachoeira é o principal responsável pelo acesso da revista Veja a vazamentos, grampos ilegais e operações clandestinas. Alem disso, comanda a sucursal da revista em Brasília, através de seu preposto Policarpo Junior.



terça-feira, 28 de junho de 2016

Elaine Tavares: O preço do feijão e o soylent green

Sanguessugado do PalavrasInsurgentes

Elaine Tavares


Poucas coisas exerceram tanta influência em mim como o filme de Richard Fleischer, Soylent Green, que no Brasil foi comercializado com o nome de “No mundo de 2020”. Lembro como se fosse hoje a matinê na qual o assisti, nas cadeiras vermelhas e confortáveis do então novíssimo Cinema Presidente, em São Borja. Fora ver o filme porque era com o ator Charlton Heston, pelo qual eu nutria profundo amor por conta de seus filmes bíblicos. Inesquecível Ben Hur. Mas, não estava preparada, nos meus alegres 15 anos para o que vi. Lembro que fiquei no escuro do cinema, depois que subiram as letras finais, com as lágrimas correndo devagarinho pelo rosto e ao longo dos dias que se passaram comecei a compreender que a vida humana não pode estar – jamais  - desconectada da natureza. Percebi que não existe uma natureza lá fora de mim, e eu, ser que domino e manipulo. Tudo é um.

Mais fortes ficaram as palavras do grande chefe Sioux Tatanka Yatanka (Touro Sentado)  que em carta ao presidente dos Estados Unidos ensinou:  “Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência”.

Creio que naquele domingo, no trajeto entre o cinema e a minha casa tornei-me ecologista. Não desses que olham a natureza como uma coisa externa ao humano, mas os que entendem que tudo é Pacha (o universo ordenado, o existente) e está interligado.

Falo tudo isso para comentar do preço do feijão e do leite, que nos últimos tempos tem se apresentado como elementos de exclusão. Nossa base alimentaria - o feijão – cada dia vai ficando mais longe da nossa mesa. Está caro demais. O leite custa seis reais o litro. Impensável. O que está acontecendo?

Ocorre que poucos são aqueles que estão produzindo comida mesmo. O sistema capitalista de produção que se apodera das terras para dar vazão ao plantio de monoculturas de exportação está destruindo o mundo camponês, esse que produz a comida nossa de todo dia. Isso vem de muito tempo, mas agora está chegando a níveis perigosos. Nosso estado de Santa Catarina é um exemplo desse terror. Quilômetros e mais quilômetros de pinus nas terras onde antes brotava o trigo, o feijão, a mandioca, o tomate, a maçã. A terra se exaurindo, uns poucos ganhando dinheiro e pequenos produtores iludidos com as parcerias das papeleiras.

O mundo capitalista não quer saber das gentes. O que precisa produzir é lucro. Se, para isso, for necessário massacrar milhões, que seja. No seu brilhante texto sobre acumulação primitiva Karl Marx descreve como, no início do capitalismo, os ingleses destruíram as propriedades produtoras de comida para criar as ovelhas que alimentariam com lã as máquinas das fábricas de tecido. Por conta disso gerou-se um gigantesco êxodo de gente para a cidade que, por sua vez, iria alimentar o monstro do capital, com seus corpos e os dos seus filhos.

Hoje, no Brasil e na América Latina vivemos novo ciclo de acumulação primitiva do capital. O campo vai se apequenando para as gentes e para a produção de alimentos. Produz-se a soja para exportação, cria-se gado ou então se expulsam as famílias para a extração de minérios. A terra especulada. E danem-se as pessoas. O que vale é a bolsa de valores e seu capital de mentira.
Mas, o fato é que as pessoas precisam comer e alguém tem de produzir comida. Senão, que vamos ingerir para manter a vida? Produtos criados em laboratório? Pílulas de energia? Quê?

O filme 2020 mostrava, nos anos 70, o que poderia acontecer no futuro se o homem seguisse com seu processo de destruição da natureza. Falava de um amanhã longínquo demais, pura ficção científica. E, como sempre acontece com a arte - que é a antena do humano – mostrava o quanto o sistema capitalista de produção pode ser engenhoso e sagaz nas soluções que encontra para continuar se reproduzindo e lucrando com a maioria.

A descoberta do detetive Robert Thorn, em meio a uma crise de fome na cidade onde vive, que naqueles dias me pareceu estarrecedora, hoje apareceria como estranhamente natural. Porque hoje eu já sei como é que funcionam as entranhas do sistema e o que efetivamente tem valor para os que dominam. Ao sistema capitalista e seus operadores, pouco importa o que acontece com a maioria das gentes. Esses seres que não conformam o topo da pirâmide social sempre serão usados pelos graúdos como carne moída para a manutenção do modo de vida atual. E o que é pior, serão a carne comida pelos seus próprios companheiros, garantindo a reprodução da vida dos que realmente produzem a riqueza, tal qual no filme.

Naquele dia perdido no passado, pelos olhos de Charlton Heston eu também me fiz comunista, mesmo sem saber. Saí dali disposta a não permitir que o ano de 2020 fosse como anunciava a ficção. Nenhuma pessoa teria que passar pela dor de comer seu irmão, seu pai, sua mãe, sua amiga, para seguir servindo os ricos. Haveria que salvar as gentes e a vida toda.

Hoje, passados tantos anos estou aqui, diante da tela do computador, com lágrimas nos olhos, lendo sobre o preço do feijão e do leite, sentindo o bafejo do ano 2020 no cangote, e pensando que talvez tudo seja como a ficção pensou. Sinto calafrios.


Mas, apesar do terror, não me imobilizo. Pelo contrário. Mais motivos tenho para seguir desvelando a realidade e lutando para que um novo jeito de viver seja construído pela ação das gentes. Há tempo ainda. Espero...

segunda-feira, 27 de junho de 2016

OS NÚMEROS DE MAIO

Sanguessugado do Mauro Santayana

 

Contrariando as "previsões" da mídia e do "mercado", o Brasil registrou, no mês passado, superávit de 1.2 bilhões de dólares em transações correntes, devido, principalmente, a um superávit de mais de 6 bilhões de dólares no comércio com outros países, que chegou a quase 20 bilhões de dólares nos primeiros 5 meses do ano.

Em maio, o Investimento Estrangeiro Direto também foi de mais de 6 bilhões de dólares, completando, nos últimos 12 meses, cerca de 79 bilhões de dólares, uma gigantesca soma de mais de 260 bilhões de reais.

Esse é o país - com 374 bilhões de dólares em reservas internacionais, quase um trilhão e quinhentos bilhões de reais guardados - que o  consenso de boa parte da mídia e da massa ignara que domina as redes sociais e o espaço de comentários dos jornais e portais aponta como um país destruído, economicamente  quebrado e sem credibilidade nos mercados internacionais.

Agora, resta saber se os "gênios" do PT - considerando-se que o partido estará sentado no banco dos réus, junto com ela,  no julgamento do impeachment pelo Senado -   vão aludir a dados como estes na defesa da Presidente Dilma, e outros, como o da diminuição da Dívida Pública Bruta e da Dívida Líquida de 2002 até agora, ou se vão continuar recorrendo ao "mimimi" e à retórica contraprodutiva na hora de defender a verdade dos fatos da massacrante consolidação dos mitos e paradigmas de seus inimigos junto à opinião pública.



O poder transformador da empatia nas relações humanas

Sanguessugado do RevistaPazes 



“A empatia é a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações.” Segundo John Donne, nenhum homem é uma ilha, sendo cada indivíduo um pedaço do continente, uma parte do todo.

Durante muito tempo pensou-se que a empatia fosse uma capacidade exclusivamente humana. Hoje, sabemos que diversas espécies animais são capazes de sentir empatia e coordenar impulsos “levando em consideração” o outro. Assim, nossa capacidade de sentir empatia está ligada à herança genética, que é uma consequência evolucionista.

Segundo o autor (KRZNARIC, p. 28) do livro “O Poder da Empatia – A arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo”, a empatia é o antídoto para o individualismo absorto em si mesmo, que herdamos do século passado. A necessidade de desenvolver empatia está no cerne do esforço de encontrarmos soluções para problemas mundiais como violência étnica, intolerância religiosa, pobreza extrema, fome, abusos dos direitos humanos, aquecimento global. O autor denomina esta capacidade como uma espécie de pílula da paz.

Historicamente, conseguimos enxergar alguns “impedimentos” que nos colocamos para usarmos intensamente a empatia: Preconceito, autoridade, distância e negação. O preconceito é como uma venda em nossos olhos, é um julgamento feito em um momento considerando informações superficiais, sem comprovação; é um estereótipo do qual devemos fugir. Ao exercer enorme influências sobre os indivíduos, a autoridade foi utilizada como desculpa para cumprir tarefas execráveis. Também, não só a distância física, mas a temporal e, principalmente, a social, nos induzem a ser menos empáticos. E ainda, após sermos bombardeados com imagens de problemas sociais em diversas partes do mundo, com o tempo vamos nos tornando insensíveis a elas, “negando’’ sua existência.

O uso de nosso eu empático pode também estar intrinsecamente ligado à resolução de questões do nosso dia a dia. Ao tentar se colocar no lugar do outro no ambiente de trabalho, temos muito a ganhar expandindo nossa capacidade de compreensão dos problemas que nos rodeiam. Este exercício nos proporciona experimentar outras visões diferentes das nossas e observar aspectos antes ignorados por nós, pela simples constatação que enxergamos tudo a nossa volta considerando nossas próprias experiências pregressas. Essas mesmas experiências nos moldam ao longo do tempo, desenvolvendo, mesmo que inconscientemente, o poder da empatia.

A habilidade de aceitar e conviver bem com a diversidade nos torna mais empáticos e tolerantes. É o que vai nos permitir entrar numa sala de reuniões de uma organização transnacional para uma apresentação a ser feita e transmitir a mensagem que queremos de forma adequada para cada membro da plateia.

Outro aspecto muito importante que a empatia contribui é para a liderança. Nos dias de hoje, e com o modelo dinâmico de organizações que vivemos, não cabe mais o líder autocrático, altamente técnico, mas que não consegue se comunicar bem com seus liderados. É um exercício diário observar os colegas, subordinados e superiores e desenvolver a habilidade de ser empático com cada um deles.

Isso significa compreender as demandas individuais e atendê-las de forma abrangente. Um subordinado demanda orientações para o desenvolvimento da tarefa de forma a contribuir com a meta do grupo em que está inserido. Um superior demanda informações já tratadas para o processo decisório. Mesmo tratando de um assunto comum, as abordagens são completamente diversas e cabe ao líder compreender essa diferença. Para isso, vai usar muito de sua capacidade de ser empático com ambos.

Ser empático não se restringe às pessoas que conhecemos, mas principalmente com os desconhecidos ou mesmo com personalidades antagônicas. Este é um grande esforço que demanda sensibilidade, inteligência emocional e vontade, para se colocar no lugar do outro e experimentar uma nova perspectiva. Esta é uma habilidade que pode ser aprendida, mas que precisa ser diariamente cultivada.

As organizações têm muito a ganhar desenvolvendo a empatia em seus colaboradores, que naturalmente passam a trabalhar mais alinhados com seus líderes, uma vez que se sentem compreendidos. Isso gera coesão na equipe, e é um diferencial de mercado, que impacta na rentabilidade, gerando mais resultados.

Precisamos reconhecer a empatia como uma força capaz de promover mudanças nos diversos meios onde atuemos. Podemos fazer esse exercício diariamente, em nossas famílias e em nosso ambiente de trabalho, melhorando nossas relações interpessoais.

Fazer esforço consciente para se colocar no lugar de outra pessoa – inclusive no de nossos inimigos – para rasgar rótulos, reconhecer sua humanidade, individualidade e perspectivas: eis um dos grandes diferenciais daqueles que se esforçam para se destacarem em liderança.


* Este artigo é de autoria de Alzira Azeredo

Observção do bloguezinho mequetrefe:

Tem uma cara que falou há dois mil anos atrás: Não faça ao outro o que não queres que te façam a ti.


sábado, 25 de junho de 2016

Brexit: Mais do que nunca, uma ilha


Marcelo Manzano


Impossível dizer para onde caminhará a Europa e o mundo, depois da saída do Reino Unido da União Europeia. A possibilidade de se estar presenciando o estopim de um aprofundamento do desarranjo mundial que se estende desde 2008 é grande

Quem poderia imaginar que justamente da terra de Adam Smith e David Ricardo, berço do liberalismo econômico, viria o mais potente petardo contra o projeto de integração europeu? Mais do que isso, que os argumentos racionais e até certo ponto generosos dos clássicos da economia seriam suplantados pela retórica medíocre e oportunista de dois populistas de direita, duas figuras caricatas que parecem ter brotado entre os cogumelos nos jardins da rainha.

Ao que tudo indica – e as bolsas assim já precificam – a decisão tomada pelo povo britânico no dia 23, a favor do Brexit, ameaça desordenar o tabuleiro mundial e principalmente europeu com grande letalidade.

De cara, o mapa do resultado eleitoral da ilha revela um futuro sombrio e de inevitável desmantelamento do reino bretão. A começar pela impressionante unanimidade entre os eleitores da Escócia, onde nada menos que 100% dos distritos registraram maioria contrária ao rompimento com o bloco europeu.

Em contrapartida, no País de Gales e nas infinitas e bucólicas cidades do interior, o voto a favor da saída foi massivo, revelando que o eleitorado de mais idade, de renda média, com menor escolaridade e mais tradicionalmente “British” aposta no rompimento com a Europa como atalho para retomar a glória da Inglaterra vitoriana (silly boys!).

Já nas grandes e antigas cidades do cinturão operário do Norte (Liverpool, Manchester e Leeds), que pariram a Revolução Industrial e deram origem aos movimentos operários, prevaleceu o voto contrário ao Brexit, embora nas também importantes e ex-industriais Sheffield e Birmingham o mesmo não tenha ocorrido – o que é uma vergonha.

Londres, claro, cosmopolita e financista como nenhum outro rincão do planeta, votou majoritariamente pela continuidade da aliança com o continente – pesou também nessa tendência dos londrinos o grande número de jovens, universitários e imigrantes que se concentram na cidade e que enxergam na integração um horizonte mais vasto para seus projetos de vida.

Noves fora, o quadro de discórdia explicitado pelo referendo deverá ser sucedido por processos de cisões internas e externas de toda ordem. Não só os escoceses já anunciaram que querem um novo referendo para decidir o rompimento com o Reino (e aposto todas as fichas que sairão), como também os galeses, irlandeses do norte e até mesmo os ingleses do North (vermelho) deverão dar corda a movimentos separatistas que encontrarão cada vez mais motivos para romper os nexos com a asfixiante da City londrina.

Clique para contribuir!

É um vexame! Parece que os ilustrados da velha ilha meteram o sorvete no nariz e agora será difícil evitar o esfacelamento do que restava de vigor trabalhista e mesmo de uma direita conservadora mais responsável. Perdidos em infindáveis debates principistas sobre qual seria o melhor esteio da democracia (a tecnocracia do parlamento europeu ou a tradição secular do britânico) e reféns do oportunismo de curto prazo de Mr. Cameron (moleque que prometeu o referendo para vencer a eleição com o apoio dos xenófobos) as tradicionais forças políticas britânicas foram atropeladas por uma cambada de “homens médios”.

Sob a liderança do quase patológico Nigel Farage (líder do Ukip e inventor do Brexit) e do idiossincrático Boris Johnson (ex-prefeito de Londres, do Partido Conservador, que faz um tipo “família Adams”, mas que é esperto como um Eduardo Cunha sem contas na Suíça), os britânicos deverão assistir em breve o cenário político degenerar ainda mais.

Sem os votos progressistas dos escoceses e com o Labour Party em profunda crise de identidade, restará aos britânicos referendar a aliança entre o tinhoso e provável próximo Primeiro Ministro, Mr. Boris Johnson, e o infame Farage – a dupla terá que lidar com um dos momentos políticos mais turbulentos da vida britânica nas últimas décadas e certamente fará história.

Obviamente, essa maré de água azeda deverá cruzar o Canal da Mancha e disseminar as razões dos eurocéticos pelas terras do continente. Holanda, Dinamarca e República Tcheca já estão preparando seus plebiscitos – com o agravante de que nestes casos o rompimento deverá ser também com a moeda comum, o que coloca sérias dúvidas quanto à sobrevivência do Euro.

Impossível dizer para onde caminhará a Europa e o mundo. A possibilidade de se estar presenciando o estopim de um aprofundamento do desarranjo mundial que se estende desde 2008 é grande. Lamentavelmente, mais do que nunca, a frase do conservador Ortega y Gasset, escrita para o contexto europeu de 1927, parece fazer irritante sentido ainda em nosso tempo e lugar: “a característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe a toda parte”.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Inacreditável: Teori Zavascki impede MPF de cobrar porcentagem por acordos na "lava jato"

Via CONJUR

Marcelo Galli

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao Supremo Tribunal Federal que o Ministério Público Federal ficasse com uma porcentagem dos R$ 79 milhões devolvidos pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa. Mas o ministro Teori Zavascki, relator da “lava jato”, não concordou com o pedido, por considerá-lo sem justificativa legal.

A devolução do dinheiro que estava no exterior faz parte do acordo de delação premiada que o executivo acertou com o MP no âmbito da operação, que apura fraudes em contratos e desvio de verbas da petroleira. 

Valor integral deve ser depositado na conta da Petrobras, julgou Teori.
Nelson Jr./SCO/STF

Conforme a petição da PGR, 80% dos R$ 79 milhões repatriados por Costa deveriam ir para a Petrobras, e o restante seria depositado em favor da União, “para destinação aos órgãos responsáveis pela negociação e pela homologação do acordo de colaboração premiada que permitiu tal repatriação”. Ou seja, para o Ministério Público Federal e para o próprio STF.

Na decisão, o ministro Teori afirma que o valor integral deve ser depositado na conta da Petrobras. Segundo o ministro, embora a Lei 12.850/2013 estabeleça, como um dos resultados necessários da colaboração premiada, “a recuperação total ou parcial do produto ou do proveito das infrações penais praticadas pela organização criminosa”, o diploma normativo deixou de prever a destinação específica desses ativos. A lacuna, diz, pode ser preenchida pela aplicação, por analogia, dos dispositivos que tratam da destinação do produto do crime cuja perda foi decretada em decorrência de sentença penal condenatória.

O artigo 91, II, b, do Código Penal estabelece, como um dos efeitos da condenação, “a perda em favor da União, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boa-fé, do produto do crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente com a prática do fato criminoso”. Para o relator da “lava jato” no STF, a Petrobras é “sujeito passivo” dos crimes em tese perpetrados por Costa e pela suposta organização criminosa que integrava, e, por isso, o produto do crime repatriado deve ser direcionado à empresa lesada para a restituição dos prejuízos sofridos.

Ele explica também que a Petrobras é uma sociedade de economia mista, razão pela qual seu patrimônio não se comunica com o da União. Assim, continua o ministro, eventuais prejuízos sofridos pela empresa afetariam “indiretamente” a União, na condição de acionista majoritária. “Essa circunstância não é suficiente para justificar que 20% dos valores repatriados sejam direcionados àquele ente federado, uma vez que o montante recuperado é evidentemente insuficiente para reparar os danos supostamente sofridos pela Petrobras em decorrência dos crimes imputados a Paulo Roberto Costa e à organização criminosa que ele integraria”, diz a decisão.

Pet 5.210


Clique aqui para ler a íntegra da decisão.

US$ 100 milhões em propina – Fernando Henrique Cardoso será conduzido a depor sob vara?

Sanguessugado do O Cafezinho



Durante a palestra Brasil, Qual Será o Seu Futuro?, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou não ser pessimista em relação ao país. Segundo ele, o Brasil tem um "potencial enorme" 

Durante a palestra Brasil, Qual Será o Seu Futuro?, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou não ser pessimista em relação ao país. Segundo ele, o Brasil tem um "potencial enorme" (Wilson Dias/Agência Brasil)

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

 Bajonas Teixeira de Brito Junior, colunista do Cafezinho

O procurador Carlos Fernando Lima, da Lava Jato, que coagiu Lula a depor sob vara no aeroporto de Congonhas, isto é, usando a condução coercitiva, que garantiu também que no Brasil ninguém está acima da lei, e que apresentou a tese da “cadeia de comando” – “Lula tinha que saber” – terá que nos dizer como ficarão as coisas agora. A delação premiada de Nestor Cerveró revelou um negócio que, como informou hoje o próprio jornal O Globo,“rendeu US$ 100 milhões em propina para integrantes do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Usando o câmbio de sexta-feira passada, mas sem correção monetária, a cifra chega a R$ 354 milhões.”

Qual é a situação então? O que muda quando integrantes do governo FHC são apontados como beneficiários de uma propina de 100 milhões de dólares? Muda o seguinte: se ninguém está acima da lei, FHC terá que ser conduzido coercitivamente para depor. Se a tese da “cadeia de comando”, segundo o qual o presidente não poderia ignorar, não vale só para Lula, FHC também tinha que saber da corrupção na Petrobras durante seu governo. Portanto, tem que ser investigado como possível comandante de todo o esquema. E mais: a tese tão defendida pelo procurador Carlos Fernando, de que a corrupção da Petrobras é obra do PT, que começou no governo Lula, pode ser jogada no lixo da parcialidade judicial.

Vejamos a coisa com calma. O procurador Carlos Fernando mostrou há pouco tempo ter uma visão muito elevada sobre Michel Temer. Ele afirmou não acreditar que Temer poderia, de algum modo, influenciar negativamente nos rumos da operação Lava Jato. Foi o que declarou em entrevista à Globo, nas páginas da revista Época agora em abril:

ÉPOCA – Há risco para as investigações em um eventual governo Michel Temer?

Carlos Fernando – Nós não temos nenhuma opinião formada sobre essa ou aquela posição política. O doutor Temer é professor de Direito Constitucional e entende os limites republicanos no país. Cremos que não haverá nenhum perigo ou tentativa de limitar o alcance das investigações.

Pois é, “não haverá nenhum perigo”. E já estamos já com dois ministros de Temer que caíram por tramarem contra a Lava Jato. Isso deve ser suficiente para nos convencer do seguinte: as teses do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, não são necessariamente compatíveis com a realidade. Mas alguém dirá: ele falou de Temer não de seus ministros. Sim, é claro, que falou de Temer. Mas não da pessoa de Temer, e sim de um possível governo Temer, que estava começando a parecer mais que provável na data da entrevista, 26 de abril.

Se o procurador errou redondamente em sua previsão, se assim deixou escapar sua parcialidade, com uma simpatia que o cegou para a natureza do governo Temer, não seria capaz de ter investido contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva apenas movido por um ódio cego?

Essa pergunta é importante porque esse procurador é um dos construtores da tese da “cadeia de comando”, isto é, de que Lula tinha que saber. No dia 04 de março, falando à imprensa sobre a condução de Lula, o procurador concordou que aquele era um dia importante para a República: “É um dia importante porque ela enfatiza o caráter republicano das investigações. Não há ninguém imune a investigação. Seja aqui em Curitiba, nos casos sem foro privilegiado, seja certamente, em Brasília [ou seja, nos casos com foro privilegiado]”

Ninguém estava acima da Lei, nem a ex-primeira dama, nem o filho, nem o ex-presidente. Dezenas de juristas, ex-ministros de FHC alguns, muitos professores universitários, se manifestaram contra a condução coercitiva, pelo seu abuso autoritário, inclusive o ministro do STF, Marco Aurélio de Mello. O procurador Carlos Fernando, uma espécie de pensador da Lava Jato, justificou esse ato de duas maneiras: durante o dia 04 de abril, disse que ninguém estava acima da lei, posteriormente, quando choveram críticas, afirmou que haviam conduzido 116 pessoas antes, e apenas na vez do ex-presidente Lula aconteceu aquela discussão.

Portanto, usando a expressão habitual do imparcial Gilmar Mendes, “normal, absolutamente normal”. A condução se justificaria pelo sítio e pelo apartamento em Santos. Mas, além disso, e, sobretudo, pela tese da “cadeia de comando”.

Vejamos:

“Carlos Fernando dos Santos Lima – Temos claro hoje que a pessoa do ex-presidente (Luiz Inácio Lula da Silva) tem uma responsabilidade muito grande nos fatos. Há uma linha de investigação que aponta ele na cadeia de comando.

Temos indicativos claros de que havia conhecimento dele a respeito dos fatos e o governo dele era o principal beneficiado do financiamento da compra de base de apoio parlamentar.”

Muito bem. Mas estamos presenciando fatos que apontam, com o dedo duro de Cerveró, para U$ 100 milhões em propina no governo FHC. O que acontecerá? Na entrevista a Época, o procurador dizia:

“Carlos Fernando – Enchem tanto a gente por conta disso... Para investigar, qualquer procurador tem de partir de um fato concreto – não posso abrir investigação para pegar fulano etc. e tal. Temos os limites da lei, não podemos sair e falar: “Agora quero pegar o governo do FHC”. Se aparecer crime do governo FHC, vou analisar se está prescrito ou não, daí podemos investigar. Boa parte dos crimes já está prescrita.”

Pois bem. O fato concreto já está aí. Qual será o procedimento? FHC vai ser levado para o aeroporto de Congonhas para depor sob escolta da PF? Será arrastado pelas ruas da cidade de São Paulo sob vara? Essas são questões intrigantes. É óbvio que o argumento da prescrição não pode nem sequer ser pronunciado a essa altura. Interessa ao país saber o que aconteceu com os seus recursos, e quem começou a roubalheira na Petrobras, da mesma maneira que uma família tem o direito de saber quem assassinou um membro seu, não importa o quanto este crime esteja prescrito.

PS: Só para não esquecer. Embora nem rumores ocorram na imprensa, outro grupo do governo FHC (José Serra, Pedro Malan, Pedro Parente, etc.), já está condenado por improbidade administrativa, pela ‘ajuda’ de quase 3 bilhões dada pelo Banco Central aos bancos Econômico e Bamerindus, em 1994. Repetindo: não estão sendo processados, já foram condenados e estão soltos e exercendo funções de elevada responsabilidade pública graças ao ministro Gilmar Mendes, que não apenas concedeu liminar para suspender as ações (em 2002), como mandou arquivar os processos (em 2008).  O representando do Brasil no exterior, a autoridade máxima do Ministério das Relações Exteriores, é alguém condenado por improbidade administrativa, o que muito, certamente, enaltece a imagem do país lá fora.


Bajonas Teixeira de Brito Júnior – doutor em filosofia, UFRJ, autor dos livros Lógica do disparate, Método e delírio e Lógica dos fantasmas, e professor do departamento de comunicação social da UFES.

terça-feira, 21 de junho de 2016

A Oi quebrou(?)

GilsonSampaio


A ANATEL, agência reguladora do mercado, coitadinha não sabia de nada! Tão tolinha. Não sabia de nada. E a Oi quebrou(?).
Quero dizer, de algumas coisas ela sabia, como o perdão das multas bilionárias pelo não cumprimento do contrato ´privatista. Ah, sim. também quer internet pre-paga, igual a telefone pre-pago.
Coxinha, prestenção.

Digite na caixa de pesquisa Gang das Teles para ver mais sobre a folha corrida.


QUEBRA DA OI REVELA FALÊNCIA DA PRIVATARIA

Sanguessugado do 247
:
Colapso da Oi, que anunciou nesta segunda-feira um pedido de recuperação judicial de R$ 65 bilhões, afetando bancos públicos e privados, expõe a falência do modelo da privatização brasileira; em 1998, no governo FHC, a antiga Telemar foi comprada pelos empresários Carlos Jereissati e Sergio Andrade, da Andrade Gutierrez, que chegaram ao leilão sem dinheiro, mas acabaram financiados por fundos de pensão estatais; já no governo Lula, a Oi engoliu a Brasil Telecom, que era controlada por Daniel Dantas, para se criar a chamada "supertele nacional"; no entanto, a empresa jamais conseguiu decolar e chega ao calote de forma melancólica – o que causará grandes estragos no sistema financeiro

247 – Em julho de 1998, quando as principais concessionárias de telecomunicações do Brasil foram privatizadas, uma grande surpresa marcou o leilão da antiga Telemar, que era operadora do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Norte e Nordeste. A empresa havia sido comprada por empresários que chegaram ao leilão sem dinheiro. Um grupo capitaneado por Sergio Andrade, da Andrade Gutierrez, e Carlos Jereissati, da La Fonte.

O grupo havia sido organizado pelo notório Ricardo Sergio de Olivera, tesoureiro do PSDB, que, quando flagrado nos famosos "grampos do BNDES", disse agir "no limite da irresponsabilidade". Embora não tivessem recursos para comprar a empresa, Andrade e Jereissati foram financiados por fundos de pensão de empresas estatais e pelo BNDES. Pouco tempo depois, foram chamados de "telegangue" pelo então ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros.

No entanto, graças aos grampos do BNDES, Mendonça de Barros foi derrubado e os sócios privados da Oi continuaram à frente da empresa. Quando veio o governo Lula, as disputas societárias nas telecomunicações abriram espaço para a criação de uma "supertele nacional", unindo a Oi à Brasil Telecom, que era concessionária no Centro-Oeste e na Região Sul. Com isso, o polêmico Daniel Dantas, que controlava a Brasil Telecom, foi afastado, recebendo um valor aproximado de R$ 1 bilhão para sair do setor.

Em seguida, a Oi tentou se viabilizar unindo-se à Portugal Telecom – uma operação que também fracassou depois que eclodiram escândalos no grupo Espírito Santo, que controlava a companhia portuguesa.

Nesta segunda-feira, aquela que deveria ser a empresa brasileira capaz de rivalizar com as duas principais potências telefônicas da América Latina – a espanhola Telefônica e a mexicana Telmex – entrou em colapso ao anunciar seu pedido de recuperação judicial, o maior da história do País, que deixa um calote de R$ 65 bilhões a ser dividido entre bancos públicos e privados.

Leia, abaixo, reportagem da Reuters a respeito:

Após fracasso em negociação com credores, Oi pede recuperação judicial

Por Aluísio Alves

SÃO PAULO (Reuters) - A Oi anunciou nesta segunda-feira que deu entrada em um pedido de recuperação judicial, após fracasso nas negociações com detentores de bônus para tentar reestruturar de forma organizada dívidas de cerca de 65 bilhões de reais.

Em fato relevante, a maior concessionária de telecomunicações do Brasil afirmou que a medida visa, entre outros objetivos, proteger o caixa das empresas do grupo.

O pedido vem após a Oi ter anunciado na última sexta-feira que ainda não havia obtido acordo com detentores de bônus para uma reestruturação financeira, conversa intermediada pela Moelis & Company. Segundo a Oi, 60 por cento de seus recebíveis estavam penhorados a bancos brasileiros.

"Considerando os desafios decorrentes da situação econômico-financeira das empresas Oi à luz do cronograma de vencimento de suas dívidas financeiras, ameaças ao caixa das empresas com iminentes penhoras ou bloqueios em processos judiciais, e tendo em vista a urgência na adoção de medidas de proteção das empresas, a companhia julgou que a apresentação do pedido de recuperação judicial seria a medida mais adequada neste momento", diz trecho do documento.

O pedido de recuperação acontece dias após o presidente-executivo da Oi Bayard Gontijo ter renunciado à presidência da operadora, em meio a discordâncias com sócios portugueses do grupo sobre a forma de reestruturação financeira da companhia.

"O pedido de recuperação foi ajuizado em razão dos obstáculos enfrentados pela administração para encontrar uma alternativa viável junto aos seus credores", afirmou a Oi.

Segundo a Oi, as atividades operacionais seguirão normalmente e não haverá demissões. Além disso, o foco em investimentos para melhora de qualidade dos serviços será mantido, assim como as metas operacionais para 2016.


O pedido de recuperação judicial será deliberado em assembleia geral de acionistas. A empresa não informou para quando elas estão previstas.

Eliseu Padilha, o lado mais sujo da política

Sanguessugado do GGN

Luis Nassif

 

Chega a ser curioso o primarismo político da junta interina.

Assumiu o poder no bojo de um golpe parlamentar e no rastro de uma campanha moralizadora. A campanha uniu pontualmente mídia, Congresso e Ministério Público em torno de um objetivo específico: depor Dilma Rousseff.

Quando sai um governo e entra outro, o interino herda os poderes, mas também a visibilidade do anterior. Especialistas na pequena política, da cooptação do baixo clero, da atuação nas sombras, a junta interventora não se deu conta de que, à luz do dia é como mandruvás cobertos de sal. E partiu para o exercício do poder, da mesma maneira que os farrapos degolando os inimigos nos pampas.

Dentre todos os integrantes da junta, nenhum é mais agressivo e sem limites que Eliseu Padilha.

Coube a ele convocar dois assessores - Laerte Rimoli e Márcio de Freitas - para baixarias contra jornalistas críticos ao golpe. Jornalistas que se fizeram servindo o lado obscuro da política, não se pejaram em atacar a reputação de jornalistas que ousaram se interpor aos desmandos de seus chefes.

Padilha não se deu conta de que a exibição de poder, ainda mais por pessoa com seu passado, apenas chama a atenção das autoridades judiciais e da opinião pública.

Comportou-se como o gendarme de uma ditadura, quando não passava de inquilino provisório do poder.

Padilha é o lado sujo da política desde o governo Fernando Henrique Cardoso. Coube a ele, ao lado de Gedel Vieira Lima, o enorme trabalho de cooptação do PMDB para negar a candidatura a Itamar Franco nas eleições de 1998.

Em janeiro de 2001, em minha coluna na Folha, escrevi sobre ele o que se segue:

O desmonte dos transportes


Dentre todas as áreas do setor público, a que menos avançou foi a dos transportes. A única justificativa para a manutenção do ministro dos Transportes, Eliseu Padilha (PMDB), é não ceder às pressões do PFL, porque do ponto de vista operacional está jogada às traças uma das áreas fundamentais para a redução do "custo Brasil".

Aliás, a presença de Padilha depõe contra a aliança que mantém FHC, contra FHC e contra o próprio partido que o indicou -o PMDB. A questão da gestão passou a ser elemento vital. Tendo uma vitrine com a exposição do Ministério dos Transportes, o PMDB poderia escolher o melhor dos seus quadros administrativos para mostrar que está conseguindo assimilar as exigências dos novos tempos. Mas isso não ocorre.

O ministério foi transformado em um mercado persa, em uma troca de favores ampla, virou um arquipélago de feudos que atuam de forma independente, atropelando as exigências mínimas de uma ação coordenada.

A falta de comando de Padilha refletiu-se na própria regulamentação das agências reguladoras no Congresso. Sem um órgão atento que refletisse sobre o tema, o projeto Eliseu Rezende acabou sendo uma composição de todos os interesses, que resultou em um monstrengo regulatório. Em um tempo em que o mundo todo adota o conceito do transporte intermodal (a integração de todos os meios de transporte), o projeto prevê a criação de duas agências em separado, às quais se soma a indefinição em torno do DAC (Departamento de Aviação Civil).

No campo das concessões, as últimas bem-sucedidas datam de 1993, quando o então ministro Alberto Goldmann logrou a privatização de cinco rodovias -entre elas a Dutra e a ponte Rio-Niterói. Em 2000 foram três tentativas de privatização de rodovias federais, todas embargadas pelo fato de as licitações estarem viciadas.

A questão do transporte interestadual continua emperrada, apesar das juras públicas do ministro, há alguns anos, de que iria definir regras claras e não subjetivas para novas licitações, acabando com o cartel do setor.

Não se pretende que FHC vá manter incólume a aliança sem alguma forma de concessão. No entanto há um primado básico que não pode ser desobedecido: o primado da competência e da transparência. E, no caso dos transportes, desobedeceu-se.

No fim de semana, noticiou-se o indiciamento de Padilha devido à contratação de um servidor fantasma. Foi condenado a devolver R$ 300 mil ao erário. É mero aperitivo.


Se a Lava Jato se dispuser a esmiuçar os acordos das empreiteiras, no período em que Padilha foi Ministro, encontrará mais fantasmas do que nas covas coletivas.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Imprensa: o braço não oculto do poder real

Sanguessugado do Ulysses Ferraz 

Não há imprensa livre no Brasil

O destaque do jornal O Globo de hoje é o corte de 11 milhões de reais do governo Temer em publicidade a blogs políticos.

A cifra é irrelevante em termos de orçamento da União e contabilidade pública.

A decisão não tem nada a ver com corte de gastos, mas se trata apenas de retaliação por serem blogs com um viés ideológico contrário aos interesses corporativos que este governo interino representa. Trata-se do mesmo critério utilizado para fechar a TV Brasil.

Medo da pluralidade de opiniões.

Estratégia de controle da informação e disseminação do pensamento único, via fortalecimento da imprensa corporativa.

Enquanto ninharias administrativas são louvadas nas manchetes dos jornais, Temer continua afogado em escândalos. Assim como Renan, Jucá, Sarney, Cunha, Serra e Aécio. E praticamente todo o ministério de Temer.

O ministro da Educação Mendonça Filho, por exemplo, acusado de receber propina, está a um passo de cair.

E o destaque do jornal é a atuação "corajosa" de Temer no corte de gastos irrisórios.

Corajoso seria cortar verba de publicidade junto às grandes corporações da mídia, que são cartéis institucionalizados. Ousado mesmo seria regulamentar um setor que cresceu de forma concentrada e ilegal, sob o guarda-chuva de conchavos e privilégios firmados à época da ditadura militar.

Temer, além de ser um Robin Hood às avessas, que retira dos pobres para distribuir aos ricos, é também um Davi invertido. Em vez de derrubar os gigantescos conglomerados para tornar o mercado mais competitivo e eficiente, utiliza o poderio do Estado para esmagar os pequenos e aumentar a concentração do capital.

Austeridade para desfavorecidos e prodigalidade aos plutocratas. Capitalismo selvagem para pequenos negócios. Precarização para a classe trabalhadora. Favorecimentos e subsídios para grandes corporações. Juros máximos e tributação mínima para o capital financeiro.

E as organizações Globo, em conluio com o restante da grande mídia, fazem o papel de dar legitimidade a um governo espúrio, mediante uma narrativa embaraçosamente mentirosa. E interessada.

As grandes corporações da mídia são parte da infraestrutura (economia) e da superestrutura (ideologia). Talvez seja o setor em que ambas as características, infraestrutura e superestrutura, estejam mais claramente presentes. Portanto, além de ser um negócio como outro qualquer, que depende de vendas e lucro, é também parte interessada no que publica.

 Mas possuem o álibi da objetividade e da neutralidade jornalística, o que mascara, como em nenhum outro setor, o fato de serem agentes autorizados para falar dos próprios interesses.

Imagine se a indústria do tabaco fosse o agente autorizado para formar opinião sobre os efeitos do vício de fumar?


É o que acontece de forma ainda mais acentuada no Brasil, cuja mídia corporativa é controlada por apenas cinco famílias. Um exemplo clássico de oligopólio. Em resumo, não temos imprensa livre no Brasil.

As ilusões da conjuntura e o silêncio das esquerdas (leitura fundamental)

Sanguessugado do GGN



 Aldo Fornazieri

A gravidade da delação premiada de Sérgio Machado deveria ter produzido o efeito de uma bomba termobárica sobre o governo e sobre o sistema político brasileiro. Não teve. Em qualquer país sério, os dirigentes dos principais postos políticos do país teriam sido obrigados a se afastar de seus cargos e estariam presos, inclusive o presidente ilegítimo Michel Temer, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, vários ministros e as cúpulas dos principais partidos. Não estão. Se a delação tivesse ocorrido durante o governo Dilma, a mídia teria feito uma enorme escandalização, mas agora não fez. A oposição teria saído a campo para exigir explicações, demissões, afastamentos, renúncias. A oposição de agora mal se pronunciou. Como entender essa situação anômala?

Ocorre que a vitória do golpe foi também a vitória da hipocrisia e do cinismo. Nos ambientes cínicos impera a desfaçatez, não há mais mesuras com a moral e os bons costumes e nem sequer os políticos se importam com as aparências. Nem mesmo os colunistas e analistas políticos de plantão e a grande mídia em geral: todos foram tragados pelo cinismo ao ponto da grande mídia brasileira ver-se desmoralizada junto à mídia europeia e norte-americana.

No ambiente cínico as denúncias já não importam. Tanto faz ser considerado honesto ou corrupto. Os políticos, com Temer à frente, se dão uma qualquer missão autoatribuída e agem em nome dela ignorando as denúncias que os atingem. A grande mídia e boa parte da opinião pública, ambas desmoralizadas pelo monstro que ajudaram a produzir, procuram envernizar a aquilo que não comporta nenhuma aderência a qualquer produto lustroso. Mas tanto faz. Afinal de contas, a Dilma foi afastada e tenta-se dar a esse golpe desastroso para a democracia brasileira a aparência de normalidade.

A aparente inviabilidade do governo Temer produz todo tipo de ilusão na presente conjuntura. A primeira ilusão é a ideia da volta de Dilma. Nem mesmo o PT quer que ela volte. Basta conversar com dirigentes do partido ou mesmo ler as entrelinhas da reportagem da Folha de S. Paulo do final de semana que traz análises dos petistas indicando que não acreditam que as delações de Machado possam ajudar Dilma. As análises estão corretas. Ocorre que Dilma não oferece uma saída para a crise e para a governabilidade e o PT não a quer de volta. Mesmo que mais delações firam de morte o governo ilegítimo, o afastamento de Dilma parece ser um ponto de não-retorno.

Se o governo Temer se inviabilizar, a tendência é a de que o golpe se aprofunde, com a superveniência de um presidente escolhido pelo Congresso no início de 2017. Os golpes não retrocedem. Aprofundam-se. Lembremos que as promessas de eleições feitas por Castelo Branco em 1964 não se concretizaram. Ademais, se o impeachment for aprovado em definitivo, tendência mais provável, Temer tentará virar o jogo com uma reforma ministerial afastando os ministros mais incômodos visando preservar-se. A repressão aos movimentos sociais será a praxe para enfrentar a pressão das ruas.

A possível inviabilidade de Temer vem gerando a segunda grande ilusão: a ilusão do pacto. É preciso perceber que o pacto já foi feito: o pacto conservador das elites através do afastamento de Dilma. A área econômica do ministério Temer, com Meirelles à frente, é o rosto visível do pacto. Temer é um instrumento desse pacto. Se ele se tornar um estorvo, será removido.

Por outro lado, se o governo Temer é produto de um golpe, como de fato o é, o PT ou qualquer força democrática, progressista e de esquerda não pode pactuar com esse governo ou com as forças que apoiaram o golpe. O lugar dos progressistas, dos democratas e das esquerdas é na oposição ao governo ilegítimo ou qualquer subproduto que ele produza para continuar. Pactuar com essas forças representará uma traição aos movimentos sociais e aos progressistas que protestaram e protestam nas ruas contra o golpe. Será uma traição aos trabalhadores e aos mais pobres que terão direitos decepados e o desemprego crescente. O pacto conservador do golpe visa superar a crise com um brutal corte do delgado colchão de proteção social que se construiu desde a Constituição de 1988, garantindo os altos ganhos do rentismo e dos bancos. Não é outro objetivo da proposta de PEC de Meirelles, que limitará os gastos com o social, mas não o limitará com o pagamento de juros.

Os pactos nunca formam bons para os trabalhadores e para as forças populares e progressistas. Sempre representaram a continuidade da dominação das elites conservadoras. Foram “transições transadas”, na definição de Raimundo Faoro, para manter as mesmas elites no poder sob a aparência de uma falsa mudança. Os pactos expressam a velha e ludibriosa fórmula de produzir uma aparência de mudança para manter tudo como está.

O Solene Silêncio das Esquerdas

Não passou despercebida a reação quase protocolar dos partidos de esquerda – PC do B, PSol e PT – em face das estarrecedoras revelações da delação de Sérgio Machado. Temer foi citado e os partidos de esquerda não exigiram a sua renúncia imediata. Sequer foram ao Supremo Tribunal Federal exigir uma investigação formal de Temer, como fazia a antiga oposição com Dilma. A antiga oposição pediu que se investigasse até os gastos com cabeleireiro. Na verdade, agora, trata-se de um silêncio cheio de alaridos reveladores.

No jogo de acomodações, os partidos citados já encontraram o seu lugar: fazer oposição ao governo e tentar salvar, ao máximo, postos avançados de poder nas eleições municipais deste ano. Para alcançar este último objetivo, no cálculo desses partidos, chegou-se à conclusão de que é mais vantajoso estar em oposição a Temer do que ter a volta de Dilma. Mal ou bem é uma estratégia. Se vai dar certo ou não, o tempo dirá. Mas é preciso prestar atenção ao movimento de aprofundamento do golpe. O preço de sua viabilidade é muito alto para ser suportado apenas por cálculos eleitorais.

Outro solene silêncio das esquerdas diz respeito às iniciativas cada vez mais abertas para por um fim à Lava Jato. Iniciativas que vêm do PMDB, do PSDB, do chamado centrão e de analistas e comentaristas da grande mídia. Estes últimos começam a sugerir, de forma enviesada,  a tese de que a Lava Jato precisa chegar a um fim. Estão até mesmo definindo um prazo: dezembro de 2016. Não é um jogo simples: precisaria a conivência da Procuradoria Geral da República e do STF. É preciso perceber que o eixo principal da Lava Jato se deslocou de Curitiba para Brasília, de Sérgio Moro para Rodrigo Janot.

O caso da investigação de Lula agora está com Sérgio Moro, que tem se mostrado célere proferindo mais de 100 condenações  contra nenhuma do STF. As cúpulas do PMDB e do PSDB estão em Brasília, com Janot e o STF. Bastará Moro decidir alguma condenação contra Lula e a pressão para paralisar a Lava Jato aumentará. O jogo do abafa crescerá. Desta forma, é incompreensível o silencia das esquerdas ante as manobras e pressões contra a Lava Jato. Esse silêncio, que é omissão, tende a se tornar conivência. Poderá colocar no mesmo lado o PMDB, o PSDB, o PT e a rede Globo. Estariam os dirigentes do PT tomados pela Síndrome de Estocolmo?


Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

domingo, 19 de junho de 2016

Da série Isso não vem ao caso: Serra é citado em negociação de delação da OAS na Lava Jato

Via Vermelho




A colunista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo, publicou nesta terça-feira (14) que o senador e chanceler do governo interino, José Serra (PSDB-SP), foi citado em negociação com a OAS, empresa envolvida na Lava Jato.

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Serra já aparecia na lista de mais de 200 políticos apreendida em março na OdebrechtSerra já aparecia na lista de mais de 200 políticos apreendida em março na Odebrecht De acordo com a delação, o tucano integra lista de quase uma centena de políticos sobre os quais a empreiteira promete dar informações detalhadas de contribuições para campanhas eleitorais.

Mônica Bergamo conta ainda que Serra pode integrar a delação da Odebrecht. “Ele já aparecia na lista de mais de 200 políticos que foi obtida em operação de busca e apreensão feita na casa de um dos executivos da empreiteira”, publicou.

Segundo a jornalista, Serra “sempre foi admirado na Odebrecht por pessoas do calibre de Pedro Novis, que antecedeu Marcelo Odebrecht na presidência da empreiteira. Novis vai depor na Lava Jato”, sugere.

A colunista recorda que o PSDB já tinha se posicionado sobre a lista apreendida na Odebrecht em que apareciam, além de Serra, políticos como o senador Aécio Neves (PSDB-MG), presidente nacional tucano. Segundo Aécio, é preciso separar o “joio do trigo”. Para o PSDB é doação legal, para os outros partidos...

A Odebrecht e o Ministério Público Federal assinaram em maio o documento da negociação de delação premiada e de leniência no âmbito da Operação Lava Jato. Os procuradores terão acesso a toda contabilidade de caixa dois da empresa, o que pode envolver centenas de políticos e autoridades de outros poderes.



Do Portal Vermelho, com agências