sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Galbraith, Stiglitz, Trump e o fim do sonho americano

Sanguessugado do Viomundo

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Galbraith na biblioteca de sua casa em Cambridge

Luiz Carlos Azenha

Nos anos 80, correspondente da TV Manchete em Nova York, tive o prazer de entrevistar o economista John Kenneth Galbraith em Cambridge, Massachussets. Ganhei de presente uma cópia autografada de um de seus romances, “O Professor”, traduzida para o português.

A Casa Branca era ocupada por Ronald Reagan. Reagan havia assumido com o objetivo declarado de “tirar o Estado” das costas dos contribuintes.

Cortou impostos dos ricos, cortou direitos sociais. Na verdade, Reagan foi um fantoche da globalização, promotor de regras internacionais que facilitaram a expansão das grandes corporações e os ganhos dos acionistas às custas dos trabalhadores.

Tudo ficou mais fácil, obviamente, depois da queda do Muro de Berlim.

Sem o fantasma da União Soviética no horizonte, George Bush pai e sucessores puderam dilapidar o estado de bem estar social.

Felizmente, a memória das conquistas obtidas sob o governo Roosevelt ainda é tão poderosa nos Estados Unidos que não foi possível — ainda — aniquilar completamente a Previdência Social (cerca de 50% dos norte-americanos recebem algum tipo de ajuda do Estado, hoje).

A grande preocupação manifestada por Galbraith durante a entrevista foi com a formação de uma classe de deserdados nas grandes metrópoles e áreas rurais dos Estados Unidos. Desemprego crônico, consumo de álcool e drogas, taxa de homicídios — ele apresentava estatísticas para demonstrar que um número crescente de norte-americanos vinha sendo deixado para trás.

Sinal, segundo Galbraith, da morte do “sonho americano” construído pós-Segunda Guerra Mundial, segundo o qual os filhos SEMPRE poderiam contar com uma vida melhor que a dos pais.

A partir de Reagan e da primeira-ministra britânica Margareth Tatcher as ideias neoliberais ganharam o mundo, obviamente que com nuances e muita, muita hipocrisia.

Uma das mais chocantes é a crença, fora dos Estados Unidos, de que os Estados Unidos sejam um “estado mínimo” e que os governantes não interfiram no “livre mercado”, quando é justamente o contrário: Washington é fortemente intervencionista — especialmente em nome das grandes corporações — e sustenta uma gigantesca burocracia em escala global.

A pregação de “estado mínimo” é para os outros, por motivo óbvio: é muito mais fácil influenciar/competir/derrotar um adversário cujas instituições sejam frágeis.

O resultado da política pró-corporações dos Estados Unidos, mais de três décadas depois de Reagan, é que hoje elas mantém mais de R$ 6 trilhões em lucros não taxados no Exterior.

Isso mesmo, você leu direito: o Congresso norte-americano deverá em breve discutir uma forma de repatriar mais de U$ 2 trilhões em LUCROS que empresas norte-americanas, se aproveitando de brechas na legislação, estocaram fora dos Estados Unidos, sem pagar imposto!

Enquanto isso, cerca de 45 milhões de norte-americanos recebem food stamps, que equivalem a cheques do governo para ajudar a comprar comida.

Em O Euro e sua ameaça ao futuro da Europa, o Nobel de Economia Joseph Stiglitz demonstra de forma brilhante como a construção da moeda única em 18 países, calcada nas mesmas ideias neoliberais, deu resultado perverso.

Aumentou, em vez de diminuir, a desigualdade e transferiu renda dos países mais pobres para os paises mais ricos, notadamente a Alemanha.

A ideia de que haveria uma convergência entre os integrantes da UE é desmentida pelas estatísticas: Portugal ingressou no grupo com PIB per capita equivalente a 57% da Alemanha mas, em 2015, a relação tinha diminuído para 49%. Isso vale para outros paises da periferia do euro e, não, não é por vagabundagem: em 2014, os gregos trabalharam 50% mais horas semanais que os alemães.

Mantidas as regras atuais, Stiglitz prevê uma implosão do euro.

Taxas altíssimas de desemprego, notadamente entre os mais jovens, provocam imigração que rouba cérebros e contribuintes justamente dos paises que mais precisam arrecadar, como a Espanha, atolada em dívidas.

Curiosamente, Stiglitz usa o mesmo alerta que eu tinha ouvido de Galbraith naquela entrevista, sobre o fim da coesão social: a existência num mesmo espaço geográfico de pessoas que preservem valores e objetivos comuns. A longo prazo a desigualdade social é a fórmula para um desastre político.

Segundo Stiglitz, não é por acaso a ascensão da extrema-direita em vários paises europeus, explorando aqueles nossos velhos conhecidos: racismo, xenofobia, nacionalismo militarista. Ou seja, supostamente criado para integrar — mas, na verdade, para dar escala às corporações europeias na disputa pelo mercado global –, o euro pode levar a uma perigosa desintegração num continente marcado, em termos históricos, por duas guerras recentes e devastadoras.

A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, assim como o Brexit, devem nos servir de alerta sobre o descontentamento dos que foram deixados para trás, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Dão dimensão global ao drama que vivemos exatamente neste momento no Brasil, quando o governo usurpador de Michel Temer, nascido de um golpe midiático-jurídico-parlamentar, ataca direitos e propõe uma agenda econômica e social regressiva não aprovada pelo voto popular.

Isso se torna ainda mais devastador quando constatamos que já existe, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, uma base social sobre a qual emerge um discurso claramente fascista.

Trump pode ser apenas um homem de negócios que, empossado, será obrigado pela realidade política a fazer acordos e moderar as posições e o discurso que apresentou durante a campanha. O fato para o qual não existe retorno é que ele naturalizou o discurso xenofóbico, racista, machista e preconceituoso ao longo de 18 meses de debates públicos.

Por mais pragmático que Trump seja ao assumir a Casa Branca, ele obteve mais de 50 milhões de votos com um discurso que subentende uma “restauração” branca, cristã e com ‘ordem’ num país que até ontem se apresentava como o modelo do multiculturalismo.


A ideia de que pretende começar o governo promovendo investimentos em infraestrutura para reanimar a economia nos faz lembrar, por um fugaz momento que seja, de outro projeto — aquele que, na Alemanha, começou com uma rede de rodovias, as autobahn.

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