quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Bolívia: Uma economia eficazmente precavida

V ia Rebelión


Alfredo Serrano Mancilla
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti





A Bolívia anda sobre seus próprios trilhos. Este ano terminará para ela  com um crescimento do PIB acima de 4,5%. Em um momento de contração econômica mundial, com os ventos contra, o país andino cresce sustentavelmente. Por quê? A razão é bem simples: Evo Morales jamais confiou nos ciclos da economia mundial. 



Desde o início do seu mandato, no ano de 2006, a Bolívia construiu uma ordem econômica própria. Absolutamente autárquica mas não desconectada do mundo. Ao contrário, um modelo econômico vinculado com o exterior, mas de forma soberana e inteligente. Primeiro, foi a nacionalização dos hidrocarbonetos, fundamental para edificar uma casa própria, justa na chave social e eficaz em matéria econômica. Rompeu-se assim o mito de que qualquer nacionalização diminui a capacidade de crescimento. A Bolívia multiplicou o seu PIB nominal em quatro vezes, apesar da conjuntura internacional. 



À medida em que o governo de Evo foi repotencializando o papel do Estado na economia, tampouco fugiram os investimentos estrangeiros diretos e nem houve fuga de capitais. A poupança interna cresceu a níveis históricos. Hoje em dia a Bolívia dispões de reservas (38% do PIB) para efetivamente enfrentar o atual choque externo negativo. Contudo, não é unicamente poupança pública, pois também há um significativo crescimento da poupança privada. No total, contemplando todas as fontes, a Bolívia possui uma poupança de 48 bilhões de dólares, muito acima de seu PIB (38 bilhões de dólares). Isso permite alavancar investimentos produtivos durante os próximos anos. O país tem um colchão suficiente para amortecer as restrições externas.



A Bolívia optou por uma economia eficazmente precavida, e não arrastada pelo vai e vem dos preços das matérias primas. Soube construir seu cinto de segurança sem necessidade de sacrificar direitos sociais. Fez isso graças a uma deliberada intenção de conformar um mercado interno. A redistribuição da riqueza, além de satisfazer princípios de justiça social, foi indispensável como método para ampliar a demanda interna. O consumo cresceu graças a um incremento da renda ao longo de toda a distribuição. As políticas ativas de emprego e os programas sociais para crianças (Bonus Juancito Pinto), para idosos (Renda Dignidade) e mulheres grávidas (Bonus Juana Azurduy) foram cruciais para essa conquista. Segundo o próprio Banco Mundial, a Bolívia é o campeão planetário em melhorar a renda para 40% da população mais pobre. O país foi se desendividando socialmente sem maiores endividamento financeiros: atualmente, a dívida pública  atualmente é de 19% do PIB. Além disso, os investimentos públicos não pararam de crescer, passando de 879 milhões de dólares em 2006 para os 6,396 bilhões de dólares previstos no Orçamento Geral do Estado para 2016. Esse investimento do investimento público chegou ao ponto de que a formação bruta de capital fixo é maior hoje em dia do que o volume destinado ao pagamento dos salário públicos.  



A política econômica boliviana não obedece a nenhum manual. Seguiu seu próprio caminho mesclando um pouco de tudo com resultados econômicos macroeconômicos muito bons. Por trás disso, existe uma inquestionável explicação: a política. Este êxito econômico é fruto de uma boa gestão técnico submetida a critérios políticos acertados e inegociáveis. Exemplo disso foi a série de nacionalizações que Evo realizou ao longo desta década. No setor da mineração, o Estado, em média, fica com entre 50 e 55% dos excedentes gerados; no setor dos hidrocarbonetos, com entre 85 e 93%. Demonstra-se assim que as decisões políticas a favor das maiorias não são conflitantes com a eficácia econômica. No caso boliviano, a bonança macroeconômica não vem acompanhada por mal estar microeconômico, nem por austeridade social. Impõe-se a evoconomia: atingir as metas, mas sem postergados ou excluídos.     



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