quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Hillary Clinton e o brutal assassinato de Kadafi



John Wigt - Counter Punch
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti


No dia 20 de outubro de 20111, o presidente da Líbia, Muammar Al-Kadafi foi brutalmente assassinado por uma turba da OTAN respaldada pelos “rebeldes”, depois de ter sido agredido e violado da maneira mais brutal. Hoje, a história não deixa nenhuma dúvida de que naquele dia não assassinaram somente o líder líbio, mas também a própria Líbia. 


A turma que mudou o regime, dominada pelos governos ocidentais, tem uma longa folha de acusações contra seus integrantes. Desde o 11-S, quando começaram a causar estragos e miséria humana em grande escala em sua determinação de reformar e possuir, com opção de compra, a todo um mundo que nunca foi deles: Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria – atualmente envolta em um conflito implacável para sua sobrevivência como Estado laico e não sectário – são o legado miserável de nações que falam a linguagem da democracia enquanto praticam a política da dominação.


Por parte das vítimas antes citadas do imperialismo ocidental há um grande argumento para afirmar que a destruição da Líbia se constitui em um delito especialmente grave. Além de tudo, em 2010, ano anterior ao em que ela experimentou sua “revolução”, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento considerava a Líbia como um país de alto desenvolvimento no Oriente Médio e no norte da África. Em termos concretos, a tradução desse status levava à uma taxa de alfabetização de 88,4%, para uma expectativa de vida de 74,5 anos, igualdade de gênero e vários indicadores positivos mais. Além disso, a Líbia desfrutou de um crescimento econômico de 4,2% em 2010, e podia dispor de ativos de mais de 150 bilhões de dólares no exterior. 


Comparem esses dados com os da Líbia de 2016. De acordo com o testemunho proporcionado no mês de março deste ano pelo general David Rodriguez, do exército dos EUA ao Comitê de Serviços Armados  do Senado dos Estados Unidos, a Líbia é um estado falido, e o general estima que levaria “mais ou menos 10 anos” para conseguir uma estabilidade a longo prazo no que ele considera “uma sociedade dividida”.


Atualmente, não existe um governo único ou autoridade na Líbia cujas ordens sejam executadas em todo o país. Em seu lugar, três autoridades rivalizam para controlar seus próprios feudos. O governo reconhecido internacionalmente é o Governo de Acordo Nacional (GNC, por suas siglas em inglês), dirigido por Fayez al-Sarat, localizado na capital, Tripoli. Também temos o Governo de Salvação Nacional, liderado por Khalifa Ghwell, também baseado em Tripoli. Por seu lado, o terceiro centro de poder se encontra em Tobruk, no leste do país. É dirigido por um general anti-islamista, Khalifa Haftar, que comanda o Exército Líbio (LNA). Economicamente, as receitas com o petróleo, recurso que representava 90% do ingresso nacional  na era Kadhafi, reduziram-se à metade, a violência tem se generalizado, e desde 2011 o Daesh conseguiu tomar pé na Líbia, embora nos últimos meses a organização terrorista tenha ficado sob grande pressão das forças do Governo de Acordo Nacional em seu reduto de Sirte.


O impacto do caos que tomou conta do país desde que Kadafi foi derrubado e assassinado pode ser medido através da torrente de líbios que tem tentado a perigosa viagem através do Mediterrâneo com o objetivo de chegar à Europa. Nesse processo, milhares e milhares de pessoas têm perecido.    


A resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em março de 2011, marcou o final da primavera árabe e o começo do inverno árabe. As manifestações massivas e populares que conseguiram derrubar o ditador tunisino Ben Ali e seu homólogo egípcio Hosni Mubarak não se repetiram na Líbia. Em troca, em Bengazi, onde se centrou o movimento anti-Kadhafi, predominavam os islamistas. Não havia nenhum movimento de massas em escala nacional na Líbia, como os que tomaram conta da Tunísia e do Egito, assim como também não havia apoio popular para derrotar o Governo e seu líder, que presidiu uma sociedade que desfrutou de uma qualidade de vida mais alta do que a de qualquer outro país na África.   


Não foram as forças da oposição de Bengazi as que venceram as forças leais a Kadafi, mas sim as forças da OTAN. De fato, a OTAN interveio  no momento em que as forças armadas do país se aproximavam de Bengazi, preparadas para esmagar o levantamento, baseando-se ela na mentira da proteção aos civis, quando na realidade tinha a intenção de mudar o regime. 


Para os olhos do Ocidente, o crime de Kadafi  não foi o de ter sido um ditador autoritário. Como poderia ter sido, se na região era um aliado da Arábia Saudita? Seu crime, revelado aos olhos ocidentais nos e-mails reservados de Hillary Clinton, publicados por Wikileaks em janeiro deste ano, foi ter a intenção de estabelecer uma divisa como moeda de reserva internacional da África, respaldada por ouro para competir com o euro e com o dólar. Nesse sentido, o presidente francês de então, Nicolas Sarkozy e a secretária de estado dos EUA, Hillary Clinton, foram atores-chave no impulso para a intervenção da OTAN. O petróleo líbio também foi um fator importante.


As mensagens secretas de correio eletrônico provam, acima de qualquer dúvida, que o que ocorreu na Líbia foi um crime monstruoso cujos responsáveis ainda tem que prestar contas. Mas ao contrário, Sarkozy está preparando outra candidatura sua para a presidência da França, enquanto que Hilary Clinton  é a favorita para ganhar a corrida para a Casa Branca contra o candidato republicano Donald Trump.


Desses dois, Clinton  foi filmada aplaudindo e rindo da notícia do assassinato de Muammar Kadafi em 2011. Foi ela que pressionou para a intervenção militar que terminou com a destruição da Líbia. E é ela que tem o descaramento em apresentar-se para a presidência dos EUA como uma gigante moral em comparação com seu rival.


O povo líbio bem que poderia estar em desacordo com isso.


John Wight é o  autor de uma políticamente incorreta e irreverente memória de Hollywood "Dreams That Die" publicada por Zero Books. Também  escreveu cinco novelas, que estão disponíveis como livros eletrônicos como Kindle eBooks. Pode ser seguido no Twitter em @JohnWight1.







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