quarta-feira, 26 de outubro de 2016

1930, o ano que nunca acabou


Nilson Lage

Vivemos uma situação próxima daquela que desencadeou os grandes protestos de rua que precederam o AI-5 e as tentativas de resistência armada.

Diante de um processo paulatino e institucional de ampliação dos mecanismos de acesso na hierarquia da sociedade, a classe dominante, associada e dependente historicamente do poder colonial, tomou a iniciativa de radicalizar suas posições, pretendendo retornar o país ao quadro institucional anterior a 1930, sob hegemonia incontestável da burguesia paulista.

Para alcançar seu objetivo, ocupou a liderança de corporações de ofício que costumam mediar conflitos na sociedade (como advogados e médicos), mobilizou e ampliou pela compra seus recursos políticos e revigorou discursos da ditadura militar professados ainda por oficiais de reserva, paramilitares e em alguns quartéis.

O domínio da mídia impõe a desinformação e a difamação de modo a desmoralizar qualquer liderança que ameace a ditadura de classe e demolir no grito qualquer argumento que escape ao discurso único.

A frustração dos segmentos atingidos pela supressão de direitos é previsível e tudo se fará para que se fatie em etapas na medida que estruturas públicas montadas há oito décadas forem sendo demolidas.

As policiais militares armam-se para conter as manifestações de rua, que, na expectativa dos estrategistas do golpe, logo se mostrarão inócuas; as forças armadas sofrem pressão de sua ala mais retrógrada para que assumam a retaguarda e coordenação da luta contra esperados levantes populares.

O anacronismo do processo e sua evidente contradição com a dinâmica da economia em um país do tamanho e importância do Brasil parecem evidentes no exterior e mantém, por não se sabe quanto tempo, clima de desconfiança que bloqueia investimentos externos e desanima parceiros em contratos.

Em um momento como esse, tal como no fim da década de 1960, a tentação da luta guerrilheira, da clandestinidade e da criação de focos de resistência é inevitável, particularmente em grupos de jovens e nas classes intermediárias da sociedade que dispõem de maior acesso à informação.

É conveniente, no entanto, advertir dos riscos e tragédias da história recente. Será provavelmente melhor apostar nos canais de informação disponíveis, na força de convencimento da realidade e nas contradições óbvias de políticas aplicadas por uma coligação instável de policiais em delírio de poder e bandidos que têm longa tradição e grande competência em falcatruas.


Há forças nacionais dotadas de bom senso e ainda silenciosas que precisam ser consideradas.

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