terça-feira, 27 de setembro de 2016

Suspeitos

 Via La Jornada


 David Brooks
 Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti 

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 Dinah PoKempner, consejera general de Human Rights Watch (HRW), escucha en videoconferencia desde Moscú a Edward Snowden, durante una rueda de prensa celebrada el pasado miércoles en Nueva York para pedir al presidente Barack Obama el perdón para el ex contratista de la Agencia de Seguridad Nacional que reveló el espionaje masivo del gobierno estadunidense. HRW, Amnistía Internacional e importantes organizaciones como la ACLU lanzaron una campaña para convencer al jefe de la Casa Blanca de otorgar el perdón


Todos somos suspeitos aqui. Por isso, há uma vigilância maciça sem precedentes sobre esta população – de fato, a de todo o mundo, incluído o México. Esta coluna será lida, antes mesmo que pelos editores deste jornal, por algum computador e talvez por analistas mascarados do monstruoso complexo de espionagem civil que verificará se há alguma coisa preocupante ou alarmante. Eles tem a capacidade de  ver, ouvir e ler tudo o que todos nós fazemos ou expressamos



Isso foi o que revelou Edward Snowden. Ele arricou tudo para alertar os cidadãos  desta sociedade livre com direitos fundamentais de que, sem seu consentimento  e sem nenhuma  autorização judicial, o governo tem a capacidade de seguir-nos e perseguir-nos 

Revelar a verdade sobre o que um governo faz em nome de sua população aparentemente por ser um delito muito grave. Da Casa Branca para abaixo, a resposta foi perseguir e processar quem se atreveu a fazer tal coisa, e buscar prendê-lo com base em uma antiga lei de espionagem de 1917.  De fato, vale a pena lembrar que o governo de Obama acusou três vezes mais funcionários e jornalistas  segundo essa lei de espionagem do que todos os seus antecessores juntos.  

Os “whistleblowers” – os que assobiam para alertar o público sobre abusos e violações dentro de um governo ou de uma empresa – agora são considerados como uma espécie de traidores.

Snowden, entre outros, indicou que suas motivações não são mais do que defender a democracia e assegurar que os cidadãos sejam os que decidam o que é de seu interesse ou não. Por isso, afirmou que seu propósito, ao filtrar as informações sobre os sistemas de espionagem em massa, foi provocar um debate entre a população sobre quanto poder deve ou não ter seu governo, sobretudo para os que não tem poder. 

Em uma entrevista recente ao Financial Times, Snowden declarou que a situação atual é que as autoridades sabem mais sobre nós que nós mesmos, mas ao mesmo tempo não estamos autorizados a saber nenhum detalhe de seus programas e políticas e de suas prerrogativas e interesses. Só que isso, de uma maneira muito fundamental, é corromper a democracia, por que o princípio fundamental desta é que o governo opere com o consentimento dos governados, mas esse consentimento só tem importância se eles estão informados.  É isso o que temos perdido. Acrescentou  que a lição do que aconteceu em 2013, ao serem levadas à publico suas filtrações “não é sobre vigilância, mas sim sobre democracia. Trata-se de se nós, a opinião pública, vamos  ter um governo que realmente nos sirva em vez de um governo ao qual estamos sujeitos... Isso não implica em que o governo seja o inimigo... mas necessitamos reconhecer que há alguns princípios  que tem que ser defendidos, não somente contra adversários e rivais estrangeiros, mas sim contra nossos próprios governos, por que a ameaça aos direitos não provém de inimigos, mas sim do poder.” 


Como tem sido documentado em  La Jornada ao longo dos últimos três anos, os governos primeiro rechaçaram tudo o que Snowden revelou – Obama assegurou à população que o governo não está escutando suas conversas telefônicas – para depois, pouco  a pouco, confessar que sim, estão escutando e lendo quase tudo, ou que tem a capacidade de fazê-lo. Também Obama, seu procurador geral Eric Holder e diversos legisladores, todos os quais tinham condenado Snowden, o The Guardian e  o The Washington Post por difundir as revelações pouco a pouco foram aceitando que havia excessos, que o equilíbrio entre segurança nacional e liberdades civis tinha que ser melhor avaliado e que Snowden gerou um debate necessário.


Na semana passada foi lançada uma campanha para exigir a Obama que, antes  de deixar a presidência, outorgue um perdão a Snowden para que ele possa regressar da Rússia, onde ele está exilado há mais de três anos sem enfrentar um juízo que poderia implicar em uma pena de  30 ou mais anos de prisão. Entre os promotores da campanha estão a União Americana de Liberdades Civis (ACLU), Anistia Internacional e Human Rights Watch. Snowden, e declaram eles, que ele é um jovem estadunidense “que tomou conhecimento de um sistema de vigilância em massa que tinha crescido durante anos sem consentimento democrático...Graças a seu ato de consciência, os programas de vigilância tem sido sujeitos ao escrutínio democrático. Snowden deveria ser elogiado como herói, mas em vez disso está exilado em Moscou. “ Ele nos defendeu, e agora é hora de nós o defendermos”, afirmam. (https://pardonsnowden.org)



Um amplo e destacado elenco de figuras tem se somado à campanha, desde Daniel Elsberg, o famoso filtrador dos Papéis do Pentágono, até o financista George Soros; de cineastas com Danny Glover, Susan Sarandon, Daniel Redcliffe (Harry Potter), Michael Moore, até músicos como Peter Gabriel e Laurie Anderson e intelectuais como Noam Chomsky, o economista Jeffrey Sachs, os escritores Colm Tobin, Joyce Carol Oates e Jean Stein, entre outros.



O ex-candidato presidencial democrata Bernie Sanders, o diretor de cinema Terry Giliam, o cantor Thurston Moore, de Sonic Youth; ex-legisladores, entre outras figuras reconhecidas, tem se expressado a favor da clemência/perdão. (https://www.theguardian.com/us-news/2016/sep/14/ edward-snowden-pardon-bernie-sanders-daniel-ellsberg?CMP=Share_iOSApp_Other ).


Oliver Stone, ao estrear seu filme Snowden, também se somou a esse esforço, ao denunciar no Festival de Cinema de Toronto, que os norte-americanos não sabem nada sobre isso (a espionagem massiva), por que o governo mente o tempo todo sobre o assunto. Ele espera que o filme aumente a pressão sobre a Casa Branca para perdoar Snowden.



Contudo, a pergunta mais apropriada seria se Snowden, juntamente com as populações  vigiadas e os suspeitos do mundo, inclusive os que lêem esta coluna, devem perdoar ou não seus governantes por terem sido espiados por saber o pensam, a quem odeiam, a quem amam, o que os diverte, quais são seus sonhos, seus pesadelos, ou quem são seus amigos, sem pedir licença. 



Há suspeitos que necessitam ser melhor vigiados pelas massas.







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