segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Pedintes: uma questão de classe.

Sanguessugado do PalavrasInsurgentes


Elaine Tavares


Cartaz em ônibus, na Paraíba

Hoje vivi mais uma aventura no ônibus, esse latão do Rio Tavares, espaço de histórias e assombros. Quem me conhece sabe que eu não resisto a um vendedor. Creio que isso vem da minha infância e da postura do meu pai, sempre comprado qualquer bugiganga que  alguém oferecesse na porta da rua. “Coitados”, dizia, “não é fácil vender nesses tempos sombrios”. E os tempos, no capitalismo, sempre são sombrios.

Então, no ônibus, quando entram aqueles guris com os papeizinhos, vendendo caneta ou balas de goma, eu compro. Não é musculação de consciência, porque estou sempre na luta pela mudança dessa sociedade. Apenas aplico a máxima do meu pai.

Pois hoje, estava eu, em pé, com livros e casaco nas mãos, esperando que o busão saísse quando entrou a mulher. Toda desarranjada, com aquela cara triste, vendendo balas de goma a um real. Entre os ocupantes do ônibus, aquele desconforto. Parece que sempre que entra um pobre vendendo algo ou um pedinte, todo mundo desvia o olhar. O pessoal faz cara feia, e resmunga. Pode-se até ouvir alguém dizer: saaaaco. Ah, o pobre é sempre um incômodo. Revirei a bolsa e achei um real, peguei a bala, sorri, e comecei a comê-las, devagar. Mais ninguém comprou.

Logo que o ônibus saiu do terminal, um garoto veio lá da frente. Estava bem vestido, era branquinho e parecia muito bem nutrido. Vendia uma rifa. “Sei que é chato fazer isso no ônibus, mas sou da equipe de basquete do Instituto e estou vendendo uma rifa para que a gente possa ir para a competição”. E seguiu explicando que a rifa dava bons prêmios como uma Tv de LED, tablet e outras coisas mais. Custava 2,50. Eu falei: “mas, o governo estadual não deveria bancar a participação da escola nesse torneio? Não somos o país das olimpíadas? Cadê o estado?”

O garoto me olhou brabo e disse: não precisa ajudar se não quiser, e as pessoas no ônibus também ficaram me olhando atravessado. Estranhamente, as mesmas pessoas que haviam desviado o olhar da vendedora de balas, acolhiam o estudante bonitinho. Conversavam e compravam a rifa. Pelo menos umas seis pessoas atrás de mim levaram um bilhete.


Fiquei pensando que a vida, nesse mundo sem humanidade, é uma merda mesmo. Até mesmo os pedintes estão submetidos a uma avaliação de classe. A mulher das balas certamente as vendia para por comida na mesa, enquanto os que compraram a rifa só estavam pensando no prêmio que poderiam ganhar. Implorei à grande deusa para a rifa ser falsa afinal, vez em quando, também temos de destilar nossa dose de maldade.

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