domingo, 7 de agosto de 2016

Arde, chama brasileira, arde... por Pepe Escobar

Via Alok


 Pepe Escobar, Telesur


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

"Se você mergulha no modo Rio de fazer as coisas, você espera todos os tipos de minimilagres espocando de dentro de sofrimentos imensos e inimigos inescapáveis."

 


O Rio sempre foi o epítome de gloriosa, bela confusão, em espetacular cenário geológico, sitiado por todos os tipos de formas de dificuldades criadas pelo homem e causadas por elites absolutamente repugnantes, arrogantes/ignorantes. O moto nativo é inescapável e ainda se aplica: "O Brasil não é para principiantes". O Rio, especialmente, é totalmente inalcançável inabordável, para principiantes.

E isso nos leva, desde o começo, aos prognósticos dos gringos antes da Olimpíada, inexcedivelmente, previsivelmente, estúpidos. O triste espetáculo foi, do estúpido-simples, ao excruciantemente estúpido, originado de gringos patéticos, sem noção que sabem menos que zero sobre a cultura brasileira, suas nuances sociais extremamente complexas, questões geoeconômicas, ou daquele inigualável senso de humor nacional.

Mas, afinal, até que há uns poucos que nem são assim tão totalmente sem noção.

O Rio é funky, sexy, perigoso, imprevisível e totalmente louco. E que tal essa, para começar: no dia em que a tocha olímpica finalmente chegou ao destino depois de percurso épico de 20 mil quilômetros pela nação, um grupo de manifestantes foi recebido com granadas de gás lacrimogêneo, enquanto, a poucos quilômetros do local nada menos de 450 policiais pesadamente armados guerreavam, a tiros, contra gangues de traficantes, tentando prender alguns deles, no centro de uma favela próxima. Perfeito para sequência de abertura de qualquer produção média de filme blockbusterHollywoodiano.

Vivi a melhor parte dos meus anos de adolescente nas praias do Rio de Janeiro – e lá estive, indo e vindo, incontáveis vezes, já há décadas. Cada vez que você pousa no aeroporto Santos Dumont, no centro da cidade, ainda que você seja o mais irrecuperável niilista ou cínico empedernido, um mesmo sentimento toma conta de você: "Não há dúvidas. Deus existe...", e está bem ali, no topo do Corcovado, abençoando a confusão nada divina, do mundo inferior.

Se você mergulha no modo Rio de fazer as coisas, você espera todos os tipos de minimilagres espocando de dentro de sofrimentos imensos e inimigos inescapáveis. Vez ou outra, as coisas acontecem como têm de acontecer. No último instante.

Assim sendo, os primeiros Jogos Olímpicos a se realizarem na América do Sul – coisa de que todo o continente deve estar muito orgulhoso – será um sucesso, e todos os atletas e todos os espectadores, em estado de animação suspensa que é o melhor efeito do esporte, esquecerão a violência urbana, as águas poluídas, a especulação imobiliária que fere os olhos, o Zika vírus e o caos apenas ligeiramente organizado.

Depois, a dolorosa realidade voltará a imperar, para os que ficarem.

Regras e leis da trapaça

Se o caos Olímpico no Rio acabará por ser razoavelmente gerenciável, o caos político é história completamente diferente.

A presidente legalmente eleita do Brasil (54 milhões de votos) – que não participarão da Abertura dos Jogos Olímpicos – corre o risco de ser impedida ainda antes do final do mês, por uma gangue de trapaceiros conhecidos, mesmo depois de o Ministério Público Federal já ter sentenciado que o 'crime' a ela atribuído, uma suposta infração fiscal, nem crime é.

Pois a mídia no Brasil – controlada por cinco famílias, e eu conheço quase todos aqueles escroques & empresas em detalhes – absolutamente não dá qualquer sinal de incômodo, e continua a promover e propagandearam o golpe de 2016, como promoveram e propagandearam o golpe militar de 1964 apoiado pelos EUA. Orwell encontrou Kafka num enredo enlouquecido de escola de samba num morro do Rio de Janeiro; tampouco há qualquer "crime de responsabilidade".

O trapaceiro-em-chefe, corrupto e proprietário de conta bancária ilegal na Suíça, Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara Baixa do Parlamento, permanece à solta por Brasília. Temer, o presidente interino, não se arrisca nem a comprar um refrigerante numa venda de rua, porque é vaiado e obrigado a esgueirar-se pela saída dos fundos. Qualquer ser humano no Brasil, com QI que não equivalha aos números do espectro zubzoológico sabe que o golpe é farsa; o 'governo' interino é ilegítimo; a tal tão louvada luta contra a corrupção no fétido sistema político brasileiro é viciada e só tem um olho e um inimigo; a meta suprema de toda essa farsa é devolver o país ao status super rebaixado de colônia dos EUA.

O que nos leva à corrupta, espionada pela Agência de Segurança Nacional dos EUA e gigante do petróleo Petrobras – a qual, agora não faz outra coisa além de derrubar recorde após recorde de extração de petróleo dos depósitos do Pré-sal, ao mesmo tempo em que a Trapaceirolândia Político-Parlamentar já aprovou lei no Congresso que abre o caminho para o fim do monopólio estatal e entrega da exploração das seis maiores reservas de petróleo no mundo (estimadas em 273 bilhões de barris) ao Big Oil dos EUA.

O ministro interino de Relações Exteriores, o perene derrotado José Serra [em ing. é lindo: "perennial loser Jose Serra" :-D))))], não bastasse ser homem da Chevron – e, assim, diretamente interessado em depauperar e corroer a principal empresa estatal brasileira – é também liberal neoconservador totalmente adverso à integração da América Latina. Sabe de diplomacia o que sabe um passador de droga de alguma esquina do Rio (sem querer ofender o passador de droga). Já está tentando quebrar as regras do Mercosul, o mercado comum sul-americano. Despreza a África e vê os BRICS como uma praga – bem ao jeito de vassalo de Washington. Em apenas umas poucas semanas, já converteu a política externa do Brasil em piada macabra de República de Bananas.

Entrementes, o mantra interino é privatização a-go-go, ao estilo do capitalismo de desastre – de autoestradas a serviços básicos de saúde, hospitais e abastecimento de água, tudo isso combinado com abertura-para-saque de tudo (às empresas multinacionais), do setor elétrico a terra brasileira plantável de primeira qualidade.

É história imensamente triste, que afeta uma nação que estava conseguindo firmar-se como farol de esperança para todo o sul global.


Mas... cada coisa a seu tempo. O Rio vai oferecer ao mundo Olimpíadas – funky, loucas – memoráveis. Sejamos poisKennedy-escos: depois a tocha será passada a uma nova geração de brasileiros que terão de manter acesa, à vera, a chama de uma democracia madura.*****

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