terça-feira, 2 de agosto de 2016

Agrocânceres: "Nas localidades fumigadas encontramos três vezes mais câncer que no resto do país"


Entrevista com Medardo Ávila, coordenador da Red de Médicos de Pueblos Fumigados de Argentina


Berta Chulvi


Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Istas


Vocês possuem muitos trabalhos de pesquisas que mostram a relação entre o glifosato, o câncer e as malformações. O último, de Campo Maíz, é especialmente esclarecedor. Como vocês o realizaram e que resultados obtiveram?


Em outubro de 2014, como docentes e estudantes da Universidad Nacional de Córdoba, fomos fazer um estudo de contaminação em Monte Maíz com uma equipe de médicos, geógrafos e engenheiros químicos a pedido do prefeito e de uma associação de moradores. 
Em Monte Maíz, um município de 8 mil habitantes, o prefeito é um médico que tem câncer. Os geógrafos fizeram um mapeamento do município, identificando onde estavam as antenas, os depósitos de agrotóxicos, os reservatórios de água, as fábricas, etc. Os médicos, cerca de 40 entre docentes e estudantes do último ano, foram de casa em casa realizando uma pesquisa de saúde em 5 mil habitantes. Encontramos três vezes mais casos de câncer do que na cidade de Córdoba ou em todo o país, tanto na incidência, os novos cânceres que apareciam anualmente, como na prevalência, número de doentes com câncer para cada 100 mil pessoas.  

Segundo as estatísticas de toda a população argentina, teríamos que ter encontrado nessa localidade 13 novos casos de câncer em 2014, e encontramos 34. 

Quanto à prevalência do câncer, a Argentina tem 700 casos para cada 100 mil, e em Monte Maíz encontramos uma prevalência de 2200 casos para cada 100 mil habitantes. 

Certamente fizemos as correções pertinentes tendo em conta o consumo de tabaco e a idade da população, mas continuamos constatando que não era um problema com a estrutura da população de Monte Maíz nem de seus hábitos, pois o fato é que é mais freqüente que as pessoas jovens adoeçam de câncer nas localidades fumigadas, enquanto que nas cidades são os mais velhos que padecem de câncer. O tabaco deu-nos uma relação estatística neutra, e até um pouco negativa: ou seja, entre os fumantes havia quase menos incidência de câncer que entre os não fumantes. A exposição ao glifosato através de fumigações aéreas e terrestres, através de máquinas muito grandes chamadas de “mosquitos”, quebra todos os padrões esperados. Nessas localidades, o nível de contaminação é muito alto – o prefeito tinha registrado três depósitos de agrotóxicos, e nós encontramos 23.  


Vocês dispõem de dados sobre o consumo de agrotóxicos na Argentina?


Sim. Uma coisa importante que é preciso dizer ao mundo é que nós temos esse modelo de agrotóxicos e sementes transgênicas desde o ano de 1996, e temos visto como a cada ano são usados mais agroquímicos. Do ano de 1992 até agora, o consumo de agrotóxicos aumentou em 800%. Em 1992, foram consumidos 34 milhões de litros, e em 2013 foram 317 milhões de litros de agrotóxicos. No mesmo hectare de terra, em 1996 eram utilizados 2 quilos de glifosato por hectare, agora são usado 12 quilos por que as plantas se tornaram resistentes. Conforme aumenta o consumo de agrotóxicos, observamos que cada vez mais gente adoece, e por outro lado os alimentos que exportamos, que vendemos à Europa e à China, vão com resíduos de pesticidas.    


Que tipos de câncer vocês encontraram  em Monte Maíz?


Não encontramos um tipo que prevaleça. Os cânceres existentes são os mais comuns: pulmão, mama, próstata, cólon. Os de pâncreas cresceram muito, e os de tireóide também. Como estudamos muitas localidades, vemos que em algumas delas predominam os cânceres nos ossos, sarcomas, câncer no cérebro. Em alguns anos, constatamos muitas leucemias.


O que pode nos dizer sobre as malformações e os abortos?


Efetivamente, esse é outro dos grandes efeitos, por que o glifosato é mutagênico. 

Sou neonatólogo e vejo isso com clareza. Meu consultório fica cheio de crianças com malformações, e elas vêm todas de localidades fumigadas. As malformações aumentam muito, e são de todos os tipos: a síndrome de Down, as doenças cromossômicas, as doenças do coração, de membros, do sistema nervoso, etc. Eram a mesma distribuição encontrada anteriormente, mas muito aumentada. Se o normal eram 2% de malformações, nas localidades fumigadas encontramos 6 ou 7% em alguns anos. Isso as pessoas vivem como um drama, por que é um drama. Os médicos locais que atendem nessas localidades há muitos anos dizem: “aqui isso não acontecia antes, nunca tínhamos uma criança malformada, e agora todos os anos temos várias”. Além disso, temos vários locais onde temos mais abortos do que partos. No princípio, não dávamos importância a isso, mas começamos a observar que era muito freqüente: a taxa de abortos espontâneos é de 0,6% por ano, ou seja, 0,6% das mulheres em idade fértil perdem uma gravidez por ano, e nós, nas localidade fumigadas, temos observado o quádruplo ou às vezes o quíntuplo, como ocorreu no bairro Ituizangó, em Córdoba.

  

O que ocorre com os trabalhadores rurais?


Os trabalhadores rurais são os mais afetados. Em Monte Maíz, identificamos 900 pessoas que tinham relação com a produção agrícola, os peões rurais e suas famílias, os agrônomos e os trabalhadores das empresas que fumigam. Essas pessoas tinham três vezes mais câncer que o resto da população local, ou seja, seis vezes mais câncer do que o resto da população do país. É uma realidade muito dura. Essas pessoas recebem salários muito bons, mas mal e mal começam a ter os sintomas de doenças são despedidos e as doenças e as análises são escondidas. Entre os agricultores também se observa muito bem o efeito da desigualdade  social na saúde. Por exemplo, em uma plantação de soja, onde o dono da lavoura, que já não é chamado de agricultor mas sim de “produtor”, tinha câncer no cólon e sua neta de cinco anos uma leucemia. Ambos eram atendidos no hospital particular mais importante de Buenos Aires, o Hospital Italiano. Esse mesmo produtor de soja tinha três empregados, três peões rurais, os irmãos Torres. Os três morreram de câncer por que não podiam ir a um hospital.     

  

O que os sindicatos fazem diante dessa realidade?


Nada. São cúmplices da patronal e estão sentados à mesa com os grandes empresários da soja. O sindicato dos trabalhadores rurais é um sindicato traidor, da direita peronista e que defende os interesses das empresas. No último governo de Kírchner se avançou um pouco na proteção dos trabalhadores rurais, à margem  dos sindicatos, mas agora com o novo governo de Macri, desarticulou-se o pouco que se conseguiu.


Com a publicação do estudo de Monte Maíz vocês sofreram muitas pressões?


Sim. Nós terminamos de analisar os dados em março de 2015, e como era um estudo que tinha sido solicitado pelo prefeito do município e os moradores, fomos lá apresentar os resultados. Nesse momento, o decano da Faculdade de Medicina da minha universidade e depois o reitor da Universidade Nacional de Córdoba nos pressionaram para que entregássemos os resultados a eles, afirmando que eles já sabiam o que fazer com eles.         Evidentemente não aceitamos, é como se eu dissesse a meu paciente: bom, já tenho seu diagnóstico, mas não vou passá-lo para vocês vou dá-lo a meu chefe. Dessa forma, fomos à Monte Maíz e tornamos públicos os resultados. Isso fez com que o decano da Faculdade de Agronomia pedisse nossa expulsão da Universidade. Finalmente, seu pedido e o expediente administrativo que abriram contra nós deu em nada. Era uma bravata. Não puderam conosco por cientificamente não tinham argumentos e por que aqui em Córdoba há um movimento social e de opinião muito forte, com muito peso na opinião pública, e não podiam sancionar-nos por algo que era muito transparente, que não tinha nenhum interesse econômico e que era uma ação médica rigorosa.  



Que repercussão vem tendo o estudo de Monte Maíz?


Quando apresentamos esse estudo, o município aprovou uma regulamentação municipal com uma série de medidas, como retirar para fora da localidade todos os depósitos de agrotóxicos e proibir a entrada dentro da localidade dos tratores que fumigam e a fumigação a menos de mil metros da localidade. Foi uma série de medidas interessantes que colocaram os agricultores em pé de guerra, mas que provocaram um debate muito interessante, já que há mais de 100 localidades que tem regulamentações nesse sentido, tanto em Córdoba como em Santa Fé ou em Buenos Aires. As administrações locais têm mais dificuldades em evitar o debate. Os governos provinciais se fazem de desentendidos, mas os locais não podem evitar a crítica cidadã.

   

Medardo Ávila é conhecido na Argentina por liderar uma rede de médicos que está enfrentando a multinacional Monsanto e as autoridades de seu país ao tornar visíveis, com relatórios médicos, os devastadores efeitos sobre a saúde causados pelas fumigações com glifosato nos campos de soja transgênica. Ele é pediatra e neonatólogo, e coordena o módulo Determinantes Sociais da Saúde da cátedra de Clínica Pediátrica da Universidad Nacional de Córdoba.


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