quinta-feira, 21 de julho de 2016

Na América latina é preciso repensar muitas coisas, inclusive o que é a esquerda



Mari Cruz Tornay-Pueblos
Sur y Sur

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Quando a América Latina era narrada a partir de estúdios situados em Miami, o presidente Hugo Chávez, protagonista do primeiro golpe midiático, impulsionou um canal para contar, a partir da região, o que ali acontecia e tornar visíveis as populações historicamente excluídas dos meios de massas. Aram Aharonian foi o primeiro diretor da TeleSur, e hoje, onze anos depois da primeira emissão, a lembra como o fato comunicacional mais revolucionários da história da América Latina. Neste momento, a comunicação continua sendo um elemento fundamental para entender o que ocorre em um continente no qual os meios privados legitimam as tentativas de desestabilização contra alguns dos governos eleitos democraticamente.  A entrevista a Aram Aharonian  ocorreu durante o Foro Latino-Americano e Caribenho  de Comunicação Popular celebrado na sede da CIESPAL, em Quito, onde se debateu o papel da comunicação no novo contexto vivido hoje na América Latina.

-A que se refere o conceito de “guerra midiática” e o que ela tem significado na América Latina?

-Se há 40 anos eram necessárias forças armadas para impor modelos políticos, econômicos e sociais, hoje não fazem falta nem tanques nem baionetas.  Somente é necessário o controle dos meios de comunicação de massa, por que eles impõem imaginários coletivos que vão imbecilizando e conquistando as sociedades. As guerras midiáticas tiveram seus primeiros tubos de ensaio no princípio do milênio, na Venezuela, com um golpe que foi tão midiático que no dia seguinte não foi divulgado pela mídia local, e somente se soube que as coisas estavam mudando por que a imprensa internacional estava cobrindo o que acontecia. Mais tarde, tivemos fatos na Bolívia e Equador, e depois os golpes de Paraguai e Honduras; no ano passado, a desestabilização financeira na Argentina e temos agora o golpezinho no Brasil. Contudo, não se trata unicamente dos meios de comunicação: os meios são o cavalo de Tróia dos grupos empresariais, e não somente eles estão metidos nisso, mas também todo um aparato judicial totalmente comprometido com os interesses desses grupos fáticos que existem em todos os países.        O singular nessa guerra midiática, que não é travada somente pelos meios locais, é que as notas básicas são produzidas no exterior e replicadas nos meios locais, que tem perdido credibilidade. Um meio estrangeiro dá credibilidade ao que for dito. Eles tem servido até agora para construção do imaginário coletivo e para mudanças profundas em processos políticos. Há um processo de  desestabilização ocorrendo  em vários países, obviamente sustentado por mentiras, meias-verdades, manipulações e desinformação por parte desses meios hegemônicos.   

-Uma das estratégias para fazer frente à essa “guerra midiática” na América Latina foi a aprovação de leis dirigidas a democratizar a comunicação, romper los monopólios midiáticos e incorporar novos atores ao cenário comunicacional. O qué essas leis conseguiram? Cumpriram seu objetivo?

-Sim e não. Se o que se queria era uma lei de comunicações, se conseguiu isso. Uma lei é um marco jurídico que permite fazer coisas que talvez antes estivessem proibidas ou que impede que sejam feitas coisas que antes estavam permitidas.  É uma base jurídica, mas as mudanças nas comunicações não são feitas por uma lei, esta só irá permitir que sejam feitas. Creio que esse foi o maior problema, que aparece com mais ênfase na distribuição das freqüências,  quando essa não deveria ser a ênfase. A distribuição percentual das freqüências não garante a democratização da comunicação. Foi feita pensando-se que todo mundo tivesse voz e imagem, algo que nenhuma lei garante. Creio que há uma incapacidade dentro do campo social e popular para organizar-se, formar meios, unirem-se e produzir conteúdos. Há escassos novos conteúdos nas rádios e televisões depois de nove anos da lei na Argentina, por exemplo. Absolutamente não há conteúdos.   

-Desde a chegada ao poder de Mauricio Macri na Argentina, as tendências mais conservadoras tem conseguido  diferentes vitórias no continente. Quais são as perspectivas  do novo cenário para a comunicação alternativa e popular, para os atores que receberam o apoio dos governos progressistas da região?

-Continuarão fazendo a mesma coisa, mas com muito mais dificuldades. O fundamental é mostrar que essas verdades midiáticas que as forças conservadoras impões não são verdades. É preciso democratizar os meios, permitindo à maior quantidade de vozes possíveis que demonstrem que tudo isso é uma falácia, uma mentira, uma verdade fabricada. Sempre me lembro do ano de 1991, quando estivemos convencidos  de que na primeira guerra transmitida ao vivo, que foi a do Iraque, tinham bombardeado Bagdá; mas não, cinco anos depois nos demos conta que tiveram que invadi-lo depois, mas o que tinham mostrado naquele momento tinha sido fogos de artifício ao vivo e diretamente para todo o planeta.  Assim, eles nos mostraram uma grande quantidade de realidades virtuais que nunca existiram e que nós assumimos como verdades absolutas, apesar da sua inexistência. O que se pode fazer? Tecer melhor as redes de meios populares, compartilhar conteúdos, dar força às mensagens. A repetição e a massificação das mensagens faz com que a soma dos meios se transforme em um meio de massas; perder a identidade da marginalidade, já que se assumirmos que somos marginais, estamos condenados ao fracasso, devemos assumir que temos que buscar a massificação das mensagens de distintas formas.  A massificação não quer dizer que elas cheguem a todo mundo, mas que cheguem além do seu bairro, e creio que é preciso uma formação para isso.  É preciso profissionalizar-se  e isso não significa cobrar, mas sim saber lidar da melhor forma possível com os instrumentos e ferramentas que se tem para desenvolver a profissão e saber para que se está fazendo comunicação.  

-Você realizou o projeto de levar ao ar a primeira televisão regional da América Latina, a TeleSur. O que tem significado a TeleSur para o continente e para a integração de seus países?
-Primeiro, demonstrar que sim, é possível.  Essa utopia não foi alcançada, mas se andou perto.  Houve uma mudança radical das verdades na América Latina. Aí compreendemos o que significa o alternativo. Durante dez anos, a única voz, a única imagem televisiva da América Latina era dada pela CNN em espanhol, nunca houve uma pessoa negra ou índia, parece que não existiam, estavam totalmente invisíveis, negadas e ocultadas. A entrada da TeleSur no ar como voz alternativa exigiu mudanças à CNN, e ela teve que transmitir a cerimônia indígena de posse de Evo Morales, e daí para o golpe de estado em Honduras, dando sua versão, mas utilizando as imagens da TeleSur. Isso significa uma mudança e a demonstração de que o alternativo é importante para saber o que realmente está acontecendo. Tudo aquilo que estava oculto teve que vir à luz. Se a TeleSur cumpriu ou não seus objetivos, é outro problema, mas só a sua própria  existência é o fato comunicacional mais revolucionário da história da América Latina. De sua fundação em diante, foi uma outra época.   

-Precisamente, a TeleSur foi objeto de críticas das forças conservadoras da região, especialmente do presidente Mauricio Macri na Argentina.

-Sempre digo que, quando havia ditadura em nossos países, nós fazíamos o possível para ouvir a Rádio Rebelde de Cuba. Com as grandes possibilidades que há agora, se alguém quiser ver a TeleSur, irá ver. Ele não está prejudicando a emissora, está fazendo publicidade para ela. Creio que nunca se falou tanto da TeleSur na Argentina como depois da decisão de Macri. Creio que eles fizeram sim o que entediam por liberdade de expressão: fechar meios, cortar acessos. Querem uma verdade única, e essa é a idéia do neoliberalismo: é preciso haver uma só voz, uma só imagem, e todos temos que nos contentar com isso.   

-Acredita que as vitórias conquistadas pelas forças conservadoras da região estão conduzindo a um fim de ciclo? Ainda há tempo de reverter essa tendência?

-Primeiro, é necessário fazer uma forte autocrítica; segundo, reorganizar-nos; terceiro, entender que não existe década ganha. Ganha para que? Se não há discursos, não há mensagens para o futuro, não estamos construindo nada. Primeiro, é preciso construir com as pessoas; por exemplo, se se trata de uma redistribuição de riqueza não há nada ganho, é simplesmente justiça e é preciso construir um futuro.  A década ganha foi derrubada com somente um pequeno slogan: “Mudemos”, que falava de um futuro diferente. Lamentavelmente a esquerda não sabe construir futuro, incluindo a esquerda do governo kirchnerista. Os bolivianos também continuam dizendo “por que se permitiu o acesso a moradia, por que se deu acesso àquilo...”.

Deu-se o acesso aos direitos. E agora? A construção do futuro é feita tendo presente a memória histórica para saber em que basear-se e daí tomar impulso para sabar para onde se vai, mas não serve como coisa nostálgica. É preciso pensar no futuro, ter planos para o futuro. Tivemos alguns governos que conseguiram dar acesso ao consumo a uma quantidade de cidadãos e cidadãs, que antes não o tinham. Isso não é uma transformação socialista. E depois disso? Em todo o caso, é preciso repensar sobre o que queremos. Se é o poder, o que se pode fazer com o poder de fato que existe em todos os países, que não são somente as grandes corporações e meios de comunicação, mas sim um conglomerado de juízes, tribunais, promotores e policiais. Na América Latina é preciso repensar muitas coisas, incluindo o que é esquerda.

A autora é integrante do conselho de redação  de Pueblos – Revista de Información y Debate.




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