sexta-feira, 1 de julho de 2016

Londres fora da União Européia, não da OTAN


 Via  Rebelión

Atilio A. Boron

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti



O triunfo do Brexit no referendum abre múltiplas interrogações. A maioria dos analistas, principalmente os da imprensa hegemônica internacional, tem colocado ênfase no exame de suas conseqüências sobre os mercados, sua exacerbada volatilidade e a cotação das principais moedas.  Sem deixar de dar importância a esse assunto, acreditamos que essa ênfase economicista está longe de apontar o que é mais significativo.  Os mercados são entidades volúveis, sempre sujeitos à essa “exuberante irracionalidade” denunciada por Alan Greenspan, o ex-chefe da Reserva Federal dos Estados Unidos, de formas que prognosticar sua derrota uma vez consumada a saída do Reino Unido da UE, é um exercício ocioso e condenado ao fracasso, inclusive se as previsões forem feitas para curto prazo. Muito mais importante é ponderar o que a decisão do eleitorado britânico significa em termos políticos: um golpe, se não mortal, sem dúvida muito duro em um projeto comunitário que, quando adquiriu conotação social  e política progressista foi seqüestrado, tergiversado e prostituído pela oligarquia financeira européia. Com a deserção de Londres  - um divórcio litigioso e não consensual, na visão de alguns -, a UE perde a segunda economia e o segundo país em população, o que debilita uma Europa que, com a estruturação supra-nacional idealizada por Bruxelas, tratou de se reposicionar em termos mais protagonistas no turbulento tabuleiro da política internacional. Se com o Reino Unido em suas fileiras a UE não era mais do que  um aborrecido segundo violino no concerto das nações, com os britânicos fora sua gravitação global diminui ainda mais em relação à China, Rússia e os novos centros de poder internacional.



Não foi casualidade que tenha sido Angela Merkel  quem mostrou a maior preocupação pelo êxodo britânico, ao exortar os governos europeus a “manter a calma e a compostura” diante da má notícia.  Compreende-se sua atitude: a chanceler alemã foi quem impulsionou com mais força o avanço pela trilha auto-destrutiva seguida pela União Européia nos últimos anos. Transformou o acordo pan-europeu em um apêndice dos grandes bancos, sobretudo os alemães; combateu com meticulosidade germânica as características do projeto  original, que tinha como meta a construção de uma Europa social e de cidadãos; fortaleceu a conservadora burocracia da Comissão Européia e fez do Banco Central Europeu (BCE) o cão de guarda da ortodoxia financeira imposta sem escrúpulos a todos os governos da área. Enquanto o neoliberalismo batia em retirada da América Latina e Caribe entre as ruínas que tinha deixado depois da sua passagem, foi Merkel  quem o reviveu na Europa, incorporando o Fundo Monetário Internacional  como participante ativo na gestão macro-econômica dos Estados, e dando origem, junto à Comissão Européia e ao BCE a infame troika que pouco depois, como plutocracia insaciável, se transformaria no verdadeiro governo da Europa, jogando ao mar qualquer conteúdo democrático. Os gregos, onde a democracia foi inventada, podem dar fé da fúria destrutiva da troika da UE, que ao perder a folha de parreira de seu oco palavreado democrático pôs em evidência o alcance da decomposição do velho projeto europeu, de pés e mãos amarrados a serviço do grande capital.    

Essa Europa das classes dominantes, burocrática e empresarial, é a que recebeu uma porretada brutal do Reino Unido, e não há razão alguma para lamentar isso. A UE, que acompanhou Washington em todas as suas tropelias e todos os seus crimes no cenário internacional recolhe agora os amargos frutos  de sua cumplicidade com o que os  EUA perpetraram no Oriente Médio. Era óbvio que a destruição causada no Iraque, Líbia e agora na Síria  provocaria uma incontrolável onda de refugiados que só tem um lugar para onde se dirigir: a Europa. Washington pode alegremente incorrer em tais atrocidades  por que está protegido por dois oceanos que o transformam em um destino inalcançável para os que fogem do inferno desatado por seus drones, mísseis e unidades de combate. Mas a Europa, em troca, está ali. E essa torrente humana ativou e potencializou os piores instintos xenofóbos  e racistas de boa parte das populações européias que pretendem, em vão, colocar-se a salvo das conseqüências de seu passado colonialista e de seu presente como cúmplices do imperialismo norte-americano. Por isso, a xenofobia foi um componente decisivo do triunfo do Brexit, saudada com euforia por um racista comprovado e confesso como Donald Trump e os representantes da direita em quase toda a Europa, com Marine Le Pen na cabeça. 



Não seria de estranhas que o ocorrido no Reino Unido precipitasse um “efeito dominó“ em que diversos países tenham que submeter sua permanência na UE a veredicto popular. A direita da França e da Holanda já está falando nisso, e em outros países também há quem está pensando na questão. A crise pode inclusive tornar inevitável um novo plebiscito na Escócia para  decidir sua permanência na Grã-Bretanha. Os escoceses querem permanecer na Europa e votaram nesse sentido no referendo de dias atrás. Uma das conseqüências do Brexit poderia chegar a ser uma Escócia independente e a desaparição da Grã-Bretanha da forma como a conhecemos hoje.  


Para concluir: o bom dessa situação é que a debilidade da União Européia tira forças do imperialismo norte-americano, do qual ela é aliada histórica fundamental. Essa é a grande notícia para os povos do mundo que lutam para livrar-se do jugo e da dominação imperialista. Contudo, não se deve esquecer que hoje o pacto atlantista europeu-norte-americano  passa menos pela União Européia do que pela OTAN. Isso é assim tanto no terreno doméstico, tendo em vista a crescente militarização da repressão aos protestos sociais na Europa, como no âmbito internacional, onde o saqueio de outros povos repousa repousa cada vez mais na eficácia dissuasiva das armas. Foi por isso que o Secretário Geral da OTAN, Jens Stoltenberg, apressou-se em tranqüilizar  seus sócios, dizendo que a saída britânica da UE não implicava em abandonar a OTAN, de longe a maior expressão do crime organizado a nível  mundial. Afinal, em tempos tão convulsionados para a burguesia imperial como estes, é isso o que conta.     Que Londres bata a porta e se retire da EU é um problema, porque agora a harmonização de políticas entre os Estados Unidos e a Europa fica mais complicada pela divisão entre o Reino Unido e os demais países europeus, e pelas feridas deixadas por esse “divórcio não consensual” entre aqueles que faziam parte de uma mesma instituição supra-nacional. Contudo, seria muito mais grave se o eleitorado britânico decidisse sair da OTAN, o que obrigaria o Império a repensar e redefinir sua estratégia de guerra de amplo espectro em escala global. Por hora, não há perigo de que tal coisa venha a ocorrer, mas o mundo está mudando muito rapidamente, e as sólidas certezas de ontem parecem estar começando a volatizar-se.





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