quinta-feira, 28 de julho de 2016

Comida ou lixo? A máquina de gerar doenças

Via Rebelión



Silvia Ribeiro
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

O sistema alimentar industrial, das sementes aos supermercados, é uma máquina de adoecer as pessoas e o planeta. Está ligado às principais doenças das pessoas e dos animais de criação, é o maior fator individual das mudanças climáticas e um dos principais causadores do colapso ambiental global, como a contaminação química e a erosão dos solos, poluição das águas e perda da biodiversidade, além do rompimento dos ciclos do nitrogênio e do fósforo, vitais para a sobrevivência de todos os seres vivos.  



Segundo a Organização Mundial da Saude, 68% das causas de mortes do planeta devem-se à doenças não contagiosas. As principais enfermidades desse tipo, como as cardiovasculares, hipertensão, diabetes, obesidade e câncer no aparelho digestivo e órgãos associados estão relacionadas ao consumo de comida industrial. A produção agrícola industrial e o conseqüente uso de agrotóxicos (herbicidas, pesticidas e outros biocidas) é a causa das doenças mais freqüentes em trabalhadores rurais e suas famílias e habitantes de povoados próximos à áreas de semeadura industrial, dentre elas e insuficiência renal crônica, intoxicação e envenenamento por agroquímicos e resíduos destes na água, doenças de pele, respiratórias e vários tipos de câncer.  

 

Segundo um relatório do Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis (IPES Food) de 2016, dos 7 bilhões de habitantes do planeta, 795 milhões passam fome, 1,9 bilhões são obesos e 2 bilhões sofrem com deficiências nutricionais (falta de vitaminas, minerais e outros complementos). Embora o relatório esclareça que em alguns casos as cifras se sobrepõem, de toda a forma significa que cerca de 60% do planeta tem fome ou está mal alimentado.


É um índice absurdo e inaceitável, que remete à injustiça global, e ainda mais pelo fato de que a obesidade, que antigamente era símbolo de riqueza, agora é uma epidemia entre os pobres. Estamos invadidos por comida que perdeu um importante percentual de seu conteúdo alimentar pela refinação e por seu processamento, e de plantas que, devido à sua semeadura industrial tiveram diminuído seu conteúdo nutricional por efeito da diluição dos nutrientes resultante do maior volume de colheita sobre a mesma superfície, e que contém muitos outros produtos químicos, como conservantes, flavorizantes, espessantes, corantes e outros aditivos. São substâncias sobre as quais, da mesma maneira que ocorreu com as chamadas gorduras trans que há algumas décadas eram apresentadas como saudáveis e agora se sabe que são altamente prejudiciais, pouco a pouco vai se descobrindo que tem impactos negativos sobre a saúde.


Ao contrário do mito gerado pela indústria e por seus aliados – no qual muita gente acredita por falta de informação – não temos  que tolerar essa situação: o sistema de agricultura industrial não é necessário para nos alimentar, nem agora nem no futuro. Atualmente, seu produto chega ao equivalente a 30% da população mundial, embora utilize mais de 70% das terras, águas e combustíveis utilizados na agricultura (Ver Grupo ETC aqui).



O mito se sustenta nos grandes volumes de produção por hectare dos grãos cultivados industrialmente. Contudo, embora resultem em grandes quantidades, a cadeia industrial de alimentos desperdiça entre 33% e 40% do que produz. Segundo a FAO, são desperdiçados 223 quilos de comida por pessoa por ano, equivalente à produção de 1,4 bilhões de hectares, 28% das terras agrícolas do planeta. Ao que é desperdiçado no campo, soma-se ao que é perdido durante o processamento, embalagem, transporte, venda em supermercados e, finalmente, à comida jogada fora nos lares, sobretudo os urbanos  e os do Norte global.  



Esse processo de industrialização, uniformização e de acréscimo de produtos químicos na agricultura tem poucas décadas. Seu principal incentivo foi a chamada Revolução Verde – uso de sementes híbridas, fertilizantes sintéticos, agrotóxicos e maquinaria -, promovida pela Fundação Rockefeller dos Estados Unidos, começando com a hibridização do milho no México  e do arroz nas Filipinas, através dos centros que logo se tornariam o Centro Internacional de Melhoramento do Milho e do Trigo (CIMMYT) e o Instituto Internacional de Pesquisas em Arroz (IRRI). Esse paradigma tem sua expressão máxima nos transgênicos.  



Não foi somente uma mudança tecnológica, mas sim a ferramenta-chave para que se passasse dos campos descentralizados e diversos, baseados fundamentalmente no trabalho campesino e familiar, pesquisas agronômicas públicas e sem patentes e pequenas e médias empresas nacionais para um imenso mercado industrial mundial, que desde 2009 é o maior mercado global, dominado por empresas multinacionais que devastam solos e rios, contaminam as sementes e transportam comida por todo o planeta fora da estação, para o que os agroquímicos e combustíveis fósseis são imprescindíveis. 

 

A agressão não é somente pelo controle de mercados e imposição de tecnologias contra a saúde das pessoas e a natureza. Toda a diversidade e características locais incomoda a industrialização, motivo pelo qual há um ataque contínuo ao ser e fazer coletivo e comunitário, às identidades que significam as sementes e comidas locais e diversas, ao ato profundamente enraizado na história da humanidade do que e como comer.



Apesar disso, continuam os camponeses, pastores e pescadores artesanais e as hortas urbanas os que alimentam a maioria da população mundial. Defendê-los e afirmar a diversidade, produção e alimentação local campesina e agro-ecológica é também defender a saúde e a vida de todos e de tudo.

 

Silvia Ribeiro, pesquisadora do Grupo ETC






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