sexta-feira, 8 de julho de 2016

Caral, a cidade mais antiga de Abya Yala

Sanguessugado IELA.ufsc

Elaine Tavares


Descortinar as maravilhas de Abya Yala não é tarefa fácil, até porque boa parte delas não está nos roteiros de turismo das grandes operadoras. O viajante precisa ter muita informação sobre o continente para se deparar com a história velha. Até porque muito mais se sabe do Egito, que fica lá na África, do que das antigas cidades que foram tão esplendorosas quanto as do oriente, da região árabe ou da terra dos faraós. 

Um exemplo disso é a cidade de Caral, no Peru, a uns 180 quilômetros ao norte de Lima, considerada uma das mais antigas do “novo mundo”, tendo encontrado seu esplendor entre os anos 3.000 e 1.800 a.C, existindo no mesmo período de outras grandes civilizações como as da Índia, China e da Mesopotâmia. Segundo os historiadores e arqueólogos, a cidade teve seu apogeu na mesma época em que Mênfis brilhava como o centro do mundo egípcio. A diferença é que Caral cresceu de maneira isolada, enquanto a cidade egípcia florescia em meio a outras de igual beleza.

Apesar de as ruínas já serem conhecidas desde 1905 foi só em 1949 que os arqueólogos começaram a perceber que ali poderia estar um complexo urbano. Em 1965 o viajante estadunidense Paul Kosok registrou com uma fotografia aérea parte do lugar. Já se percebia que o conjunto poderia ser muito antigo e de grande complexidade arquitetônica. Em 1975 pesquisadores peruanos começaram a mapear o sítio no Vale de Supe, fazendo observações justamente sobre a arquitetura.

Mas, foi só em 1997 que a arqueóloga Ruth Shady apresentou dados concretos sobre a antiguidade do lugar a partir da datação da cerâmica. Não havia mais dúvidas de que a estrutura ali erguida tinha mais de cinco mil anos, sendo, portanto, mais antiga do que Chavín, até então tida como a cidade mais velha do continente, com 3.500 anos.

Ruth revelou ao mundo que a cidade foi construída com tecnologia capaz de resistir aos terremotos e às mudanças climáticas e insiste em dizer que Caral tem uma mensagem para o mundo, sobre a possibilidade de se viver em harmonia com a natureza. Ela ressalta que aquela região próxima à Lima já era ocupada antes de Caral com grupos de pescadores e coletores, mas a cidade se levanta como parte de um momento mais avançado da cultura, tendo uma economia de excedentes agrícolas e pesqueiro, e centros urbanos bem ordenados com autoridades sociais e políticas. Os construtores eram extraordinários e foram os capazes de erguer edifícios monumentais – como as grandes pirâmides. Também existiam exímios artistas, com profundo conhecimento da arte e as cidades se comunicavam por redes interculturais.

Shady conta que a cidade de Caral está fincada dentro do chamado “cinturão sísmico do Pacífico” e que seus habitantes sabiam muito bem o que isso significava. Justamente por isso criaram seus edifícios sobre plataformas superpostas, tendo dentro delas algumas bolsas de pedras que tinham a capacidade de dispersar as ondas sísmicas. Os muros escalonados também são exemplos dessa tecnologia, bem como as casas, que eram construídas com um material flexível conhecido como quincha. Além disso, o povo de Caral mantinha nos grandes edifícios públicos um altar com um fogo central que chegava a alcançar grandes temperaturas, servindo como calefação. Também construíram canais subterrâneos capazes de canalizar a energia do vento e tinham conhecimentos sofisticados de mecânica de fluídos.

Segundo ela, o desenho da cidade com suas praças circulares e pirâmides está relacionado com o ordenamento dos astros, mostrando que tinham conhecimento da astronomia. Todo o complexo se estendia pela planura numa relação de harmonia com a natureza e com as gentes. Há sinais de que mantinham intercâmbios comerciais e conviviam em paz, uma vez que não foram registrados muros, muralhas ou qualquer tipo de arma nos onze sítios já investigados. Uma das razões para isso pode estar no fato de que não havia uma supremacia masculina na sociedade de Caral. As mulheres aparecem destacadas em atividades religiosas, econômicas e políticas, coisa que se manteve ao longo dos tempos, inclusiva nas civilizações que vieram depois, como na Moche e na Inca. Ruth salienta que os espanhóis, ao chegarem ao Peru, diziam que os incas eram débeis porque se deixavam governar por mulheres. E foram eles que trouxeram o patriarcalismo e a violência.

A antropóloga acredita que o declínio da cidade se deu por motivos naturais. Deve ter havido uma série de terremotos e inundações que acabaram por cobrir a baia, bem como períodos de graves secas, que levaram o povo a migrar. Há registros de que pode ter havido muita fome, ainda que eles tenham resistido por muito tempo por conta de sua proximidade com o mar. Num dos principais edifícios da cidade foram encontradas esculturas que representam homens de aspecto famélico entre cadáveres, bem como jovens magérrimos, sugerindo fome, participando de uma dança ritual, possivelmente pedindo ajuda dos deuses. A antropóloga revela que o abandono da cidade deve ter acontecido por volta de 1.900 a.C.


Hoje, o lindo complexo de Caral já pode ser visitado, mas ainda há pouca gente que reverencia esses espaços das antigas civilizações andinas. Toda a história dessa grande Abya Yala ainda está por se contar, já que a invasão espanhola e portuguesa promoveu tanta destruição, inclusive da memória. Mas, a despeito de tudo isso, vez em quando a memória brota da terra, como foi o caso de Caral, e vamos conseguindo armar o grande quebra-cabeça de nossa história originária. Com os olhos pregados nas imensas construções circulares é possível intuir que o povo de Caral construiu um mundo esplendoroso, em nada devendo às grandes civilizações de outras partes do mundo. Conhecer esse universo se faz cada dia mais necessário para que a hoje América Latina (sempre Abya Yala) reencontre seu caminho de soberania.

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