quarta-feira, 13 de julho de 2016

Caos na Venezuela ou manipulação midiática?

Via Rebelión

 Entrevista a Ramón Martínez, politólogo

Marcelo Colussi
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti



Segundo a imprensa comercial mundial, a Venezuela vive hoje um caos sem precedentes. De acordo com essa matriz de opinião, globalmente generalizada, o país se encontra em colapso e a única solução  possível é a saída do governo do atual presidente, Nicolás Maduro, para o que se tenta um referendum revogatório.

Não há dúvida de que a situação quotidiana do cidadão venezuelano comum está complicada: assiste-se a um processo de desabastecimento profundo, com preços que dispararam para as nuvens e um governo que, além de  declarar-se como socialista, não está dando todas as respostas que a população requer.  Desde setores da esquerda, que não se desvinculam do processo bolivariano aberto por Hugo Chávez, mas que o acompanham de forma crítica, são propostas alternativas. O que a direita propõe certamente não é solução para as grandes maiorias populares: é somente o fervoroso desejo de terminar de uma vez por todas com um processo político onde ela perdeu protagonismo e, ao menos para Washington, põe em perigo o manejo dos poços petrolíferos (obviamente, perigo para sua estratégia de dominação). Evidentemente, a revolução passa por um momento difícil. Concretamente, não há avanços em direção ao socialismo (se mantém a economia de mercado, e quem tem os controles da sociedade venezuelana continua sendo o grande capital). Segundo essa imprensa pró-capitalista, a experiência dessse “socialismo do século XXI” é um desastre fenomenal, com o que ratifica que todo o socialismo é somente pobreza e penúria para a população. Por trás disso, é claro, se encontra a voracidade do império norte-americano, que não deseja perder as maiores reservas de petróleo do planeta, as quais considera parte de seu “pátio dos fundos”. Daí é que a imagem generalizada que é oferecida da Venezuela é a de uma ditadura intolerante, caótica, ineficiente e corrupta, que faz seu povo passar fome e o reprime. A direita nacional, centralizada politicamente na opositora MUD – Mesa da Unidade Democrática – faz coro à essa iniciativa patrocinada pelos Estados Unidos. Definitivamente, terminar com a experiência chavista e voltar aos tempos em que o petróleo era administrado por uma tecnocracia favorável aos planos do Império, com o concurso para Miss Universo na ordem do dia e a imagem de uma “sociedade democrática e feliz” (coisa que, com certeza, nunca existiu).  

De qualquer maneira, para tentar mostrar uma cara diferente da que oferece a indústria midiática global (de direita, obviamente), nos parece oportuno dar voz à outra visão. Dessa forma, apresentamos uma entrevista realizada com Ramón Martínez, fundador e diretor do portal digital COLAREBO – Comunidade Latinoamericana Revolucionária Bolivariana – e analista político, que pode oferecer um olhar mais objetivo sobre a atual realidade venezuelana.       

É claro que o que o país caribenho está vivendo não é, em termos estritos, um processo socialista. O próprio entrevistado afirma: “nenhum desses governos é socialista em seu sentido estrito; não são marxistas no sentido clássico, mas sim impulsionaram melhoras para as grandes maiorias populares. Não são governos que chegaram ao poder através de revoluções socialistas, mas estão contra as políticas imperiais. Isso dói à direita”. Contudo, por uma questão mínima de soberania, de dignidade e respeito à autodeterminação e soberania dos povos, ninguém tem o direito de intrometer-se nesses assuntos internos que somente os venezuelanos devem decidir. 

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Pergunta: Como é esse caos que tanto mostra a imprensa comercial em todos os lugares? É impossível viver no país? Na realidade, o que está acontecendo?

Resposta: Se dizem muitas coisas sobre a Veneuela: que é um caos, que aqui nada funciona, que vive-se sob uma ditadura. Tudo isso faz parte de uma guerra que está sendo travada contra o processo bolivariano, que há 17 anos vem tentando construir uma nova sociedade. Não deve se deixar de levar em contra que essa mudança vem sendo realizadas dentro dos parâmetros de um sistema democrático, onde a grande maioria da população escolheu esse caminho através do voto. Ou seja: a população quer isso, por isso escolheu democraticamente. O  processo bolivariano se sustenta genuinamente através do voto popular. Desde a primeira vez em que o presidente Chávez ganhou, em 1998, continuamente vem sendo feitas eleições abertas, limpas e transparentes, e é a população que vem escolhendo isso que temos aqui. Não há nenhuma imposição. O governo eleito desde então tem trazido uma série de melhoras para a população, isso é inquestionável. Por isso, é impossível falar em caos.  O caos, na realidade, ocorria nos governos anteriores chamados de IV República. Com a chegada do comandante Chávez, iniciou-se um processo de resgate da soberania nacional em benefício do povo venezuelano. Por isso, seu governo recebeu todo o tipo de ataques: tentativa de golpe de Estado, sabotagem petroleira, e contínuo assédio através de todos os meios.  É preciso não esquecer que a Venezuela   está na mira da voracidade capitalista externa, pois é a principal reserva de petróleo do mundo, dispondo também de grandes reservas de gás e de coltan, o chamado ouro azul, além de outros minerais estratégicos. Além de tudo isso, a Venezuela tem contribuído durante os últimos anos para criar uma nova visão da América Latina diante do mundo e diante do império estadunidense, colocando em andamento processos como a ALBA. a UNASUR e a CELAT, tudo isso deixando de lado os Estados Unidos e mandando uma mensagem de independência e de não ingerência. Isso lhe valeu a declaração de guerra por parte do imperialismo norte-americano. De lá vem todo esse ataque midiático de desprestígio e confrontação, que na realidade já existe há anos mas que se acentuou agora.  Assim vemos o atual eixo Washington-Madri-Bogotá atuando a toda máquina para derrubar o processo bolivariano. A direita internacional esperava que com a morte de Hugo Chávez e a chegada de Nicolás Maduro à presidência caísse tudo o que foi construído nesses anos e os avanços da revolução dessem marcha à ré.  Contudo, não foi assim. Maduro ganhou a presidência democraticamente. O processo bolivariano seguiu adiante, embora com grandes dificuldades pelo assédio contínuo ao qual se viu submetido, pelas pressões e pelos repetidos ataques em todas as esferas..   

Pergunta: Falemos um pouco dessas dificuldades. Como está a situação do dia a dia para o venezuelano comum?

Resposta:  Como produto de toda essa pressão, na há dúvidas de que se criou uma situação  onde existem problemas, muitos problemas. É  certo que há uma situação econômica difícil, muito complicada para a população. A queda de preços do petróleo a nível internacional representou um golpe duro para a economia nacional.  Lamentavelmente continuamos a ser um país que vive da renda do petróleo, sem produção própria, e dependemos da importação de quase tudo, inclusive os alimentos.  O preço do barril de petróleo caiu a 20 dólares, como resultado da manipulação das bolsas de valores, que tentam bombardear a Venezuela (assim como a Rússia e o Irã, todos grandes produtores petroleiros), tendo chegado perto dos 200 dólares em outros momentos, e isso, em boa medida, desarticulou a economia.

Assistimos também a um desabastecimento programado. Hoje existe uma economia paralela no país, sendo que determinados grupos manobram com os produtos de primeira necessidade. Os “bachaqueros” (atravessadores), como são chamados, são os que controlam isso: a farinha de trigo, o arroz, a massa. São eles que criam o desabastecimento e elevam os preços às nuvens. Para ter uma idéia: Um quilo de farinha, com a qual é feita a arepa, a comida nacional por excelência, sai por 200 bolívares segundo o preço regulado pelo governo, e os bachaqueros a vendem por 2500 bolívares.  Ou um litro de leite, que segundo os preços regulados sai cerca de 300 bolívares, chega a ser vendido pelos especuladores até por 4000 bolívares. Tudo isso gera muito mal-estar e instabilidade entre a população. Ocorrem longas filas para adquirir os produtos de primeira necessidade subsidiados pelo Estado. Aí existe um problema muito importante que é preciso destacar: nessas filas trabalham as máfias dos “bachaqueros”, azucrinando a população e aumentando o mal-estar ao atacar o governo, desqualificando-0. Diante disso, o governo bolivariano reagiu criando  o que chamam de CLAP: Comitês Locais de Abastecimento e Produção. Com esses mecanismos, tenta-se remediar a situação, distribuindo os produtos básicos que as máfias fazem desaparecer das prateleiras. São formados pelos Conselhos Comunitários, a Frente Francisco Miranda, a União Nacional de Mulheres e distintas organizações locais que estão ao lado da revolução. Com isso, se mitiga a ação de desabastecimento que a direita está realizando, atingindo assim a vastos setores populares.  Há problemas com a carne de gado e de frango, por que as grandes empresas privadas que importam esses produtos  também participam do desabastecimento. E de fato, essas empresas são  as principais “bachaqueras” que atacam o governo, especulando com os preços, vendendo o que lhes dá vontade ou simplesmente retirando os produtos do mercado  e produzindo o caos, pois se faltam os alimentos básicos, a população se desespera.

Uma das principais redes de especulação é dirigida pelo senhor Lorenzo Mendoza, o maior empresário da Venezuela, dono das companhias Polar, que produz cerveja e igualmente dedicado à importação de diversos produtos.  O grande problema é que há pouca produção nacional, e a maior parte dos produtos é comprada fora, em função do que o Estado fica à mercê dessas empresas privadas, que especulam nas suas costas.  Isso demonstra um problema estrutural básico do país: continua-se a viver-se da renda petroleira deixando de lado a produção própria. Por isso, nesse momento o governo está incentivando novas hortas urbanas como forma de introduzir uma nova cultura, para sair da dependência da renda petroleira e não depender de importações. Dessa forma, uma boa parte da população urbana começou a produzir hortaliças e verduras em pequenas hortas nas suas residências: alfaces, tomates, cebolinhas, pimentões. Esses são princípios paliativos para enfrentar a crise atual.

Pergunta: A imprensa comercial e  os grandes meios de comunicação que moldam a opinião pública falam de repressão do governo contra a população que procura desesperada por seus alimentos básicos. Como é isso?

Resposta:  À  direita, o que menos importa são as pessoas, os cidadãos comuns em carne e osso, os pobres. O único que ela quer é tirar o governo bolivariano do poder; por isso, ela implementa toda essa política de agressão contra a revolução, o desabastecimento, a polarização e as denúncias de desgoverno e caos que inundam todo o espaço midiático.  Definitivamente, se alguém sofre com tudo isso é essa mesma população que a direita diz defender e por quem supostamente estaria preocupada. O que a direita quer é a saída do presidente Maduro através de um referendum: para isso, ela se serve desse caos econômico que ela está produzindo.  O desabastecimento e a inflação trazem mal-estar, sem dúvida, e efetivamente ocorreram protestos das pessoas, por que o desabastecimento e as longas filas incomodam, isso está claro. Mas, o que circula nos meios de comunicação de massas é falso: é um exagero, uma manipulação com segundas intenções.  Muito desse mal-estar deve-se a provocadores que incitam a população, quando aparecem nas filas e gritam contra o governo, protestam contra a fome como suposto produto da ineficiência de maduro e dessa “ditadura castro-comunista que nos mantém subjugados. Certamente essas manobras tentam levar a população ao desespero, e de certa forma,conseguem. Em seguida, chega a imprensa e fala do caos. Já houve mortes, é certo, mas isso é produto de enfrentamentos que os provocadores incentivam. Não é certo que haja repressão aberta contra a população. Estamos absolutamente distantes de um Estado repressor que atira contra sua própria população 

Pergunta: Quais são as conseqüências políticas de todo esse mal-estar para o governo bolivariano e para o país em seu conjunto?

Resposta: A constituição da República Bolivariana da Venezuela tem entre seus artigos um mecanismo que se chama referendum constitucional.  Isso  autoriza aos cidadãos solicitar um referendum para qualquer mandatário em qualquer momento, desde para um vereador até o presidente da república, seguindo certas normas estabelecidas. Por exemplo, pode-se solicitar esse referendum a partir de uma certa quantidade de assinaturas da população e a partir da metade do período de governo para o funcionário em questão. Tudo isso é organizado pelo Conselho Nacional Eleitoral, que é a autoridade em matéria eleitoral no país.  Necessita-se de 1% das assinaturas de cidadãos aptos eleitoralmente para pedir um referendum revogatório. Agora a direita está exigindo a saída do presidente Maduro através de um referedndum, para o que apresentou certa quantidade de assinaturas, agitando as águas com isso através dos meios de comunicação. Contudo, essas listas de assinaturas devem passar por um processo de depuração pelo Conselho Nacional Eleitoral para verificar se todas são legítimas e verificando se as assinaturas e impressões digitais  coincidem. E oque aconteceu? Detectou-se uma longa lista de irregularidades nessas listas: perto de 11 mil mortos aparecem assinando pelo referendum; há outros 3 mil cidadãos  que estão detidos, e por isso perdem seus direitos eleitorais também. Além disso, o CNE detectou inconsistência em 600 mil assinaturas das 1,9 milhões   apresentadas, motivo pelo qual se reconhecem 1,3 milhões. Isso demonstra que a direita política está disposta a qualquer coisa, inclusive cometendo ilegalidades, para deter o processo bolivariano. Embora neste momento de tempo decorrido de governo, por lei,  ainda não lhe seja possível  requerer o referendum, ela apresenta o caso como uma negativa do governo em aceitar essa suposta vontade popular que estaria pedindo a saída do presidente. Com esse argumento, tanto dentro da Venezuela como em todo o mundo, levantam o grito de ditadura, acusando o governo de não ser transparente democraticamente.   De toda a forma, a grande maioria do povo venezuelano observa e se dá conta dessa situação, reconhecendo o manejo sujo que a oposição está fazendo, tanto com a guerra econômica devida ao desabastecimento como em relação à maneira em que ela está lidando com o referendum revogatório.

Pergunta: Por que a direita atua assim, se em termo econômicos ela não se vê afetada?

Resposta: Podemos ver que há uma intenção da direita internacional  de deter qualquer processo de democratização popular e de avanços em direção a conquistas sociais que transfiram protagonismo aos trabalhadores, pelo que faz qualquer coisa para deter essas mudanças, como observamos  em relação ao que ela está fazendo na Venezuela, no Brasil, na Bolívia e na Argentina. A idéia é tirar de cenário qualquer processo que represente soberania nacional. Sabemos que nenhum desses governos é socialista no sentido estrito da palavra; não são marxistas no sentido clássico, mas incentivam melhorias para as grandes maiorias populares. Não são governos que chegaram através de uma revolução socialista, mas que estão contra as políticas imperiais. Isso dói para a direita, e aqui na Venezuela, embora as grandes empresas mantenham seus negócios, saíram da direção política do país. Isso é uma coisa que não perdoam, e por isso mesmo o Império também reage.  Definitivamente, isso permite perceber que a direita econômica também deseja manejar tudo também na esfera política. O que não perdoam é a intenção de soberania.       

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