quarta-feira, 8 de junho de 2016

O FANTASMA DA DITADURA

feicibuqui do André Anacoreta



No dia 13 de março de 1964, o presidente João Goulart realizava, no centro do Rio de Janeiro, o grande comício da Central do Brasil. Milhares de brasileiros acompanhavam o seu discurso inflamado pela defesa das reformas de base. Darcy Ribeiro e Leonel Brizola acompanhavam-no do palanque. Ele vociferava: "Não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação, pela justiça social e pelo progresso do Brasil". 

Mas como sabemos, o golpe sorrateiramente planejado impediu que Jango fizesse o que tinha prometido. 
O sonho havia acabado e o pesadelo apenas começava. 
Um pesadelo que duraria amargos longos vinte e um anos. 

Não vivenciei este episódio nefasto da história brasileira, nasci no mesmo ano da queda do muro de Berlin, porém como me entristece saber dos muitos espíritos livres que foram massacrados e perseguidos nesses anos de chumbo. A liberdade tornada sinônimo de imoralidade e desordem.

Me espanta às vezes deparar com pessoas que enchem o peito para falar da ditadura, alegando que com ela o Brasil tinha segurança, que não havia vagabundo na rua, que havia ordem. E que se não fossem os militares, o Brasil seria mais um país entregue ao demônio do comunismo. 

Me espanta a falta de sensibilidade quando dizem que a tortura foi necessária e que aqueles que morreram tiveram uma morte merecida, porque eram terroristas. 

Me espanta essa ignorância berrante. O que para mim é história muitos sentiram na pele e muitos outros estavam manipulados demais para se darem conta do que realmente se passava, como ainda acontece hoje. Sem saber, muitos defendem valores reacionários típicos de uma ditadura. Eles pedem polícia, pedem segurança, pedem ordem, mas o que desejam mesmo é a opressão. Discriminam aquele que não segue os trilhos da normalidade, porque odeiam a simples ideia de ter que conviver com a diferença; essas pessoas são assombradas pelo fantasma da ditadura. 

Não é exagero dizer que são simples marionetes, incapazes de pensar ou de sentir sem o aval de estúpidos como eles; como robôs, aguardam ansiosos as ordens que virão dos alto-falantes, as verdades dos especialistas de idiotices. 

Querem seguir suas vidas medíocres sem obstáculos, por isso desejam a ditadura. Odeiam quem pensa, por isso desejam a ditadura. 

Eles são os amantes da opressão que alimentam o fantasma da ditadura. 

Eles pedem mais Deus, porém são eles que compõem o cenário grotesco da humanidade e são da mesma linhagem dos que condenaram Cristo e livraram Barrabás; seus pés são os mesmos pés que pisotearam Hipátia de Alexandria e em seus risos estão os risos dos que viram centenas arderem nas chamas da inquisição e nas câmaras do holocausto e não fizeram nada. Suas almas estão embrenhadas de destruição e tristeza.


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