quinta-feira, 30 de junho de 2016

Estou com medo . No Caminho com Maiakóvski – Eduardo Alves da Costa(na íntegra)

 Gilson Sampaio

Esse poema já foi publicado trocentas vezes, muitas delas com atribuição erroneamente a outros autores, mas o que importa é a atemporalidade dele.

Parafraseando aquela atriz: estou com medo.

Estou com medo por causa da  inércia da sociedade de forma geral ante a negação da democracia, perpetrada por golpistas e entreguistas descompromissados com a população, as instituições e com o próprio país. 

Tenho a mais absoluta certeza de que muitos que não são de esquerda não aceitam a realidade de hoje, entretanto, se calam ou não têm espaço para se manifestarem. É preciso que essa gente se exponha, sob o risco de mergulharmos numa 'ditadura branda', extirpados dos direitos sociais e humanos, transformados novamente em colônia ou um republiqueta de bananas de fato.

Parece que caminhamos para um daqueles filmes de distopia, só que uma distopia de sinal trocado, uma volta ao passado edulcorado com tecnologia, mas, ainda assim, uma servidão moderna.

No Caminho com Maiakóvski – Eduardo Alves da Costa


No Caminho com Maiakóvski – Eduardo Alves da Costa(integral)

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita – MENTIRA!

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