quinta-feira, 19 de maio de 2016

O macartismo em sua versão brasileira

Sanguessugado do Ulysses Ferraz 


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Joseph McCarthy, 1954

Reinaldo Azevedo escreveu recentemente em seu blog: "assim que 'Aquarius' estrear no Brasil, o dever das pessoas de bem é boicotá-lo. Que os esquerdistas garantam a bilheteria".

Quando alguém formula uma frase com a expressão "pessoas de bem", supondo a si mesmo, e a algum suposto grupo de benfeitores, superioridade moral, trata-se de uma postura, no mínimo, duvidosa. Qual a legitimidade de alguém que atribui a si mesmo, e a seus similares, uma espécie de superioridade moral em relação às demais pessoas, que seriam supostamente as pessoas do mal? Além do maniqueísmo reducionista, Reinaldo Azevedo prega a intolerância cultural.

Num país em que o cinema nacional é historicamente tão desvalorizado, em detrimento de produções estrangeiras, uma afirmação desse teor é desoladora. Em qualquer país do mundo, o incitamento ao boicote de um filme que representa o país em um importante festival internacional de cinema teria causado reação vigorosa por parte da classe artística. Ligadas ou não ao setor audiovisual.

Mas a repercussão foi morna.

Quase nenhum artista se sentiu atingido. Interessante ver que poucos artistas de peso, com visibilidade e capital cultural relevante no país, têm tido a coragem de enfrentar, direta e duramente, essa gente que vive para destruir, odiar e sabotar todas as manifestações culturais que não se conformam à visão de mundo representada pela ortodoxia dos mercados. Há notáveis exceções. Mas as exceções confirmam a regra. Talvez o medo de arruinar suas carreiras e reputações perante o mercado já esteja calando a voz de muitos.

O silêncio nessas horas é um porto seguro.


Tudo indica que o macartismo, em sua versão brasileira, veio para ficar. Ao menos por algum tempo.

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