terça-feira, 17 de maio de 2016

Golpe no Brasil: a conexão internacional

Sanguessugado do Outras Palavras



Thomas Shannon, com quem o senador Aluísio Nunes encontrou-se em Washington logo após o impeachment passar na Câmara. Ex-embaixador no Brasil, entre 2013 e 16, é agora o "número 3" no Departamento de Estado

Thomas Shannon, com quem o senador Aluísio Nunes encontrou-se em Washington logo após o impeachment passar na Câmara. Ex-embaixador no Brasil, entre 2013 e 16, é agora o "número 3" no Departamento de Estado

Como fundações norte-americanas financiaram grupos como o MBL, que dizem agir “pelo bem do Brasil”. Os encontros de Aloysio Nunes em Washington, e a visita de Temer ao cônsul geral dos EUA

Pedro Marin

Auditórios cheios, carros de som, escritórios. Organizações como Instituto Millenium, Movimento Brasil Livre (MBL), Instituto Liberal, Instituto Ludwig Von Mises e Estudantes Pela Liberdade, como num passe de mágica, emergiram no cenário político brasileiro, publicando livros e realizando manifestações com enormes estruturas, treinamentos e palestras – um processo que encontrou terreno fértil no país, devido à crise mundial e à Operação Lava Jato.

Apesar das tentativas de seus fundadores e por parte da imprensa em pintar os projetos que defendem como algo “para o bem do Brasil”, oriundo “do povo brasileiro” e “espontâneo”, todas estas organizações contam com financiamento e articulação estrangeira, conforme detalhou a reportagem de Marina Amaral na Agência Pública, mostrando como uma rede de ONGs promove treinamento de lideranças, patrocina “intelectuais” para aglutinar consensos nas redes e movimentos para incendiar as ruas. Entre as organizações presentes na América Latina e leste europeu chama atenção, em especial, a Atlas Network.

Fundada em 1981 com objetivo de “promover políticas econômicas do livre mercado pelo mundo”, a Atlas é um think-tank que financia declaradamente as atividades da direita em mais de 90 países. Com um orçamento anual de US$ 11,5 milhões, ela atua patrocinando a formação de quadros neoliberais. Como a legislação dos EUA impede que essas entidades financiem agitações políticas mundo afora, cada movimento é amparado por “institutos de formação”, que estão liberados para receber os recursos. Esse é o caso da relação do centro de formação Estudantes pela Liberdade (EPL) com a militância profissional do MBL, por exemplo. O orçamento do EPL deste ano saltou para R$ 300 mil. “No primeiro ano, a gente teve mais ou menos R$ 8 mil, o segundo foi para R$ 20 e poucos mil, de 2014 para 2015 cresceu bastante. A gente recebe de outras organizações externas também, como a Atlas. A Atlas, junto com a Students for Liberty, são nossos principais doadores. No Brasil, as principais organizações doadoras são a Friederich Naumann, que é uma organização alemã, que não são autorizados a doar dinheiro, mas pagam despesas para a gente”, declarou Juliano Torres diretor executivo do EPL.

Na Ucrânia – onde em 2014 houve um golpe contra o Presidente eleito Viktor Yanukovich -, a Atlas financiou, por exemplo, o Centro de Liberdade Econômica Bendukidzke e o Centro Para Pesquisa Econômica e Social. O primeiro tem como membros o ex-Presidente da Georgia e atual governador de Odessa, Mikheil Saakashvili, além do vice-chefe da administração (pós-golpe) do Presidente Petro Poroshenko, Alexander Danyluk. O segundo é também financiado pela Open Society Foundation, do famoso especulador e homem das revoluções coloridas, George Soros, e tem como parceiros agências governamentais ucranianas, canadenses e inglesas, além da USAID (EUA) e o Banco Mundial.

Em 2014, a Atlas despejou US$ 4,5 milhões mundo afora em uma série de organizações mais ou menos similares, segundo o formulário 990, que as organizações filantrópicas têm de entregar a Receita Federal nos EUA. Somente na América Latina, foram alocados US$ 984 mil equivalente a R$ 3,9 milhões a organizações que seguem o pensamento de liberais como Milton Friedman, Hayek e Mises, e fazem oposição aos governos progressistas da região. É o caso de Cedice Libertad, da Venezuela, e de organizações como a norte-americana Human Rights Foundation, criada pelo venezuelano Thor Halvorssen, primo de Leopoldo López e filho de embaixador durante o governo de Andrés Pérez, que mira em especial os países com governos não-alinhados a Washington (Venezuela, Cuba, Rússia) e que se tornou conhecida em 2015 por criar uma campanha para lançar propaganda em território norte-coreano por meio de balões de gás.

A Atlas por sua vez também é financiada por uma série de grandes corporações e outras fundações. Empresas como Google, a gigante do petróleo Exxon Mobil e organizações como a DonorsTrust [1], State Policy Network, criada pelo empresário e conselheiro de Ronald Reagan Tom Roe, e a Charles G. Koch Foundation [3], ligada às famigeradas Indústrias Koch, são alguns dos nomes que colaboraram para que a Atlas, no ano de 2014, doasse mais de 10 milhões de dólares pelo mundo.

Uma revolução colorida para o Brasil?

É claro que é motivo para fazer soar os alarmes: a direita liberal cresce exponencialmente e combate num país com 31 anos de tradição democrática, de abismos sociais no campo e nas cidades, onde um partido governou nos últimos 12 anos com apoio maciço e manteve alianças com governos populares da região. Até a rua, historicamente monopolizada pela esquerda, foi tomada.

A isso se somam outras estranhíssimas casualidades: o juiz Sérgio Moro, há pouco responsável pelas fagulhas que incendiaram o país, fez em 2009 um “curso para potenciais líderes” nos EUA, patrocinado pelo Departamento de Estado. É também notável o fato de que no processo da Lava-Jato, somente empresas brasileiras tenham sido atingidas, ainda que diferentes denúncias contra companhias estrangeiras tenham sido feitas. Um dia após a aprovação do impeachment na Câmara dos Deputados o Senador Aloysio “quero ver ela sangrar” Nunes viajou para o quartel-general do poder global: Washington. Por lá, conforme revelou o colunista Mark Weisbrot, no Huffington Post, encontrou-se com o ex-embaixador dos EUA no Brasil e atual “número três” no escalão do Departamento de Estado, Thomas Shannon: “A disposição por parte de Shannon em encontrar-se com Nunes alguns dias depois da votação do impeachment envia um poderoso sinal de que Washington está com a oposição nesse empreendimento. Como sabemos disso? Muito simples, Shannon não precisava ter comparecido a esse encontro. Se ele quisesse mostrar que Washington estava neutro em relação a esse feroz e altamente polarizador conflito, ele não teria se encontrado com protagonistas notáveis de nenhum dos lados, especialmente nesse momento.”

Por fim, para o ansiedade dos desconfiados e o choque dos distraídos, é importante notar os laços que o Sr. Michel “quero jantar com Biden” Temer manteve com seus parceiros do norte. Em 19 de Junho de 2006, por exemplo, Temer – à época presidente do PMDB – encontrou-se com o cônsul-geral dos EUA no Brasil, em São Paulo, e respondeu a perguntas em relação às eleições, os candidatos, e seu partido. Diz o cônsul para Washington, em mensagem vazada pelo Wikileaks em 2011: “Tratando do destino de seu próprio partido, Temer confirmou que o PMDB não terá um candidato para a Presidência, e não entrará em nenhuma aliança formal com o PSDB ou o PT. […] O PMDB continua rachado quase ao meio entre grupos pró e contra Lula. O último busca alianças com o PT e busca diversos ministérios na segunda administração de Lula. Temer, que é anti-Lula, foi altamente crítico em relação à facção pró-Lula e falou com ironia em relação a algumas das divisões e contradições internas do partido.”

Para o cientista político e historiador Moniz Bandeira, os alarmes dispararam há muito tempo. “Essas manifestações que começaram no ano passado e antes da Copa não foram espontâneas. Foram preparadas antecipadamente, com elementos treinados, agitadores treinados”, diz ele, que em “A Segunda Guerra Fria” (Civilização Brasileira, 2013), descreve em detalhes o papel de certas ONGs e think-tanks nas chamadas revoluções coloridas pelo mundo. “O que é necessário no Brasil é que o governo faça como Putin: obrigue o registro de todas as ONGs, o registro do dinheiro que recebem, de onde recebem e como e onde aplicam.”

Moniz aponta como interesses norte-americanos a prevalência do dólar como moeda global – segundo ele, ameaçada pelo BRICS – e a inexistência de potências no continente. “É isto que os Estados Unidos não querem: que o Brasil tenha submarino nuclear, eles não querem uma potência na América do Sul – ainda mais ligada à China e à Rússia. E há um detalhe que o brasileiro não sabe: há uma luta pela moeda de reserva internacional. Porque o fato de que os EUA detém o direito de emitir o dólar o quanto queiram e ser o dólar a moeda internacional; é aí que repousa a hegemonia dos EUA. E o que a China e Putin querem acabar é com isso – daí a criação do modelo dos BRICS.”


[1] organização que possibilita doações anônimas para a “causa da liberdade”, criada pela Donors Capital Fund, considerada no relatório Fear, Inc uma das 10 maiores organizações contribuintes para o ódio contra islâmicos nos EUA)

[2] Em 2014 a fundação doou 25 mil dólares (cerca de 90,5 mil reais) à Atlas.


[3] A Koch Industries é uma empresa ligada ao setor do petróleo. Como Soros, os irmãos Koch são famosos por financiar instituições e revoluções coloridas pelo mundo.

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