quarta-feira, 18 de maio de 2016

Espinhosa é a traição a si mesmo, Serra.

Sanguessugado do Tijolaço


POR JARI DA ROCHA, COLABORAÇÃO PARA O TIJOLAÇO · 17/05/2016

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A notícia do cancelamento, feito por telefone, da exibição do filme Retratos de identificação, que tinha projeção-debate prevista para o dia 31 de maio, na embaixada brasileira de Paris, denuncia um viés curioso do próprio Serra.

O motivo alegado foi o de que o filme Retratos de identificação seria “assunto espinhoso”.

Mais uma covardia do  chanceler, valentão contra os países latino-americanos.

É difícil imaginá-lo peitando Obama ou Merkel. Serra virou o inverso do Capitão Rodrigo Cambará, de O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, que se espalhava dizendo: “nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho”. O facão de Serra é só para os pequenos.

Mas o que teria incomodando tanto Serra?

O filme, resultado de uma pesquisa universitária junto aos acervos das agências de repressão brasileiras, conta a história de dois combatentes da luta contra a ditadura que se deparam com fotografias de presos políticos na prisão.

Então, o passado retorna.

Serra deve ter lembrado os tempos de discursos estudantis acalorados contra as multinacionais.

Suas intervenções veementes nos diretórios, mas, principalmente, do discurso no comício na Central do Brasil, quando Jango ainda lutava, defendendo reformas de base, contra o golpe que viria em semanas.

Serra tinha 21 anos e foi o mais jovem a discursar.

Então veio o golpe, a fuga, o exílio e um retorno prematuro.

Em 1965, entrando clandestinamente no país, Serra se escondeu na casa da atriz Beatriz Segall, que vinte anos depois interpretaria a famosa vilã Odete Roitman, na novela Vale Tudo.

Foi, justamente, na casa de Beatriz, que Serra foi convencido de não ir a reunião secreta contra a ditadura.

Mesmo relutando, Serra não foi à reunião.

A polícia descobriu o local.

Todos os que estavam lá foram presos e levados ao departamento de ordem política e social – DOPS.
Restava a Serra,fugir novamente do país, mas os militares queriam a sua cabeça.

Costa e Silva, na época ministro da Guerra, disse, ao saber que ele estava escondido na embaixada boliviana: Este não deixaremos ir embora.

Mas Serra conseguiu fugir. Foi para o Chile e lá casou-se e teve filhos.

No entanto, outro golpe, em 1973, o faria fugir novamente.

Preso no aeroporto, depois ter ajudado vários companheiros a se refugiarem na embaixada do Panamá, foi levado ao Estádio Nacional, onde, como sabemos, muitos foram torturados e mortos.

Se Beatriz Segall não o tivesse convencido a não ir naquela reunião e se algo tivesse dado errado naquele estádio onde tantos morreram, Serra não estaria hoje aqui.

Não estaria aqui tentando apagar a própria história e a de tantos como ele, que um dia acreditaram que a vida, a liberdade e a democracia eram mais importantes que o Vale Tudo do poder.

Mais importantes que dinheiro, principalmente o de multinacionais, contra as quais ele iniciou sua nova história

Esta, que o faz ser algoz da sua própria juventude.

Não há nada de espinhoso num tema que é nossa história, mas não é mais a de José Serra.

Nas fotos onde ele próprio podia estar, ele não reconhece mais ninguém.


Muito menos a si próprio.

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