domingo, 3 de abril de 2016

São as nossas horas de trabalho que acendem a noite parisiense, meu caro.

feicibuqui da Jaqueline Quiroga


"Se me pedem dinheiro na rua, eu dou. Não quero saber para quê. 



Ninguém me informa como gastam as taxas que o banco me cobra, o que fazem com o lucro das mercadorias que adquiro.

Pago cem por produtos que valem dez, infestam meu extrato com siglas misteriosas, desviam as verbas dos impostos, fazem manobras incompreensíveis nas bolsas e não me dão qualquer satisfação.

Querem me convencer que o dinheiro que me dão é meu, porque, por analogia, o que eles gastam, seria deles. Mas não é.

El dinero es una trampa.

São as nossas horas de trabalho que acendem a noite parisiense, meu caro.

Não se iluda, é seu suor que abastece os jatos particulares.

Cifrões singrando os mares caribenhos, em cruzeiros esplêndidos; alíquotas cruzam as madrugadas frenéticas de Las Vegas; derretem mais-valia sob a língua, nas pistas de dança em Amsterdã, mas o vagabundo de olhos mareados que cambaleia na minha direção não merece um trocado.

A pinga esquenta o chão de quem não tem teto e, de brinde, faz esquecer que está no chão, sem teto.

Pouco importa.

Estamos todos na mesma máquina imbecil, vendendo força de trabalho pra comprar a ilusão da segurança. Pequenos confortos que nos entorpecem.

E me vêm os embusteiros dizer como e pra quem devo dar as migalhas que me sobram.

Que vão à merda."


(Leandro Silva de Oliveira, via Constantino Rodrigues de Freitas)

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