domingo, 24 de abril de 2016

Os portugueses chegam a Pindorama

Sanguessugado do Palavras Insurgentes

"Desembarque de Cabral" - Oscar Pereira da Silva Pintor brasileiro (1865-1959)


Elaine Tavares

"Desembarque de Cabral" - Oscar Pereira da Silva Pintor brasileiro (1865-1959)
"Desembarque de Cabral" - Oscar Pereira da Silva Pintor brasileiro (1865-1959)
A chegada dos portugueses à costa da Bahia foi num cálido abril de 1500, dia 22.  Os Pataxó descansavam à sombra quando as 13 caravelas comandadas por Pedro Álvares Cabral divisaram a terra. Diferentemente da região andina e do Pacífico, na costa Atlântica as comunidades não estavam em estágios avançados de organização, tampouco formavam estados. Eram grupos de coletores, caçadores e com alguma agricultura, mas bem diferenciados por múltiplas etnias.  

Na primeira visão que tiveram da costa, os 1.400 homens que formavam a esquadra de Cabral pensaram que a terra era apenas um monte, por isso, ainda à distância, deram o nome de Monte Pascoal, já que estavam próximos ao feriado cristão da Páscoa. Depois, acreditando que o monte era um ilha chamaram de Ilha de Vera Cruz. Quando foi confirmado que não era mesmo uma ilha e que fazia parte de um novo continente, o lugar foi chamado de “Terra de Santa Cruz”. Somente em 1511, com a descoberta do pau-brasil, que é uma árvore típica da Mata Atlântica, o "novo mundo" para os portugueses passou a se chamar Brasil.

Dois dias após lançarem âncora no sul do que hoje é a Bahia, os comandantes das caravelas receberam alguns representantes do grupo Pataxó - que ali habitavam - num dos barcos. Apresentados a alguns objetos de ouro, os indígenas reconheceram o metal, o que levou os portugueses a pensar que havia muito ouro por ali. Como ninguém se entendia, pois um não falava a língua do outro, é bem possível que isso fosse só um desejo dos portugueses, ansiosos por riquezas. O encontro entre portugueses e os Pataxó foi documentado pelo escrivão Pero Vaz de Caminha, que enviou o relato ao rei, e no qual ficava bastante visível o choque cultural.

" O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata"

Nesse trecho da narrativa de Caminha é possível perceber como tudo não passou de interpretação a partir dos desejos. E segue a carta:

"Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançaram fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes a água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora. Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do Capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera. Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir, sem buscarem maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. O Capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus coxins; e o da cabeleira esforçava-se por não a quebrar. E lançaram-lhes um manto por cima; e eles consentiram, quedaram-se e dormiram".

Quanta confiança e inocência dos Pataxó diante daqueles que seriam seus algozes.


Depois daí, tudo foi dor e destruição...

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