terça-feira, 19 de abril de 2016

O alcoolismo é o que mata: Você está entre os 5%?


Necessitamos saber diferenciar entre 'bebedores sociais' e seus pileques ocasionais e os doentes que sofrem do mal do alcoolismo.

Federico Edgardo Cavada Kuhlmann



Eu estava no Chile, de férias, quando me li uma notícia no jornal, que depois se repetiu na TV, e me estremeceu: o falecimento do jornalista Guillermo Espíndola Correa, que foi governador da província de Loa entre 2004 e 2006 – governo de Ricardo Lagos.

Foi encontrado morto em frente a uma loja de materiais de construção, na cidade de Arica. Segundo a matéria, ele viveu seus últimos dias “em situação de rua”, como a imprensa chilena chama os sem teto. Outras fontes diziam que sua tragédia pessoal e também a sua morte foram resultados da sua dependência às bebidas alcoólicas.

Certamente, a grande maioria dos que leram ou viram as matérias sobre o caso, na imprensa escrita e na televisão, disseram: “foi o vício que o matou”.

Sim, essa certeza nasce da visão que a maior parte da comunidade tem sobre o consumo “excessivo” de álcool.


Por isso, pensei em escrever este artigo. Queria contar a vocês que, se por um lado é verdade que em todos os lugares do planeta há muitas pessoas, homens, mulheres e até mesmo adolescentes e crianças que são consumidores “excessivos”, nem todos são o que podemos chamar “bebedores sociais”, esses que aproveitam uma festa de aniversário, ou um funeral, um encontro com amigos ou qualquer motivo especial para tomar além da conta. Há outra grande porcentagem de consumidores que são os alcoólicos doentes, e suponho que Guillermo Espíndola fazia parte desse grupo.

Alcoolismo, a doença

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que existem três enfermidades que são de origem desconhecida, são incuráveis e mortais. Esses três males que afetam a humanidade são o câncer, a diabetes e o alcoolismo.

Sim, o alcoolismo. Segundo os estudiosos, uma porcentagem importante da população mundial – cerca de 5%, estimas os cálculos – sofre com o problema. Essa estatística pode variar de um país para outro, mas é importante definir que essas pessoas não são o que chamamos “bebedores sociais”, e sim doentes, que nasceram com um fator que os torna dependentes do álcool e que esse fator nunca os abandonará. A única diferença entre essa doença e as outras duas citadas – câncer e diabetes – é que ela é recuperável.

Essa descoberta foi feita justamente por dois doentes alcoólicos, que antes provaram de tudo, sem sucesso, e se sentiam derrotados. Eles eram William Griffith Wilson e o doutor Bob Smith, dois alcoólatras que um dia se reuniram e descobriram que seu intercâmbio de dolorosas experiências alcoólicas lhes permitiu juntar forças para se afastar todos os dias da bebida. Descobriram que essa compreensão de sua debilidade diante do consumo, que entender como “perdiam o controle” ao beber, que seu apoio mútuo, eram os fatores com os quais estavam conseguindo o que não haviam encontrado nem na medicina, nem na religião e nem em suas próprias decisões. Descobriram que a “perda de controle” se produzia logo após o “primeiro copo”, ali nascia a ânsia por continuar bebendo, e o estágio seguinte já era algo que não podiam controlar voluntariamente. Muitos médicos e científicos acreditam hoje que isso tem uma raiz biológica. Haveria, segundo estudos, uma porcentagem da população mundial que nasce con um fator orgânico que torna as pessoas dependentes do álcool.

Nem Bill Wilson e tampouco Bob Smith sabiam disso, mas sim sabiam que a colaboração entre duas pessoas que sofrem desse mesmo mal permite uma melhor recuperação. Foi por isso que no ano de 1935, na cidade de Akron (estado de Ohio, nordeste dos Estados Unidos), junto com outros doentes, eles criaram um grupo que denominaram Alcoólicos Anônimos, ou somente AA, onde seus membros só se conhecem pelo nome: Bill, Bob, Miguel ou João. Como regra básica, propuseram dizer “não ao primeiro copo” todos os dias. A esposa de Bill, que também sofria do mesmo mal que o marido e seguiu atentamente o que Bill e Bob faziam, percebeu que a família dos doentes também necessitava apoio, para que cada um deles pudesse entender como ajudar o doente. Assim foi criado o Al-Anon, com esse objetivo. Dessa forma, surgiram os dois caminhos que permitem a recuperação dos doentes.

Por isso, a revista Time, anos depois, incluiu Bill entre os 20 primeiros heróis e ícones do Século XX, que dão exemplo de “coragem, autodomínio, exuberância, habilidade sobre humana e graça maravilhosa”, por esses doze passos criados pelo AA, que se iniciam com um: “admito que sou impotente diante do álcool, que minha vida se tornou ingovernável” que empurram no caminho da salvação.

Uma verdade dramática

Durante alguns anos, trabalhei para uma associação média que se dedicava a trabalhar com pessoas alcoólicas. Eu era o assessor de imprensa da entidade, encabeçada por dois eminentes psiquiatras biólogos argentinos: os doutores Rozados e Rodríguez Casanova – ambos já falecidos –, que trabalhavam, assim como os demais colegas, derivando os pacientes aos grupos de AA.

Essa doença é uma verdade dramática que a sociedade ignora, e também a maioria dos médicos, por isso a triste morte de Guillermo, em Arica, me pareceu um tema importante, que merecia destaque, para que muitos saibam que ele provavelmente era um doente que não recebeu o tratamento adequado para seguir o caminho correto. Nem ele, nem sua família. Carolina, sua esposa, declarou à imprensa que Espíndola “era um homem brilhante, e que foi o álcool que o levou a se perder”. Talvez, se ela tivesse chegado a tempo ao Al-Anon, saberia que foi a sua doença, e não o álcool, que o matou.

Eu poderia contar aqui mil casos pude conhecer, durante os quarenta anos em que me relaciono com o tema. Por exemplo, o de uma mulher – fotógrafa de profissão – que iniciou sua carreira alcoólica quando era apenas uma menina, tinha 7 ou 8 anos, e roubava garrafas de vinho do avô. Não podia parar, até que chegou ao AA.

Me lembro de outro doente que era condutor de trens em Mendoza, província no centro-oeste da Argentina. Além de passageiros, ele transportava vagões com grandes quantidades de vinho. Num dia em que o trem teve descarrilhou, e ele não resistiu à tentação de aproveitar para tomar o vinho. Passou uma semana nas proximidades do local do acidente.

Outro caso foi o de uma mulher, arquiteta, que estava em transe alcoólico desatado. Pelas noites, em sua casa, quando não havia bebida, ela tomava perfumes. Tiveram que interná-la no hospital em uma oportunidade, para um tratamento de desintoxicação. Depois disso, a puseram em terapia intensiva no AA. Ela ia aos grupos ao meio-dia, de tarde e de noite. Conseguiu se recuperar, e chegou a ser a primeira mulher decana de arquitetura na mais importante universidade da América do Sul.

No Hospital Borda, o centro psiquiátrico de Buenos Aires, havia um grupo de AA onde acudiam muitos internados que sofriam de males mentais. Lá, o problema era o pessoal auxiliar, que entrava com licores e outras bebidas e vendia aos pacientes. Lembro que o doutor Rozados, então chefe do setor de psiconeuroendocrinologia, lutava contra esse comércio ilegal, e que muitos dos homens do grupo iniciaram sua recuperação do alcoolismo a partir de então.

Sobre o tema médico, eu recordo que há muitos anos atrás, na véspera de um natal, em Mendoza, quando eu visitei um grupo de Alcoólicos Anônimos, durante uma reunião, percebi que um jovem contava como o seu médico havia recomendado o uso de barbitúricos como elemento útil para sua tranquilidade e distanciamento da bebida. Quando eu disse que poucos médicos sabiam sobre o alcoolismo, que o que receitavam era prejudicial para ele, agregando que podia dar o nome de algum médico da cidade que fizesse outro tipo de tratamento, vi que a coordenadora do grupo, uma senhora de uns cinquenta anos, pediu a palavra. Imaginei que perguntaria quem era eu para falar assim dos médicos, mas ela voltou seus olhos à minha direção e disse algo assim: “vocês me conhecem – dizia a todos os participantes da reunião –, por isso quero falar sobre o que o Federico falou. Vocês sabem que sou médica e asseguro que se não houvesse encontrado o AA ainda estaria presa ao vício, e ele tem razão quando diz que nossa classe pouco sabe sobre o alcoolismo”.

O caminho a percorrer

Sem dúvidas, o caminho é esse, o que foi pavimentado em 1935 por Bill Wilson e Bob Smith, os Alcoólicos Anônimos, e tudo o que os grupos entregam a cada pessoa que sofre desse mal, que permite que elas vençam sua dependência e possam dizer às outras que se somam ao grupo: “não ao primeiro copo”, mantendo diariamente esse compromisso consigo mesmo. É verdade que isso não elimina a doença da vida dessas pessoas, mas pode deixá-la guardada numa caixinha de lembranças ruins, sem nunca esquecer que é um mal que pode reaparecer, e por isso todo cuidado deve ser permanente.

Também devemos aprender a não nos deixarmos enganar pelos tratamentos que prometem curas milagrosas, quase mágicas. Houve um caso de um futebolista, um famoso ex-jogador do River Plate, que fez um desses tratamentos, no Chile, mas nunca conseguiu sua recuperação.

Certa vez, quando fazia uma palestra sobre alcoolismo, nós dissemos: “uma pessoa muito pobre, que caminha pela rua há vários dias, que não come e se desmaia de fome. A polícia chama uma ambulância e o leva a um hospital. Aparece outro, em estado ébrio, anda aos tropeções, a polícia chama um furgão e o leva à cadeia”. Enquanto o que sofre de fome recebe um tratamento adequado ao seu estado, e está bem que assim seja, aquele que padece de uma doença mortal, como é o alcoolismo, vai parar numa cela.

Todos, absolutamente todos – sobretudo nesta região – necessitamos saber diferenciar entre “bebedores sociais” e seus pileques ocasionais e os doentes que sofrem do mal do alcoolismo, e que morrem por ele, como morreu Guillermo Espíndola, em Arica. Esses doentes abundam em todo o mundo, e nós ainda não os descobrimos. Devemos saber que há diferenças entre uns e outros.


Tradução: Victor Farinelli

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