quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Por quê não cai nenhum “capo” ianque do narcotráfico?



Antonio Albiñana

Público

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti



Chamaram-no de “Plano Colômbia”, e estava inscrito no quadro da “guerra contra as drogas”, declarada pelo mentiroso presidente Nixon há 40 anos. Assinaram-no  seu sucessor Bill Clinton e um dos piores presidentes que a Colômbia já tinha sofrido, Andrés Pastrana. 



Na semana passada, foi celebrado em Washington o 15º aniversário do “Plano”, com uma concorrida reunião na Ala Leste da Casa Branca e uma superfesta na embaixada colombiana, que inaugurava suas novas instalações. Ali, anunciou-se uma continuação que será chamada de “Paz Colômbia”, se o Senado aprovar para Obama algumas centenas de milhões de dólares para acrescentar  aos teóricos 10 bilhões já gastos.



A princípio, o objetivo central do Plano era combater o narcotráfico e acabar com a produção e consumo de drogas, especialmente da cocaína. Mas logo, no esteio de uma guerra fria que continuava vigente na América Latina, ele passou a orientar-se fundamentalmente para a luta contra a subversão, representada especialmente pelas FARC, que então contavam com 25 mil membros e podiam colocar o Estado em xeque em numerosas regiões do território colombiano.



Helicópteros, equipamentos e assessores para acabar com a “guerrilha comunista” foram o ponto central do convênio. Mais adiante, através de operações encobertas com a CIA e a NSA (Agência Nacional de Segurança), tristemente célebre depois das revelações do perseguido Edward Snowden sobre suas atividades de interceptação e espionagem ilegais em todo o planeta, vendeu-se ao governo Uribe tecnologia sofisticada, especialmente as denominadas “bombas inteligentes”, que contribuíram para abater chefes guerrilheiros, como os comandantes Jojoy, Alfonso Cano ou Raul Reyes, este último em território equatoriano da base miltar norte-americana em Manta, hoje fechada pelo presidente Correa.

Apesar dos duros golpes infringidos à guerrilha, “danos colaterais” aí incluídos, o Plano Colômbia não conseguiu terminar com as FARC, que continuam ocupando território com mais de 10 mil efetivos e mantendo em xeque as forças militares. Por isso, o atual presidente, Juan Manuel Santos, embora ministro da defesa durante o mandato do guerreador Uribe, decidiu, logo após o início do seu mandato, entabular conversações de paz, que tem sido mantidas durante os últimos anos em Havana, e que já conseguiram a trégua nas ações da guerrilha e permitirão alcançar a paz negociada nos próximos meses. O que não conseguiram nem o Plano Colômbia nem o  Exército em meio século, foi conquistado por civis e lídres guerrilheiros sentados em uma mesa desarmada na capital cubana.



Juntamente à ênfase guerreira, a vertente “antidrogas” do Plano Colômbia tem ampliado sua ação nos últimos 15 anos, principalmente centrada na fumigação aérea dos cultivos. Assim como na parte militar do acordo, o dinheiro “doado” deveria ser comprado na compra de todos os insumos utilizados – “incluídas as botinas dos soldados, segundo me informou um membro do alto escalão do governo Urib e – neste caso as beneficiárias da fumigação eram, além dos aviões alugados, as multinacionais químicas Monsanto e Dow Chemical, que na Colômbia se desfaziam, a preço de ouro, de venenos cujas aspersão já está proibida no mundo civilizado pela pressão ecologista e inclusive por organismos da ONU. 

Quatro milhões de hectares já foram fumigados no território colombiano durante o Plano Colômbia, obrigando à transferência de cultivos, mas sem eliminá-los, mas conseguindo fazer aumentar a área semeada de coca e, segundo o grande jornalista Antonio Caballero (antigo colunista de Público), jogando os camponeses plantadores de coca nos braços das guerrilhas, que os defendem, e às quais pagam proteção”.  

Junto ao Plano, os agentes da poderosa agência norte-americana anti-narcóticos, a DEA, tem atuado à vontade  como uma dependência-chave da Embaixada dos EUA em Bogotá. Com seus investigadores, conseguiram a efetuar centenas de detenções seguidas de extradição, para que contem o que sabem e enriqueçam o patrimônio informativo e a capacidade de pressão da Agência em todos os níveis, incluindo sobre os centros de poder econômico e político.  

Há mais de mil extraditados da Colômbia. Célebres narcos como Pablo Escobar, abatidos, ou grandes narcos, como os chefes do Cartel de Cali, conduzidos para as prisões norte-americanas. Por estes dias, temos o caso do Chapo Guzmán, depois de sua enésima fuga, enredado entre a vulgaridade que persegue esse tipo de personagens e imediatamente reclamado pela potência do Norte.



Contudo, a pergunta que serve de título para este texto continua no ar. 

As toneladas de cocaína que pontualmente chegam aos Estados Unidos a partir da Colômbia, México, Panamá ou Peru para distribuição no seu imenso território através de redes bem organizadas, até chegar, com pureza variável, ao executivo de Wall Street ou ao negro lúmpen do Bronx...Quem as recebe? Que fantasmas invisíveis são responsáveis pelos pequenos aviões, os submarinos ou as “mulas” transportadoras, que chegam aos aeroportos com seu carregamento de cocaína?



Por que se fala de “Chapos”, “Escobares” e “Orejuelas”, mas jamais de um “capo” norte-americano? Por que ninguém investiga como são manejadas as imensas quantidades de dólares que, sem dúvida, administram os bancos lavadores dos destinos final da droga, infinitamente superiores ao valor da compra da folha de coca ao perseguido camponês cocaleiro?

  

Há muito tempo, Garcia Márquez perguntou reservadamente a Clinton sobre tudo isso. Mais ou menos, este lhe respondeu que a resposta era um grave problema de Estado, que se saberia mais sobre ele, da mesma forma que os mistérios de Fátima, dentro de algumas décadas.  

Enquanto isso, os maiores consumidores e agentes de negócio das drogas são da mesma potência que aparece como perseguidora implacável do narcotráfico.



Como dizia o cidadão citado por Carlos Fuentes, referindo-se aos gringos: “Eles põem seus narizes, nós os mortos”. 




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