sábado, 27 de fevereiro de 2016

EM BUSCA DO PERDÃO*

Sanguessugado do Bourdoukan


Georges Bourdoukan 


Conta-se, mas Allah sabe mais, que um príncipe governante de uma grande nação do Kafiristan, desejando purgar suas maldades contra seu pacato povo, procurou o sábio da corte.
Este lhe disse para peregrinar durante sete dias pelo país em busca dos sete perdões.
Partiu o príncipe em busca da redenção.
No primeiro dia, avistou um índio que o perdoou pelos massacres dos últimos séculos e pelas agressões mais recentes.
Agradeceu e continuou em sua jornada.
No segundo dia, encontrou um aposentado e uma viúva de aposentado, que o perdoaram pelas ofensas. Agradeceu e continuou em sua jornada.
No terceiro dia, encontrou um garoto órfão de pai vivo e um menino de rua que perdoaram sua omissão e falta de solidariedade.
Agradeceu e continuou em sua jornada.
No quarto dia, encontrou um sem-terra com as mãos feridas pelo arame farpado. Dele recebeu o perdão. Agradeceu e
continuou em sua jornada.
No quinto dia, encontrou um sem-teto que se abrigava sob as estrelas. Deste, também, conseguiu o perdão. Agradeceu e continuou em sua jornada.
No sexto dia, encontrou uma vítima do desemprego. Foiperdoado. Agradeceu e continuou em sua jornada.
No sétimo dia, não avistou ninguém pela manhã. Nem quando o sol se encontrava no meridiano. Cansado, sedento e esperançoso, pois faltava apenas mais um perdão, acelerou o passo em direção a uma fonte de águas cristalinas. Ali, com certeza, encontraria a redenção. Mas não havia ninguém.
Procurou em todos os cantos. Aflito, tornou a olhar em volta, e nada. Extenuado, resolveu saciar a sede. Ao agachar-se para beber, notou sua imagem refletida na água. O sétimo perdão estava ali. Sorriu feliz. Mas sua imagem não sorria.
Ela não o perdoou.


*Este texto encontra-se em meu livro Vozes do Deserto AQUI

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