segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Dona Maria Louca e o juiz Moro, por Armando Rodrigues Coelho Neto

Sanguessugado do GGN



Armando Rodrigues Coelho Neto

Perdão, leitores! Mas não quero falar de Maria Francisca de Bragança, rainha de extrema devoção religiosa, conhecida por A Piedosa, mas que no final da vida se popularizou como Rainha Louca, quando acometida de grave doença mental.

Quero falar de outra Maria Louca, conhecida personagem policial da cidade de Santo André/SP. Essa tal Maria seria ou é mitômana, tinha ou tem talvez o mesmo problema da testemunha que enganou a TV Globo, ao descrever ao vivo cenas incríveis sobre seu contato com então candidato Eduardo Campos, logo após o trágico acidente aéreo que matou o político. “Eu o reconheci pelos olhinhos azuis”, disse o mitômano-testemunha. Só mesmo ele para ver a cor dos olhos de um corpo carbonizado, que precisou de exame de DNA pra ser identificado.

Pois bem. Maria Louca, conhecida de muitos policiais civis de Santo André, costuma ler jornais, tem preferência por notícias trágicas, crimes. De tanto ler, acaba entrando no cenário do crime e apresenta-se como testemunha. Faz tantos relatos convincentes e, por saber tantos detalhes, acaba sensibilizando investigadores menos prudentes. Foi assim que, durante muito tempo, a “Maria Louca de Santo André” passou a dar detalhes sobre a morte de Celso Daniel, ainda que nenhuma referência tenha feito à cor dos olhos do ex-prefeito. Mas, suas informações foram muito utilizadas para alimentar a imprensa, sobretudo para dar suporte à tese da “queima de arquivo”.

Com conhecimento zero da profundidade da Operação Lava Jato, vejo com preocupação a síndrome da Maria Louca que vem acometendo parte da sociedade. Os detalhes apresentados pela dita “grande mídia Maria Louca” são tantos, que a tal Maria anda dando filhotes. Com propriedade, já se observa nas ruas, nos bares, os filhos e netos de Maria Louca dando detalhes sobre os cogitados crimes do ex-presidente Lula. Somos todos testemunhas!!

Recentemente, visitando um site jurídico, estava visível a ira até de advogados, empresários, estudantes de Direito, todos inconformados com o fato dos defensores do ex-presidente haver entrado com um processo contra o jornal O Globo. A fúria insana dos comentários causava perplexidade, e num deles um suposto advogado chegou a escrever: “e o cara de pau ainda tem a coragem de querer se defender!”. Pasmem! Em plena vigência da síndrome da Maria Louca, acusado não pode se defender. O juiz que recebeu a ação do ex-presidente negou o pleito e foi preciso recorrer.

Parte-se do princípio da “verdade sabida”, detalhe que durante a ditadura fazia parte das normas internas da Polícia Federal. Não era preciso provar: é sabido, foi divulgado, é presumível, pode ser verdade, virou fato. Foi assim na base do, só pode ser, que surgiu a primeira condenação de José Dirceu. Por falta absoluta de nexo material entre sua conduta e os supostos crimes apurados, não recorreram sequer à indícios. Condenaram por presunção, um suposto domínio do fato, sem que se sequer o fato tenha ficado claro.

A síndrome da Maria Louca parece rondar a sociedade num ciclo de retroalimentação. A grande mídia aproveita-se de vazamentos da Operação Lava Jato e insufla o ódio coletivo, divulgando fatos que podem ser ou não ser. E, reafirme-se que os suspeitos reais, imaginários, artificiais – pouco importa(!), não podem sequer tentar se defender. “Olha só! Ainda tem coragem de questionar na Justiça”.

Sim. Para Dona Maria Louca, pouco importa que um tríplex no Guarujá/SP não seja essa fábula toda e que o barquinho de lata da Dona Marisa não seja um iate. Do mesmo modo, não importa que a própria Maria Louca apareça para dizer que viu Lula e ou Marisa entrando ou saindo do imóvel ou pescando piabas num barquinho. Pouco importa que qualquer grande personalidade pública possa ser assediada por puxa-sacos, sempre prontos a fazer “agrados”, que de longe configurariam crime. Mas, Roma quer ver sangue. É preciso vasculhar o lixo da casa ex-presidente Lula. Quem sabe possam encontrar vestígios de que tenha comido carne da Friboi e que isso, diante da visão catatímica já imposta em parte da sociedade, seja transformado em prova inconteste de que Lulinha, seu filho é, realmente o dono daquela “carniceira”.

Posso imaginar, a essa altura dos fatos, que a grande inquietação do mundo jurídico e, mais particularmente dos advogados do ex-presidente Lula, é que Dona Maria Louca já tenha batido à porta do juiz Sérgio Moro e que isso possa firmar jurisprudência.


Armando Rodrigues Coelho Neto é advogado, jornalista e delegado aposentado da Polícia Federal.

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