quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Casa Branca socialista?






Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti






Em Wall  Street, nos  grandes meios e com certeza na cúpula política dos Estados Unidos, soaram os alarmes devido ao crescente apoio à campanha do senador Bernie Sanders, o socialista democrático que inesperadamente empatou com Hillary Clinton nas primárias de Iowa e é claro favorito para ganhar em New Hampshire.

Em um fato inusitado na história deste país e que está alarmando Wall Street, os grandes meios e,  com certeza, a cúpula política, um proclamado socialista goza do apoio crescente de milhões de pessoas por todos os Estados Unidos.

“Os Estados Unidos estarão prontos para um presidente socialista?” foi a abertura da notícia principal da edição estadunidense do The Guardian neste final de semana. Ataques e gritos de representantes e operadores da ordem estabelecida – políticos  nacionais de ambos os partidos, comentaristas de destaque e das páginas editoriais do Washington Post e de outros meios – tem servido para comprovar que o socialista está se tornando uma ameaça real para eles. Talvez algo mais revelador nesse  sentido foi que um dos generais mais poderosos de Wall Street considera o surgimento desse socialista um momento perigoso na história do país.  

Embora La Jornada tenha reportado desde o início sobre o pré-candidato presidencial democrata Bernie Sanders, que se identifica como socialista democrático, e seu crescente impacto no processo eleitoral estadunidense, e tenhamos lembrado que o socialismo não é um bicho estranho nem externo na história desse país (http://www.jornada.unam.mx/2016/01/25/opinion/023o1mun),  ainda é difícil digerir que algo assim está ocorrendo  no país mais poderoso e campeão histórico, e até de forma histérica, na luta contra o socialismo no planeta.  

Não é menos difícil para os proclamados experts institucionais na realidade norte-americana. Há meses eles vêm insistindo que um aspirante presidencial socialista nos  Estados Unidos não tem chances de chegar nem perto da Casa Branca. Contudo, a cada dia continuam se surpreendendo, sobretudo a rainha do Partido Democrata, Hillary Clinton, sua equipe de profissionais e seus tão amplos circuitos dentro do poder. Ninguém entre eles prognosticou e muito menos se preparou para essa conjuntura, que simplesmente não se encaixava em suas previsões.

A cada dia eles se assustam mais. Operadores da campanha de Clinton estão intensificando seus esforços para etiquetar de “radical”, e portanto “inelegível”, a Sanders, e aliados já começam a ter tons macartistas, alimentando o debate afirmando que o senador é algo mais parecido a um comunista e que suas ideias estão fora do que é aceitável para esse país.   

Sanders é o que em qualquer outro país se consideraria como um social democrata, e não um socialista marxista, embora anuncie convocar uma “revolução política” para  que o povo recupere a democracia, que agora está nas mãos da “classe milionária e multimilionária” e de Wall Street, que “controla a vida econômica e política deste país”. Assinala que compartilha uma ideologia do tipo da de Franklin D. Roosevelt, e seu modelo são os estados escandinavos e o Canadá.  

Contudo, os cada vez mais assustados procuram atacá-lo à antiga, como nos tempos da guerra fria, ao vinculá-lo, no imaginário popular, com o antigo bloco socialista. E, cada vez que fazem isso, seus simpatizantes se multiplicam, sobretudo entre os jovens, que como parcela eleitoral estão esmagadoramente a seu favor (ganhou 84% do voto jovem em Iowa; nas enquetes antes das primárias de New Hampshire, nesta terça, 87% dos jovens dizem que votarão nele contra apenas 13% para Clinton).  

Vale sublinhar que esse fenômeno não pode ser reduzido a um indivíduo como Sanders, mas sim é a manifestação de uma corrente política potencialmente poderosa dentro desse país, que primeiro se expressou nas lutas recentes, desde o Occupy Wall Street até Black Lives Matter aos Dreamers, e antes nos movimentos terceiro-mundistas.  


Lloyd Blankfein, o executivo-chefe de Goldman Sachs, em comentários em um programa de televisão da CNBC, na semana passada, comentou, acerca do fenômeno Sanders, que ele  tem o “potencial de ser um momento perigoso”. Deplorou que aparentemente o pré-candidato não deseja  fazer “concessões” a Wall Street, e ele e seus entrevistadores da CNBC debocharam dele, afirmando  que seus simpatizantes deveriam ir para Cuba se gostavam tanto do socialismo. Jamais reconheceu que a ira dos simpatizantes de Sanders provém do que ele e seus comparsas fizeram na maior fraude financeira da história, que destruiu milhões de empregos, levou à perda de 4 milhões de lares e à intensificação da concentração da riqueza e do poder nesse país.
      
“Já basta!” (Enough is enough) são as palavras  de ordem de Sanders ao falar sobre a extrema desigualdade de renda e riqueza no país, e de como o 1% se apoderou de tudo, inclusive do processo político estadunidense.

Essa é a mensagem que gera um apoio cada vez mais amplo, e pelo menos uma nova enquete nacional registra que a brecha entre ele e Clinton a nível nacional se reduziu em mais de 30 pontos, há somente alguns meses, para somente 2 hoje (embora seja somente uma das pesquisas, e na média, as outras pesquisas continuam mostrando Clinton com uma vantagem de 14 pontos, embora muito mais reduzida que no princípio, quando a diferença chegou a quase 40 pontos).

Segundo as enquetes, Sanders ganhará de Clinton por uma ampla margem a eleição de New Hampshire nesta terça, depois de surpreendê-la com um empate técnico em Iowa na semana passada.  

E Sanders fez tudo isso vindo de baixo, com a máquina do partido e a cúpula política contra ele, e com o apoio de um milhão de doadores individuais e mais um crescente exército de jovens que apoiam o pré-candidato mais velho (74 anos).

Diante da grande surpresa dos guardiães da velha ordem, furiosos diante desse desafio, fica claro que, ganhe ou não o socialista, alguma coisa está mudando na política norte-americana.  

Não se sabe se isso conseguirá instalar uma presidência socialista na Casa Branca, ou se talvez seja algo ainda mais amplo: o início de uma rebelião popular diante do modelo neoliberal imposto nos Estados Unidos durante os últimos 30 anos.  

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