sábado, 6 de fevereiro de 2016

À sombra de um depoimento


Maria Fernanda Arruda

Hoje, o Brasil está economicamente integrado, enquanto membro da “modernidade periférica”, nos mecanismos de um sistema financeiro internacional. É evidente que não cabe qualquer tipo de ética, nesse mundo muito mais submisso às regras da Máfia do que a quaisquer outras
Maria Fernanda Arruda
Foi necessário tempo para que se descobrisse que o macaco tem rabo: por que investigar só os governos do PT, como se antes tivéssemos vivido em céu de pureza e povoado por anjos? Olhos atentos e sedentos passaram a examinar os mandos e desmandos de FHC, o que, tão evidente e tão recente, não está acrescentando fatos novos ao cenário tão anti-higiênico onde se instalou a política nacional. Mas é muito evidente: precisamos voltar páginas e páginas da nossa História, para localizar o momento exato em que se praticou o “pecado original”.

Vargas imaginou que o Estado Moderno carecia de burocracia moderna: criou o DASP, para montar uma administração eficiente, e estimulou o ensino da “administração pública”, quando foi criada a Escola de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas. Abandonando esse caminho, Juscelino Kubitschek optou por formar uma administração paralela, criando Grupos Executivos de Trabalho, como o famoso Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA), integrados por vários órgãos do Estado e representantes da indústria privada. Foi a solução que veio a permitir o exercício do Poder Público pelo Poder Privado, através de técnicos desvinculados da burocracia do Estado, e que poderiam ao mesmo tempo fazer lobby em benefício de grupos econômicos privilegiados.


A partir desse momento a res publica começou a se confundir com a cosa nostra. Estamos nos referindo a eventos do século XX (meados de), não, tempos pós-ditadura. Roberto de Oliveira Campos, depois de ter presidido o BNDES e imaginado o Plano de Metas JK, inaugurou a prática da “advocacia administrativa” (o lobby), usando a sua empresa, a Consultec, para defesa dos interesses de empresas multinacionais, que estavam chegando ao Brasil, formando uma quadrilha de burocratas, uma primeira geração, antecessora da que se formou sob o governo FHC.

Ainda sob a égide do governo JK assistiu-se ao início da Era das Empreiteiras. O Presidente da República fazia pública sua amizade com o China, o Tião Medonho, criador da Camargo Correa, que existia modestamente em São Paulo desde 1939. Sob a Ditadura, ela era representada por Delfim Neto. E somaram-se muitas outras, que sugaram o Estado, atuando no plano das “obras faraônicas”, diversificando suas áreas de atuação, fazendo-se potências tão expressivas quanto os bancos. A Camargo Correa, construiu o edifício-sede da Petrobrás, o campus da UFRJ, o aeroporto do Galeão e a Angra I. Hoje, o Grupo atua nos setores de cimento, concessões de energia, concessões de transporte, engenharia e construção, incorporação e naval. Outra empresa-monstro, a Odebrecht, começou sua biografia na Bahia para ser hoje uma multinacional diversificada, tanto quanto a OS, também baiana, que reúne empresas presentes em território nacional e em mais de 20 países, com mais de 100 mil colaboradores.

Essas empreiteiras são exemplo do gigantismo e da diversificação. E hoje será preciso perguntar: as “empreiteiras” ainda tem por principal objetivo superfaturar em obras de construção civil, ou estão muito mais interessadas no petróleo e na petroquímica? A sua diversificação não as aproxima e associa a muitos e muitos segmentos da Economia? Só elas cometem crimes?

Sem farisaísmos, será evidente um pacto celebrado no grande mundo dos negócios, onde de fato estão governantes, políticos, partidos políticos, instituições do Estado, empresários e executivos de alto calado, celebrando-se como objetivo comum a redução da res publica a cosa mostra. Durante os oito anos de neoliberalismo capitaneado por FHC isso ficou evidente. Sua equipe de economistas, ocupando presidências do BNDES, do Banco Central, e ministérios, ao mesmo tempo eram donos e diretores de bancos de negócios, que fizeram grandes negócios com o Estado: André Lara Resende, Edmar Bacha, Francisco Lopes, Gustavo Franco, Pérsio Arida, Andréa Calabi, Luis Carlos Mendonça de Barros e alguns outros.

Há uma continuidade histórica: Roberto Campos e sua equipe, Delfim Neto e a sua equipe, FHC e a sua equipe. Hoje, o Brasil está economicamente integrado, enquanto membro da “modernidade periférica”, nos mecanismos de um sistema financeiro internacional. É evidente que não cabe qualquer tipo de ética, nesse mundo muito mais submisso às regras da Máfia do que a quaisquer outras.

depoimentos
Os “homens de FHC” enriqueceram na mesma proporção em que empobreceram o Brasil
Todos cidadãos acima de qualquer suspeita, nunca foram investigados: nem Roberto Campos, nem Delfim Neto, nem Andreazza, nem Shigeaki Ueki. O chamado “o japonesinho de Geisel” foi seu Ministro de Minas e Energia e depois Presidente da Petrobrás, onde atingiu o máximo de sua carreira de ladrão; hoje, senhor de fortuna incontável, mora impune nos Estados Unidos. Os “homens de FHC” enriqueceram na mesma proporção em que empobreceram o Brasil: a maioria deles ainda faz vida pública, junto ao PSDB. Sérgio Motta, a eminência parda do governo FHC jamais foi acusado de nada de coisa nenhuma.

Um resumo que pode ser feito facilmente: a partir da segunda metade da década de 1950, o Estado brasileiro, sem receber nada, passou a dar muito, fazendo riquezas memoráveis. E assim o País chegou, depois de meio século, a um governo não controlado pelas elites. Por certo, para chegar até aí, o PT teve que negociar, conviver, adotar procedimentos de compra e venda, tudo isso lastimável, mas feito em proporções pequenas, quando seus desvios forem comparados aos crimes cometidos desde Brasília.

Não se trata de justificar erros menores, lembrando-se os que foram muito maiores. Mas como o furor punitivo atinge agora os autores dos menores, que se exija decência da Justiça e a punição dos grandes criminosos. O PT, e mais especificamente Jose Dirceu, são propostos como as figuras execráveis de uma história sórdida, empreendimento procedido por Joaquim Benedito Barbosa, um desequilibrado que se pôs a presidir o STF, com o endosso de figuras de depravação pública, como Gilmar Mendes. Homens e mulheres togados e togadas impuseram ao Brasil o despudor da condenação de um réu, dispensadas as provas. As miragens do STF foram contestadas pelos juristas competentes, mas foram estimuladas e afinal aplaudidas por uma imprensa sórdida.

E agora, como último ato de uma “ópera dos tresloucados”, usa-se uma figura patológica, um juiz Moro, para transformar falas de delatores em provas de valor jurídico. O depoimento mais recente de Jose Dirceu, mais do que tudo, trouxe a prova provada da pequenez do que está sendo feito: exige-se que ele justifique a formação de um patrimônio imobiliário típico de um cidadão de classe média, o que deve merecer o riso debochado de grandes fortunas, como aquela que o “japonês do Geisel” construiu no passado, ou a riqueza monumental de Jose Serra.

No mesmo sentido vai a ação policialesca, que um Ministro da Justiça incompetente ou comprometido permite, pretendendo incriminar o presidente Lula, por um apartamento que ele não possui, por um barco de lata, ou por visitar o sítio de um amigo.

E é assim que, nos últimos dias, as elites nacionais, apresentando por vontade própria o retrato que mostra a sua mini estatura, solicitam a sua auto-falência, ainda tentando evita-la como o que é de fato: uma falência criminosa.


Maria Fernanda Arruda é escritora, midiativista e colunista do Correio do Brasil, sempre às sextas-feiras.

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