quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

“O Chile é um país brutalmente enfermo”


 Via Rebelión

Ana Muga

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Diario Universidad de Chile


Psiquiatra Rodrigo Paz diagnostica o país  40 anos depois do golpe


Com dados e estatísticas frescos em sua memória, o renomado médico psiquiatra e especialista em neurociências analisa a saúde mental dos chilenos 40 anos depois do golpe militar e seu diagnóstico e taxativo:  “Este é um país brutalmente enfermo”, assegura ele, comprovando suas palavras com dados que mostram altas taxas de depressão, stress e dependência de drogas entre a população, assinalando que são todas enfermidades que se desataram logo após a imposição do modelo neoliberal instalado pela ditadura. Sua conclusão é que na sociedade chilena instalou-se a anomia, “que é a perda de confiança que existe em um coletivo”, um fenômeno que gera isolamento e insensibilidade.



O consultório do doutor Paz está no limite histórico entre os bairros da classe alta e a população pobre: a Plaza Itália. Para iniciar essa conversa, subimos à sua sala no quinto andar, no início da rua Vicuña Mackenna, e a primeira coisa que ele diz, ao perguntar-lhe pela saúde mental dos chilenos, é que não quer fazer “atribuições causais” e que prefere começar pelos fatos, dando início a uma longa lista de problemas que pesam sobre a população de nosso país.:   

”Um: O Chile é o país que tem a maior taxa de depressão no planeta. Na última Pesquisa Nacional de Saúde,  conseguiu-se apurar que 2 entre cada 10 chilenos apresentavam sintomas depressivos a ponto de provocar algum grau de incapacidade funcional. Se a agente comparar isso com as estatísticas internacionais, a média em estudos similares, há 4 vezes mais prevalência de sintomas depressivos entre a população de chilenos adultos do que no resto da população mundial”.

“Dois: Em todos os países da OCDE o suicídio entre crianças e adolescentes se mantém em taxas estáveis ou em diminuição. O Chile e a Coréia do Sul são os únicos países onde o suicídio entre crianças e adolescentes vem crescendo”.

“Três: Na última pesquisa sobre violência aplicada pela Adimark, 3 entre cada 4 crianças chilenas declara que na sua casa há situações de violência física e/ou psicológica,  e que 1 em cada 10 crianças chilenas reporta que foi vítima de violência sexual.”

“Quatro: O Chile é o país do planeta onde o consumo de álcool e/ou maconha se inicia mais precocemente. A média de idade desse início de consumo é aos 12 anos, enquanto que no resto do mundo  é entre os 14 e os 15 anos. E de fato, a taxa de dependência de drogas entre crianças e adolescentes é uma das mais altas do planeta.”  

“Cinco: Cerca de 40% da população de adolescentes consome álcool de forma perniciosa para a saúde. Perto de 5% da população de crianças e adolescentes consome pasta-base (derivado mais barato da cocaína – N. do T.) sob forma de dependência, e mais ou menos 10% da população consome maconha de forma prejudicial para a saúde”.


“Também temos as taxas mais altas do mundo em condutas de bullyng, de maus-tratos a crianças por outras crianças, para não falar das taxas de deliqüência infanto-juvenil. Somos o país com a maior taxa de internação em prisões no planeta. A taxa de internação em abrigos do SENAME (Serviço Nacional de Menores – N. do T.) por situações de violência  familiar e outras, é uma das maiores do mundo. No Chile, as duas principais causas de mortes entre jovens e adolescentes são por suicídio ou por homicídio. Um entre cada três moradores de Santiago se declara altamente estressado. Ou seja, no final temos uma série de indicadores que mostram que estamos atravessando uma gravíssima crise de saúde mental, inédita no ocidente”.


-O que houve com os cidadãos deste país para chegar a esse cenário?


“Podemos visualizar várias causas: O Chile tinha certa forma de trabalhar, uma certa forma de funcionar, e com o golpe militar instala-se isso que se chamou de modelo neoliberal, que modifica totalmente essa forma de vida. E no que consiste esse modelo? Basicamente em duas ou três coisas: primeiro, que o Estado passa a ser subsidiário, o que significa que as iniciativas em saúde, moradia, educação e previdência social  são entregues a particulares, e o Estado somente interfere quando esses particulares não conseguem resolver esses problemas. O que significa isso na prática? Cada chileno deve arranjar-se por sua conta e isso tem gerado um sentimento de desconfiança, de insegurança, de total falta de proteção.  As pessoas sentem que não há nada nem ninguém que as possam proteger. Se isso for conectado a outro fenômeno próprio do neoliberalismo, que é o individualismo, então já não há sindicatos, associações profissionais nem federações estudantis (estas somente recentemente assumiram maior vitalidade), claramente veremos que temos um tecido social pobre. Todas as igrejas estão debilitadas, assim como os sindicatos, as associações de moradores, e as pessoas começam cada vez mais a isolar-se em suas casas.


“Além de tudo, o sistema neoliberal impôs a exigência de que as mulheres entrem massivamente no mundo laboral, fazendo com que tenham que deixar precocemente seus filhos em creches, e todos sabemos que durante os primeiros seis meses ou o primeiro ano de vida eles não tem que estar em creches, e sim com sua mãe, mas o modelo neoliberal exige que a mãe saia a trabalhar, por que o salário de somente um dos integrantes do casal não é suficiente. Então, temos pais cansados, obrigados a se afastar precocemente de seus filhos, a desmamá-los. Temos crianças mais estressadas. Temos má educação. As escolas, a não ser para os que podem pagá-las, são de muito má qualidade, e vão segregando conforme o meio social, e então, nas escolas onde há menos dinheiro é onde há mais stress e mais violência. De fato, há indicadores claros que dizem que o índice de angústia e depressão é de mais ou menos 7% anuais nas pessoas de Lo Barnechea, Vitacura ou Las Condes (bairros da classe abastada – N. do T.), mas chega a 40% anuais nos bairros de baixa renda, ou seja, claramente a angústia e a depressão no Chile se distribuem conforme o nível sócio-econômico. Acrescente-se a isso que temos um sistema previdenciário absolutamente arrebentado, com um sistema de saúde que está quebrado, onde é criado um sistema Auge (*) que, na prática, significa que se você fraturar a bacia aos 70 anos, com sorte esperará um ano até a operem. Então: falta de proteção, trabalho precário, o poder dos empresários e dos poderosos campeando, um baixo índice de sindicalização e leis trabalhistas que protegem pouco os trabalhadores e com fiscais do trabalho que muitas vezes favorecem mais o empregador do que os trabalhadores”.


-Quem procura seu consultório?


“Trabalhadores do Transantiago (consórcio de empresas que explora os serviços de transporte público de Santiago), trabalhadores do comércio, caixas de supermercado, atendentes de call-center, professores super-explorados que tem que trabalhar jornadas triplas para conseguir o mínimo para sobreviver, e por outro lado: executivos de bancos e de empresas multinacionais, porque a lógica do neoliberalismo é a super-exploração do trabalhador que abrange também os executivos, e aí temos então o stress no atacado”.


-Quanta responsabilidade tem na saúde mental da população, a impunidade na qual tem vivido a sociedade chilena nos últimos 40 anos?


“A impunidade afeta, e não somente a impunidade dos crimes cometidos 40 anos atrás, é preciso pensar que há 15 mil crianças apreendidas pelo poder Judiciário, e nas famílias que por trás dessas crianças, que não tem dinheiro para pagar um bom advogado. Porque que é que vai para as prisões? Os pobres! Quais são as crianças que vão parar no Sename? As crianças pobres! Além de tudo, temos um Poder Judiciário que está em crise. Há processos se acumulando no Ministério Público. Os promotores encarregados de investigar abusos sexuais não dão conta da demanda. Ou seja, um Poder Judiciário que não está a serviço das pessoas. Claro, naqueles setores que sofreram mais diretamente a repressão da ditadura certamente se acumulam mais fragilidade e patologias. 


Outro segmento muito afetado em sua saúde mental e emocional é o povo mapuche. Estamos começando a trabalhar com comunidades de crianças e adolescentes na região mapuche, mais precisamente em Ercília, e a impressão que temos é que há um nível de angústia, de temor, de desesperança que chega a ser brutal em alguns casos. Não somente nas crianças, mas nas mulheres e homens. Crianças que  vêem como os Carabineros (Corpo policial chileno - N. do T.)arrombam a porta de casa à meia-noite, e sacos de farinha que são rasgados em batidas que são realizadas duas ou três vezes por mês. 


“Hoje temos não somente o impacto aos direitos humanos de há 40 anos atrás. Há territórios no Chile onde a violação aos direitos humanos continua de maneira sub-reptícia, ou às vezes de forma mais direta, como na região mapuche.


A ANOMIA - “UM PAÍS DE ZUMBIS”


-Mas o que acontece com uma sociedade que vê os que cometeram violações atrozes aos direitos humanos tem penas menores, ou melhor ainda, andam soltos e se pode cruzar com eles em qualquer esquina, enfim  uma sociedade onde ainda não houve justiça?


“Não há justiça para os poderosos, porque sobre o pobre a justiça cai com brutalidade. Tudo isso vai gerando um fenômeno que é chamado de anomia, que é a perda da confiança que existe em um coletivo”.


“Nós, os seres humanos, somos animais sociais, somos primatas sociais, somos coletivo. Nossa identidade se forma na interação com os outros. Então, o que acontece quando se dissolvem os vínculos sociais e se perde a confiança onde o coletivo é portador de uma norma, de um sentido, de uma cultura? Surgem estas tribos urbanas, surgem as seitas, os movimentos religiosos fundamentalistas, por que o ser humano necessita do coletivo. Produz-se esse fenômeno de isolamento, de insensibilização, onde finalmente nos transformamos em um país de zumbis, que vivem da rotina. Produz-se essa anomia,uma perda de conexão com a moral, com o social, com os valores. E então, hoje em dia acontecem aberrações no Chile e as pessoas seguem seu caminho como verdadeiros zumbis, e os que conseguem conectar-se com a realidade se deprimem e se angustiam. Temos um país dividido entre os anômicos, insensibilizados, zumbificados, e os que conseguem conectar-se com essa situação.   


-O diagnóstico é que este é um  país que está enfermo?


“Este é um país brutalmente enfermo, é só constatar como dirigimos, como nos vinculamos e a perda da cordialidade. É um país neurótico”.


-No  caso de um paciente, existem terapias e medicamentos. O que se faz quando o doente é um país?


“Damos fármacos a um paciente para que o cérebro comece a funcionar melhor, se adapte. Psicoterapia, para que a pessoa torne a recuperar um nível que lhe permita funcionar, mas falando claramente, estamos colocando remendos. Se quisermos sair dessa crise de saúde mental, o país tem que mudar. Temos que voltar a pensar, a imaginar um país decente, um país onde seja possível viver. Isso porque podemos gerar exércitos de psiquiatras, psicólogos, consultores de saúde mental, mas sempre ficaremos devendo, por que o que está gerando uma onda de enfermidades, instabilidade emocional e stress é o modelo, e é preciso mudá-lo, mas para isso são precisos cidadãos mobilizados e conscientes. O problema é que esse modelo gera anomia e zumbificação social. Não é fácil. À medida em que o modelo vai adoecendo mais pessoas, elas vão se tornando menos sensíveis Por isso, o  trabalho de recuperar a cidadania e a esperança é urgente e necessário”.   


-O processo eleitoral que vivemos hoje, no qual se inscreveram nove candidaturas à presidência, fala de um despertar ou é tudo pelo contrário?


“Eu creio que fala justamente do contrário, da anomia, porque o resultado é que não há senso coletivo. As pessoas são incapazes de gerar alianças. Creio que se houvesse mais facilidade para inscrever candidaturas, haveria 17 milhões de candidatos, por que cada grupúsculo  desconfia do outro e gera identidades parciais, é um fenômeno de sectarização da política, porque há desconfiança. Então, temos a esquerda mais um, mais dois, mais três. Nem a direita consegue colocar-se de acordo, por que não há redes, não há vínculos, não há capacidade para gerar alianças, e isso também tem a ver com o impacto causado pelo modelo neoliberal. Afinal, qual é a mensagem? Arrume-se sozinho, empreenda sozinho, por que isto é uma selva, e quem não se arranjar sozinho está fora da realidade”.   


(*)  O Sistema AUGE (Plano de Acesso Universal de Garantias Explícitas) consiste numa regulamentação (Lei 19266), através da qual a cada três anos são acrescentadas novas patologias  para atendimento pelo sistema de saúde  chileno(N. do T.).





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