terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Arábia Saudita: raízes de um conflito ou A culpa é do Irã


Combinação entre autocracia e fundamentalismo religioso no país está na origem de grupos como a Al-Qaeda e o Taleban


Fabio Luis Barbosa dos Santos

Obama ao lado do rei saudita Salman bin Abdul Aziz

Obama ao lado do novo rei saudita, Salman bin Abdul Aziz


Vamos imaginar todos os estereótipos degradantes associados ao mundo árabe. Uma monarquia comandada exclusivamente por homens, vestidos com longas túnicas e lenços na cabeça. Bilionários que levam vida faustuosa e depravada, associada ao luxo ocidental. Países em que são proibidos partidos políticos, sindicatos e onde vige uma estrita censura.

Uma autocracia em que não há Constituição e onde a Justiça está subordinada às autoridades religiosas, que condenam cidadãos à chibata, à mutilação e à decapitação. Um reino em que não há separação entre religião e Estado. Nesse reino, as mulheres não podem dirigir ou sair de casa sozinhas, e o uso do véu é obrigatório.

Esse lugar existe? Quem viajar pelo Oriente Médio rapidamente descobrirá que essa descrição é tão distante da região quanto a imagem de um Brasil do samba, futebol e mulheres seminuas, em que as pessoas moram na selva. No entanto, o lugar existe, embora interditado ao turismo: trata-se da Arábia Saudita.

Leia atividade didática sobre a Arábia Saudita para o Ensino Médio

Competências: Compreender as transformações dos espaços como produto das relações de poder

Habilidades: Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre nacões; comparar o significado histórico-geográfico das organizações políticas e socioeconômicas em escala local, regional ou mundial

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Lá, a associação entre autocracia e fundamentalismo religioso encubou versões belicosas do Islã que estão na origem, entre outros, de organizações como o Taleban, a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. E, curiosamente, o reino está nas antípodas do “eixo do mal” imaginado pelo ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush (2001-2009), pois tem sido um bastião da geopolítica estadunidense na região desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

As origens da Arábia Saudita remetem a um movimento islâmico reformista do século XVIII, que, como muitos similares no cristianismo, pregava o retorno a um pretenso purismo religioso.

O fervor puritano do wahabismo, até hoje uma versão minoritária no universo muçulmano, foi instrumentalizado por um clã tribal da Península Árabe, por meio de uma perversão do conceito fundamentalmente religioso (e não político) de jihad.

A “guerra santa” em direção à elevação espiritual foi convertida em expansionismo militar, que pretendia unir a península sob a liderança de um ancestral da família Saud.

No entanto, esse desígnio só se realizaria no século XX, sob auspício inglês. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1919), o Império Turco Otomano aliou-se aos alemães e, nesse contexto, os britânicos instigaram o nacionalismo árabe visando desestabilizar o inimigo. Ao final do conflito, porém, os acenos de independência se frustraram. A região foi dividida entre mandatos franceses e britânicos.

As fronteiras do Oriente Médio são, em larga medida, legado dessa partilha imperial, com exceção da criação do Estado de Israel, em 1949.

A política britânica no Oriente Médio tolerou a independência somente na região menos desenvolvida do esfacelado império, que os árabes se referem como Al-Jazira ou A Península.

Em 1932, Ibn Saud anunciou que o território sob seu comando seria unificado sob um novo nome, Arábia Saudita. É o único Estado do mundo nomeado como propriedade de uma dinastia.

Essa entidade anacrônica garantiu sua perpetuação quando se associou aos Estados Unidos. E o cimento dessa aliança são as maiores reservas de petróleo conhecidas. A partir de 1949, os EUA passaram a importar o produto, considerado matéria-prima essencial do american way of life, além de importante insumo militar. Foi a centralidade do petróleo que determinou a relevância geopolítica do Oriente Médio.

No caso saudita, Esso, Texaco e Mobil formaram a Aramco (Arabian American Oil Company), que comandou a exploração desde 1938. Economia e política deram-se as mãos durante a Segunda Guerra Mundial e foi construída no país a maior base aérea estadunidense entre a Alemanha e o Japão. E a mais próxima das instalações industriais soviéticas.

Quando com a nacionalização do Canal de Suez em 1956 o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser tornou-se um ícone do pan-arabismo e do anti-imperialismo, os sauditas tornaram-se seu principal antagonista. A partir desse momento, organizações religiosas fundamentalistas, como a Irmandade Muçulmana, foram apoiadas pelos Estados Unidos e os reinos árabes, ansiosos em se contrapor ao nacionalismo e ao comunismo.

É essa associação entre Islã e anticomunismo que embasou o financiamento saudita a escolas religiosas no Paquistão, país onde se originou o Taleban. Enquanto os soviéticos ocuparam o Afeganistão, os talebans foram vistos por Washington como “guerreiros da liberdade”.

Nos anos 1990, porém, o cenário mudou. Após o colapso da União Soviética e o refluxo do socialismo, a oposição interna às ditaduras no Oriente Médio passou a ser dominada pelo fundamentalismo religioso, onde outras modalidades de organização estavam interditadas há décadas.

Na Arábia Saudita, essa oposição popular foi inflamada durante a guerra contra o Iraque em 1990, quando seu território foi cedido às tropas ocidentais. O conflito terminou e os americanos não partiram. A realeza saudita foi considerada ímpia por muitos fiéis em razão de sua conexão americana. O feitiço voltava-se contra o feiticeiro e Osama bin Laden, contra aqueles que o nutriram.

Segundo o jornal USA Today, os perpetradores do atentado ao periódico Charlie Hebdo lutaram na Síria para derrubar o governo laico do presidente Bashar el-Assad, um aliado do Irã, da Rússia e da China. Os irmãos Kouachi integraram grupos “rebeldes armados”, eufemismo para denominar mercenários wahabitas treinados e pagos pela monarquia saudita e também pelos Estados Unidos – como no passado foram os talebans. No último trimestre de 2014, Barack Obama submeteu uma lei autorizando a remessa de 500 milhões de dólares aos “rebeldes sírios”, enquanto o presidente francês declarava que seu país enviaria mais armas a esses “rebeldes”.

Visto por esse ângulo, o massacre em Paris é mais uma expressão dos paradoxos da política externa ocidental. Espremidos entre potências que os pintam como fanáticos irracionais e regimes repressores avessos a qualquer mudança, muitos muçulmanos olham para os céus em busca de um horizonte político. Pode ser lamentável, mas não é inexplicável.


*Fabio Luis Barbosa dos Santos é professor de Relações Internacionais na Unifesp.

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