terça-feira, 30 de junho de 2015

Culltura Inútil: Sobre velhos e velhice

Via Boitempo

Mouzar Benedito

cultura inútil velhice bg

“Escondendo a verdade
Deixou de ser velho:
Agora é da melhor idade”

Antes de entrar em ditados e pensamentos de gente famosa sobre o assunto (há alguns muito interessantes e divertidos), umas considerações minhas. Em parte, considerações óbvias.

Velho, antigamente, era velho. Quando se falava de um velho respeitosamente, como um sábio, podiam chamá-lo de ancião, “amenizando” o peso da palavra velho. Depois “amenizaram” também para os velhos comuns, velho passou a ser idoso. Aí surgiu o eufemismo “terceira idade”, e parecia que os eufemismos parariam aí, mas em seguida veio outro pior: “melhor idade”.

Essa expressão me irrita, mas um dia parei pra pensar e concluí que para certas pessoas a velhice é mesmo a melhor idade. É o caso de mulheres que vivem sufocadas por maridos mandões. Muitas delas não podem fazer absolutamente nada de prazeroso. Como mulheres “do lar”, trabalham, trabalham e trabalham em casa, mas os maridos dizem que elas não trabalham. Não viajam, não passeiam, não dançam, não têm vida social, não estudam… Quando o marido morre, é uma libertação. Passam a fazer tudo o que gostam e querem.

Há muitos anos, conheci na Paraíba uma velhinha simpática, culta, sorridente, alegre, cheia de vida, mãe de amigos meus. Aí me contaram que ela só ficou assim depois que o marido morreu. Foi a libertação, que eu já citei. Ele era do tipo que não permitia à mulher nem ficar olhando a rua pela janela. Se ela fizesse isso, era repreendida com brabeza por estar “flertando” com homens que passavam por ali. Visitas, ele aceitava poucas e mandava embora às 9h da noite. Até o que ela lia ele regulava. Com a morte dele, ela desabrochou, passou a ser uma mulher extremamente feliz.

Numa viagem a Goiás, fui visitar Cora Coralina, que já conhecia de viagens anteriores, e comentei esse caso com ela. Cora Coralina também foi uma mulher que só “desabrochou” depois de velha. Começou a publicar poemas já bem idosa. Perguntei, então, se o caso dela era como o da mãe dos meus amigos paraibanos, se a morte do marido representou sua libertação. Ela disse que não:

– Não é só o marido. Os filhos também atrapalham. A libertação só veio quando meu último filho se casou. Aí fiquei sozinha e passei a fazer o que eu queria, inclusive a ter tempo para isso.

DOCES E POSEIA

Já que falei de Cora Coralina, conto como a conheci. Era 1976, eu fazia uma pesquisa sobre cultura popular em várias partes do Brasil, e em Goiânia, uma moça que trabalhava no Sesc me deu uma ótima ajuda, foi minha cicerone no estado e conhecia bem a cultura goiana. Além de me apresentar a vários artesãos, me levou também a muitos artistas. Um dia ela me falou de uma mulher, doceira, que quase aos oitenta anos de idade revelou-se uma grande poetisa (hoje, o feminino de poeta, para muita gente é poeta mesmo, mas acho a palavra poetisa mais bonita). Fomos à cidade de Goiás e ela me apresentou a Cora Coralina. Comprei seu primeiro livro, publicado havia pouco tempo, e conversamos bastante.

No ano seguinte, fui de novo à cidade de Goiás e fiz uma entrevista com a poetisa, com intenção de publicar no Versus, jornal de que eu era um dos editores. Quando apresentei a entrevista na reunião de pauta, dizendo que era uma velha com mais de 80 anos, mas que ela “tinha futuro” como escritora, acharam que eu estava maluco.

Levei a entrevista à redação do jornal Movimento e apresentei à então editora de cultura, Maria Rita Kehl, que gostou e publicou com o título “Meus doces são melhores do que meus poemas”. Pelo que me disseram depois, foi a primeira entrevista com Cora Coralina publicado num jornal de fora de Goiás.

Em mais uma viagem a Goiás, em janeiro de 1983, fui conversar com Cora Coralina de novo. Comprei seu livro Poemas dos becos de Goiás e outras estórias mais, e pedi que autografasse. Tive a petulância de pedir um autógrafo especial, em que ela falasse alguma coisa dela mesma. Com sua letra trêmula pela idade, mas firme, ela escreveu:

“Mouzar,

Como mulher, deveria ter sido mais bonita e menos idiota. Mais vaidosa e menos inteligente. Mais sofisticada e menos simplória.

Devia ter tido a coragem que me faltou e não devia ter tido o medo que me sobrou.

Devia ter sido mais mentirosa e menos sincera. Devia ter me casado com um moço e me casei com um homem 22 anos mais velho do que eu. Errei de ponta a ponta. Quando reconheci o erro já era tarde.

Cora Coralina

Cidade de Goiás, 24-1-83.”

FRASES E DITADOS

Há muitos ditados e pensamentos “construtivos” e elogiosos sobre velhos e a velhice. Mas quase sempre me soam um tanto falsos. Na nossa sociedade, o “normal”, ou pelo menos o comum, ao se falar de velhos, é usar frases como “já pendurou as chuteiras”, “está mijando nos pés”, “é bananeira que já deu cacho”, “já está de cachimbo apagado”, “é do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça”, “é mais velho do que cagar de cócoras” ou que “foi garçom da Santa Ceia”. E mais: “quem gosta de velho é reumatismo, vento encanado, cadeira de balanço, rede e fila do INSS”, “lugar de velho é na igreja” e “se eu gostasse de velho ia trabalhar em museu”.

E, se alguém acha que merece respeito apenas por ser velho, há um ditado arrasador: “Os canalhas também envelhecem”.

Selecionei ditados gozadores e outros até valorizando(!) os que dobraram o Cabo da Boa Esperança, às vezes contrapondo velhice e juventude, e em seguida frases ditas por gente famosa ou nem tanto.

DIZ O DITO POPULAR:

Se o jovem soubesse e o velho pudesse, nada há que não se fizesse.

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Ninguém é tão velho que não cuide viver mais um ano, nem tão novo que não possa morrer logo.

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Mais vale o velho que me ame do que o moço que me assombre.

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O tempo cura tudo, menos a velhice.

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Homem velho, saco de azares.

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A mocidade é defeito que se corrige dia a dia.

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Aos vinte anos, cabeça oca, aos trinta riqueza pouca.

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Moça com velho casada, como velha se trata.

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Quem quiser ser velho muito tempo, comece-o a ser cedo.

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Não há melhor espelho do que amigo velho.

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Velho gaiteiro, velho menino.

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Queda de velho não levanta poeira.

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Velho na sua terra e moço na terra alheia, sempre mentem de sua maneira.

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Velho que não anda, desanda.

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Velhos são os trapos.

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Velho não se senta sem “ui”, nem se levanta sem “ai”.

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Não há sábado sem sol, nem jardim sem flores, nem velhos sem dores, nem moça sem amores.

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Pote velho é que esfria água – este é semelhante àquele que virou sucesso numa música sertaneja: “Panela velha é que faz comida boa”.

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Tatu velho não cai em mundéu.

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Burro velho não toma ensino.

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Macaco velho não mete a mão em cumbuca.

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Velhice é mal desejado.

O QUE SE DISSE POR AÍ…

Simone de Beauvoir: “A velhice é a paródia da vida”.

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Machado de Assis: “Matamos o tempo, o tempo nos enterra”.

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Mia Couto: “A velhice não nos dá nenhuma sabedoria, simplesmente autoriza outras loucuras”.

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Groucho Marx: “Ficar mais velho não é problema. Tens apenas que viver o tempo suficiente”.

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Érico Veríssimo: “Moça rica, quando cai na boca do povo não perde nada, mas moça pobre quando é falada…”.

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Charles de Gaulle: “A velhice é um naufrágio”.

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Ambrose Bierce: “Velhice: aquele período da vida no qual ajustamos os vícios que ainda temos, denegrindo aqueles que não conseguimos satisfazer”.

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Victor Hugo: “A miséria de uma criança interessa a uma mãe, a miséria de um rapaz interessa a uma rapariga, a miséria de um velho não interessa a ninguém”.

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Victor Hugo, de novo: “Quarenta anos é a velhice dos jovens; cinquenta anos é a juventude dos velhos”.

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Camilo Castello Branco: “As almas infelizes envelhecem cedo”.

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Camilo Castello Branco, de novo: “As mulheres de 25 anos datam a velhice dos 35, e dos 40 em diante confundem a todas as senhoras na respeitabilidade de suas mães e avós”.

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Camilo Castello Branco, mais uma vez: “O tempo chega sempre; mas há casos em que não chega a tempo”.

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Júlio Dantas: “Afinal, a velhice é um simples preconceito aritmético, e todos nós seríamos mais moços se não tivéssemos o péssimo hábito de contar os anos que vivemos”.

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Júlio Dantas, de novo: “A longevidade é uma prerrogativa das naturezas vulgares”.

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Raquel de Queiroz: “A mocidade é o tempo em que a gente quer ser dono do mundo e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mundo”.

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Maroquinha Jacobina Rabelo: “Prepara na primavera as flores que irão florir o outono e o inverno da vida”.

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Henry Mencken: “Quanto mais envelheço, mais desconfio da velha máxima de que a idade traz a sabedoria”.

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Vitor Caruso: “Velhice e a digestão lenta da mocidade”.

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Doris Lessing: “Conforme envelheces, não ficas mais sábios. Ficas mais irritável”.

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Pierre Proudhon: “A vida do homem divide-se em cinco períodos: infância, adolescência, mocidade, virilidade e velhice. No primeiro período o homem ama a mulher como mãe; no segundo, como irmã; no terceiro, como amante; no quarto, como esposa; no quinto, como filha”.

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Goethe: “Viver muito tempo significa sobreviver a muitos entes amados, odiados e indiferentes”.

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Maurice Chapelan: “Saber envelhecer é fácil: já não se tem a dificuldade da escolha”,

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Suzanne Necker: “Se se pudessem conquistar os homens com fingimentos, todas as mulheres velhas teriam amantes”.

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Godofredo de Almeida: “O futuro de todos nós é o túmulo”.

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Platão: “Deve-se temer a velhice, porque ela nunca vem só. Bengalas são provas de idade e não de prudência”.

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Nelson Mandela: “Uma das vantagens da velhice é que as pessoas nos respeitam só pelos cabelos brancos e dizem toda espécie de coisas simpáticas sobre nós que não se baseiam sobre quem somos realmente”.

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Mark Twain: “Sou velho e já passei por muitas dificuldades, mas a maioria delas nunca existiu”.

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Jorge Luis Borges: “A velhice poderia ser a suprema solidão, não fosse a morte uma solidão ainda maior”.

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Coelho Neto: “Os séculos são longos e quem se destina a atravessá-los deve ir devagar. Quereis saber como se consegue a Eternidade? Com o Tempo”.

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Sêneca: “Ninguém é tão velho que não espere que depois de um dia não venha outro”.
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Walter Waeny: “Quando um homem honrado envelhece, ele se torna um ancião; quando um canalha envelhece, ele é apenas um velhaco que já viveu muito”.

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Walter Waeny, de novo: “A velhice dá o direito de exigir respeito, mas tira o direito de fazer tolices”.

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François La Rochefoucauld: “Os velhos gostam de dar bons conselhos para se consolarem de já não estarem em estado de dar maus exemplos”.

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Catherine Deneuve: “Acho lamentável o culto à beleza e à juventude, porque é muito limitador. Nos Estados Unidos isso é muito forte, mas na Europa o envelhecimento é melhor aceito”.

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Christian Hebbel: “Muitas vezes a juventude é repreendida por acreditar que o mundo começa com ela. Mas a velhice acredita ainda mais frequentemente que o mundo termina com ela. O que é pior?”.

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Millôr Fernandes: “Você está começando a ficar velho quando, depois de passar uma noite fora, tem que passar dois dias dentro”.

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Millôr Fernandes, de novo: “Um homem começa a ficar velho quando já prefere andar só do que mal acompanhado”.

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Gabriel García Márquez: “O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão”.

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Madame de Stael: “As ideias novas desagradam às pessoas de idade; elas gostam de se convencer de que, depois de haverem deixado de ser novas, o mundo, em vez de se enriquecer, só se perdeu”.

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Carlos Drummond de Andrade: “Há duas épocas da vida em que a felicidade está numa caixa de bombons: a infância e a velhice”.

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Schopenhauer: “Na juventude, imaginamos o mundo repleto de felicidade e prazer, sendo que a única dificuldade é alcançá-los, enquanto na velhice sabemos que do mundo não há muito a esperar. Logo, acalmados por completo, fruímos um presente suportável e encontramos alegrias até em miudezas”.

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Padre Manuel Bernardes: “A velhice é uma quase morte, assim como crepúsculo vespertino é uma quase noite”.

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Nelson Rodrigues: “Eu acho que o jovem só pode ser levado a sério depois que fica velho”.

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Jeanne Moreau: “A idade não nos protege contra o amor. Mas o amor, até certo ponto, protege-nos contra a idade”.

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Albert Camus: “Envelhecer é passar da paixão à compaixão”.

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Albert Einstein: “A leitura após certa idade distrai excessivamente o espírito humano das suas reflexões criadoras. Todo homem que lê demais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar”.

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Itamar Franco: “Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo”.

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Rousseau: “Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice fazer uso dele”.

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Rousseau, de novo: “O que viveu mais não é aquele que viveu até uma idade avançada, mas aquele que mais sentiu a vida”.

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Mário Quintana: “Infância: a vida em tecnicolor. Velhice: a vida em preto e branco”.

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José Saramago: “Sentir como uma perda irreparável o acabar de cada dia. Provavelmente, é isto a velhice”.

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Marcel Proust: “Acontece com a velhice o mesmo que com a morte. Alguns enfrentam-nas com indiferença, não porque tenham mais coragem do que os outros, mas porque têm menos imaginação”.

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Rubem Alves: “Toda saudade é uma espécie de velhice, É por isso que os olhos dos velhos vão se enchendo de ausências”.

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Benjamin Franklin: “A mocidade é um erro, a idade madura uma luta, a velhice um lamento”.

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Oswald de Andrade: “Senhor / Que eu não fique nunca / Como esse velho inglês / Aí do lado / Que dorme numa cadeira / À espera de visitas que não vêm”.

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Ediel: “A diversão não acaba com a velhice. A velhice é que acaba com a diversão”.

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Alphonse Daudet: “Os homens envelhecem mas nem sempre amadurecem”.

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Mary Wortle Montagu: “Aos 40 anos, a mulher está longe ser fria e insensível; mas ela sabe, quando necessário, cobrir o fogo com as cinzas”.

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Benrard Baruch: “Nunca serei velho. Para mim, a velhice começa 15 anos depois da idade em que eu estiver”.

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Barão de Itararé: “A natureza, que, com a idade, nos põe tanta prata nos cabelos, bem que podia ter a gentileza de nos meter algumas no bolso”.

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Woody Allen: “Não há vantagem em envelhecer: não se fica mais sábio e ainda se sofre com dor nas costas. Recomendo que não o façam”.

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Ariano Suassuna: “Terceira idade é para fruta: verde, madura e podre”.

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Henriqueta Brieba: “A vantagem de ter nascido em 1901 é que o século XX estará sempre correndo atrás de mim, em vez de eu ficar correndo atrás dele”.

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Homero: “As mulheres da Grécia contam sua idade a partir de seu casamento e não de seu nascimento”.

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Daniel Auber: “Não tenho 80 anos e sim quatro vezes 20”.

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Jean de la Bruyère: “A maior parte dos homens emprega a primeira metade de sua vida a tornar a segunda metade insuportável”.

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Benjamin Disraeli: “A juventude é um disparate, a idade adulta uma batalha, a velhice uma saudade”.

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Disraeli, de novo: “O homem passa por três idades: a tolice da juventude, a luta da idade madura e os remorsos da velhice”.

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Ricardo Bacchelli: “Quero dizer-vos a diferença entre o lobo e o homem: nenhuma, exceto uma. Na velhice, o lobo entra nos bosques para esperar seu fim sozinho; o homem, quanto mais sente que a morte se aproxima, mais busca companhia, mesmo se ele se aborrece e se ela se aborrece”.

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Madame de Sévigné: “O coração não tem rugas”.

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Autor desconhecido: “Meia idade é quando você para de criticar os mais velhos e começa a criticar os mais novos”.

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Marquês de Maricá: “A velhice é a idade dos desenganos, como a mocidade a das ilusões”.

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Marquês de Maricá, de novo: “A velhice é prêmio para uns e castigo para outros”.

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Marquês de Maricá, mais uma vez: “A velhice é um mal incurável que só a morte pode nos libertar”.

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Charles Saint-Beuve: “Envelhecer ainda é a única maneira que se descobriu de viver muito tempo”.

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Autor desconhecido: “Os anos entre os cinquenta e os setenta são os mais difíceis. Você é constantemente solicitado a fazer coisas para as quais ainda não se sente suficientemente decrépito para recusá-las”.

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Stendhal: “A velhice, essa época em que se julga a vida e em que os prazeres do orgulho se revelam em toda a sua miséria”.

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Giácomo Leopardi: “A velhice é o pior dos males, pois ela priva o homem de todos os prazeres deixando-lhe o apetite”.

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Rita Lee: “Geriatras, me aguardem! Vou botar fogo no asilo”.

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Eu: “Já passei da idade de namorar mulheres da minha idade”.

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Tallulah Bankhead: “Se eu pudesse voltar à juventude, cometeria todos aqueles erros de novo. Só que mais cedo”.

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Oscar Niemeyer: “Ficar velho é uma merda”.

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Gostou? Leia as outras colunas da série “Cultura Inútil”, de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo clicando aqui.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo,Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Hmanidade: Queimar gato vivo: quando a tradição é sinónimo de barbárie

Sanguessugado do Octopus

 

Ritual da queima do gato foi divulgado nas redes sociais onde se gerou uma onda de indignação.

A cena passa-se em Mourão, no concelho de Vila Flor, Bragança.

Cenas chocantes...

Mostra um gato colocado dentro de um recipiente de barro e levantado a alguns metros de altura, num poste. O poste vai sendo queimado e à medida que as chamas envolvem o recipiente com o animal. Quando o poste arde, projecta-se no chão, sendo que o animal cai de uma altura superior de três metros, fechado no recipiente a arder, recipiente esse que se estilhaça no chão.

O gato em chamas a "gritar" agonizante enquanto a população ri, esbraceja e se diverte com o suplício do animal que corre em círculos, tentando alivio e fuga, desorientado em agonia extrema.

Não faz mal, é tradição...!

Explicam "os entendidos em tradições" que "o fogo sempre foi o símbolo da purificação, iluminação e vida, e que no solstício de Verão era habito queimar árvores ou fazer o gado atravessar fogueiras, como função regeneradora e profiláctica.

Explicam também que o gato sempre foi visto com desconfiança na Europa na Idade Média (quando em civilizações mais antigas era venerado) e associado a bruxarias. No século XV, em França,  os Reis assistiam à queima do gato (associado à morte de espíritos malignos) e esta foi prática comum até ao século XIX.

Quando a tradição é sinónimo de barbárie...

Pois é, mas o problema é que estamos no século XXI e que esse tipo de superstições macabras deixarem, e bem, de existir.

Para os mais estúpidos, que confundem tradição com barbárie, convém lembrar que provavelmente não aceitariam, hoje em dia, queimar (como no passado por tradição) supostas bruxas em praça pública ou lançar cristãos em arena para serem comidos vivos por leões para a delícia dos espectadores.

As tradições dos povos são essenciais para a sua coesão, mas não deve ser o livre arbitro para qualquer acto bárbaro e cruéis sobre pessoas ou animais.

Cuba é uma bosta: Cuba é primeira nação do mundo a eliminar transmissão de HIV de mãe para filha/o, diz OMS

Via Diário Liberdade

300615 saude

Cuba - Opera Mundi - Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) reconheceu os esforços da ilha pela eliminação também de transmissão congênita de sífilis.

Cuba se tornou nesta terça-feira (30/06) o primeiro país do mundo a receber a validação da OMS (Organização Mundial da Saúde) por ter eliminado a transmissão do HIV (vírus que provoca Aids) e da sífilis de mãe para filho.

"Tudo foi possível por nosso sistema social e pela vontade política desde o mais alto nível. Isso permitiu que um país com poucos recursos tenha feito estas conquistas", disse o ministro de Saúde Pública de Cuba, Roberto Morales, em entrevista a jornalistas na sede da organização, em Washington.

Morales atribuiu este marco ao sistema de saúde estabelecido após o triunfo da revolução cubana há mais de meio século, um sistema que definiu como "gratuito, acessível, regionalizado e integral", de acordo com a Agência Efe.

Junto a Morales, a diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Carissa Etienne, reconheceu os esforços da ilha pela eliminação desses dois vírus, após visita de especialistas da organização, que constatam os resultados no local, reportou Cubadebate.

Segundo Etienne, todos os países da região se comprometeram em 2010 a conquistar “o que Cuba alcançou hoje”. De sua parte, o ministro cubano disse estar em "total disposição de ajudar outros países".

Em maio de 2014, foi criado um comitê regional de validação de 14 especialistas de diversas nações do continente sobre a eliminação da transmissão congênita do vírus HIV e da sífilis.

Cuba foi o primeiro país a solicitar esta avaliação, processo que já foi iniciado por Barbados, Jamaica, Anguila e Ilhas Virgens. Outros Estados da região e do mundo já deram importantes passos para a sua validação.

Janio de Freitas: Por que a lista de Pessoa coincide com a viagem de Dilma?

Sanguessugado do GGN

Da Folha

Meios e fins

Janio de Freitas

Mais um esmero indicativo do estilo e de propósitos inexplícitos da Lava Jato: a divulgação da populosa lista de acusados pelo superdelator Ricardo Pessoa deu-se precisamente no dia, a sexta passada, em que a presidente da República viajava para o encontro com o presidente dos Estados Unidos. Também prevista a presença, em sua comitiva, de ministros citados pelo empreiteiro.

As citações não foram expelidas por Ricardo Pessoa nas vésperas da divulgação. Saíram em interrogatórios numerosos e que vêm de longe, como provam já antigas acusações, divulgações e insinuações. Assim se evidenciaram tanto a reunião de citações que avolumaram, quanto a lista e o propósito de uma divulgação determinada, o que não foi feito com qualquer dos superdelatores precedentes.

Mesmo que houvesse algum exótico motivo para a edição das obras completas de Ricardo Pessoa, não houve sinal algum da necessidade de que isso, apesar do infeliz acaso, coincidisse com a visita oficial de Dilma aos Estados Unidos. Os efeitos políticos internos seriam pouco diferentes se protelada a divulgação por uns poucos dias, mas os efeitos externos e, em particular, nos Estados Unidos, não –como sabe todo procurador da República e todo juiz.

Bem, não é novidade que a Lava Jato tem peculiaridades. Outra delas, também reiterada nestes dias: a contradição entre a torrente de vazamentos e a permanente ausência da informação essencial em cada jato.

A recente prisão de Marcelo Odebrecht contém uma interrogação que vem intacta desde o primeiro momento. A prisão deveu-se, para explicação pública, à necessidade de evitar possível fuga do presidente da Odebrecht e, a seu mando, a destruição de provas e pressões sobre terceiros ou vigésimos. Mas a explicação precisava ser outra: nos já 15 meses de duração da Lava Jato, o que não faltou a Marcelo Odebrecht foi tempo para destruir provas e meios para fugir –por que só faria agora? A súbita preocupação que acometeu a Lava Jato não explica sua despreocupação de 15 meses. Nem a explicação atual no caso Odebrecht responde ao essencial.

Há mais do que o dito e o não dito em torno da Odebrecht. Parece mesmo que o simples nome Odebrecht já causa reações especiais. A ponto de uma publicidade explicativa da empresa, como fizeram outras empreiteiras, receber resposta especial e escrita do juiz da Lava Jato, honra negada às demais.

Resposta que mereceu comentários respeitáveis e elegantes da advogada da empresa, Dora Cavalcanti, com a compreensível estranheza de que o juiz Sergio Moro chegasse a considerar que o ideal seria a interrupção de todos os contratos e atividades da Odebrecht. O que, lembrou Dora Cavalcanti, além de não permitido por lei, lhe sugere ser talvez necessário, com apoio em princípios dos direitos humanos, recorrer à Corte Internacional.

Daí uma nota dos procuradores em que atribuem à advogada a sugestão de que a polícia, o Ministério Público, até o Supremo Tribunal Federal estejam "mancomunados para violar direitos humanos", sugestão que seria um sinal de desespero.

Suponho não ser anormal o desespero de um advogado de defesa. Mas, no caso, não é a advogada que o demonstra. A atribuição que lhe foi feita é excessivamente exorbitante e maldosa. Das tais que a Lava Jato não tem o direito legal e ético de fazer: é tempo de entender que os seus poderes não são absolutos.

Taxa de juros ou depósito compulsório?

Via Brasil Debate

Paulo Kliass 

A atual prioridade concedida pelo Ministério da Fazenda, em termos de política econômica, tem sido direcionada à obtenção da meta de superávit primário. Apesar de todas as dificuldades para cumprir com os objetivos de redução de despesas do Orçamento da União, permanece a intenção oficial de atingir os 1,1% do PIB como valores assegurados para o pagamento dos juros da dívida pública.

Ocorre que a adoção de tal estratégia de promoção do ajuste fiscal se dá em um contexto de redução do ritmo da atividade econômica. As expectativas para o desempenho do PIB apontam para uma retração de -1,3% ao longo de 2015. Esse processo deve provocar uma frustração na receita tributária, implicando maiores cortes nos gastos sociais.

O crescimento dos preços faz com que o governo mantenha a política monetária restritiva para corrigir a distorção inflacionária. Assim, optou-se por uma política persistente de elevação da taxa de juros. Essa estratégia altista mais recente do COPOM teve início no final de outubro do ano passado, quando a taxa foi aumentada de 11% para 11,25%. A partir daí, foram realizadas mais 5 reuniões, com igual número de elevações da taxa, até atingir os atuais 13,75%.

A fixação da SELIC em tais níveis acaba por comprometer a própria tentativa de conter gastos públicos, tal como recomendado pela política de ajuste fiscal. Com o estoque da dívida pública se aproximando de R$ 2,5 trilhões, cada ponto percentual de aumento da taxa de juros corresponde uma elevação de despesas com serviços da dívida de R$ 25 bilhões anuais. Ou seja, apenas com os aumentos praticados ao longo de 2015, os gastos federais já teriam subido por volta de R$ 38 bilhões.

A lógica neoclássica encara a inflação apenas como um problema de descompasso entre oferta e demanda de bens e serviços. Em razão da livre ação das forças no mercado, um determinado volume de demanda agregada maior do que a oferta agregada pode significar fator de desequilíbrio. Sob tais circunstâncias, esse fenômeno tende a provocar preços mais altos nos mercados, em comparação ao que seriam em situação de suposto equilíbrio.

De acordo com esse raciocínio, a política monetária entraria em ação para retirar recursos dessa pressão da demanda sobre a oferta. Esse seria o caminho para reequilibrar os preços de uma forma geral e evitar a inflação. E aqui entra o pulo do gato da política monetária contracionista.

A hipótese subjacente é que a elevação dos juros operaria como atrativo para uma parcela desses recursos da demanda, que deixariam de se dirigir ao consumo e seriam reorientados à poupança, em busca da maior rentabilidade oferecida pelos títulos no mercado financeiro.

Como se pode perceber, trata-se de um mundo bastante idealizado, muito distante de nossa realidade concreta. As pressões inflacionárias mais recentes não serão resolvidas apenas pelo aumento da SELIC, pois a maior parte da pressão sobre a demanda vem de setores que não possuem capacidade de poupança e muito menos que deixariam de consumir para aplicar seus recursos em títulos oferecidos pelas instituições financeiras.

Alguns aumentos de preços não devem ser combatidos por juros altos. É o caso típico da tão famosa “inflação do tomate” que ressurge todos os anos, em função de um ciclo típico desse produto. Os preços recuaram pela dinâmica cíclica da produção e oferta de determinados alimentos. Tampouco não são afetados pela SELIC os aumentos mais recentes dos preços administrados, como transportes e energia elétrica, que tanto contribuíram para a alta do IPCA.

Além disso, é importante mencionar o efeito perverso da taxa de juros elevada sobre a realidade cambial. A opção pela “livre flutuação” da taxa de câmbio com o ingresso maciço de recursos externos especulativos contribui para uma sobrevalorização artificial do real, acentuando a desindustrialização e o desequilíbrio no setor externo.

Mas imaginemos que o problema fosse realmente o excesso de demanda agregada e que ela deva mesmo ser reduzida. Nesse caso, qualquer manual básico de macroeconomia tradicional oferece uma alternativa à elevação da taxa de juros para se obter o mesmo resultado de redução da pressão da demanda sobre a oferta. Trata-se do aumento da alíquota do depósito compulsório. É interessante observar que tal opção não encontra espaço nos meios do sistema financeiro e quase nunca aparece na imprensa.

O depósito compulsório é um instrumento já existente na regulamentação de nosso sistema financeiro e prevê que os bancos sejam obrigados recolher junto ao Banco Central um percentual de todos os seus depósitos. A ideia é evitar que os bancos emprestem a terceiros um volume muito grande dos recursos que ali são depositados.

Esse mecanismo de controle sobre a chamada “criação monetária” pelo sistema bancário permite, assim, atuar sobre a quantidade de recursos que são canalizados para consumo. Com isso, tem-se uma redução da massa monetária disponível para a demanda agregada.

Atualmente, por exemplo, a alíquota de recolhimento compulsório sobre os depósitos à vista nas instituições financeiras é de 44%. Em outros tempos, já foi bem maior. No primeiro semestre de 2003, por exemplo, estava em 60%. Em 1999, oscilou entre 65% e 75%. Ou seja, há espaço para uma eventual mudança.

Assim, se o governo pretende endurecer a política monetária, ele pode aumentar o compulsório, ao invés de elevar a SELIC. O efeito sobre a redução da demanda agregada será no mesmo sentido. O impacto sobre o nível de preços será da mesma magnitude.

Já os efeitos sobre a redução do nível de investimento não serão tão negativos, uma vez que as taxas de juros sobre operações poderão ser mais baixas. E a maior parte da sociedade ficará agradecida, uma vez que não haverá o enorme impacto negativo sobre as despesas financeiras do orçamento do Estado nem sobre a valorização indesejada do câmbio.

Crédito da foto da página inicial: Tânia Rego/Agência Brasil

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Olívio Dutra: "Não é correto achar que o Lula vai salvar o PT"

Via Zero Hora

 

Em entrevista, Olívio Dutra, ex-governador do RS, fala sobre o atual momento da sigla

Rosane de Oliveira

Olívio Dutra: "Não é correto achar que o Lula vai salvar o PT" Jefferson Botega/Agencia RBS

Crítico da cúpula petista, o ex-governador afirma que "o mensalão foi uma espécie de aprendizado de feitiçaria"Foto: Jefferson Botega / Agencia RBS

Primeiro petista de peso a criticar sem meias palavras os desvios éticos dos companheiros que se envolveram no mensalão, o ex-governador Olívio Dutra foi isolado pela cúpula do PT, mas é sempre um dos mais aplaudidos nos encontros da base. Na última semana, foi surpreendido pelas declarações do ex-presidente Lula de que a sigla só pensa em cargos.

Era o que ele vinha dizendo, com outras palavras. Para Olívio, o PT entrou na vala comum da política tradicional. Ele e Lula já foram mais próximos. Chegaram a morar juntos em Brasília, à época da Constituinte. O gaúcho foi ministro das Cidades, mas perdeu o cargo para acomodar um aliado do PP.

Aos 74 anos, não pensa em eleição, mas segue fazendo política. Só em julho, tem oito compromissos no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em São Paulo. Na quarta-feira, o ex-governador falou a ZH.

O senhor foi um dos primeiros a reconhecer erros no PT e até ganhou inimigos internos por avaliações semelhantes às que o ex-presidente Lula está fazendo agora. O PT acordou?

Primeiro, é bom que o Lula tenha dito o que disse. Em outras ocasiões, em círculos mais fechados, ele também disse ou sinalizou coisas. Não tenho podido conversar com a frequência que conversava antes com o Lula. No 5º Congresso do PT, em Salvador (entre 11 e 13 de junho), ao qual não fui porque não era delegado, Lula fez um discurso escrito, formal, contido. Agora, ele disse o que disse e é importante que tenha dito, fora de lá. E de forma enfática. Sinal de que, no congresso, as coisas não aconteceram como deveriam acontecer.

O PT aprendeu alguma coisa com as sucessivas crises que vem enfrentando?

Acho que o Partido dos Trabalhadores tem muito ainda a aprender na institucionalidade e fora dela, na relação com os movimentos sociais da cidade, do campo. Um partido como o PT, que não surgiu de cima para baixo, precisa recuperar seus valores. Fomos assumindo espaços cada vez maiores e o partido não fez uma reflexão permanente ou não acompanhou esse crescimento. O partido disputa eleições, mas não surgiu para ser uma máquina exclusivamente eleitoral. Tem de estar sempre se refazendo, se autocriticando para poder avançar e ir mudando a estrutura do Estado brasileiro, que é uma espécie de cidadela dos grandes interesses. O partido deixou isso de lado e entrou na vala comum da política tradicional.

Em que momento o PT começou a caminhar para essa vala comum?

Acho que depois das três ou quatro derrotas para a Presidência com o Lula candidato. Aí, se avaliou, com a Carta aos Brasileiros, que eu tive conhecimento depois de publicada...

O senhor não teria assinado a carta?

Não posso dizer isso taxativamente. O certo é que foi uma discussão em uma instância do partido, e mais ligada ao pragmatismo político, com a necessidade de composições. O Lula chegou a dizer: “Não quero mais continuar perdendo eleição”. Aí, ganhar a eleição passa a ser o objetivo principal. Para isso é preciso compor, e compor com quem? Quem constituiu maioria no Congresso desde o primeiro mandato do Lula? Não foi o centro-esquerda. Foi um centro que, no processo, foi se deslocando cada vez mais para a direita. A luta política, cultural, foi abandonada ou secundarizada. Isso não é só o PT. Os partidos do campo popular democrático deixaram de ser escolas políticas permanentes para ser máquinas eleitorais e, às vezes, disputar entre si quem é mais palatável para o centro-direita.

Qual foi o erro central?

Deixamos de enfatizar a importância das reformas estruturais. Executamos políticas importantes, de inclusão social, integramos mais de 40 milhões de pessoas em uma situação de maior dignidade. São políticas públicas que não mexem com a estrutura do Estado brasileiro nem sequer disputam culturalmente a ideia das elites de que a política é uma profissão para especialistas, para os mais sagazes, mais espertos. Fomos aceitando esse jogo e entrando nele até chegar no mensalão, que foi uma espécie de aprendizado de feitiçaria.

O senhor foi o primeiro a defender o afastamento dos envolvidos no mensalão, e recebeu muitas críticas dos seus companheiros. Como ficou a sua relação com a cúpula do partido depois disso?

Nunca estive na cúpula. Tinha uma relação com Lula e nunca achei que, pela relação afetiva de amizade, tinha de ter maior importância do que quem quer que seja no PT. Acho que as posições que tenho hoje surgiram por conta dessa conjuntura. Vem de algum tempo a preocupação sobre a forma como um partido como o PT, que não nasceu de geração espontânea, nem de cima para baixo, nem quer inventar a roda, deve agir.

Mas o senhor levou um gelo dos seus companheiros. O então deputado André Vargas foi até grosseiro com o senhor.

Ah, é verdade. Recebi cartas, inclusive de pessoas que considerava muito, mas que também não deixei de considerar...

Cartas criticando o senhor?

Sim, evidente.

De quem, por exemplo?

Acho que é melhor não dizer. Eu guardo, porque também respondi e não caí em nenhuma provocação nem desqualificação do debate. Reafirmei a importância de ter feitos as colocações que fiz e as mantenho. Já assinalava que as consequências seriam seriíssimas para o PT e para o próprio Lula.

O senhor escreveu isso?

Claro, tenho cartas em que respondi para pessoas. Uma delas, principalmente, que sempre levei em consideração, pessoa séria, paulista. Bueno, tenho uma certa experiência, caroços no lombo por lidar com essas diferenças. Já no movimento sindical, social, a gente sempre teve disputas de ideias, que no campo aberto de debate perde, ganha, mas mantém uma linha, não abdica dela. Agora, quando tu começa a disputar a picuinha e perde a noção estratégica da transformação política, aí é uma dupla derrota.

O senhor diria que seus companheiros se deslumbraram com o poder?

Tenho conversado com pessoas muito interessantes dentro e fora do PT e inclusive fora do país. Essas pessoas acham tantas coisas parecidas, mas parece que não aprendemos uns com os outros. Não recolhemos bem as experiências nem entre nós mesmos. As experiências do Orçamento Participativo, por exemplo. Por que elas não foram mais fundo, não se alastraram, não se espraiaram mais? Isso aumentaria o controle público sobre os governantes. O PT não é o sal da terra e não pode se achar o Joãozinho do passo certo, mas tem responsabilidades grandes, não só por estar no governo, mas por ser uma construção que deveria estar instigando essas discussões.

Foi essa falta de controle e de participação dos cidadãos que desembocou no mensalão e na corrupção na Petrobras?

O pragmatismo da política foi trazendo as pessoas para essa frieza do toma-lá-dá-cá, do é dando que se recebe. As estruturas dos partidos afrouxaram. As direções, as figuras mais articuladas nesses espaços, acabaram fazendo o que fizeram, justificando a ideia do poder, do governo, de avançar nisso e naquilo. Acabamos construindo maioria no Congresso. O governo do Lula teve maioria no primeiro mandato e no segundo. A Dilma também. Mas maioria para quê?

O senhor diz isso porque as reformas não avançaram?

Das reformas estruturais, nenhuma avançou. Aliás, recuaram! Então, um partido que tem um compromisso com mudanças estruturais tinha de estar sempre reavaliando isso, é assim que tem de andar. Joga para o Dia de São Nunca as possibilidades de transformações. Não somos nós que vamos transformar sozinhos, mas, no mínimo, temos de semear coisas que, passado um governo nosso, possam ter se constituído conquistas da cidadania. Nossas políticas públicas são importantíssimas: moradia, bolsa-família, acabar com a fome... Nós saímos do mapa da miséria, a ONU destacou isso, não é pouca coisa.

O senhor é do tempo em que o PT financiava as campanhas com os militantes na rua, vendendo camisetas. Depois, o PT foi crescendo, tomando poder e fazendo campanhas milionárias. É o financiamento de campanha a grande causa da corrupção na política?

É uma das grandes causas. Não é a única, mas tem um peso enorme. Temos no PT candidatos que, na última eleição, fizeram campanha de avião.

Campanha de deputado?

Fazendo três comícios em distâncias enormes no mesmo dia, porque se deslocavam de avião. Avião de quem? Quem paga? Qual é o custo? Como é essa relação? Pode até ter prestado contas, enfim. Mas por que aquele e não este? Então, nós, do PT, propomos uma reforma política que acabe com a predominância do poder econômico nas eleições, mas, na prática, esse discurso não bate. Não bate com a prática do próprio PT. É uma incongruência. Essas questões têm de ser colocadas e trazidas para o debate. Nós propomos uma reforma política e, quando vamos ver, dentro do próprio PT, tu elege direções segundo métodos de quem tem mais poder econômico, mais capacidade de nomear e indicar cargos ali e aqui, então compõem maiorias.

O senhor concorda com a frase de Lula de que hoje o partido se preocupa mais com cargos e com o poder? Aqui do Rio Grande do Sul, quem entrou no seu governo na prefeitura, foi pulando de cargo em cargo e continua até hoje.

Uma vez, eu estive conversando com o professor Eduardo Carrion (constitucionalista) e ele me disse: “Tu sabes, Olívio, que o PT vem se transformando em uma grande agência de empregos”. Eu, na época conhecedor das coisas, disse “é isso mesmo”. Quer dizer, isso é um erro muito grande de você atrair militantes, pessoas para o PT, na ideia de que eles vão se fazer na vida, vão se resolver na vida, vão resolver problema de emprego... Isso é da política tradicional, não podia ser da política do PT.

Mas o que explica os casos de corrupção envolvendo petistas?

Acho que é bom também registrar que não lembro de outros tempos em que tivesse tanta ação das instituições brasileiras na averiguação, no combate a esses desvios, desmandos, corrupção. Não houve em nenhum dos nossos governos a coisa de colocar para baixo do tapete.

O senhor quer dizer que a corrupção sempre existiu, mas não era investigada? Mas o avanço sobre a Petrobras é novidade.

Mas a Petrobras tinha interesses privados com articulações internas buscando se aproveitar da sua importância desde a sua inauguração, desde o tempo do Getúlio Vargas. Li um livro do Daniel Krieger (ex-senador da Arena) que fala em compra de votos na época do regime militar.

Quando vai a eventos do PT, o senhor é sempre um dos mais aplaudidos, mas na cúpula não tem o mesmo trânsito.

Não, não. O que às vezes expresso e escrevo não sai muito nos boletins dos parlamentares, porque aí são outras ideias, mesmo que parecidas, mas não as minhas, da forma como digo. Existe vida embaixo, na base. E tem possibilidades de retomada das coisas que justificaram e continuam justificando a existência de um partido como o Partido dos Trabalhadores, que vivia de pequenas contribuições. No final da década de 70, milhares de pessoas se envolveram de coração em um processo assim porque estavam protagonizando, não estavam sendo arrebanhadas por esse ou aquele favor. Depois, com a coisa de o PT estar no poder, de ter cargos para distribuir, teve gente que não tinha espaço em outros partidos para concorrer e encontrou no PT. E não eram petistas! A Marta Suplicy era uma figura da alta sociedade paulista, não tinha nada a ver com o PT. Já o Eduardo Suplicy era da mesma elite, mas se entregou àquilo. Até hoje, é uma figura interessante.

Se eleito senador, estaria desconfortável por precisar defender o ajuste fiscal?

Se tivesse sido eleito estaria lá com toda a gana e toda a disposição de levar adiante o projeto e o programa vitoriosos nas eleições. Enquanto membro da bancada de um partido que está no governo, estaria defendendo a execução do programa aprovado nas urnas.

Mas o que está sendo aplicado não tem nada a ver com o que a presidente disse na campanha.

Eu não aceitaria arriar as bandeiras estratégicas do partido. Viveria sim uma contradição. Mas é importante viver intensamente as contradições de um projeto de uma sociedade de justiça, igualdade e fraternidade em um mundo de desigualdade, de concentração de renda. O que não pode é justificar as coisas pelo pragmatismo. Às vezes, é melhor ser derrotado em alguma proposta, mantida a sua visão estratégica, do que perder porque desnaturou a proposta original. Algumas derrotas ensinam mais do que vitórias. O caminho do PT não é se preparar para ganhar as próximas eleições em todos os níveis.

Teria que hibernar um pouco?

Teria. Que bom que se possa ganhar as eleições, mas com um projeto ligado à identidade do partido, à visão de mundo articulada nas relações sociais, populares, na vida democrática. Que ganhe pela forma como expressou, com franqueza, essas ideias. Mas ganhar e ter de compor com forças antagônicas, que disputaram outro projeto, em vez de avançar, é aceitar ser puxado para baixo.

Como não cair em tentação no poder?

A pressão de baixo para cima nos mandatos é fundamental e precisa ser permanente, porque pressão de cima para baixo tem todos os dias. Os grupos de interesse chovem como um bando de moscas quando alguém se elege. Estão lá, grupos de interesse, lobistas, às vezes para convidar para uma festa, alguma coisa que vai criando um ambiente e tal. A luta no parlamento exige das pessoas que têm compromissos com as lutas sociais uma capacidade de levar essa luta sem se deixar engolir por esse processo. Você vive em um mundo de injustiça, de desigualdade, concentração de renda, de roubalheira. E se não quer esse mundo, então você vive uma contradição entre a sua ideia, o seu sonho, a sua utopia e a realidade que precisa transformar.

O senhor governou o RS em um momento de crise semelhante ao atual e propôs o que chamava de “mudança da matriz tributária”, que aumentava alguns impostos e diminuía outros. Se essa mudança tivesse sido aprovada à época, a situação hoje seria diferente?

Poderia ter ajudado sim, muito, entre outras coisas. Mas acho que a estrutura tributária do país, União, Estados e municípios, é distorcida, está de ponta-cabeça. Na verdade, quem tem mais paga menos, e quem tem menos paga mais. Os grupos poderosos têm vantagens tributárias, aliás, obtidas em lei nos legislativos.

Tem algo que o senhor faria diferente hoje?

Certamente teria, mas nas fundamentais não tenho nenhuma... Não me sinto mal pelas questões estruturantes que decidimos no governo. Evidente que a experiência te clareia muitas coisas, como fazer a máquina pública funcionar mesmo, em uma engrenagem que não tranque aqui, não pare ali, que funcione não para si, mas para o conjunto da sociedade, que valorize os funcionários de carreira. O Estado não tem que ser diminuído nas suas funções básicas, mas tem de funcionar bem e melhor. Para isso, tem que ampliar o controle público.

O seu governo sempre foi muito criticado porque, segundo seus adversários, afugentou investimentos a partir do episódio da desistência da Ford.

Primeiro que não é correto ter essa visão estreita. Quem perdeu foi a Ford. Se tivesse negociado, como fez a General Motors (montadora que tem unidade em Gravataí) e outros, estariam aqui. O custo seria menor para o Estado, e eles não perderiam. Mas tenho também uma visão: qual é o desenvolvimento que queremos? É o desenvolvimento concentrado em determinado setor, determinada região? Como articular isso sem favorecer esse setor, sem esvaziar uma região em favor de outra? Essa é a grande questão, trabalhar de forma que o desenvolvimento seja parelho, espraiado, valorizando vocações, a micro, a pequena, a média empresa, o empreendedor regional, local. Evidentemente que recebemos críticas e enfrentamos uma oposição dura, porque, enfim, era uma cultura nova que tinha de ser firmada e debatida, mas naquele período o Estado se desenvolveu acima da média nacional, com geração de emprego, elevação da renda, desconcentração do desenvolvimento. Atraímos investimentos importantes, mas em outras condições que não aquelas com tamanho custo para o erário que não tinha dinheiro nem para pagar em dia o funcionalismo.

A cada eleição, o senhor é pressionado pelo PT a concorrer. Existe alguma possibilidade de o senhor aceitar disputar a prefeitura de Porto Alegre em 2016?

Não sou e nunca fui candidato a isso e aquilo por disposição, por querer e tal, mas também não sou pau de arrasto, que se me puxar eu vou. A minha posição é de que a política se faz com ou sem mandato. Já tenho 74 anos, nunca fugi da raia, da defesa de ideias, de um projeto que justificou a existência do PT e que pode ser debulhado em programas de governos nos três níveis do Executivo e do Legislativo, tudo muito bem. Posso e estou militando, fazendo política sem aspirar a mandato nenhum. Também acho que não é correto internamente no partido, alguns setores, até essa direção que tem maioria, achar que Lula vai salvar o PT sendo candidato na próxima eleição. Acho que não é por aí. Se o partido depender de uma pessoa, é sinal de que muita coisa se perdeu no caminho e precisa ser recuperada de baixo para cima. Até sou um pouco mais velho que o Lula e ele já está se sentindo velho.

O senhor acha que Lula não deveria concorrer na eleição presidencial de 2018?

Acho que ele tem de estar no meio do redemoinho, como sempre esteve, mas não necessariamente como candidato.

Duvivier: nos países em que você lava a própria privada, ninguém mata por uma bicicleta

Sanguessugado do DCM

De sua coluna na Folha:

Cara elite,
sei que não é fácil ser você. Nasci de você, cresci com você, estudei com você, trabalho com você. Resumindo: sou você. (Vou fazer uma camisa: “Je suis elite”). Sei que você (a gente) quer o bem do país.

Sei que era por bem que você não queria abolir a escravidão. “Se a gente tiver que pagar pelo serviço que os negros faziam de graça, o país vai quebrar.” Você não queria que o Brasil quebrasse. Você não precisava ficar nervoso: o Brasil não quebrou.

Sei que era por bem que você pediu um golpe em 64. Você tinha medo do Jango, tinha medo da reforma agrária, tinha medo da União Soviética. Sei que depois você se arrependeu, quando os generais começaram a matar seus filhos. Mas já era tarde.

Sei que você achou que o Collor era honesto. Sei que você achou (acha?) que o Lula é um braço das Farc, que é um braço do Foro de São Paulo, que é um braço do Fidel, que é um braço da Coreia do Norte. Sei que você ainda tem medo de um golpe comunista -mesmo com Joaquim Levy no Ministério da Fazenda. Sei que você tem medo. E o seu medo faz sentido.

Não é fácil ser assaltado todo dia. Dá um ódio muito profundo (digo por experiência própria). A gente comprou um iPhone 6 com o suor do nosso rosto -e pagou muitos impostos. Sei que nessas horas dá uma vontade enorme de morar fora.

Você sabe que lá fora você pode abrir seu laptop na praça, pode deixar a porta aberta, a bicicleta sem cadeado. Mas lá fora, não esqueça, é você quem limpa a sua privada. Você já relacionou as duas coisas?

Nos países em que você lava a própria privada, ninguém mata por uma bicicleta. Nos países em que uma parte da população vive para lavar a privada de outra parte da população, a parte que tem sua privada lavada por outrem não pode abrir o laptop no metrô (quem disse isso foi o Daniel Duclos).

Não adianta intervenção militar, não adianta blindar todos os carros, não adianta reduzir a maioridade penal (SPOILER: isso nunca adiantou em lugar nenhum do mundo).

Sabe por que os milionários americanos doam tanto dinheiro? Não é por empatia pelos mais pobres. Tampouco tem a ver só com isenção fiscal. Doam porque sabem que, quanto mais gente rica no mundo, mais gente consumindo e menos gente esfaqueando por bens de consumo.

Um pobre menos pobre rende mais dinheiro para você e mais tranquilidade nos passeios de bicicleta. A gente quer o seu (o nosso) bem. É melhor ser a elite de um país rico do que a de um país pobre.

Grécia, não pisque!

Sanguessugado do redecastorphoto

 

 Alex Andreou, By Line

Do Not Blink, Greece

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O Jogo da Franga [1], que vem sendo jogado pelos últimos cinco anos na Grécia, está chegando ao clímax. Alexis Tsipras jogou extremamente bem com cartas péssimas, apesar do que dizem e escrevem os teóricos do apocalipse-já.

Alexis Tsipras em 25/1/2015

O Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, pareceu surpreender o mundo ontem, quando anunciou que oferecerá um referendum ao povo grego sobre o acordo sobre a dívida do país que a UE/FMI apresentaram. Que o povo grego decidirá o que quer. Deixou claro que a proposta das instituições não o agrada, que é proposta “inaceitável” e “humilhante” que deve ser rejeitada.

Partidos da oposição grega rapidamente condenaram o movimento do governo. São as mesmas pessoas que há semanas criticam Tsipras por aceitar excessivas demandas das instituições credoras e por estar andando na direção de um acordo que, para aqueles partidos, é terrível.

Mas comentaristas internacionais observaram que as discussões no Eurogrupo, de fato, estão continuando hoje, e que a “equipe grega” repentinamente viu-se com meios para tirar um grande ás da manga, que ninguém imaginou que ainda existisse.

Onde está a verdade?

Como sempre, está no meio, entre essas duas posições. No início do ano, escrevi que a União Europeia e especialmente o FMI estavam em processo de superdistensão. Para que a doutrina do choque funcione, é preciso que haja uma maioria com algo a perder. Pode-se alcançar um ponto de inflexão e, me parece, pode estar na Grécia, onde a grande maioria das pessoas zomba de ameaças como “controles de capitais” e poupanças confiscadas. É simples de entender, porque já ninguém na Grécia tem nem capitais nem poupanças. Quando isso acontece, a reação de uma nação contra a humilhação pode ser imprevisível.

É verdade que o referendo deixa o povo grego ante a escolha entre dois tipos de miséria extrema. Será miséria imposta de fora para dentro, ou miséria de tipo em que o miserável guarda ainda, pelo menos, a autodeterminação?

Mas é imensamente injusto sugerir que essa seria posição à qual só o Syriza nos arrastou. Essa é a posição à qual nos arrastaram 40 anos de corrupção e governos incompetentes e cinco anos de hegemonia economicamente analfabeta do FMI.

Ante a visão de um abismo todos os dias mais e mais profundo de arrocho [não é “austeridade”; é ARROCHO], de morte pelos mil cortes, Tsipras optou por agir como catalisador, e empurrar as coisas para uma decisão rápida.

Não há para mim dúvida alguma de que, daqui a 20 anos, a Grécia ainda existirá e, muito provavelmente, estará tranquila e próspera. Não digo isso por causa de glórias passadas, nem dos argumentos tipo “berço da democracia”. Abomino nacionalismos romantizados. Tudo aquilo é passado dos gregos. Prefiro olhar para nosso presente. E vejo a solidariedade dos movimentos de base, que surgiram e cresceram para garantir atendimento à saúde de gente que já não pode pagar por serviços médicos; ou abrigo para os milhares de refugiados sírios que chegam todos os dias à Grécia por nossas fronteiras. Vejo as fábricas e restaurantes criados como cooperativas, que nasceram para oferecer empregos a quem muito precisava deles. Vejo como as famílias cerraram fileiras e como o tecido da sociedade grega mantém-se relativamente firme e coeso, depois de cinco anos de massacre. Essas realizações são a razão de eu ter esperanças sobre o futuro – não a história antiga.

A verdadeira questão é: a União Europeia sobreviverá? Depende de como lidem com a situação nos próximos poucos dias. Os gregos não estão sós entre povos cada dia mais desconfortáveis com a microgestão de corpos supranacionais não eleitos. É hora de a União Europeia redefinir-se ou como organização que ativamente busque um equilíbrio entre integração e soberania ou como quem quer chegar à federalização custe o que custar, mesmo sob risco de se autodestruir.

Tem havido muita conversa sobre o governo grego ter abdicado da própria responsabilidade. Minha visão é outra. A missão que foi entregue a Tsipras em janeiro sempre foi extremamente difícil, desde o início: o povo grego queria:

(a) o fim do arrocho [não é austeridade; é ARROCHO]; e

(b) continuar conectado à órbita do euro.

Sempre houve um risco, dependendo de o quanto fosse rígida a posição de nossos credores, que esses dois objetivos fossem completamente incompatíveis. Tsipras é líder absolutamente coerente e honesto, quando diz:

O que se vê é que, por mais que nos esforcemos, não conseguimos fazer as duas coisas (a) e (b) acima. Por isso, voltamos às bases para novas consultas.

É extraordinário o quanto nos tornamos todos adversários da democracia. A ponto de já ninguém ver quando um líder honesto e densamente democrático resiste contra vender o país em troca de continuar no poder. Parem. Respirem. Deixem que seus olhos se ajustem à luz inesperada. Tsipras é o que todos os líderes democráticos deveriam realmente ser. Mas nos habituamos de tal modo a ver as coisas pelo prisma vicioso da esperteza, da manobra política contra a democracia e a favor dos interesses de um ou outro governante, que a própria democracia já foi contaminada e aparece deformada.

Não sei que resposta o povo dará ao referendum, se se concretizar. Mas não entendo a histeria de que a oposição foi tomada, ante a simples possibilidade de haver um referendo. Mas, se você está histérico ante a ideia do referendo, ora bolas, vote “Sim” e convença outros a votar “Sim”. Esse é o poder que Tsipras devolveu também à oposição.

O que eu sei é que a questão de se exigimos para nós nossa autodeterminação como nação, ou se estamos felicíssimos como estamos é questão que diz respeito a nós.

Estamos satisfeitos com o que temos hoje, governados, de fato, por gente que jamais foi eleita, que nada conhece nem nada tem a ver com a Grécia, mas se sente com direito de determinar o valor do Imposto sobre Valor Agregado do nosso leite e do nosso pão?

É hora de responder SIM ou NÃO.

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Nota dos tradutores

Orig. chicken game, lit. “jogo da galinha”, tradução literal da expressão em inglês, que não faz sentido em português. Em port. do Brasil, a melhor tradução nos parece ser “Jogo da Franga”, que aqui adotamos.

[*] Alex Andreou abandonou uma promissora carreira - para desgosto de sua mãe - na lei e na investigação de mercado, para trabalhar como ator na London’s Poor School com a tenra idade de 38 anos. Desde então atuou, principalmente, com pessoas muito desagradáveis no palco, incluindo National Theatre, Southbank, Royal Manchester Exchange, Theatre Royal Strateford East e festivais britânicos e internacionais. Já apareceu em vários filmes e teve sua estréia na Direção com Mamet's Boston Marriage at the Pacific Playhouse. Tem ensinado Shakespeare e Direção na London’s Poor School.

Com o seu “chapéu de escritor”, contribui com The Guardian, New Statesman, e muitas outras publicações britânicas e gregas. Também escreve para a BBC Radio 4. Seu primeiro livro será publicado ainda em 2015. Alex tem estudado os “sem-teto” tornando-se militante com conhecimento profundo da pobreza, comentarista político e defensor dos direitos dos migrantes. É palestrante em várias instituições britânicas e gregas.

Miriam e Sardenberg: é mentira que eles tentam te manipular

GilsonSampaio

Grécia assusta o mundo. Bolsas despencam por causa da Grécia. Grécia é o apocalipse.

São mantras repetidas ad nauseum pela mídia corrupta em defesa da canalha bancária e rentistas.

Um pequeno exemplo de 2011 pode ser visto no vídeo, a patética blindagem da canalha bancária por dois dos mais famosos vassalos. À época o esforço era para não criar 'mau humor' do mercado.

A Operação Lava-Jato, a defesa nacional, a contra-informação e a espionagem

Via Jornal do Brasil

Mauro Santayana

Em suas críticas ao tamanho do Estado e na defesa da privatização a qualquer preço, os neoliberais tupiniquins se esforçam por defender a tese de que o poder de algumas das maiores nações do mundo “ocidental”, os EUA à frente, teria como único, principal esteio, o capitalismo, a livre iniciativa e o livre mercado, e defendem, sempre que podem, alegando a existência de “cabides de emprego”, e o grande número de ministérios, a diminuição do setor público no Brasil.

A informação, divulgada na semana passada, de que, com três milhões e duzentos mil funcionários, o Departamento de Defesa dos EUA é o maior empregador do mundo, tendo em sua folha de pagamento, sozinho, mais colaboradores que o governo brasileiro, com todos seus 39 ministérios, mostra como essa gente tem sido pateticamente enganada, e corrobora o fato de que a tese do enxugamento do estado, tão cantada em prosa e verso por certos meios de comunicação nacionais, não é mais, do ponto de vista da estratégia das nações, do que uma fantasia que beira a embromação.

Dificilmente vai se encontrar uma nação forte, hoje - como, aliás, quase sempre ocorreu na história - que não possua também um estado poderoso, decidida e vigorosamente presente em setores estratégicos, na economia, e na prestação de serviços à população.

Enquanto em nosso país, o número total de empregados da União, estados e municípios, somados, é de 1,5% da população, na Itália ele passa de 5%, na Alemanha, proporcionalmente, de 80% a mais do que no Brasil, nos EUA, de 47% a mais e na França, também um dos países mais desenvolvidos do mundo, de 24% da população ativa, o que equivale a dizer que praticamente um a cada quatro franceses trabalha para o Setor Público.

Esses dados derrubam também a tese, tão difundida na internet, de que no Brasil se recebe pouco em serviços, comparativamente aos impostos que se  pagam. Por aqui muitos gostariam de viver como na Europa e nos Estados Unidos, mas ninguém se pergunta quantos funcionários públicos como médicos, professores, advogados, técnicos, cientistas, possuem a mais do que o estado brasileiro, os governos dos países mais desenvolvidos do mundo, para prestar esse tipo de serviços à população.

E isso, sem ter que ouvir uma saraivada de críticas a cada vez que lança um concurso, e sem ter que enfrentar campanhas quase que permanentes de defesa da precarização do trabalho e da terceirização.

Aos três milhões e duzentos mil funcionários, cerca de 1% da população norte-americana, fichados apenas no Departamento de Defesa, é preciso agregar, no esforço de fortalecimento nacional dos Estados Unidos, centenas de universidades públicas e privadas, e grandes empresas, estas, sim, privadas, ou com pequena participação estatal, que executam os principais projetos estratégicos de um país que tem o dobro da relação dívida pública-PIB do Brasil e não parece estar, historicamente, preocupado com isso.

Companhias que, quando estão correndo risco de quebra, como ocorreu na crise de 2008, recebem dezenas de bilhões de dólares e novos contratos do governo, e que possuem legalmente, em sua folha de pagamento, “lobistas”, que defendem seus interesses junto à Casa Branca e ao Congresso, que, se estivessem no Brasil, já teriam sido, neste momento, provavelmente presos como “operadores”, por mera suspeição, mesmo sem a apresentação de provas concretas.

Da estratégia de fortalecimento nacional dos principais países do mundo, principalmente os ocidentais, faz parte a tática de enfraquecimento e desestruturação do Estado em países, que, como o Brasil, eles estão determinados a continuar mantendo total ou parcialmente sob seu controle.

Como mostra o tamanho do setor público na Alemanha, na França, nos Estados Unidos, por lá se sabe que, quanto mais poderoso for o Estado em um potencial concorrente, mais forte e preparado estará esse país para disputar um lugar ao sol com as nações mais importantes em um mundo cada vez mais complexo e competitivo.

Daí porque a profusão de organizações, fundações, “conferencistas”, “analistas” "comentaristas", direta e indiretamente pagos pelos EUA, muitos deles ligados a braços do próprio Departamento de Defesa, como a CIA, e a aliança entre esses “conferencistas”, “analistas”, “filósofos”, “especialistas”, principescos sociólogos - vide o livro “Quem pagou a conta? A CIA na Guerra Fria da Cultura”, da jornalista inglesa Frances Stonor Saunders - etc, com a imprensa conservadora de muitos países do mundo, e mais especialmente da América Latina, na monolítica e apaixonada defesa do “estado mínimo”, praticada como recurso para o discurso político, mas também por pilantras a serviço de interesses externos, e por ignorantes e inocentes úteis.

Em matéria de capa para a Revista Rolling Stone, no final da década de 1970, Carl Bernstein, o famoso repórter do Washington Post, responsável pela divulgação e cobertura do Caso Watergate, que derrubou o Presidente Richard Nixon, mostrou, apresentando os principais nomes, como centenas de jornalistas norte-americanos foram recrutados pela CIA, durante anos, a fim de agir no exterior como espiões, na coleta de informações, ou para produzir e publicar matérias de interesse do governo dos Estados Unidos.

Muitos deles estavam ligados a grandes companhias, jornais e agências internacionais, como a Time Life, a CBS, a NBC, a UPI, a Reuters, a Associated Press, a Hearst Newspapers, e a publicações como o New York Times, a Newsweek e o Miami Herald, marcas que em muitos casos estão presentes diretamente no Brasil, por meio de tv a cabo, ou têm seu conteúdo amplamente reproduzido, quando não incensado e reverenciado, por alguns dos maiores grupos de comunicação nacionais.

Assim como a CIA influenciou e continua influenciando a imprensa norte-americana dentro e fora do território dos Estados Unidos, ela, como outras organizações oficiais e paraoficiais norte-americanas, também treina, orienta e subsidia centenas de veículos, universidades, estudantes, repórteres, em todo o mundo, em um programa que vem desde antes da Guerra Fria, e que nunca foi oficialmente interrompido.

O próprio Departamento de Defesa, o Departamento de Estado, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, USAID, o Fundo Nacional para a Democracia, NED, o Conselho Superior de Radiodifusão, BBG, e o Instituto dos EUA para a Paz, USIP, bancam atividades de “desenvolvimento de meios” em mais de 70 países, em programas que mantêm centenas de fundações, ONGs estrangeiras, jornalistas, meios de informação, institutos de “melhoramento” profissional, e escolas de jornalismo, com um investimento anual que pode chegar a bilhões de dólares.

Além deles, são usados, pelo Departamento de Estado, o Bureau de Assuntos Educacionais e Culturais, (Bureau of Educational and Cultural Affairs, BECA), o Bureau de Inteligência e Investigação, (Bureau of Intelligence and Research, INR) e o Bureau de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (Bureau of Democracy, Human Rights, and Labor, DRL), que apenas no ano de 2006 organizou, na Bolívia, por exemplo, 15 diferentes “oficinas” sobre “liberdade de imprensa e expressão”, além do Escritório de Diplomacia e Assuntos Públicos (Office of Public Diplomacy and Public Affaires, OPDPA).

“O que nós estamos ensinando - explica Paul Koscak, porta-voz da USAID - é a mecânica do jornalismo, na imprensa escrita, no rádio ou na televisão. Como fazer uma história, como escrever de forma equilibrada … tudo o que se espera de um verdadeiro profissional de imprensa.”

Isabel MacDonald, diretora de comunicação da Fairness And Accuracy in Reporting (FAIR) - Imparcialidade e Transparência na Informação - um observatório de meios de comunicação de Nova Iorque sem fins lucrativos, não tem, no entanto, a mesma opinião.

Para ela, “esse tipo de operação do governo norte-americano, a despeito de sua alegada defesa das normas da objetividade, trabalha, na verdade, contra a democracia, apoiando a dissensão sufocante, e divulgando informações deliberadamente falsas que são úteis para os objetivos da política exterior dos Estados Unidos.’

Um exemplo clásssico desse tipo de resultado, quanto aos objetivos norte-americanos, foi o envolvimento de Washington, denunciado pela comissão legislativa Church-Pike, no Congresso dos EUA, com o financiamento a jornais de oposição na América Latina, como o grupo “El Mercúrio” do Chile, por exemplo, na conspiração que levou ao golpe militar contra o presidente eleito de orientação nacionalista Salvador Allende, em 1973.

Em abril de 2015, a Associação dos Jornalistas Chilenos decidiu expulsar de seus quadros o dono do Grupo El Mercúrio, Agustín Edwards Eastman, de 87 anos, por violação do código de ética, depois que documentos oficiais revelados nos Estados Unidos mostraram, em 2014, que ele havia recebido dinheiro da CIA para publicar informações falsas contra o governo chileno.

A diferença entre os Estados Unidos, que se dizem “liberais” e “privatistas”, e na verdade não o são, e o Brasil, que cede a todo tipo de pressão, na tentativa de provar, todos os dias, que não é comunista nem estatizante, é que, mesmo quando envolvidas com corrupção - considerada uma espécie de “dano colateral” que deve ser “contornado” e “absorvido”, no contexto do objetivo maior, de permanente fortalecimento do complexo-industrial militar dos EUA - a existência das principais empresas de defesa norte-americanas nunca é colocada em risco.

Apenas como exemplo, a Lockheed Martin, uma das principais companhias de aviação e de defesa dos EUA, pagou, como lembrou André Motta Araújo no Jornal GGN outro dia, entre as décadas de 1950 e 1970, mais de 300 milhões de dólares, ou 3.7 bilhões de dólares em dinheiro de hoje, de propina para autoridades estrangeiras, entre elas - para quem acha que isso só acontece em paises “sub-desenvolvidos” - o então Ministro da Defesa da Alemanha Ocidental, Franz Joseph Strauss, os ministros Luigi Gul, e Maria Tanassi, o Primeiro-Ministro Mariano Rumor e o Presidente da República Italiana, Giovanni Leone, o general Minoru Genda e o Primeiro-Ministro japonês Kakuei Tanaka, e até o príncipe Bernhard, marido da Rainha Juliana, da Holanda.

E alguém acha que a Lockheed foi destruída por isso ? Como também informa Motta Araújo, seus principais dirigentes renunciaram alguns anos depois, e o governo norte-americano, no lugar de multar a empresa, lhe fez generoso empréstimo para que ela fizesse frente, em melhores condições, aos eventuais efeitos do escândalo sobre os seus negócios.

A Lockheed, conclui André Motta Araújo em seu texto, vale hoje 68 bilhões de dólares, e continua trabalhando normalmente, atendendo a enormes contratos, com o poderoso setor de defesa norte-americano.

Enquanto isso, no Brasil, os dirigentes de nossas principais empresas nacionais de defesa, constituídas, nesses termos, segundo a Estratégia Nacional de Defesa, em 2006, para, com sede no Brasil e capital votante majoritariamente nacional, fazer frente à crescente, quase total desnacionalização da indústria bélica, e gerir alguns dos mais importantes programas militares da história nacional, que incluem novos mísseis ar-ar, satélites e submarinos, entre eles nosso primeiro submersível atômico, encontram-se, quase todos, na cadeia.

O Grupo Odebrecht, o Grupo Andrade Gutierrez, o OAS e o Queiroz Galvão têm, todos, relevante participação na indústria bélica e são os mais importantes agentes empresariais brasileiros da Estratégia Nacional de Defesa. Essas empresas entraram para o setor há alguns anos, não por ter algum privilégio no governo, mas simplesmente porque se encontravam, assim como a Mendes Júnior, entre os maiores grupos de engenharia do Brasil, ao qual têm prestado relevantes serviços, desde a época do regime militar e até mesmo antes, não apenas para a União, mas também para estados e municípios, muitos deles governados pela oposição, a quem também doaram e doam recursos para campanhas políticas de partidos e candidatos.

Responsáveis por dezenas de milhares de empregos no Brasil e no exterior, muitos desses grupos já estão enfrentando, depois do início da Operação Lava-Jato, gravíssimos problemas de mercado, tendo tido, para gaúdio de seus concorrentes externos, suas notas rebaixadas por agências internacionais de crédito.

Projetos gigantescos, tocados por essas empresas no exterior, sem financiamento do BNDES, mas com financiamento de bancos internacionais que sempre confiaram nelas, como o gasoduto do Perú, por exemplo, de quase 5 bilhões de dólares, ou a linha 2 do metrô do Panamá, que poderiam gerar centenas de milhões de dólares em exportação de produtos e serviços pelo Brasil, correm risco de ser suspensos, sem falar nas numerosas obras que estão sendo tocadas dentro do país.

Prisões provocadas, em alguns casos, por declarações de bandidos, que podem ser tão mentirosas quanto interesseiras ou manipuladas, que por sua vez, são usadas para justificar o uso do Domínio do Fato - cuja utilização como é feita no Brasil já foi criticada jurídica e moralmente pelo seu criador, o jurista alemão Claus Roxin - às quais se somam a mera multiplicação aritmética de supostos desvios, pelo número de contratos, sem nenhuma investigação, caso a caso, que os comprove, inequivocamente, e por suposições subjetivas, pseudo-premonitórias, a propósito da possível participação dessas empresas em um pacote de concessão de projetos de infra-estrutura que ainda está sendo planejado e não começou, de fato, sequer a ser oficialmente oficialmente estruturado.

O caso Lockheed, o caso Siemens, e mais recentemente, o do HSBC, em que o governo suiço multou esse banco com uma quantia mínima frente à proporção do escândalo que o envolve, nos mostram que a aplicação da justiça, lá fora, não se faz a ferro e fogo, e que ela exige bom senso para não errar na dose, matando o paciente junto com a doença.

Mais uma vez, é necessário lembrar, é preciso combater a corrupção, mas sem arrebentar com a Nação, e com alguns dos principais pilares que sustentam nossa estratégia de desenvolvimento nacional e de projeção nos mercados internacionais.

No futuro, quando se observar a história do Brasil deste período, ao tremendo prejuízo econômico gerado por determinados aspectos da Operação Lava-Jato,  mutíssimo maior que o dinheiro efetivamente, comprovadamente, desviado da Petrobras até agora, terá de ser somado incalculável prejuízo estratégico para a defesa do país e para a nossa indústria bélica, que, assim como a indústria naval, se encontrava a duras penas em processo de soerguimento, depois de décadas de estagnação e descalabro.

No Exército, na Marinha, na Força Aérea, muitos oficiais - principalmente aqueles ligados a projetos que estão em andamento, na área de blindados, fuzis de assalto, aviação, radares, navios, satélites, caças, mísseis, submarinos, com bilhões de reais investidos - já se perguntam o que irá acontecer com a Estratégia Nacional de Defesa, caso as empresas que representam o Brasil nas joint-ventures empresariais e tecnológicas existentes vierem a quebrar ou a deixar de existir.

Vamos fazer uma estatal para a fabricação de armamento, que herde suas participações, hipótese que certamente seria destroçada por violenta campanha antinacional, levada a cabo pelos privatistas e entreguistas de sempre, com o apoio da imprensa estrangeira e de seus simpatizantes locais, com a desculpa de que não se pode “inchar”” ainda mais um estado que na verdade está sub-dimensionado para as necessidades e os desafios brasileiros?

Ou vamos simplesmente entregar essas empresas, de mão beijada, aos sócios estrangeiros, com a justificativa de que os projetos não podem ser interrompidos, perdendo o controle e o direito de decidir sobre nossos programas de defesa, em mais um capítulo de vergonhoso recuo e criminosa capitulação?

Com a palavra, o STF, o Ministério da Defesa, e a consciência da Nação, incluindo a dos patriotas que militam, discreta e judiciosamente, de forma serena, honrosa e equilibrada, no Judiciário e no Ministério Público.

Só um idiota para acreditar no ‘escândalo’ da UTC

Sanguessugado do DCM

Paulo Nogueira

Doou para Aécio por causa dos belos dentes branqueados

Doou para Aécio por causa dos belos dentes branqueados

Somos todos idiotas.

É, pelo menos, o que a grande mídia pensa.

O ridículo estardalhaço em torno das alardeadas revelações do dono da UTC ultrapassa todos os limites do descaro, da hipocrisia e da desonestidade.

Colunistas – os suspeitos de sempre –parecem fingir que acreditam nos disparates que escrevem.

Mais uma, o coro é pelo impeachment de Dilma. Dia sim, dia não, aparecem supostas novidades que levam os colunistas das empresas de mídia a gritar, histéricos, pelo fim de um governo eleito há pouco tempo com 54 milhões de votos.

O caso particular do UTC é icônico.

Todos os holofotes vão, condenatórios, para Dilma e para o PT, pelo dinheiro dado para a campanha petista.

Foram, segundo cálculos de um site ligado à Transparência Brasil, 7,5 milhões de reais.

Não é doação: é achacamento, propina, roubo.

Ninguém diz que a campanha de Aécio levou ainda mais da UTC: 8,7 milhões.

Neste caso, não é propina, não é achaque, não é roubo. É demonstração de afeto e reconhecimento pelos dentes brancos do candidato Aécio.

E eles querem que a sociedade acredite nesse tipo de embuste.

A mídia presta mais um enorme desserviço ao Brasil com essa manipulação grosseira e farisaica.

Você foge do real problema: o financiamento privado de campanhas, a forma como a plutocracia tomou de assalto a democracia.

É um problema mundial, e não apenas brasileiro. Dezenas de países já trataram de evitar que doações de grandes empresas desvirtuem a voz rouca das ruas e das urnas.

No Brasil, a mídia não trata desse assunto, em conluio com políticos atrasados e guiados pelo dinheiro, porque se beneficia da situação.

Nem o mais rematado crédulo compra a história de que as doações empresariais são desinteressadas.

A conta vem depois do resultado, na forma de obras ou leis que beneficiam os doadores.

Veja os projetos de Eduardo Cunha, para ficar num caso clássico, e depois observe as companhias que o têm patrocinado.

Em alguma publicação, li até uma lição de moral na forma como o PT teria abordado o dono da UTC para pedir dinheiro para a campanha de Dilma.

A abordagem não teria sido “elegante”.

Imagina-se que quando o PSDB solicita dinheiro seja coisa de lorde inglês, pelo que pude entender: ninguém fala em dinheiro, ninguém toca em dinheiro. É como uma reunião social, entre amigos, em que o dinheiro é a última coisa que importa.

Como disse Wellington, quem acredita nisso acredita em tudo.

Outro crime jornalístico que é cometido é dar como verdadeiras quaisquer coisas ditas nas delações, como se elas estivessem acima de suspeita.

Quer dizer, esse tratamento só vale contra o PT. Quando se trata dos amigos da mídia, aí sim entram as ressalvas. Há que investigar, provar etc – coisas que absolutamente não valem para o PT.

Que a imprensa, movida pelo interesse de seus donos, aja assim, até que você pode entender.

O que não dá para aceitar é que a justiça faça a mesma coisa, e com ela a Polícia Federal.

Porque aí você subverte, por completo, o conceito de justiça, e retrocede aos tempos de João VI no Brasil.

Sua mulher, a rainha Carlota Joaquina, mandou matar uma rival no amor.

Dom João pediu investigação rigorosa.

Quando chegaram a ele os resultados do trabalho, com Carlota Joaquina comprovadamente culpada da morte, ele refletiu, refletiu – e queimou os documentos que a incriminavam.

As 400.000 alterações da Bíblia e as suas abusivas interpretações

Sanguessugado do Opinião & Cia

José Reis Chaves (Belo Horizonte/SP)

Infelizmente, a Bíblia é uma das obras mais alteradas do mundo. Só Lutero retirou dela sete livros. E, atualmente, as suas alterações são, principalmente, para ocultar as verdades da reencarnação e do espiritismo nela encontradas com uma clareza meridiana. O americano Bart D. Ehrman, o maior biblista do mundo atual, diz, em “O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse?”, que ela tem cerca de 400.000 alterações, Prestígio Editora, Rio, (RJ), com selo da Ediouro Publicações. Acredite nesses adulteradores quem quiser! E nada ficará oculto! (Mateus 10: 26).
Jesus ensinou que, para chegarmos ao reino de Deus, nós temos que nascer “de novo” da água e do espírito (João 3: 3). Nascer “de novo” do espírito é mudança de vida para melhor ou evolução. E nascer “de novo” da água (líquido amniótico) é reencarnar. E o excelso Mestre até fez questão de reforçar a sua tese reencarnacionista dizendo: é necessário nascer “de novo” da carne, ou seja, nascer “de novo” dos pais. Ora, isso é “ipsis verbis” e “ipsis litteris” reencarnação. A prova disso é que os tradutores estão mudando a tradução da expressão “anothen” (“de novo”) para a “do Alto”, para ocultar a ideia da reencarnação. E isso porque os adversários dela estão assustados com o fato de, hoje, ¾ da população do mundo a aceitam, e, ainda, com o aval da Ciência não materialista! E por que, só agora, depois de 1.900 anos, querem mudar a tradução de “Anothen” (“de novo”) para a “do alto”? Isso demonstra o seu desespero para ocultarem a reencarnação.
Também porque nossos irmãos pastores evangélicos que, em sua maioria, não sabem hebraico, grego e latim, e, consequentemente, não têm um melhor conhecimento da Bíblia, interpretam-na erradamente para seus fiéis.
Assim, como se não bastassem as cerca 400.000 alterações da Bíblia, eles ensinam aos seus fiéis as mais absurdas interpretações dela, o que gera grandes confusões doutrinárias entre eles, levando-os a mudarem de igreja, a todo instante, como se muda de roupa!
E os maiores adulteradores da Bíblia não são, pois, os seus tradutores, mas seus intérpretes. Realmente, há líderes religiosos que abusam escandalosa e desesperadamente das interpretações bíblicas, colocando-as absurdamente como contrárias à reencarnação e ao espiritismo, com medo de seus fiéis tornarem-se espíritas. E, então, inventam cada uma de arrepiar! Por exemplo, a Bíblia afirma que nós somos deuses e filhos do Altíssimo (João 10: 34; e Salmo 82: 6). Há um pastor que interpreta essas passagens assim: “A Bíblia se refere aos juízes.” Acontece que os homens que são juízes não deixam de continuar sendo deuses, e antes mesmo de serem juízes, já eram deuses como todos nós os somos!
E, de fato, esses deuses de que fala a Bíblia são mesmo os espíritos humanos ou “daimones”, que podem ser bons ou maus e que se manifestam através dos médiuns. (Números 11: 24 a 30). Ora, se Moisés condenou o contato com os espíritos (Deuteronômio capítulo 18), é porque, certo ou errado, esse contato existe mesmo!
Além disso, o próprio Jesus se comunicou com os espíritos de Moisés e Elias (Mateus 17: 3), na sessão espírita da Transfiguração!


José Reis Chaves (Belo Horizonte/SP)
estudou para padre na Congregação dos Redentoristas, é formado em Comunicação e Expressão na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. É Escritor, durante vários anos lecionou Português, Literatura, História, Geografia e Latim. É Teósofo, parapsicólogo, biblista, e ao longo de toda a sua vida, o autor vem desenvolvendo pesquisas sobre a Bíblia, as religiões e a Parapsicologia. Por último, passou a estudar o Espiritismo, Doutrina que assimilou com facilidade, tendo em vista o seu longo tempo de estudo da Bíblia, da História e da Teologia Cristãs. Aposentado, atualmente dedica-se ao trabalho de escrever e proferir palestras na área espiritualista, mas principalmente Espírita, por todo o Brasil.
É autor dos livros, entre outros: “A Reencarnação Segundo a Bíblia e a Ciência”,
“Quando chega a Verdade” e "A Face Oculta das Religiões.
e-mail: jreischaves@gmail.com

Fonte: Site Rede Amigo Espírita

http://www.redeamigoespirita.com.br/group/artigosespiritas/forum/topic/show?id=2920723:Topic:1756282&xgs=1&xg_source=msg_share_topic