quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

EUA: Sustos


David Brooks

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

La Jornada

O país mais poderoso do planeta, e da história, é também o mais temeroso e o mais inseguro..

"Os estadunidenses estão sob muito maior risco de violência por fanáticos brancos e cristãos armados do que por muçulmanos”, afirmou  o comentarista e professor de história Juan Cole, logo após uma clínica de Plenned Parenthood, no Colorado, que inclui o aborto  dentre outros serviços de saúde, foi atacada por um homem branco na sexta-feira passada. Na imagem, uma enfermeira da clínica (Foto: AP)

O país mais poderoso do planeta e da história é também o mais temeroso e inseguro.

 Aqui, tudo é ameaça, tudo é perigo, todos são suspeitos. E, embora os políticos e os meios costumem repetir que as ameaças provém de fora – terroristas islâmicos, narcotraficantes colombianos/venezuelanos/mexicanos, imigrantes não brancos -, a ameaça maior provém muito de dentro,  é muito estadunidense e costuma ser muito branca.


Até agora, os únicos que tem violado a Constituição, as liberdades civis e os direitos fundamentais tão elogiados em cada discursos, em cada encontro esportivo, em cada Dia de Ação de Graças e em cada momento patriótico são os políticos norte-americanos.


Como já advertiram intelectuais e sábios de eminência e grande variedade ideológica, de Noam Chomsky, Gore Vidal o economista prêmio Nobel Joseph Stiglitz e até o ex-presidente Jimmy Carter, entre muitos mais, não somente se desvaneceu isso que se chamava república, mas sim este país e suas políticas são cada vez mais parecidos a uma oligarquia.


E, como demonstravam Edward Snowden, Chelsea Manning e outros filtradores ou denunciantes, o governo secreto é mais onipresente do que se pensava, e está de olho no que cada um opina. George Orwell está presente; se estivesse vivo, estaria sob vigilância.
Alguns esquerdistas tem empregado a palavra  fascismo em tantas ocasiões no passado que ela perdeu seu significado,  ou melhor ainda, ela já é entendida como um insulto. Mas a que extremo chegou este país ao ponto de alguns conservadores agora acusam a um de seus colegas de ser fascista? Nos últimos dias, depois de Donald Trump ter proposto um cadastro nacional de muçulmanos e encurralar e expulsar os estrangeiros, dentre outras medidas  que analistas, meios e adversários tem comparado com medidas estilo nazista, alguns do seu próprio âmbito político o denunciam por ser demasiadamente extremista. “Trump é um fascista”, comentou Max Boot, analista do Conselho de Relações Exteriores e assessor do pré-candidato Marco Rubio. O assessor de segurança nacional de Jeb Bush afirmou que um cadastro nacional obrigatório de cidadãos estadunidenses baseado na opção religiosa é fascismo. Ponto.


Mas Rubio, Bush, o doutor pirado Ben Carson e os outros pré-candidatos republicanos igualmente incitam o temor e a insegurança diante de ameaças externas como parte fundamental de seus discursos.


A propósito, tudo isso tem gerado uma maior xenofobia com conseqüências cada vez mais perigosas. A intensificação do cima de ódio se traduz em ações violentas e ameaças a tudo o que pareça diferente ou estrangeiro. Imigrantes, muçulmanos, mulheres que exercem seus direitos básicos, minorias raciais (afro-descendentes e latinos, sobretudo), opositores às guerras e ambientalistas, dentre outros, agora vivem em um país onde a violência contra eles é promovida aberta e explicitamente.   

A direita tem impedido que medidas mínimas para proteger os imigrantes sejam implementadas. Uma clínica de Planned Parenthood, no Colorado, que inclui, entre outros serviços de saúde, o aborto, foi atacada por um homem branco armado na sexta-feira passada; ele matou três pessoas, dentre elas um policial, e deixou nove feridos.  Organizações muçulmanas reportam crescimento dos ataques e ameaças contra suas comunidades, e agrupações de defesa de direitos dos imigrantes se sentem cada vez mais vulneráveis, três brancos disparam contra manifestantes afro-estadunidenses que condenam a violência policial. Os exemplos são demais para serem todos contados.


“Os norte-americanos estão sob risco muito maior de violência por parte de fanáticos brancos e cristãos armados do que por parte de muçulmanos”,  afirma o comentarista e professor de história Juan Cole. Contudo, a guerra contra o mundo muçulmano é a que é promovida pelos políticos.


Depois das guerras mais longas na história do país, anuncia-se que haverá mais guerra. Mais jovens norte-americanos serão enviados para matar mais jovens, famílias, crianças, estudantes, mágicos, músicos, artistas, carpinteiros, granjeiros, jornalistas, pescadores, ou seja, todos esses personagens que as cifras oficiais das vítimas da guerra não registram,  cujos sobreviventes formam os rios humanos de refugiados. Dizem que é para salvá-los dos maus, daqueles extremistas religiosos, enquanto seu oposto, os extremistas religiosos norte-americanos, falem da mesma forma; tudo é como um filme ruim sobre as Cruzadas.  


Também há guerra para muitos aqui dentro. A violência, principalmente com armas de fogo, continua cobrando vidas a cada dia em Chicago, Baltimore, Detroit e dezenas de cidades mais. Se o exemplo é colocado pelos líderes do país, de que as balas são a resposta para enfrentar inimigos, com que autoridade moral pode se reprovar os jovens quando fazem a mesma coisa para resolver seus conflitos?


Entre essas duas guerras, a interna faz muito mais vítimas norte-americanas. Durante a guerra contra o terror (de 2001 até 2013), 406.486 pessoas morreram através de armas de fogo nos Estados Unidos. De acordo com o Departamento de Estado, nesse mesmo período morreram 350 estadunidenses em atos de terrorismo no estrangeiro. Se forem incluídos os atos de terrorismo dentro dos Estados Unidos, dentre eles o 11 de setembro, junto com todos os atentados perpetrados por terroristas domésticos brancos, o total de mortos é de 3380, segundo um cálculo da CNN.


A cada dia morrem, em média, 89 pessoas atingidas por armas de fogo neste país, segundo a Brady Campaign.


E qual a razão para ter direito a tantas armas? A resposta é obvia, segundo os donos de mais de 300 milhões de armas em mãos particulares neste país: para se protegerem diante de tantas ameaças e insegurança.


Que país mais assustado! E dá medo ver  o que isso provoca.


“A única coisa que temos que temer é o próprio temor”, a célebre frase do presidente Franklin Roosevelt em seu famoso discurso de posse em 1933, é mais atual do que nunca.




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