terça-feira, 8 de dezembro de 2015

E se Dilma adotasse como lema “Quatro anos em quatro meses”?

Sanguessugado do Sakamoto 


A única manifestação veio de Maria, antiga copeira do Planalto. Numa intervenção sincera, que ecoou pelo salão, gritou: “Afe! Agora, danou-se tudo”.

Considerando que o processo de impítima será algo um tanto quanto imprevisível, Dilma Rousseff poderia aproveitar o momento e, inspirada em JK, trocar o duvidoso lema de seu governo de “Pátria Educadora” por algo como “Quatro anos em quatro meses”.

Por favor, caro leitor, não estou sendo irônico ou fazendo piada com os sentimentos de ninguém. É só conjectura. E dado que tem um monte de colega que faz conjectura vagabunda e acha que está reescrevendo Os Lusíadas, decidi me juntar a eles.

Afinal, enquanto a arena pública vai discutir se é golpe ou não é, o capital entender se ganha mais dinheiro com o PT ou o PMDB e os economistas mensurarem o preço da compra de apoios de deputados e senadores pelo governo e pela oposição, o Brasil não deveria ficar parado.

Até porque os próximos meses serão um filme de George Romero, com zumbis, voluntários ou pagos, pedindo sangue e carne fresca nas redes sociais.

E se, diante de toda a perspectiva de impítima, Dilma apertasse a tecla “foda-se” e, deixando de lado o estelionato eleitoral do ano passado, finalmente fizesse um governo, nem que seja por quatro meses, do qual a esquerda tivesse orgulho e pelo qual realmente valesse a pena lutar?

É claro que qualquer presidente depende do Legislativo e do Judiciário para poder governar. Mas há medidas que podem começar pelo Executivo, jogando a batata quente do conservadorismo tacanho para a mão dos outros poderes. Além de tantas outras que dependem apenas de vontade política, desde que esteja desgarrada do fisiologismo da governabilidade.

Esse novo governo poderia dar em nada, ser chamado de “João Goulart – O Retorno”. Mas terá sido épico. Feito a cena em que Scarlett O’Hara diz que jamais sentirá fome novamente.

Um tempo atrás imaginei como seria esse dia em que isso aconteceria: Dilma, depois de se trancar em seu gabinete por dias, convocou uma coletiva à imprensa para apresentar o que ela chamou de seu “derradeiro PowerPoint”.

Em uma calma nunca antes vista na história deste país e sem gaguejar ou falar de cachorros, crianças e figuras ocultas ou estocagem de vento, explicou que os planos haviam mudado. E que a Carta ao Povo Brasileiro, divulgada por Lula para tranquilizar o mercado nas eleições de 2002, estava, agora, na reciclagem.

Sabendo que seu mandato poderia não durar muito mais, informou que Joaquim Levy estava demitido, baixando os juros e instaurando imediatamente uma auditoria da dívida pública brasileira.

Frente ao rosto incrédulo dos presentes, declarou que terras indígenas e quilombolas pendentes seriam demarcadas imediatamente, uma reforma agrária estrutural (e não o arremedo feito até aqui) seria realizada pra ontem, um decreto destinara, para a moradia popular, todos imóveis mantidos vazios nas grandes cidades pela especulação imobiliária e as novas hidrelétricas na Amazônia, que estão sendo tocadas ignorando as populações tradicionais, estavam congeladas. E, é claro, entregando as mutretas envolvendo o Porto de Santos.

Enquanto alguns ministros que assistiam a cerimônia passavam por um infarto agudo do miocárdio e outros emitiam gemidos que mostravam que estavam quase-lá, ela afirmou que já haviam sido enviadas para o Diário Oficial medidas provisórias para implementação de taxação de grandes fortunas e sobre grandes heranças e uma reforma política radical para incentivar a participação social e a democracia direta. Além do mais, havia ordenado a revisão de todos os contratos ilegais de concessão de rádios e TVs.

Por fim, distribuiu cópias de dossiês para a imprensa com provas de corrupção envolvendo os partidos da base aliada, incluindo PT e PMDB e suas lideranças, e os partidos de oposição, como o PSDB e o DEM. Não poupou nem a direção do Congresso Nacional, do Judiciário e das Forças Armadas. Arrematou tudo com uma longa lista de todos os empresários doadores de campanha que se beneficiaram indevidamente do governo federal desde a redemocratização.

Os jornalistas, catatônicos, não fizeram uma única pergunta. Os ministros apenas observavam, de longe, com cara de espanto. As autoridades convidadas desapareceram – de Brasília.

A única manifestação veio de Maria, antiga copeira do Planalto. Numa intervenção sincera, que ecoou pelo salão, gritou: “Afe! Agora, danou-se tudo”.


Dilma deu tchau, pegou sua bicicleta e voltou pedalando para o Alvorada.

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