quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

À sombra das panelas em flor



Flávio Aguiar.

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O mundo do churrasco logo me conduziu ao encontro de apetrechos masculinos: espetos, trempes (grelhas), facas grandes e pontudas, carvão, sal grosso. Uma das facas de minha predileção pertenceu ao meu avô paterno, que fora caixeiro viajante. Era um instrumento completo para a vida campeira. Além da ponta e do fio, tinha no lombo oposto a este uma serra, que servia, eventualmente, para cortar ossos. Além disto tinha na lâmina, perto do cabo, um furo e uma pequena ranhura no lado oposto ao do fio, combinação que servia para dobrar e cortar arames (fico pensando se não serviria para o roubo de gado e cavalos, embora saiba que meu avô não era dado a tais coisas). No lado do fio, na mesma altura, havia uma ranhura maior, da grossura de um dedo mínimo (o minguinho da minha infância, que os dicionários teimam em chamar de mindinho). Esta ranhura servia para alisar a palha de milho usada na confecção do cigarro crioulo, o palheiro. Que mais um guasca precisava no campo, além do cavalo, do laço, do poncho, da roupa do corpo, do chapéu de aba larga, e de uma arma de fogo? Convenhamos, nada.


Porém a alma mater da cozinha era a panela – nas suas variegadas formas. Já minha aproximação com a panela foi mais matizada, lenta, gradual e insegura. Como aqueles namoros do bom tempo, em que era necessário ficar muitas vezes de mãos dadas com a moça antes de beijá-la. Bom, isto quando muitas casas ainda tinham portão na frente do jardim, e que ficava aberto, ao invés da parafernália de câmeras e interfones. E também não havia guaritas e guardas financiados pelos moradores do quarteirão. O policiamento era feito pelos guardas noturnos e seus apitos longos com as noites e, de dia, pelas duplas de brigadianos (os PMs do Rio Grande do Sul), chamadas de Pedro e Paulo (no Rio, o nome era Cosme e Damião; em São Paulo não sei como era). Patrulhavam as ruas a pé, não entrincheirados em viaturas, conheciam os moradores e as crianças que, aliás, brincavam na rua – na rua! – e até tarde da noite, na primavera e no verão. O temporal, o mores!


Além de olha-las à distância – naquele reino que pertencia às mulheres, sobretudo as negras, a cozinha, minha primeira aproximação com as panelas foi literária. Lembro-me vagamente de “Dom Ratão” que, de muito curioso, “caiu na panela de feijão”, estragando o casamento de “Dona Baratinha, que tinha dinheiro na caixinha”. Depois veio o caldeirão da Bruxa da Branca de Neve, que assisti no Cine Marabá, que hoje virou uma garagem ou estacionamento para carros (ainda bem que não foi bingo nem igreja). Outros caldeirões apareceram no cinema, mas este foi o que me ficou gravado na memória, junto com o medão que eu sentia. Ah sim, me impressionou também ver a Branca de Neve lavando as panelas imundas dos anõezinhos, prova para mim, do alto dos meus seis anos de idade, de que o reino das panelas pertencia mesmo às mulheres: até princesa punha a mão na massa, quer dizer, no esfregão, na panela e no sabão.


Mas o prestígio mesmo ficou com as panelas da Tia Nastácia, do Sítio do Picapau Amarelo, do Monteiro Lobato, que li de cabo a rabo pelo menos três vezes, a primeira delas com oito anos de idade. Foi num dia em que eu fiquei muito impressionado porque assisti um filme de ficção científica (o primeiro que vi), em que um monstro marciano com forma de gente, mas meio vegetal, assombrava uma estação de pesquisadores em algum dos polos, e tinha de ser exterminado com descargas elétricas, que o consumiam em chamas e uma fumaceira enorme. À noite, eu não conseguia dormir, e minha mãe me deu as Reinações de Narizinho para ler. Não só acabei dormindo muito bem aquela noite, como não parei mais até chegar ao fim d’Os doze trabalhos de Hércules, o último livro da coleção.


Também deve ter havido outras panelas literárias na minha vida lítero-infantil, mas as indeléveis foram as da cozinheira da Dona Benta.


De todo modo, houve uma aproximação entre eu e a panela: para fazer salada de batatas para o churrasco era necessário cozinha-las primeiro, por exemplo. Também aprendi a requentar arrozes e feijões. Mas a consagração mesmo veio através, mais uma vez, do cinema.


Já burro velho e morando em São Paulo, onde tivera alguns namoricos com panelas variadas, certo dia de 1972 fui assistir O poderoso Chefão, do Coppola. Adorei o filme, adoração que permanece até hoje. Dias depois, fui almoçar na casa de um amigo. Ele preparou algo simples: um espaguete com molho de tomate e linguiça (naquele tempo este u tinha trema) e ainda regado com um copo de vinho dentro (e vários por dentro de nós). E ele me disse que tinha aprendido esta receita (que hoje considero o jardim da infância, hoje dito creche, da cozinha) no filme, no momento em que os Corleone e seus amigos estão confinados numa casa à espera do telefonema que indicará o lugar em que o Mike fará o que fará. Um dos amigos (deveria dizer capangas, mas apesar de tudo os Corleone são os mocinhos do filme e capanga é coisa de bandidos, que são os outros, o Solozzo, o policial corrupto, os outros mafiosos, etc.), retomando, um dos amigos ensina o caçula da família a preparar um prato destes, com o vinho de um garrafão, “caso um dia ele precise fazer o mesmo”.


Fiquei maravilhado. Eu vira o filme, mas não prestara atenção na receita. Fiquei tão impressionado, que fui ver o filme de novo, só para conferir a receita. E me apressei a reproduzi-la depois. Acho que foi a primeira vez que segui uma receita ao pé da letra, pelo menos.


E também foi a primeira vez em que me convenci do prestígio das panelas. A partir daí entre eu e elas foi um casamento definitivo, até que a morte nos separe.

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Na série O reino da cozinha, Flávio Aguiar fala de vida, política e outros conflitos comestíveis. Para mais churrasco, petisque as crônicas “Minha estreia na churrasqueira” e “A carreira acadêmica na churrasqueira“.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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