quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O terror em Paris é diferente do da Síria, Iraque, Palestina e Líbano?



Carlos Aznárez

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti


Outra vez Paris se transformou em um campo de batalha. Dezenas de mortos, centenas de feridos e as mesmas determinações do governo  francês diante do ataque jihadista, que já foram ouvidas nos Estados Unidos e Espanha, quando ações similares geraram idênticos massacres. Diante ao terror, se quer responder com mais terror, e fala-se nas manchetes dos principais meios, com total leviandade, de que “agora sim começou a guerra”, ou se alimenta a idéia  (de forma direta ou velada) de que o mundo árabe e muçulmano atenta contra a sacrossanta democracia francesa. E isso sabendo que a quase totalidade da coletividade repudia o ISIS e seus protetores.


Tem muitíssima razão o presidente sírio Bachar Al Assad quando, depois de apresentar as condolências pelas vítimas dos atentados, recorda  que “a França conheceu ontem o que vivemos na Síria há cinco anos”. E quem diz isso é precisamente quem em inumeráveis ocasiões tentou, como já o havia feito antes o líder líbio Kadaffi, convencer os governantes franceses para que não armassem, equipassem logisticamente e custeassem com milhões de dólares os exércitos mercenários que tem semeado o terror, a morte e o desesperado desterro de centenas de milhares de sírios e iraquianos. Em cada ocasião que essa mensagem ressoava nos fóruns internacionais, a posição francesa sempre foi a mesma: ratificar sua crença que exportando a guerra, alinhando-se com a OTAN e subordinando-se diante do mandato imperial monitorado a partir de Washington, “o problema sírio”, ou seja, a tão buscada derrubada de Al Assad iria ser resolvido. É claro que, como aconteceu com os governantes direitistas espanhóis no 11M de 2004, o tiro saiu pela culatra. Nessa ocasião, o jihadismo, que a Espanha e sua aliança com a OTAN quiseram combater através da sua presença no Iraque e no Afeganistão, decidiu responder com o mesmo remédio, e como em Paris agora, os que pagam os erros dos poderosos são os cidadãos comuns, cuja única culpa, se é que a tem, talvez seja votar e catapultar para a presidência a esses assassinos em série que logo os condenarão à morte. 



Agora, como ocorreu no mesmo cenário com o massacre de Charlie Hebdo, voltam a ser ouvidas as tão repetidas considerações hipócritas. Todos os manda-mais europeus, no seu momento, prometem mais medidas repressivas, mais censura, mais fabricação de armamentos para alimentar intervenções bélicas. Juram que “hoje somos França”, em vez de prometer ás vítimas que “Sairemos da OTAN”. Com essas e outras atitudes similares, deixam a descoberto que, juntamente com os assassinos de um jihadismo que não representa de forma alguma o Islã, eles – os Hollande, Sarkozy, Rajoy, Merkel e os que os patrocinam do Pentágono, são os principais responsáveis por essas ações bárbaras.

Eles as alimentaram perseguindo até o cansaço os muçulmanos da periferia de Paris e de diversas cidades francesas, negando-lhes o uso de recintos para fazer suas orações, ou gerando operações policiais nas mesquitas, onde era comum praticar pacificamente o direito de rezar. Estão aí, como exemplo, essas leis que proíbem, desde 2011, o uso do véu e também da saia islâmica e da burka nos espaços públicos, não obrigando da mesma maneira os cidadãos franceses que professam o judaísmo. Segregando o mundo islâmico e exibindo-o diante da sociedade francesa como “o inimigo”, da mesma forma que Israel procede com os palestinos há mais de seis décadas. 



Não é mistério para ninguém e muito menos para os desmoralizados Serviços de Inteligência da França, que muitos dos humilhados, desempregados e perseguidos por leis draconianas e racistas, e que habitam a “Banlieue” parisiense foram cooptados primeiro pela Frente Al-Nusra e em seguida diretamente pelo ISIS para que sejam parte da experiência de semear o terror na Síria e no Iraque, e o mais paradoxal é que saíram do território francês em várias ocasiões com visto positivo de um governo que os sentiu como seus “soldados de linha de frente”. Nesse momento, os massacres que esses mercenários produziam em Mossul, Raqqa, Aleppo, Homs ou em Palmyra não preocupavam Sarkozy nem tampouco Hollande. Eram “danos colaterais”, longe da comodidade parisiense, que nesse momento parecia blindada e inviolável. Tampouco disseram nada importante do sangrento atentado cometido nesta semana no Líbano, e seguramente muito festejado em Tel Aviv ou na Casa Branca, já que nessa ocasião a matança ocorria em um bairro controlado pelo Hezbolah. Nesse casso, os mortos eram tão árabes como os palestinos assassinados nestes dias na Cisjordânia ou em Gaza, cujos nomes não contam para os grandes meios, assim como a dor de seus familiares ou as imagens dantescas de suas casas arrasadas. Isso não tem mais do que um nome: dupla moral, práxis mentirosa, ódio ao que é diferente.

       
O que agora ocorreu em Paris também tem outra explicação não menos importante. Nos últimos meses, ocorreu no cenário sírio um fato que mudou a relação de forças. A Rússia decidiu intervir para resgatar um governo e uma população assediados pelo terror, e o fez à sua maneira, conseguindo êxitos imediatos na luta contra o ISIS e demonstrando que todas as ações anteriores, propagandeadas pela OTAN e pelos Estados Unidos tinham sido uma farsa gigantesca. Golpeado em suas bases principais, destruídos muitos de seus depósitos de armamentos e sentindo-se traídos pelos que os incentivaram a partir da Arábia Saudita, Turquia e dos países ocidentais, muitos dos mercenários optaram em retornar a seus locais de origem, entre eles os europeus.  Tanto é assim, que esse retorno foi antecipado por alguns analistas franceses, que asseguravam que “agora o perigo pode estar aos nossos pés”. Exatamente disso se trata essa repudiável vingança jihadista, que mais além do falso choro dos que os governam, deveria ser uma chamado urgente para que a sociedade francesa, como outras do continente europeu, se decida a interpelá-los e exigir-lhes que abandonem  suas idéias expansionistas, ingerencistas e autoritárias. Que cessem os comportamentos xenófobos, como os que, poucas horas antes de ocorrer esse atentado já provocaram um incêndio em um campo de emigrantes refugiados em Calais. Que olhem os que fogem das guerras provocadas pela OTAN como irmãos e não como inimigos. Que se voltem para comportamentos humanitários e não procurem desculpas onde somente há homens e mulheres que querem ser tratados como tais e não como cidadãos de segunda classe. Talvez essas circunstâncias marcadas pela dor possam servir de ponto de inflexão para procurar um início diferente. Se isto não acontecer, como parece provável, ninguém, absolutamente ninguém, terá o direito de perguntar-se, quando o terror se repetir: “Por que nós?”.         .  




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários são como afagos no ego de qualquer blogueiro e funcionam como incentivo e, às vezes, como reconhecimento. São, portanto muito bem vindos, desde que resvestidos de civilidade e desnudos de ofensas pessoais.
As críticas, mais do que os afagos, são benvindas.