sexta-feira, 6 de novembro de 2015

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jesus izaías

Detalhe da pintura A Santa Ceia, com trabalho de restauro, de Leonardo DaVinci.

Izaías Almada.

O Brasil está refém de grupos hostis à democracia. Grupos corporativos e até mesmo alguns chantagistas no Congresso Nacional. De juízes descompromissados com a justiça, em particular aqueles que ganham as primeiras páginas dos jornais e entrevistas no rádio e na televisão.

Conseguirá o país reagir ou sucumbirá de vez a essa investida conservadora fundamentalista e fora da lei? Como a patética ignorância de alguns vereadores de Campinas sobre citação da filósofa e escritora Simone de Beauvoir a propósito do quesito de redação no último ENEM.

A ser verdadeiro, mesmo que parcialmente, o noticiário do dia a dia da vida política brasileira que se procura destacar, seja em jornais, revistas, emissoras de televisão e de rádio, todos comprometidos com a perspectiva de destruição do atual governo e sua presidente, bem como do ex-presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores, estamos à beira da insanidade. Se é que nela já não estamos metidos.

O paroxismo da irresponsabilidade política da oposição e de bolsões de alguns débeis mentais a serviço de seus próprios interesses corporativos em órgãos policiais, em tribunais de primeira e segunda instância (ou de instância nenhuma), em órgãos do Ministério Público, atinge perigosos indícios de desrespeito ao país e sua Constituição, de desobediência a hierarquias aceitas no convívio sadio, democrático e harmônico da ordem institucional, transformando a democracia numa colcha de retalhos ou em rotos tapetes onde cada um limpa o pé como bem entende.

Não gostaria aqui de apontar o dedo  acusador para o governo e para a presidente Dilma e seus ministros, tornando-os, mesmo que não façam por isso conscientemente ou até com segundas intenções, cúmplices de uma situação que parece se encaminhar para um beco sem saída. Até porque, queiram ou não a oposição e o próprio governo, toda crise tem uma saída, mesmo que não seja aquela que mais nos agrade.

Por qual razão o país tem que viver sob a pressão diária, imposta pela mídia, de que temos um governo corrupto, quando os verdadeiros corruptos têm suas contas bancárias abertas em paraísos fiscais? Por qual razão milhares de brasileiros, acometidos de farisaica honestidade, sonegam milhões e milhões de dólares anualmente? E muitos deles tomados pelo mais vergonhoso caipirismo de mostrarem que têm quatro ou cinco carros das marcas mais caras em suas garagens? Ou que passam férias ou têm negócios em Miami, como se essa cidade servisse de exemplo para qualquer coisa de útil para o ser humano menos idiotizado?

Por qual razão juízes de um poder judiciário que não dá mostras de entender bem o que é a própria justiça, de sequer aplicá-la com equidade, alguns até com suspeitas de estarem envolvidos em negócios  ilícitos, por qual razão – repito – se arvoram em homens e mulheres de moral ilibada a distribuir acusações e sentenças sem provas, impedindo não só o contraditório, mas a sua própria defesa?

Ou ainda pior: usando a chantagem ou instituindo o dedodurismo (agora sutilmente chamado de delação premiada) com o objetivo cada vez mais claro de atingir o coração de um governo e de um partido que, bem ou mal, ajudaram a construir um programa social que tirou milhões de brasileiros da miséria e procurou dar alento e fortalecer uma infraestrutura industrial de suporte nacional com autonomia e independência? E que com isso ajudou, inclusive, a resgatar a dignidade de nossas Forças Armadas, sucateadas na época em que governaram os arautos e incivilizados revoltados que agora querem o impeachment presidencial.

Uma baba viscosa de cinismo e irresponsabilidade escorre pela boca de membros da oposição, apoiados pelos Savonarolas e os Torquemadas do Tietê e alguns candidatos a Mussolinis do Vale do Paraíba e pinheirais paranaenses, todos a escancarar a sua mediocridade, sua incompetência e sua pobreza intelectual, fazendo vir à tona parte daquilo que o país tem de pior.

Se assim continuar e o país democrático, progressista, responsável não reagir, as eleições municipais de 2016 se transformarão num vendaval de disparates, golpes abaixo da cintura e de cenas provavelmente ainda não vistas entre nós.

Não é nada difícil prever tal cenário quando, na lista de candidatos em São Paulo, só para ficarmos num único exemplo, entram pela raia oposicionista os candidatos Datena, Russomano, João Dória, Marta Suplicy e outros menos votados.

Ainda sou daqueles a considerar que o Brasil não merece tal castigo interno e vexame internacional. Ou, a continuar nessa toada irresponsável, talvez mereça. Porque não? Quando se está à beira do abismo é preciso muito cuidado com o próximo passo.

Mas tenha fé, irmão, Jesus pode ajudar…

***


Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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