quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A lição da juventude paulista

Sanguessugado do  Palavras Insurgentes

Elaine Tavares


Paulo Freire já dizia: o mestre é aquele que, de repente, aprende. E é esse homem lindo que me vem à mente ao acompanhar as notícias das escolas ocupadas em São Paulo. Quando a máquina de ideologia – que são os meios de comunicação – transmitem, à exaustão, informações sobre o colapso da educação, sobre a violência nas escolas, alardeando que os jovens não querem nada com nada, vem essa gurizada a mostrar que isso não é verdade.

Eis aí um fato que precisa ser compreendido na sua mais ampla dimensão. Por que raios essa gurizada está ocupando as escolas, contra a proposta de fechamento e reestruturação do governo paulista? O que nos dizem esses guris e gurias, abraçando e protegendo velhos prédios carcomidos pela incompetência governamental? Que estupenda lição oferecem esses jovens aos “especialistas” que arrotam verdades sobre eles?

Marx já nos alertou desde há séculos que é preciso auscultar a realidade e que é da história mesma que brotam as ideias que, então, passam a comandar a vida. Então é hora de olhar a vida. Não existe colapso na educação, o que existe é a deliberada ação de não oferecer aos alunos do primeiro e segundo graus um ensino de qualidade. E como se faz isso? Simples. Começa-se pelo abandono das estruturas. As escolas vão se desmilinguindo, ficando feias, com tudo caindo. Não há cores, não há flores, não há beleza, os ambientes vão se parecendo com prisões. Depois, paga-se mal aos professores e eles precisam se virar nos trinta, dando quinhentas aulas para conseguir uma renda capaz de sustentá-los com um mínimo de dignidade. E o que pode ensinar um professor esgotado, cansado, estressado? Por fim, cria-se um plano de educação que não respeita os anseios das gentes, construído em salas fechadas, por especialistas ou tecnocratas que não conhecem a vida real, abarrotado de preconceitos e verdades cristalizadas.

Então, juntando tudo isso, as escolas vão ficando cada dia mais tristes, parecendo um depósito de gente, um lugar onde o riso é punido, a brincadeira é vista como um problema, e a afetividade passa longe. Não é possível criar um ambiente amoroso - como queria Paulo Freire – se não são dadas as condições materiais para isso.  Lembrem, a realidade vem primeiro que a ideia.

Aí vem o governo paulista  - e não é só ele, em Santa Catarina também – falar em reestruturação, que nada mais é do que adequar o sistema de ensino aos interesses econômicos. Fechar escolas para baixar custos, baseado em números, estatísticas, planilhas. Pouco importa se o fechamento vai tirar o guri e a guria do seu bairro, ou vai desfazer um vínculo afetivo. Dane-se isso. Dane-se Paulo Freire, “aquele comunista”.

Pois quando o estado – baseado na algaravia conservadora de que a juventude não está nem aí para nada – decide mexer nesse já miserável quadro do ensino público, vem a realidade e o confronta. Os jovens pegam suas tralhas, seus cadernos surrados, seus telefones espertos comprados nos camelôs, colchões velhos, seu entusiasmo, seus sonhos, e ocupam a escola. Diante da polícia, das armas, das botinas, dos cassetetes eles colocam seus corpos ainda em formação, frágeis, mas resolutos. Aquele lugar em escombros ainda é o único espaço que eles encontram para minimamente burlar o perverso sistema que só os quer minimamente capazes para fazer girar a máquina.

Os secundas de São Paulo protegem a escola com seus corpos. Pode haver lição maior? Eles dizem não ao projeto de desmonte, ao descaso, ao desamor, ao golpe do capital. Eles apontam um horizonte de belezas. Sabem que aquilo que ali está  - a escola, o programa – ainda não é suficiente, têm consciência do que está por trás do desmonte, do fechamento, dos baixos salários dos professores, e exigem mudanças.

A escola que eles estão defendendo é o espaço do saber, o saber que é sabor, gosto bom. A escola de Simón Rodríguez, de Paulo Freire, de José Martí. A escola que forma para a vida, que promove a solidariedade, o afeto, a cooperação. Uma escola que é real, mas que não existe ainda por conta da habilidade de quem governa. Porque uma escola assim é sementeira de transformação.

O que os governos não sabem é que essa escola que eles plasmam com seus planos de ensino engessados e baixos salários – ineficiente, escura, conservadora – não é o único espaço por onde transita a criança e o adolescente. Eles caminham pelo bairro, andam de ônibus, enfrentam a violência, a miséria, a falta de interesse dos adultos. Eles são capazes de fazer as ligações e compreender o mundo que se mostra cotidianamente. E, assim, podem transcender às marteladas ideológicas da mídia, dos governos, dos adultos empedrados e conservadores.

A pedagogia das ocupações em São Paulo é libertária e transformadora. Essa escola que os secundas estão construindo com seus corpos, suas danças, canções e sorrisos é a escola necessária. Mas, não esperemos que os governos os compreendam e os aceitem. O estado vai combater essa escola e esses jovens até o mais amargo fim, assim como combate e pune os professores que se insurgem contra a lógica bancária e mercantilista da educação.

É uma queda de braço. É a luta de classe.

E, aconteça o que acontecer, essa gurizada já venceu. Porque essa experiência pedagógica vivida, esse fazer o próprio caminho não será esquecido por milhares de jovens. Isso viverá para sempre forjando espírito e corpo para novas batalhas, para além da escola.

 O humano sempre escapa à escravidão. Essa é uma lição que os dominadores parecem não entender. Os quilombos são parte constitutiva do que somos, e seguirão existindo. Terras livres, de negros, de crianças, de mulheres, de índios, de velhos, de todos aqueles que, incapazes de aceitar o garrote, se levantam e andam.


As escolas ocupadas de São Paulo fervem de vida, de luta, de alegria, de amor. Isso é educação!

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