terça-feira, 27 de outubro de 2015

Mídia corrupta: “Se reelegerem Evo Morales, a Bolivia afundará na miséria, na violência e na corrupção”



Segundo o jornalista boliviano Rafael Archondo

“Se reelegerem Evo Morales, a Bolivia afundará na miséria, na violência e na corrupção”

Ollantay Itzamná

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

O jornalista boliviano Rafael Archondo, em uma de suas últimas colunas de opinião, prognostica o eminente colapso da democracia boliviana nos seguintes termos:

“Em 2025, quando o governo de Evo Morales estiver ingressando em seu vigésimo ano, que democracia teremos? Nesse período, haverão escassos meios independentes, se por acaso restar algum, não haverá fundações e ONGs críticas, o Defensor Público será um militante comprovado do MAS, os partidos opositores estarão destruídos  e não existirão sindicatos à margem dos ligados ao oficialismo” [1]. O jornalista da rede ERBOL conclui sua nota advertindo que todo governo que é reeleito termina afundando seu país na miséria, violência e corrupção.

Há dois anos atrás, em outubro de 2012, em The Wall Street Journal e outras cadeias de imprensa corporativa, a colunista Mary Anastasia O`Gradi profetizava o colapso do país sul-americano nos seguintes termos:

“Com a oposição encurralada. Morales transformou a Bolívia em um centro internacional do crime organizado e num refúgio para os terroristas. A Administração de Controle de Drogas dos EUA (DFA) foi expulsa. Informações da ONU mostram que a produção de cocaína está em alta na Bolívia desde o ano de 2006, e há informações não confirmadas de que delinqüentes mexicanos, russos e colombianos tem viajado ao país para tratar de obter uma parte do pastel.”[2].

Em janeiro de 2006, a imprensa internacional fazia gozação racista do “ignorante indiozinho” eleito presidente da Bolívia em gira internacional. A jornalista norte-americana Marcela Sánchez naquela época publicava:

“Morales é tudo o que os ex-presidentes bolivianos não foram. O indígena aymara, de 46 anos de idade criava lhamas quando criança e nunca terminou a escola secundária. No início dos anos 90 se transformou no carismático líder do cocaleiros do Chapare, uma aliança que o colocou contra os governos boliviano e estadunidense, que buscavam erradicar os cultivos. (...)Nem ele, nem ninguém da sua equipe parecem ter pensado em algum momento no protocolo que se espera do representante de uma nação, o que levanta dúvidas sobre sua competência em geral. (...). Não há dúvidas de que o aspecto (imagem corporal) de Morales necessita um pouco de trabalho.

Dessas três notas de “renomados“ analistas, escritas em diferentes épocas, podemos inferir as seguintes conclusões expressas:

Primeira: Evo Morales é índio. Portanto, é ignorante-incapaz-preguiçoso-delinquente/narco-abusivo/déspota-sujo. Incapaz de fazer um bom governo, e inclusive, genética/biológicamente inferior, “necessita de um pouco de trabalho” para melhorar seu aspecto.

Segunda: Circunstancialmente, “podemos permitir” que o índio nos governe, mas jamais permitir que a democracia sirva para que este se “mantenha” no poder, e muito menos ainda que sirva de exemplo a seguir para outros povos. Se o índio ganhar as eleições mais de uma vez, certamente que é com fraude eleitoral.

Terceiro: Se o índio no exercício do poder político não garante nossos privilégios de classe, mas pelo contrários, tenta reverter as relações de poder estabelecidas na sociedade, então temos que desprestigiá-lo/estigmatizá-lo até transformá-lo em uma ameaça/perigo para a nação. Em seguida, descarregar toda a artilharia midiática sobre sua “imagem demonizada” até destruí-lo, e evitar que seus “seguidores” o defendam.

Dom Evo Morales, nestes quase 10 anos de governo contínuo, conseguiu trazer à tona essa Bolívia que se desintegrava social e politicamente no início do século.

As conquistas econômicas, sociais e culturais na Bolívia evidenciam que Morales não é nem ignorante nem incapaz. É o único presidente em vida que se submete à revocatória de seu mandato. É um dos presidentes que mais trabalha, e ganha um salário menor que o de todos os presidentes das Américas e Europa, menor ainda que o que recebem os prefeitos municipais da Guatemala. Mas isso nunca será suficiente para liberá-lo das fixações atávicas das quais os “evofóbicos” padecem. 

Ouvi e ouço acadêmicos/conferencistas (“progressistas” e conservadores), em eventos acadêmicos internacionais em Madri, Washington, Guatemala, Medellín, Oaxaca, etc., criticando o “perverso e anti-democrático” governo de Evo Morales. Um professor da Universidade Nacional de San Simón (Cochabamba), em um congresso da LASA (Latin American Studies Association), diante da minha  pergunta de porquê tanta bronca contra o governo de Morales, me disse: “O que acontece é que Evo está tirando de nós, classe média, para dar aos setores populares”. E diante da pergunta de que se Evo é autoritário e ditador, e por que as pessoas continuam votando nele em cada eleição?, a resposta quase sempre é: “O que acontece é que na Bolívia as pessoas ainda são ignorantes e famintas, e vendem seus votos por um pouco  de comida”.

 
Há uma década, os governos bolivianos competiam na comunidade internacional de chapéu na mão com seus pares centro-americanos,  para pagar os salários e aposentadorias a seus funcionários públicos, enquanto o país permanecia lânguido em intermináveis bloqueios e conflitos sociais. Naquela época, a Bolívia rivalizava com a Guatemala e Honduras no penúltimo lugar nos índices de desenvolvimento humano, e em encabeçar no índice de corrupção pública a nível internacional. Se não fosse pelo inédito processo de mudanças empreendido, a Bolívia seria, neste momento, a Honduras ou a Guatemala da América do Sul.     

É verdade que a Bolívia ainda não pôde desmontar toda a arquitetura simbólica e material do colonialismo de 200 anos de república; muito menos abandonar a hegemônica ilusão da modernidade capitalista, concretizando (como se quisesse) a proposta ancestral do Bem Viver, por que “criar” ferramentas próprias para desmontar o hegemônico leva seu tempo, e outro tanto para construir o “novo” com essas ferramentas.

Contudo, daí que jornalistas/analistas nos digam que a “Bolívia se encontra sob a tirania de Morales, e se ele continuar sendo reeleito a democracia desaparecerá da Bolívia”, soa como a ameaça prepotente de Manuel Rocha (então embaixador americano na Bolívia), quando em dezembro de 2005, o país se preparava para eleger Evo Morales como presidente.


Notas

[1] Consultar, www.erbol.com.bo/opinion/cara_o_cruz/obiang_mugabe_evo

[2] Consultar, http://lat.wsj.com/articles/SB10001424052702303471004579162272803295980

[3] Consultar, http://archivo.elsalvador.com/noticias/2006/01/13/editorial/edi2.asp

Fonte: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=204833&titular=%93si-reeligen-a-evo-morales-bolivia-se-hundir%E1-en-la-miseria-violencia-y-corrupci%F3n%94-



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